sexta-feira, 31 de março de 2017

O abortado

Quando era membrana, cortaram-me a água
Quando era membrana, secaram o leite e o mel
Quando era membrana, faltou-me a flor e a carícia
Quando era membrana expuseram-me à luz, faltou-me o pão, jogaram no lixo meu irmão.
O que era cor causou cegueira e o que era cegueira tornou-se vão
Quando era membrana cantavam ao longe cantigas de ninar,
mas não para mim
De cara fui lançado no crime
Tudo me faltava e de tudo eu era faminto
Quando era membrana sentia como sinto agora
Essa dor fria
Essa fisgada metálica
Do um fez-se o dois, mãe, e entre um e outro fez-se o abismo
Ouvi dizer que em Sarajevo
Durante a guerra
Soldados sérvios rasgavam à faca o ventre das gestantes bósnias
Em seguida penduravam os fetos nas árvores
Feito bolinhas em árvore de natal
Quando era membrana, estava em Sarajevo
E Sarajevo era o mundo.

Nenhum comentário: