terça-feira, 16 de maio de 2017

O bico do pássaro e a fruta que apodrece antes de amadurecer

VOU FALAR DE PEDOFILIA. Gosto de me meter em assuntos espinhosos, de desafinar o coro dos contentes. Os extremos são sempre catastróficos. No ano de 1932, a psicanálise ainda engatinhava e a psicanálise infantil sequer saíra do berço: poucos eram os psicanalistas que aceitavam trabalhar com crianças; e, estes poucos que aceitavam, procuravam aplicar as mesmas técnicas que eram aplicadas aos indivíduos maduros. Assim, quando, na clínica, crianças relatavam casos de abusos, estes tendiam a ser encarados como frutos da fantasia ligados, na maioria das vezes, ao complexo de édipo. É neste contexto que o psicanalista húngaro Sándor Ferenczi publica o artigo Confusão de línguas entre adultos e crianças - a linguagem da ternura e da paixão. Para Ferenczi, uma vez que a criança se aproximava com a linguagem da ternura e o adulto respondia com a linguagem da paixão, em alguns casos, os abusos eram reais e causavam profundo trauma. Tais crianças eram como frutos que, ao serem violentados pelo bico faminto dos pássaros, apodreciam antes de amadurecer. Grosso modo, a partir daí, ocorreria a identificação com o agressor e a repetição futura do gesto. É importante ressaltar que as crianças têm sexualidade, mas enquanto a expressam com a linguagem da ternura, o adulto agressor interpreta os signos emitidos na linguagem da paixão. Daí a babel de línguas e a catástrofe.
Mais de oitenta anos se passaram desde o artigo de Ferenczi e hoje o que percebemos é a imersão no extremo oposto. A simples menção a qualquer gesto afetivo envolvendo adultos e crianças é imediatamente tomado pelas justiceiras e justiceiros de plantão como certeza do ato praticado. Há pouco mais de vinte anos, a vida dos proprietários da Escola Base, na Zona Sul de São Paulo, foi destruída depois de ser veiculado na grande mídia que, na escola, ocorriam casos de pedofilia. Em 2014, o dono da escola e marido da diretora Icushiro Shimada morreu. Vamos ser sinceros? Morreu de desgosto. Um adulto inocente ser acusado e, instantaneamente, condenado por algo assim é tão horrível e traumático quanto o abuso de uma criança. Têm dúvidas?  Assistam ao filme A caça - direção Thomas Vinterberg, 2013. Em 2014, na Inglaterra, Bijan Ebrahimi, de 44 anos, um deficiente físico afastado do trabalho, estava fotografando os jovens do seu bairro, em Bristol, os quais destruíam constantemente seu jardim. A ideia era mostrar as fotografias à polícia e registrar a queixa. No entanto, alguém viu Ebrahimi com a câmera e contou à polícia que ele estava tirando fotos inapropriadas de crianças. Resultado: Ebrahimi foi linchado e queimado vivo pelos cidadãos e cidadãs de bem.
            Caso perguntássemos a uma dona de casa alemã, partidária do nazismo na segunda metade da década de 30, se ela defendia uma causa nobre, certamente ela diria que sim. Minha intenção aqui não é defender criminosos, mas afirmar que não existem mais causas nobres ao serem elas defendidas de modo bárbaro. A ânsia de julgar é nosso câncer. Basta que alguém seja acusado e, nestes tempos de redes sociais, é imediatamente julgado, considerado culpado e punido. Às vezes se é condenado apenas por ser homem. Quando uma menina foi estuprada num baile funk por dezessete marginais, houve quem escrevesse que todo homem era um estuprador em potencial por conta de seus instintos. Em cada ser humano um policial, um promotor, um juiz e um carcereiro. Lembra-me Na Colônia penal, de Kafka, conto no qual a defesa é inútil, uma vez que a culpa é sempre pressuposta. Será que nossa vontade de punir tais crimes não esconde uma violência que habita nosso próprio coração nesta sociedade na qual os próprios pais erotizam as filhas (MC Melody etc e tals)?
No meu caso, prefiro deixar a justiça ao aparato judiciário. Não me sinto à altura de atirar a primeira pedra em quem quer que seja.
Foto: Fernando Rocha



