terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Piedade para o Demónio

         
   - Vê, agora faltam pedaços. Os pedaços que você arrancou – ela diz, nua, de pé ante o espelho. O dedo indicador percorrendo o vale onde antes ficava o seio esquerdo.
     -Não é prudente se colocar entre o drogado e sua droga.
      - Aqui também não há mais nada – vejo pelo reflexo no espelho a mão direita entrar na barriga, os dedos apontam na dorsal. – Também nada no coração. Você sempre consegue, não é? Destruir tudo?
       - Não era eu, irmã.
     - Agora não importa, a polícia está a caminho. O que é que você sabe sobre maracujás e criar filhos? Porra nenhuma!
        A cidade acorda. Caminhões, carros de passeio, de polícia, de bombeiro, trens de carga ao longe e, mais ao longe ainda, o mar e a fuga impossível. Ó manhã-cascável, mil guizos na cabeça de pedra. Ó manhã-medusa, mil chocalhos velando o corpo morto do amor.
      Ele se levanta de cuecas. Olheiras fundas de quem não pregou os olhos a noite inteira. Olha o caixãozinho branco. As flores. O menino Jesus. Daria tudo pelo frescor do passado. Daria tudo pelo riso dos primeiros dias. O tempo tem vasto poder de destruição. Quando morria no olho do sonho, a esfinge aconselhou, sentada, tranquila, no alto da roda. 
           - Só há uma saída: siga o rio enquanto ele desce, no exato ponto em que começar a subir - e o rio que sobe encontrar o rio que desce - você deve atravessá-lo. É o único modo de escapar.
            Nem tentou. O encontro dos rios é a porta do inferno.
       Gosto estranho; na boca, um pássaro recém-nascido e já morto, caído do ninho, os olhos cinzentos, o bico do bicho pegado à língua suja de carvão. Formigas fazendo seu trabalho. Tenta se desvencilhar do pássaro, ele bate as asas molhadas, doces, sem penas; ainda está vivo, mas não por muito tempo. A língua sangra. Soltam-se. Ele sopra o bico do passarim. - Por favor, não morra mais nada nesta manhã! Já perdi pais, irmãos, amores, amigos, filhos, bichos de estimação. Sobreviva ruiseñor! Não quero perder meu pássaro. Arqueja o peito frágil. Procura o ar para teus pulmões de passarinho. Lembra do mel que tua mãe colhia pra te fabricar nas entranhas-mistério de fêmea. 
        Não há o que fazer. 
     Ele deixa o pássaro cair também ao chão. Três gatos se aproximam para cheirar o cadáver. 
   Se pudesse, faria como ela, enfiaria os dedos por dentro do crânio e arrancaria a massa lá de dentro com as mãos: escorpiões que se amontoam, serpentes entrelaçadas, escuridão, lacraias, culpa, remorso, desespero, manhãs.
            - Você teve o melhor esboço, mas rasgou o papel.
            - Não sou eu, é o outro que mora em mim.
            - Teu cu.
            Uma viatura para na frente da porta do hotel, portas abertas.
            - Essas porras desses viciados só dão trabalho, fazem barbaridades quando estão chapados.
            - Deveríamos agradecê-los. Sem eles, não teríamos nosso trabalho!
            Na entrada do prédio em ruínas, o poeta louco português grita, sob as faixas do MTST:
            “Piedade para o Demónio, piedade para a solidão demoníaca... Eu conheço o silêncio do carrasco. Conheço a irremissível solidão do Demónio. Na Holanda, o Demónio é negativo. Está no meio das vacas: não escreve poemas, não pode exercer os dons. Pensa, perde o nome. Quem esperaria dele que trabalhasse a terra ou protegesse as alimárias?”
            Não estavam na Holanda, mas em São Paulo – locomotiva de todos os horrores.
            Profundo é o medo das manhãs, que nada tem a ver com a polícia.


Um comentário:

Luiz Libório disse...

Que conto maravilhoso! Difuso e grandioso: "Lembra do mel que tua mãe colhia pra te fabricar nas entranhas-mistério de fêmea"