segunda-feira, 12 de junho de 2017

A DOCE MORTE DE MILTINHO

Pense num cabra namorador! Agora multiplique por nove e some oitenta e três. Esse aí era Miltinho. Quando o conheci, há vinte e tantos anos, ele tinha pouco mais de sessenta e estava no quinto casamento, aceitando currículos para o sexto.  Onze filhos... Vai vendo.
              - Bicho, que vantagem tem um homem nesse mundo sem mulher? Nenhuma, a não ser poder mijar de porta aberta. Mas também a gente não tem de passar a vida toda com a mesma. Esfriou o café, é melhor fazer outro que requentar.
                Miltinho começou cedo a vida sexual. Com seis anos, no Nordeste, já traçava tudo que era bicho: de vaca a pardal. Com dez já frequentava a zona, onde mais tarde se apresentava tocando flauta, violão e berimbau.
                Era sujeito galanteador, Miltinho. Gostava de dar presente às moças.
- Vinha passando ali no Brás, quando vi essa tiara e me lembrei de você. Tome, Rosinha, é sua... Não há boniteza que não fique ainda mais bonita com um adorno de tão fina elegância.
De vez em quando, na maioria das vezes quando o dinheiro sumia, ele mesmo fazia o presente - era artista -, o qual podia ser uma pulseira, um poema, um pingente de prata, uma balada para violão... Não importava o tamanho da crise, tinha sempre alguma coisa em caixinha enfeitada para presentear uma Dona qualquer.
Usava calças xadrez, sandália de couro, cabelo grande; meio boiadeiro, meio hippie, outro tanto beatnik. Já disse que era artista! E como todo artista era sensível. Não entendia porque, com o tempo, as mulheres tomavam raiva dele.
- Olhe, Dani, veja você se sou um cabra ruim – não era –, ajudo quem posso e quem não posso, canto, bebo, brinco, não guardo mágoa de ninguém, mas tenho esse defeito de gostar demais de mulher. Quem nesse mundo é perfeito, némemo?  No final, elas sempre jogam as coisas na minha cabeça... Minhas roupas no quintal... Uma tristeza... Quando partem, não vão embora sem antes quebrar a casa inteira. Diz aí tem culpa eu?
Tinha não; mas eu, precavido mineiro que sou, sempre que ia visitá-lo, por via das dúvidas, deixava a mulher em casa. O caboclo tinha fala aveludada.

Ontem Miltinho morreu. Morreu Miltinho, coitado... Tão sem-vergonha, tão safado, tão moço, não tinha nem noventa anos. Morreu como queria, com um sorriso nos lábios. Em pleno dia dos namorados, foi flagrado por um marido indignado dentro do guarda-roupa da família. Levou cinco tiros. Já disse que não guardava mágoa. Quem o viu no caixão podia jurar que sorria. Viveu bastante e morreu fazendo o que gostava, o danado. Tinha mais de sorrir mesmo. Vá em paz, meu bom Miltinho boiadeiro, mas deixe pra trás o viagra e veja se respeita as santas no céu, visse?! 

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