quinta-feira, 1 de junho de 2017

A MALDADE JÁ VIMOS DEMAIS

1.    Sympathy for the devil

Não me interessa ser um idiota da objetividade. Quando leio Fogo Morto, estou no sertão, ressentido, batendo sola, e sou Mestre José Amaro; ou continuo no sertão, sendo atormentado pelos moleques: papa-figo papa-figo! E sou Capitão Vitorino Carneiro da Cunha. A literatura é algo muito sério, ou a engolimos e ela se torna parte de nós, ou é nada. Desde os dezesseis anos, tanto para o bem, quanto para o mal, sou Heathcliff: sei ser estoico e aguentar pancada, sei o que é o amor e a humilhação. Estou também atrás da porta quando Cathy diz: “se eu e Heathcliff nos casássemos, seríamos uns pobretões. Enquanto se eu me casar com Linton, poderei ajudar Heathcliff...” [1]. Sou eu quem conversa com Nelly:
- Nelly, mesmo que eu o derrubasse vinte vezes, isso não o tornaria menos bonito nem a mim menos feio. Como eu queria ter cabelo louro e pele clara, vestir-me e comportar-me bem e ter uma chance de vir a ser tão rico quanto ele!
[...]
Você deve aprender a desfazer essas rugas, a erguer abertamente essas pálpebras e transformar os demônios em anjos confiantes e inocentes [...] Não assuma a expressão de um cão danado, que só espera do mundo pontapés, embora odeie o mundo e os pontapés pelo que eles lhe fazem sofrer."[2]

Como diz Raul Seixas, em Segredo da luz: o ódio não é o real, é a ausência do amor. E, embora Eu-Heathcliff tenha encontrado algum amor pela acolhida do Sr. Earnshaw, o velho veio a falecer cedo, deixando-me só nas mãos de Hindley. E, embora tenha amado Catherine, embora tenha sido Catherine, fui traído - todo amor tem seu calcanhar de Aquiles - na noite em que ela foi mordida no pé pelo cão dos Linton e, quando voltou, cinco semanas depois, já era outra. Tinha esquecido a natureza, nossos campos em Yorkshire. Ela, Catherine, tinha sido domesticada pela cultura, enquanto eu, como um cão, encolhia-me sujo e descabelado, selvagem, natureza, num canto da casa. E ela riu, ó como riu! Se o ódio não é o real, é a ausência do amor, então sou essa ausência – menino achado sem idioma, sem pai, sem mãe. E, no entanto, como doeu... Como me culpei, como me arrependi, na noite em que o intrometido Sr. Lockwood viu teu fantasma, Cathy, e nada pude fazer além de perder o controle e mergulhar no desespero. E ainda dizem por aí que não tenho coração: - Entre! Entre! solucei “- Cathy, entre. Oh venha... venha... uma vez mais! Oh, minha adorada! Escute-me agora, Catherine, finalmente!”[3] – E... Nada. Só silêncio e brancura!
Sempre acreditei que o dentro é fora e o fora é dentro. Subjetivo e objetivo são invenções metafísicas, apenas. Como o Sr. Lockwood diz no primeiro capítulo do romance: “A propriedade do Sr. Heathcliff chama-se, adequadamente, Wuthering Heights, sendo wuthering um significativo adjetivo provinciano para designar o tumulto atmosférico ao qual ela está sujeita em tempo tempestuoso.”[4] Neste monodiálogo que estabeleço. Quero dizer o que aprendi sobre o abandono e a vingança. Quero fazer diferente desta vez.



2   2. Tornar-se vingança
            
A primeira questão que quero colocar é: qual é o assunto do livro O morro dos ventos uivantes? Trata-se da mais poderosa história de amor já escrita no Ocidente? É um tratado sobre a vingança? Pode ser lido como um estudo das diferenças entre as classes sociais? O assunto é o mal, como percebeu Bataille? Acredito que o livro pode ser cada uma destas coisas, ou todas elas ao mesmo tempo. Cada narrativa fala de um modo distinto para diferentes leitores. Aqui pretendo tratar apenas da vingança, embora, para tanto, tenha de recorrer a acordes incidentais como, por exemplo, a ânsia de reconhecimento – justificada - por parte de Heathcliff.
No enredo de O morro dos ventos uivantes, o que impede a união entre Cathy e o herói cigano, muito mais que a questão entre natureza e cultura[5], é o abismo social que, no fundo, separam os dois irmãos-amantes. Na noite em que Heathcliff vai embora, ele ouve Cathy dizer a Nelly:

