terça-feira, 30 de maio de 2017

ENTRE A CALMA ORIENTAL E O DESESPERO CONTEMPORÂNEO: ESPASMOS NA ROTINA


Sou um provocador e sei que, às vezes, cometo excessos. Dou mancadas, peço desculpas. Às vezes são aceitas, outras não. É a vida. Todo mundo faz merda e os meio-doidos o fazem ainda mais; entretanto, a normalidade é muito chata. Como disse Deleuze, a loucura de um indivíduo é o seu charme. E a minha loucura é o exagero. Se amo, viro tapete para a pessoa passar por cima. Se odeio, emito raios cósmicos vermelhos homicidas pelos olhos. Exagerado, jogado aos seus pés...
Outro dia, cometi novo exagero. Disse que não gostava de haikus (alguns preferem a forma aportuguesada haicais). Provocação, é claro. Não gosto de haikus ruins, assim como não gosto de romances ruins. O fato é que é muito mais difícil achar um haiku bom que um bom romance. Quanto mais condensada a forma, menos espaço o artista tem pra mostrar sua cosmovisão, seu traço, seu pathos, sua originalidade, aquilo que só ele tem de único e... BOM. Ao contrário do que grande parte das pessoas pensa, quanto menos palavras se usam, mais difícil é tornar-se um bom poeta.
Estas reflexões vieram-me à mente depois da primeira leitura de Espasmos na rotina, da Rosana Banharoli, publicado recentemente pela Editora Patuá. Falei muito de haikus, mas a escritora não escreve exatamente haikus, às vezes até escreve, mas boa parte de seus poemas lembram muito a cultura oriental. Mesmo quando não se tratam de haikus, a forma breve está sempre presente e se, por um lado, encontramos temas ligados à natureza: as “flores de cerejeiras”, a “algazarra das maritacas”, a água taoísta sempre presente, butô, Bashô, “espadas de prata”... Por outro lado, há, em alguns poemas, um traço violento, agressivo, rápido NÃO como a calma de um haiku oriental, mas como um twitt contemporâneo, ou como uma notícia ruim no telegrama, tipo: fulano morreu pt - “A morte me estupra pela boca”:
“uma louça quebrada
uma memória partida.”
Trata-se de um livro que se condensa tanto pela contemplação do que seria o banal pleno, o rotineiro como abertura para o transcendental, quanto pela aceleração moderna: crua e violenta. Em ambos os casos, a forma é breve, mas por razões diametralmente opostas. 
Você pode ler ESPASMOS NA ROTINA em pouco tempo. Isso não quer dizer que você vai absorvê-lo inteiro nesta primeira leitura. Como bombons finos, é bom sorver esses poemas aos poucos, deixando-os derreter na língua, grudados ao céu da boca, pois à cada leitura:
o recomeço
será sempre
um degrau
com musgo
na garganta.

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