sexta-feira, 3 de março de 2017

Ser e Totora - palafitas

                 No mais belo parágrafo de Carta Sobre o Humanismo, Heidegger escreve: “Caso o homem encontre, alguma vez, o caminho para a proximidade do ser, então deve antes aprender a existir no inefável.” Dando um passo atrás rumo ao mais originário, o filósofo de Todnauberg supera, deste modo, a metafísica.
              Grosso modo, o pensamento metafísico – e  mais ainda o moderno - caracteriza-se por buscar um único fundamento que explique o mundo e o homem. Assim, para Platão o fundamento é a Ideia; para Descartes o fundamento é o eu (cogito); para  Schopenhauer, a vontade; para Freud, a sexualidade; para Nietzsche – que Heidegger ainda associa à metafísica – a vontade de potência. De certo modo, a filosofia seria um arcabouço lógico sobre essa proposição primeira. Os edifícios seriam construídos a partir de um fundamento sólido.
                Heidegger não nega o fundante, mas o fundante seria o ser e o ser é o próprio inefável, o mistério que se instala quando perguntamos: por que o ser e não antes o nada? Por que o homem, a planta, a bactéria, o vírus, o animal, o inseto, as galáxias, os deuses, o micro-e-o-macro e não antes o nada? Uia! Que estamos nomeando quando dizemos que algo é? O ser é um fundamento móvel, insinuante, como as palafitas, ou melhor,  como a totora que mantém as casas suspensas sobre o lago Titica.

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