- Separação! Abandono! – exclamou ela, com um acento de indignação. – Quem nos vai separar, diga? Quem ousará? Enquanto eu viver, ninguém, Ellen! Todos os Liton deste mundo poderão morrer, antes que eu consinta em esquecer Heathcliff! Não é isso o que eu pretendo...  não é isso o que eu quero dizer! Jamais me casaria com Linton, se um tal preço me fosse exigido! Heathcliff será para mim o que sempre foi, toda a minha vida. Edgar terá de colocar de lado a antipatia que lhe tem e tolerá-lo, ao menos. Ele o fará, quando perceber o que eu sinto por ele. Nelly, vejo que você me considera uma terrível egoísta: mas nunca lhe passou pela cabeça que, se eu e Heathcliff nos casássemos, seríamos uns pobretões? Enquanto se eu me casar com Linton, poderei ajudar Heathcliff a subir e coloca-lo fora do domínio do meu irmão.[6]

Palavras duras de se ouvir, principalmente para um caráter orgulhoso como o do nosso herói. Heathcliff já se ressentia por sua orfandade, sua origem cigana. Queria ser reconhecido como um igual, um Earnshaw; mas, ao ouvir tais palavras, algo deve ter se quebrado dentro dele. A inocência morrera de vez. Nesta noite, ele partirá por três anos e, quando voltar, há de exigir duas coisas: reconhecimento e vingança. Sua ira não encontrará limites.
Segundo Peter Sloterdijk, as energias ligadas à ira, para os gregos thymós, são aceitas tanto por Platão, quanto por Aristóteles. Para o primeiro, a ira encontraria lugar na cidade dos filósofos, “uma vez que a polis governada racionalmente também precisa de militares que figuram aqui como a classe dos “guardiões”.”[7] Para o segundo, a ira legítima teria ouvidos à razão, seria apropriada para combater as injustiças, mas apenas como aliada, tendo a razão por carro-chefe. O problema com o protagonista de O morro dos ventos uivantes é que a ira se torna o comandante do navio que tem por destino apenas a gana de reconhecimento e a vingança. Tudo o mais será secundário, acessório. 
Heathcliff é um homem selvagem, orgulhoso, duro; mas, no livro, encontramos poucos casos de violência física. Sua violência e força são sempre tratadas de maneira espiritual. O que ele almeja é estar à altura. Como mostramos num dos fragmentos anteriores, ele confessa a Nelly que, mesmo derrubando Linton vinte vezes, por ser mais forte e enérgico, ainda assim “isso não o tornaria [Linton] menos bonito nem a mim menos feio. Como eu queria ter cabelo louro e pele clara, vestir-me e comportar-me bem e ter uma chance de vir a ser tão rico quanto ele!”[8] A thymós grega tratada de modo civil transforma-se em ânsia por reconhecimento. Ainda conforme Sloterdijk (2012, p. 38 ):

Uma vez que thymós condicionado de maneira civil é a sede psicológica da aspiração ao reconhecimento apresentada por Hegel, torna-se compreensível porque o reconhecimento não concedido por outros homens relevantes causa ira. Quem exige reconhecimento de um outro determinado submete este outro a um teste moral. Se o interpelado se recusa a passar por essa prova, precisa se confrontar com a ira daquele que apresenta a exigência, já que este se sente desconsiderado. A exaltação irada acontece inicialmente quando o reconhecimento do outro me é subtraído (algo em razão do que surge a ira voltada para fora). No entanto, ela também se dá quando nego reconhecimento a mim mesmo sob a luz de minhas ideias de valor.

O fragmento parece ser escrito sobre o próprio Heathcliff. A ânsia pelo reconhecimento de outros homens, os Linton, o próprio Hindley Earnshaw, a dor de ser preterido por pena... Tudo isso desperta a ira. O menino cigano exige ser reconhecido como um igual, mas quando os interpelados se recusam a passar por essa prova, precisarão se confrontar com a ira daquele que apresentou a exigência. “Em ofensas que adoecem, a vingança é certamente a melhor terapia”[9]. Daí para a frente, Heathcliff já não será um ser humano, mas um destino, UMA VINGANÇA. Mesmo que essa vingança represente sua própria ruína. Por três anos ele desaparecerá. Quando voltar, será um cavalheiro abastado, mas cada dia mais avarento. Fugirá, para desposar, sem o menor traço de amor, Isabela, a irmã de Edgar Linton e com ela terá um filho. Lançará mão sobre todos os bens de Hindley, então um beberrão e jogador compulsivo. Quando a primeira Cathy morrer, logo depois de dar à luz a outra Cathy, sua filha, a ira de Heathcliff crescerá em proporções descomunais. Ele casará seu filho e a prima, Cathy, filha de Edgar Linton e a Catherine-mãe. No fim das contas, Heathcliff herdará tanto o morro dos ventos uivantes, quanto a residência que pertencia aos Linton. Pensando ter realizado por completo sua vingança, Heathcliff perceberá, entretanto, nos últimos descendentes das famílias Linton e Earnshaw o olhar de seus antepassados e se lembrará do amor entre ele e Cathy. Com sua vingança completa – o ódio não é o real é a ausência de amor - Heathcliff morrerá louco e só. Como último desejo, será enterrado junto ao seu grande amor, Catherine. Daí por diante, muitos jurarão ver sempre um casal vagando pelas charnecas do morro.

3   3. Heathcliff e eu: a vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena[10]


Corria o último ano da década de 1980. Dormíamos, meu irmão mais velho e eu, no mesmo beliche, eu embaixo, ele em cima. Ele era três anos mais velho que eu. Hoje isso não é muito; mas, quando um tem dez e outro treze anos; um já é homem e o outro, menino. Durante a noite, costumávamos conversar antes de o sono chegar. Tínhamos um rádio relógio com os números vermelhos digitais que colocávamos para despertar às seis e vinte da manhã, bem a tempo de nos aprontarmos para a escola. Antes de dormirmos, entretanto, deixávamos o rádio ligado, sintonizado na estação Antena 1 FM, que só tocava músicas calmas, clássicos românticos na maioria das vezes. Desde pequeno, nunca soube o que fazer das minhas emoções. Toda vez que tocava uma música estranha, meio fantasmagórica, cantada por uma mulher de voz aguda, eu chorava[11]. Não conseguia me segurar. Na parte de cima do beliche, meu irmão perguntava:
- O que é que tu tem, Dan?
- Nada não – respondia. Meninos não choram. Que havia de errado comigo? Será que era um mariquinha?
Não, estava era apaixonado. Não pela professora, nem pela namorada do meu tio. Embora também tenha me apaixonado por elas por um curto período. Eu me apaixonava muito fácil naquela época. Meu coração é um balde despejado. Eu amava R., 16 anos, irmã mais velha do meu melhor amigo W. que, naquela época, tinha onze. Ela era mais que linda! A descrição de Catherine Earnshaw cairia como uma luva. Todos os dias, quando chegava da escola, lavava a louça, varria a casa, nossos pais trabalhavam fora, e partia para a casa de R. e W.. Lá, passava o resto da tarde, jogando conversa fora, ouvindo música, brincando com a cachorra deles. W. tinha outras quatro irmãs mais velhas; todas elas gostavam de mim. Abraçavam-me, cheiravam-me, encostavam os seios no meu corpo pré-adolescente. Diziam que eu era igualzinho ao irmão delas. Como eu era um ano mais novo que ele, era considerado o caçula da família. Já disse, todas eram lindas e gostavam de mim, como menino e não como homem. Também, eu era menino mesmo, não tinha um pentelho sequer no saco. De minha parte, só amava R.. Cada dia mais, mais, mais, mais, mais, mais, ad infinitum... E, durante a noite, a programação se repetia na rádio e eu ouvia aquela canção que me criava bolhas na alma. 
Um dia, tomei coragem e confessei a W. tudo o que sentia por sua irmã. Pensei que ele fosse ficar bravo... Considerar uma traição... Uma pilantragem... Mas, que nada, ele ficou foi feliz. Bolamos juntos um plano para eu me declarar a R.. Seria naquela tarde mesmo. Dois malucos. Ela estava passando roupa na sala, o rádio ligado:
