quarta-feira, 10 de maio de 2017

TAGARELICES

Ninguém escapa do berço onde nasce, porque o berço é a pessoa. O ninho faz o pássaro e, seja por negação ou por afirmação, o lugar onde nascemos é o que vai definir que tipo de homem ou mulher nos tornaremos. Nietzsche passou a vida negando o cristianismo por ser filho de um pastor. Definiu-se pela recusa, pelo negativo. Não entendo como as pessoas podem gostar de Dostoiévski ou Tarkovsky e continuarem a ser materialistas, cartógrafos: pura afetação, busca de status intelectual. Esses autores são profundamente moralistas, não no sentido pejorativo que a palavra tomou, mas no sentido de que dizem verdades que não querem ser ouvidas. Verdades que se tornaram relativas para o homem contemporâneo e, no entanto, são mais estudados pelos aspectos formais de sua obra, como se se pudesse separar forma de conteúdo. O centro de suas obras é o sacrifício de um ser humano pelo outro, nada mais fora de moda: você já imaginou Brad Pitt se sacrificando por Angelina Jolie? Trata-se, para tais autores, do amor como encontramos em Coríntios e isso é incompatível com o modo como o amor é tratado no mundo contemporâneo. Pensemos em Sônia e na Lisa de Dostoiévski, na mulher do Stalker, nas mulheres bergmanianas. Hoje, amar é uma conveniência, lacinhos de fita vermelha e não correntes inquebrantáveis. Vem depois da carreira, da malhação, do jogo, da novela. De certo modo, esses autores são feministas, no sentido mais profundo; no sentido em que o cuidado com o outro é mais importante que a ânsia de poder. A força nascendo da fragilidade. Acho que o feminismo se perde um pouco na luta apenas por representatividade política - que é importantíssima - e não pela revolução em si que seria o trato entre seres humanos de um modo mais feminino. Já vi feministas reivindicando a desmistificação da função materna, como se isso fosse apenas uma construção social. No final de A paixão de Anna, do Bergman, depois de uma tremenda briga, depois de ofensas físicas e psicológicas e diante do silêncio da protagonista, o agressor, o marido, grita: Fale alguma coisa! E Anna responde: vim para lhe pedir perdão! E essa sentença simples expõe ao homem toda sua estupidez, desmonta-o. E que é Heathcliff se não um coitado? Tanto Dostoiévski, quanto Tarkóvsky situam o centro da vida em Deus, mas também podemos prescindir de Deus, se assim pretendermos. Para Schopenhauer, Nietzsche e Cioran, podemos prescindir de Deus e, ainda assim, nos interessar pela santidade. O termo übermensch foi mencionado pela primeira vez ligado à santidade. E, de fato, pouco importa se Deus existe ou não, podemos tomá-lo como potência do falso, como motor, força afirmativa da vida, do cuidado e do amor ao outro. É isso Deus na obra de Emerson. Em A delicadeza dos hipopótamos, o narrador afirma: o amor é Deus e não o contrário. Creio nisso. O que distingue o ser humano dos demais animais não é a razão, como a tradição ocidental consagrou, mas a capacidade de sacrifício, de criar laços, de se tornar responsável como disse a raposa ao pequeno príncipe. Volto a repetir, o ser humano é o único animal capaz de sentir prazer em fazer sofrer seu semelhante, mas também é o único animal capaz de dar a vida para salvar a vida de alguém completamente desconhecido.

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