terça-feira, 25 de abril de 2017

Compreensão

Para Scooby, que viu a Deus por meio do sofrimento.
Na noite em que morreu meu tio Kholia, sonhei com um anjo. Ele era azul, azul claro como os olhos de meu pai.
- Andrei, você é feliz? – Perguntou.
Eu tinha sete anos.
- Não sei. Que é felicidade?
- É ser compreendido.
- Então não sou feliz.
- Aprenda a se alimentar do que encontrar pelo caminho, como um cão. O pão da compreensão é raro.
***
Meu tio havia trabalhado por mais de trinta e cinco anos na mesma repartição. Tinha um cachorro. Todos os dias, quando voltava do trabalho, o cão trazia os chinelos dele entre os dentes e largava ao lado do sofá, abanando o rabo. Era um cachorro pequeno, gordo. Ele e meu tio dividiam a mesma sopa, o mesmo pão. A tia também era gorda e não era lá muito paciente. Quando bebia, e gostava de beber, puxava o tio pelos cabelos, arrastava-o pela casa. Depois que ele morreu, ela ficou com medo e, todas as noites, eu tinha de ir dormir com ela. Tinha tratado o marido muito mal por anos e anos a fio. Talvez agora, depois de morto, ele voltasse para se vingar, já que em vida jamais havia reagido. Tudo o que fazia era caminhar até a cozinha, nos fundos da casa, o cão choramingando atrás, colocava água no samovar e repartiam o chá, ele, meu tio Kholia, e Malchik, o cão.
Uma noite, semanas depois do enterro, antes de apagarmos as velas, Malchik começou a brincar, rolando no chão, do mesmo modo como fazia quando tio Kholia era vivo. A tia arregalou os olhos. O cachorro correu até a cozinha, apanhou as sandálias de couro do tio que ainda estavam junto à lenha, embaixo do fogão e trouxe para o lado da poltrona onde o velho Kholia costumava se sentar. A tia bebeu e chorou o resto da noite, até adormecer. Dia seguinte, Malchik estava morto. Era uma manhã cinzenta. Durante a madrugada caíra a primeira neve do ano. Pensei ter visto pegadas de homem ou de cachorro na neve, quando estava indo para casa, mas eram só os rastros de um porco que escapara do chiqueiro em algum momento da noite.

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