- R., o Dan tem uma coisa pra te dizer.
Ela sorriu, as sobrancelhas levantadas.
- Pois diga.
Tentei dizer algo do que sentia, aquilo cujo nome desconhecia por completo, mas cadê voz? Por três ou quatro vezes abri a boca, mas nada saía. Já estava até gostando daquela sensação: o coração disparado, sensação que mais tarde encontraria na cocaína, quando consegui dizer:
- Eu gosto de você.
Ela riu, largou o ferro de passar e me abraçou. Senti a humilhação no mesmo momento. 
- Também gosto de você, mas é como um irmãozinho.
Fui embora chorando. W. atrás gritando meu nome e advertindo a irmã:
- Tá vendo o que você fez, tá vendo o que você fez!
Dias mais tarde, sentado com outros meninos nos degraus da Igreja da vila, batendo papo antes de a noite cair e termos de entrar para casa, vi R. passando na garupa de uma motocicleta vermelha. 
Passaram-se sete anos. W. e eu continuamos amigos, mas nunca mais entrei na casa deles. Eu virei gótico, comecei a ouvir bandas como The Cure, The Smiths, Bauhaus, Sisters of Mercy, Ultravox, Cocteau Twins e li, reli, tresli, o livro que acompanharia pelo resto da vida: O morro dos ventos uivantes.
Num sábado à noite, W. eu e mais um pessoal combinamos de ir à cachoeira, no dia seguinte. Eu iria na garupa do meu amigo W., afinal ele tinha comprado uma moto e eu era menor de idade. Nesta noite, bebi demais e, dia seguinte, não consegui acordar. Eram seis horas da tarde, mais ou menos, domingo, quando chegou a notícia:
W. estava morto.
Ele era um menino bonito, os mesmos olhos da irmã. Lá na cachoeira, umas meninas deram em cima dele. Os rapazes que estavam com elas não gostaram. Discutiram. Ele montou na moto e tentou ir embora, mas antes de partir, levou um tiro na nuca. Eu devia estar lá, na garupa, e receber aquele tiro, mas escapara graças à bebida. Depois dizem que bebida só traz desgraça.
Dia seguinte, no velório, R. veio chorando me abraçar. Eu tinha lido O morro dos ventos uivantes. Dei dois passos para trás e ofereci apenas minha mão. Eu-Heathcliff. Ela apertou minha mão e foi chorar abraçada às irmãs. Agora eu não chorava mais. Fiquei sim, com a moto de W.. O pai dele não suportava olhar para ela. Esta moto, entretanto, jamais funcionou.
Como no romance, muitos anos mais se passaram, feito sopro. Casei, estudei, trabalhei, li, ouvi, escrevi. Um dia, estava trabalhando pela primeira vez como mesário nas eleições e quem aparece para votar justo na minha sessão?
Isso mesmo: R.
Tinha agora mais de quarenta anos, era mãe, mas continuava bonita. Entregou o título de eleitor nas minhas mãos e sorriu, sem saber muito bem como se comportar. Sem saber se quem estava do outro lado era o menino que brincava de ser seu irmão mais novo, ou o jovem duro, misto de Daniel e Heathcliff. Peguei o documento da mão dela, sorri, abri os braços e ofereci meu abraço. Ela aceitou. Eu não queria terminar mal como o menino cigano do livro. Os olhos estalados, como que cheios de cocaína. A vida é breve e eu sinto sempre tanta dor; talvez por isto nunca tenha conseguido deixar de beber de fato. A maldade, irmãos e irmãs, já vimos demais. O abraço tem mais poder que a vingança.


Dados bibliográficos

BRONTË, Emily. O morro dos ventos uivantes. Trad. Vera Pedroso. São Paulo: Companhia Editora brasileira, 1971.
BRONTË, Emily. Wuthering Heights. London: HarperCollins Publishers, 2010.
SLOTERDIJK, Peter. Ira e tempo: ensaio político-psicológico. Trad. Marco Casanova. São Paulo: Estação liberdade, 2012.



[1] BRONTË, 1971, p. 99
[2] Idem, Ibidem, p. 73
[3] Idem, Ibidem, p. 44
[4] Idem, Ibidem, p. 20
[5] Embora ambos no início do romance fossem crianças selvagens, o rompimento se dá quando Cathy volta “civilizada” da residência dos Linton e Heathcliff se encontra ainda mais selvagem.
[6] Idem, Ibidem, p. 99
[7] SLOTERDIJK, 2012, p. 37
[8] BRONTË, 1971, p. 73
[9] SLOTERDIJK, 2012, p. 73
[10] Frase proferida pelo Sr. Madruga, personagem de Ramón Valdés na série Chaves.
[11] Na época eu não sabia, mas depois descobri que se tratava de Kate Bush cantando Wuthering Heights.

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