terça-feira, 30 de maio de 2017

ANTI-VEGANO OU DA INEXISTÊNCIA DO FORA


Não há imagem mais triste do que encontrar um caminhão de frangos, porcos ou bois rumando para o abatedouro. Ficamos enternecidos. Muitos de nós nos tornamos veganos ou vegetarianos, o que acho louvável; mas, talvez, ingênuo. Contudo, admiro qualquer um que queira fazer algo com o intuito de tornar o sofrimento na Terra, de qualquer ser senciente, menor. Nas antípodas de Pondé, não sou contra um mundo melhor. A questão é que os bichos não sabem o destino que os aguarda e, talvez, soframos por eles ao conhecer um destino que eles desconhecem.
Outro dia um amigo, ou ex-amigo, agora já não sei mais, ao falarmos sobre depressão, disse-me... assim, na lata...  para eu me comover, conscientizar-me, ou mesmo tomar vergonha na cara. Ele recentemente tomara um metrô de manhã e me falou do que viu, do sofrimento das pessoas enlatadas, do calor, daquele destino. Mais uma vez, veio-me à mente a imagem do caminhão de animais se dirigindo ao abatedouro. Talvez soframos muito mais por saber o destino deles – dessas pessoas - que eles mesmos. Se soubessem, fariam no mínimo como o operário d’O Grito, no filme do Antonioni. Vocês vão me falar da rede globo, da alienação, disso e daquilo... Hoje todos temos um celular e as informações estão aí: verdadeiras, falsas, não importa; quem quiser mesmo, pode começar a questionar. Na escola, por mais que você tente, não consegue dar uma aula decente. O fato é que as pessoas não querem se conscientizar de porra nenhuma. Porque consciência é sofrimento. Quem prova da árvore do conhecimento, jamais voltará a ser puro. As pessoas querem coisas concretas: uma moto, um carro, um vestido.
Semana passada, um pessoal resolveu sentar a madeira em Brasília. Todos reclamamos dos políticos, ficamos indignados, tomamos no cu com a reforma da previdência, não é mesmo? Quando vou tomar café na padaria, um rapaz, com uniforme de frentista, conversa com outro com uniforme de açougue:
- Bando de vândalos, quebrando tudo, a polícia tem mais é de meter o pau.
Uai? Não somos nós mesmos que reclamamos da classe política, da corrupção, disso e daquilo? Quando alguém resolve fazer alguma coisa, chamamos de vândalo; mas não são vândalos os policiais que atiram contra uma dúzia de sem-tetos. Estes não. Novamente a ladainha da rede globo. O  Foucault nosso de casa dia. A identificação com o opressor. O diabo é que não é só a rede globo. Seria fácil. A natureza humana é escrota mesmo. Pobre não é santo. Trabalhe ao menos um mês na construção – já trabalhei - e veja quanta maldade um pedreiro  é capaz de fazer com o outro.
Voltando à semelhança entre a imagem dos animais indo para o abatedouro e os trabalhadores para o trabalho. O rapaz de classe média que é vegano é atendido por uma moça que estava no trem que meu amigo pegou. Ela levantou cedo, veio lá do último subúrbio, caminha para a morte e ganha um salário de fome. Salva-se o frango, mas mata-se a moça. O rapaz poderá dizer que não vai a restaurantes, veganos ou não. OK! Mas faz uso de outros serviços nos quais as empresas exploram pessoas do mesmo modo. Não há um FORA da engrenagem. Mesmo a Arte – a literatura como pensou Foucault - é só rebeldia adolescente, permitida pelo papai e premiada com viagens à Paris.
Não há como escapar da roda de samsara. Daí minha depressão, à qual meu amigo criticou. Frangos, bois, porcos, moças bonitas e maquiadas, meninos jovens e marombados, todos nos movimentamos enlatados para o abatedouro; se possível com estoicismo e um sorriso “em que posso ajudar?” no rosto.
Pensando no meu amigo, nos veganos e vegetarianos que, repito, RESPEITO MUITO, veio-me à mente a anedota búlgara do Drummond. Conhecem? Lá vai:
Era uma vez um czar naturalista
que caçava homens.
Quando lhe disseram que também se caçam borboletas e andorinhas,
ficou muito espantado
e achou uma barbaridade

That´s all folks!

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