quinta-feira, 25 de maio de 2017

Segunda-feira é um dia ruim


Há dias que deveriam amanhecer depois das onze da noite, mas o sol nos acorda, o caminhão do gás passa com sua música de torturador alemão, os pedreiros batucam nas casas ao lado. Na periferia, as casas nunca terminam. Há, entretanto, coisas urgentes requisitando atenção, a barriga, por exemplo. Sempre é preciso pensar no almoço no Bom Prato, enquanto outros pensam em croissant em Paris. Cinquenta anos, a cara feia, o nariz cheio de cravos pretos, dez quilos de sobrepeso e essa vontade de escrever só para ofender a tudo e a todos. Tudo o que podia resultar em amor virou ódio, ressentimento, incompreensão. Punir todos os bons sentimentos. Esse é meu lema. Os filantropos são uns chatos; essa esquerda de rede social – misto de revolucionários do Jardim da Infância e burros cultos - uma chatice. Cá entre nós, toda essa turma são as testemunhas de Jeová do materialismo. Ostentam duas ambições: voyage a Paris e salvar uns faveladinhos à distância. A maquiagem de consciência é a estética de nosso tempo. Ou eles diriam ética? E todos reclamam a falta de oportunidade, eu inclusive. As mulheres não têm oportunidade, os gays também não, os negros muito menos. E, tirando o Dória, os Batistas e mais meia dúzia, quem é que tem? Você tem de fazer a oportunidade, tacar a pedra na vidraça, botar pra fudê e, claro que um pouquinho de talento, também ajuda. Muitas vezes não há uma conspiração para derrubar quem quer que seja, só falta de talento mesmo.
          Como perceberam, falo demais, esse aí é meu mal, mas pobre não é assim mesmo? Barraqueiro, boca suja, escandaloso, só os pobres dos intelectuais é que tomam café com o dedo mindinho levantado. Lembro vagamente de tudo o que aconteceu ontem. Coisa besta, não se pode mais elogiar uma dama que tudo é mal entendido, as mulheres se sentem vilipendiadas, ofendidas:
- Moça, você é tão bela que me dá até vontade de peidar – falei, assim, na lata. Queria expressar minhas entranhas, meus sentimentos mais carnais, mortais e profundos. Amor de corpo, entendem? Nada de almas. Só aquela coisa dos corpos de que fala Bandeira. E aí me veio a metáfora do peido. Dizem que quem tem cu tem medo. E tem medo porque o cu é a prova de que morremos. Tudo o que caga morre. Almas e anjos não têm cu. Mandar alguém tomar no cu é mandar tomar na morte.
Confusão generalizada, ali, no Bar da Loira, não entenderam meus insights filosóficos, meu sartori, minha epifania.  Alguém sacou um trezoitão, o  namorado da dama, acho... Os botões da minha camisa caíram pelo chão... Depois umas cadeiras passaram voando e um tremendo empurra-empurra começou: mata, não mata... Mata, não mata. Vamos debater, comigo é nas ideias! - falei. Ideia de cu é rola, maluco. Como são emocionantes os relacionamentos apimentados! No final, estávamos todos juntos, comendo uns ovinhos de codorna e tomando catuaba.
Isso tudo foi ontem à noite, domingo. Se gostasse do Faustão, teria escapado da confusão; mas minhas segundas-feiras começam no domingo depois das seis, e  preciso esquecer um pouco, como todo mundo. Vasculho agora os bolsos e não encontro moeda. A fome aperta. Vou ao banheiro. Três dias de cachaçal, torresmo e ovo cozido: só os melhores ovos, aqueles de casca rocha. Dá uma vontade de beijar uma dama de gosto requintado, dessas acostumadas a licor de cassis e wrap de alcachofra, mais assim, pelo aroma delas, que pelo sabor do beijo. Saio do banheiro. Fezes nada saudáveis, mas também não tenho qualquer vontade de prolongar a vida.
Eu gostaria de passar a manhã de segunda-feira refletindo sobre a diferença ontológica entre o ser e o ente, mas tenho questões mais urgentes para pensar: um real para o Bom Prato. Como um real pode fazer tanta falta a um artista, um filósofo? Ó Diógenes, será que em algum lugar em seu barril haveria um real?
É uma manhã quente. Segunda-feira. Sinto um pouco de pavor porque não sei se o cara ainda quer me matar. As havaianas suam, gosmentas de sujeira, escorregando nos pés. E ainda tem o Bar da Gorda e o Bar da Loira... Tenho de passar na frente dos dois. Por três vezes já fui parar na lousa dos caloteiros: uma vergonha. Tentei pagar com um dos meus livros, mas a Gorda jogou o livro do outro lado da rua. Depois falam do romantismo feminino. Por aqui ninguém acredita que sou um artista. Isto me deixa muito magoado. Pensam que sou apenas um vagabundo. Na Grécia, Alexandre, o Grande, foi visitar Diógenes e extraiu daí valiosa lição. No Jardim Robru é diferente.
O jeito é esperar um caminhão. A Gorda e a Loira conversam varrendo a calçada... E o pavor crescendo.
Fico escondido atrás de um poste, esperando um caminhão descer a rua. Essa rua é mais movimentada que o porto de Santos, mas quando a gente precisa, não passa um caminhão, um ônibus, nada. Aparece uma Kombi. Espero ela chegar bem perto e acelero a corrida pra ninguém me ver nos bares comprometedores. Como seria bom sentar à beira do Sena e degustar um cappuccino, comentando a situação política du Brésil!
A quitanda do Seo Mané ainda está fechada. Ô sorte! Subo na mesa de sinuca e me aproprio das lâmpadas. Ele nunca me vendeu fiado mesmo. Será que Andrei Tarkóvski passou por situações semelhantes na Rússia? Todos os artistas pobres do mundo tinham pais formados em cursos superiores lá pelos anos vinte. Meus avós sequer sabiam ler. Por que será que todo mundo gosta de dizer que foi pobre? Será que enxergam alguma espécie de santidade na pobreza? Sim, sofremos muito para pagar nossa cobertura nos Jardins! Na Vieira Souto! Foi um tempo difícil. Como não?
Enfim, caminho uns três quilômetros para vender as lâmpadas. Para tudo neste mundo precisamos contar com uma certa logística. Tento pechinchar um real e uma cachaça. Sem chance. Ou uma coisa ou outra, diz o dono do bar. Ó dúvida cruel, alimentar a alma ou o corpo? Se minhas fezes estivessem com um aspecto melhorzinho... Teria cuidado da alma, mas aquela coisa esverdeada, com pelotas de sangue deixara-me preocupado.
Vou para a frente do Bom Prato, pego a fila no começo. A sorte está mudando. Como. O estômago estufa. Chupo uma laranja. Saí. Tudo começa a clarear. Não precisamos de muito. Estava tudo indo tão bem que fiquei com medo de que alguém me parasse na rua e oferecesse um emprego. Graças ao bom Deus, tal medo se mostrou infundado. Quando me sentei num banco da praça para esperar a digestão, um cachorro vesgo encostou. Cachorros e gatos sempre colam em mim, mas, assim como as mulheres, eles também não ficam por muito tempo. Olhei o cachorro. Era um tranqueira pior que eu. Acho que andava bebendo por muito mais tempo.
- Que acha de batalharmos mais um real para uma cachacinha mais tarde? – Perguntei.
- Au, au – ele disse.
E saímos procurando umas lâmpadas dando sopa.


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