domingo, 26 de março de 2017

Why did you call me?


A melhor crítica que li sobre certos filmes pretensiosos e vazios foi feita por Alfred Hitchcock em entrevista a François Truffaut. Num momento tenso da conversa, no qual Truffaut pede insistentemente que Hitch defenda o seu O homem errado, o cineasta inglês se sai com esta pérola: “Mas, me diga, você quer me fazer trabalhar para os cinemas de arte?” Está aí um comentário que desfaz diversos imbróglios da crítica. Muitas vezes o crítico torce o nariz para uma obra porque ela não vai pelos caminhos que ele julga artísticos, sem levar em conta a intenção do artista e o fato de ele ter ou não conseguido atingir seus objetivos. Em outro momento do comentário sobre este mesmo filme, Hitchcock ressalta: “Mas você deve se lembrar de que O homem errado foi feito como um filme comercial”.
            Tudo isso me veio à mente depois de assistir a Moonlight: Sob a Luz do Luar. Trata-se de um filme comercial, linear, por vezes emotivo demais, mas sem dúvida um bom filme, melhor que muitos goddard´s. O filme conta a história de um menino negro, pobre, homossexual (?), desde a infância até a vida adulta. É um filme doloroso, que retrata bem o que é ser gay na periferia, país no qual o que impera não é a sensibilidade, mas a força física e a intimidação. O enredo é dividido em três partes. Na primeira, vemos Chiron, o protagonista, ainda menino, crescendo numa vizinhança pobre de Miami. Por ser tímido e sensível, Chiron é perseguido pelos demais meninos. A mãe do protagonista é viciada em crack, paradoxalmente é em Juan, o traficante da vizinhança, que Chiron encontra amparo. Algumas cenas chamam a atenção, as mais belas envolvem a relação do menino com o mar - que atravessa todo o enredo - e com a dança.

        Na segunda parte, encontramos Chiron já adolescente, magrelo, desengonçado, descolado do mundo que o cerca e da existência; sofrendo violências ainda mais severas. A mãe desce abaixo no abismo do vício. Há aqui ainda a descoberta do amor e da sexualidade, além de uma viragem do protagonista que, pela primeira vez, deixa de ser passivo e passa a revidar: já não oferece a outra face.
        A terceira parte começa com o close numa boca forrada de dentes de ouro; é a boca de Chiron adulto. Agora um homem alto e musculoso que dirige um carrão ouvindo rap. Sabemos que se tornou traficante e transformou o corpo numa armadura. Mas Chiron não consegue dormir durante a noite. É atormentado pela própria cegueira de seu desejo. O desejo não conhece moral, desrespeita as regras do tráfico. Uma noite, o amigo da adolescência, que foi o dono de seu único beijo, de seu declínio e de seu ponto de mutação, liga. O passado volta então ao presente. Na verdade, o passado sempre esteve lá. O passado não foi, o passado é. Se o passado tivesse ficado no passado, seríamos puros como Adão, como os bebês, não sofreríamos.
O filme levou três Oscar´s nas categorias: melhor filme, melhor roteiro e melhor ator coadjuvante:  Mahershala Ali. Acredito, entretanto, que a melhor atuação é de Trevante Rhodes que interpreta Chiron já adulto. Ele consegue passar a dor, a ternura, o amor, a confusão do personagem em um único olhar.

             
   Seria interessante estabelecer uma conexão entre Moonlight: Sob a Luz do Luar e O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee. Homens em ambientes de homens brutos, mas apaixonados entre si. Um Romeu e Julieta gay seria Romeu e Romeu ou Julieta e Julieta. Quando o mundo no qual estamos inseridos não nos aceita, não nos reconhece, não nos acolhe; nós também não nos aceitamos, reconhecemos ou nos acolhemos. Não nos resta então outra alternativa a não ser nos voltarmos contra este mundo, mesmo porque estamos doentes. O ser humano precisa de outro ser humano que lhe abrace e lhe devolva a pele e os contornos quando está em dispersão. O ser humano precisa de outro que lhe sussurre: “eu te compreendo, não há porque pedir perdão”.
            A trilha sonora é magnífica, muito soul, muito som da motown, rap, sonzeira de malandro, já começa com a porrada Every nigger is a star, passa por Caetano Veloso cantando Cucurucu paloma e chega ao auge com Hello stranger, de Bárbara Lewis.


            A fotografia em tons de azul, refletindo uma parábola que Juan conta ao menino Chiron na primeira parte do filme, também é muito eficiente.
       Acho que vale à pena assistir, levando no coração a advertência: não é fácil ser sensível na periferia.

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