sexta-feira, 21 de abril de 2017

VISÕES DE MARCIONÍLIO

Nesta mesa me sento diante de Marcionílio
Entre nós, bigode e silêncio. Cavalo e freio
Nesta mesa, rústica, me sento diante de Marcionílio
E agora sei que percorremos os mesmos caminhos
Não estradas de Minas, ou Goiás
Não estradas que ligam o Tanque à Ponte,
Mas senderos que levam da infância à velhice e à morte
Em vão me justifico diante de tua rigidez de homem do sertão
Agora compreendo, vô, que a vida é só erro e perdão
Do meio do caminho estudo tua verticalidade 
E compreendo com o fundo do meu mistério a geometria do mistério teu
Nesta mesa me sento diante de ti, Marcionílio
Entre nós o tempo se dissolve
Contemplo teu silêncio entre couros:
A bota e o chapéu 
Sela, arreios e gibão
Admiro a destreza
o domínio sobre a natureza
a cavalgada segura
Quando estavas, teus filhos não ousavam se desentender
E Joana resmungava a mesma vida dura sobre as gamelas
É preciso envelhecer para entender o avô:
Silêncio de pedra
As mãos de chumbo sem carinho
Punhal
Bíblia aberta
A cabeça grande sempre dolorida
Nesta mesa nos sentamos neto e avô
Diante do mistério da travessia
O diabo em frente ao candeeiro
E jamais palavra solta em vão
Nesta mesa me sento, Marcionílio
Não é fácil sentir-se nada sendo neto de um rei
Tu: Minas Gerais da minha infância
Tu: olhar devoto da mãe
Tu: um tanto Riobaldo, outro tanto Diadorim
Tu: causos de cangaço e coroneis
Tu em mim, no Léo, no Marcos, nos meus filhos, tios e primos
Tu para além de teu corpo morto, de tua lápide quebrada
Nenhum homem desaparece com a morte
Diante desta mesa nos sentamos, Marcionílio
E repartimos leite e biscoito, café e requeijão
Ainda não agradeci a nesga de rapadura
Teu jeito de tratar o amor
Nesta mesa me sento diante de ti, meu avô, para dizer:
Muito obrigado.

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