quarta-feira, 10 de maio de 2017

TAGARELICES

Ninguém escapa do berço onde nasce, porque o berço é a pessoa. O ninho faz o pássaro e, seja por negação ou por afirmação, o lugar onde nascemos é o que vai definir que tipo de homem ou mulher nos tornaremos. Nietzsche passou a vida negando o cristianismo por ser filho de um pastor. Definiu-se pela recusa, pelo negativo. Não entendo como as pessoas podem gostar de Dostoiévski ou Tarkovsky e continuarem a ser materialistas, cartógrafos: pura afetação, busca de status intelectual. Esses autores são profundamente moralistas, não no sentido pejorativo que a palavra tomou, mas no sentido de que dizem verdades que não querem ser ouvidas. Verdades que se tornaram relativas para o homem contemporâneo e, no entanto, são mais estudados pelos aspectos formais de sua obra, como se se pudesse separar forma de conteúdo. O centro de suas obras é o sacrifício de um ser humano pelo outro, nada mais fora de moda: você já imaginou Brad Pitt se sacrificando por Angelina Jolie? Trata-se, para tais autores, do amor como encontramos em Coríntios e isso é incompatível com o modo como o amor é tratado no mundo contemporâneo. Pensemos em Sônia e na Lisa de Dostoiévski, na mulher do Stalker, nas mulheres bergmanianas. Hoje, amar é uma conveniência, lacinhos de fita vermelha e não correntes inquebrantáveis. Vem depois da carreira, da malhação, do jogo, da novela. De certo modo, esses autores são feministas, no sentido mais profundo; no sentido em que o cuidado com o outro é mais importante que a ânsia de poder. A força nascendo da fragilidade. Acho que o feminismo se perde um pouco na luta apenas por representatividade política - que é importantíssima - e não pela revolução em si que seria o trato entre seres humanos de um modo mais feminino. Já vi feministas reivindicando a desmistificação da função materna, como se isso fosse apenas uma construção social. No final de A paixão de Anna, do Bergman, depois de uma tremenda briga, depois de ofensas físicas e psicológicas e diante do silêncio da protagonista, o agressor, o marido, grita: Fale alguma coisa! E Anna responde: vim para lhe pedir perdão! E essa sentença simples expõe ao homem toda sua estupidez, desmonta-o. E que é Heathcliff se não um coitado? Tanto Dostoiévski, quanto Tarkóvsky situam o centro da vida em Deus, mas também podemos prescindir de Deus, se assim pretendermos. Para Schopenhauer, Nietzsche e Cioran, podemos prescindir de Deus e, ainda assim, nos interessar pela santidade. O termo übermensch foi mencionado pela primeira vez ligado à santidade. E, de fato, pouco importa se Deus existe ou não, podemos tomá-lo como potência do falso, como motor, força afirmativa da vida, do cuidado e do amor ao outro. É isso Deus na obra de Emerson. Em A delicadeza dos hipopótamos, o narrador afirma: o amor é Deus e não o contrário. Creio nisso. O que distingue o ser humano dos demais animais não é a razão, como a tradição ocidental consagrou, mas a capacidade de sacrifício, de criar laços, de se tornar responsável como disse a raposa ao pequeno príncipe. Volto a repetir, o ser humano é o único animal capaz de sentir prazer em fazer sofrer seu semelhante, mas também é o único animal capaz de dar a vida para salvar a vida de alguém completamente desconhecido.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Um herói banguela

“Mas, todas as manhãs, a mesma ferida”. Escreveu Foucault em O corpo utópico. Um texto denso e visceral, no qual o autor que, junto a Nietzsche, mais celebrou o corpo, trata-o - ele, corpo - como “uma jaula desagradável, na qual terei que me mostrar e passear”.  Acho que conheço bem a sensação: manhãs em que tudo nos falta, o tempo como abismo, eternidade, futuro infindável de desespero. O cérebro que se nega a produzir endorfina... Tudo falta. Se faz sol, o sol dói. Se chove, a chuva machuca... E o tempo não é horizonte de esperança, mas juiz que sentencia:
- Culpado por toda a eternidade!
Não sei quanto a Foucault, mas eu tenho minha receita: uma praça... Juntar as forças, caminhar, olhar os outros, os pássaros, as árvores, as flores, os adolescentes namorando, os velhos jogando dominó, os animais. Vira e mexe, chego em casa com um gato ou cachorro de rua.
Dizem-nos, quando estamos sofrendo, para visitar a ala de tratamento de câncer em um hospital qualquer. Para mim não funcionaria. Faria mal aos doentes e a mim mesmo. A esperança é irmã gêmea das flores; é no jardim que se deve colhê-las. De modo que eu caminhava, na praça. Fazia sol depois de dias de chuva. Uns garotos jogavam bola na quadra. Meninas andavam de patins e meninos, de skate. Num cantinho isolado, entretanto, a família brincava. Eram quatro pessoas. Duas meninas de uns sete, oito anos; um menino de uns dois e o pai: magro, alto, com o cabelo cortado do mesmo modo que o filho, um menino grande. Eram extremamente pobres. A pobreza tem rosto e uniforme: manchas na pele, micose, vestidinhos esburacados, camisetas e bermudas manchadas por gotas de água sanitária, chinelos gastos de borracha.
Ainda que não fosse natal, o pai tinha feito um trenó. Amarrara uma corda fina nas duas extremidades de um pedaço retangular de madeira, ajeitara os filhos ali em cima, colocara a corda ao redor da cintura e dava piques de um lado para o outro. As crianças gargalhavam. Às vezes, uma delas, não necessariamente a menor, caía na grama. As outras crianças gritavam. O pai parava. A meninada se ajeitava outra vez sobre a madeira e a brincadeira continuava. Sentei num balanço ao sol para observá-los. Não prestavam atenção em mim. Estavam se divertindo demais para prestar atenção ao entorno.
Brincaram por mais de uma hora. O pai estava esgotado, molhado de suor. Antes de partirem, o pai colocou o menininho sobre os ombros, pegou a mão de cada uma das meninas, a maior puxava o trenó com cuidado, feito bicho de estimação. Ao passarem por mim, os quatro sorriram. Só o menino tinha todos os dentes. Ao pai, tanto quanto às meninas, faltavam os dentes da frente. Ninguém se importava. Estavam felizes. Eu sorri de volta, esse meu riso de quem deseja ser aceito, e a manhã se tornou mais leve e o futuro já não era tão abismal. 
Antes de atravessarem a rua, o pai se virou e acenou pra mim. Era apenas um homem com a sensação do dever cumprido. Um herói banguela.