terça-feira, 19 de dezembro de 2017

A alma estendida na varanda

Lá vou eu pela vida
A alma estendida na varanda feito camiseta velha
Abrindo trilhas, descobrindo clareiras
Dizendo não ao caminho excessivamente pisado
Sofrendo as consequências de arrancar a mão autoritária do meu ombro
Lá vou eu pela vida
confuso confesso: rebelde
Encantado pelo milagre,
Lá onde o milagre acontece
e a gente não vê 
Lá vou eu pelo caminho
A carne cheia de estilhaços
A alma infestada de bolhas feito ovo na frigideira
O coração em carne viva
Perguntando pelo mistério do Ser
E admirado com aqueles que sabem funcionar
Lá vou eu,
As certezas em frangalhos
As promessas frustradas
A coragem costurada, remendada por retalhos coloridos
Eu vou menino
Inventando esperança onde grassa desilusão
Vou de conga ou kichute
Recolhendo força dos invisíveis
e cantando com eles:
Todo menino é um rei!


terça-feira, 5 de dezembro de 2017

COMO UM MENINO FRENTE A DEUS

O TOURO EM ERUPÇÃO

Um touro vendado se bate contra as extremidades do túnel, tentando encontrar o caminho que leva à arena. É um touro preto. Ao redor, os homens fustigam-no, batem-lhe com a mão no traseiro. “Eia, novilho doido, eia!” Viver é encontrar uma trilha, mesmo que de pedras, por onde a gente possa caminhar. Algumas pessoas encontram sua própria trilha, aquela que lhes é - e só a elas - destinada, quando mal aprenderam a andar, quando ainda engatinham; outras pessoas passam a vida toda batendo a cabeça, procurando uma vereda onde possam ser, onde seus pés encontrem o sentido de existir. “Dê-me um cantinho de mundo onde eu caiba e eu serei serenidade” – diz o touro por meio de sua alma taurina. Acossado, no entanto, o touro é abismal, fere quem estiver por perto; não distingue sequer a mão que o alimenta. Eia, novilho, eia natureza, eia! Há uma menina branca, sempre há. A fragilidade é sua força. Ela acaricia o touro enquanto os outros cravam bandeirolas nas costas da fera. Três filhos, três filhas; o pai cego fumando cachimbo. Caminho onde a gente possa ser. Uma beiradinha de mundo e de língua onde caiba um touro, onde um touro encontre morada e frescor. A carne é para os vergões e o chicote. A carne é para a fúria! Alimento, amizade, alma, amor, amanhã. Todas as pistas começam com A, mas a solidão é cheia de curvas... E gritos. Havia para a menina toda uma vida de vitórias: quadros revolucionários em estado de transparência, esculturas inovadoras - sempre de touros - ocultas na pedra e no bronze; vocação para a Arte é isso, mas ela se esqueceu de nascer e a neblina cobriu o caminho que lhe era destinado. O outro do mundo habita o silêncio... O caminho não existe sem aquele que caminha e o touro é toda a violência que o couro e a carne podem conter. A vida habita a solidez; o mais é hipótese, possibilidade, cavalos marinhos no sertão; todo um mundo que poderia ser, mas não é: aborto... A casa abortada.
                MAS VOU CONTAR ESTA HISTÓRIA PARA PROVAR QUE SOU SUBLIME.
                A menina diz:
                - Quando eu me despir de todas as cascas serei amor.
                O touro não é só o touro, o touro é o touro mais a menina e mais a casa. Nada é isolado. Tudo o que é, é dentro de um mundo. Tudo o que é mundifica. Eva era Eva, mais a maçã, mais a serpente.
                O touro escapa, o touro entra em erupção. O touro – negro - contempla a casa. O touro é a casa. A menina morta monta nua o touro: uma maçã, uma rosa vermelha nos cabelos; gozo... E morangos silvestres. O touro amanhece um menino. Ele se chama Kan, é o filho do meio; ela se chama Tui é a filha mais nova.

O OUTRO EM ERUPÇÃO

Era uma casa grande: oito portas e uma dúzia de janelas. Era uma casa antiga, para mais de duzentos anos, sustentada por colunas e vigas de madeira maciça lá do século XVIII ou XIX. A casa atravessa o tempo com a família dentro. No porão, encravadas nas pedras, ainda estavam as grossas correntes para prender escravo. Dizem que o bisavô era severo com negro fujão; gostava de aplicar os castigos nas dependências da casa e a casa se fortalecia com isso, ganhava sua alma, seu poder também daí. Não é só com sorrisos e fotografias que se constrói uma família. Aquilo que dói, aquilo que esfola, é transmitido entre as gerações; torna-se a memória de um clã. Ancestralidade é um dos nomes do carma. Havia, na casa, uma sala com doze cadeiras espalhadas, encostadas às paredes; sobre cada uma dessas cadeiras vazias, o retrato amarelado de um parente morto. Ancestralidade também é carma. Havia ainda outra sala, com uma mesa longa, rústica, de madeira preta. Os quartos eram quatro. No menor deles dormiam o pai e a mãe. Os três rapazes, cujas idades variavam entre vinte e um e quinze anos, dormiam no mesmo quarto. As meninas, também eram três, dividiam o outro quarto. Havia ainda um quarto de hóspedes que estava sempre desocupado; uma vez que, havia muitos anos, ninguém visitava a casa. Uma cozinha enorme onde, desde manhã cedo, o fogo crepitava completava a casa.
                Em tempos remotos, mais de duzentas pessoas trabalhavam na fazenda, subindo e descendo os morros, cuidando do cafezal. Agora os pés de café tinham desaparecido dos morros. Quando setembro chegava, o cheiro de café perfumava o ar, mas a plantação estava perdida no meio da mata. A casa, a família e o touro estavam apartados do mundo. Assim que o dia amanhecia, o pai, mesmo sem enxergar, chamava os rapazes e seguiam juntos para a roça. Plantavam o que sustentava a existência. Não havia luxo. Aos domingos, o pai e a menina mais nova, Tui, iam à feira vender o excedente, quando excedente havia. Em determinadas épocas do ano a comida precisava ser racionada, quase passavam necessidade, mas havia a farinha de mandioca, a rapadura, o fubá.
                Uma noite, o filho do meio dormiu e sonhou com um abismo, estava calor, mas ele tremia e batia os dentes como se estivesse com febre. O sagrado vem em forma de frio. De dentro do abismo, saía uma luz proveniente de um tesouro: um touro em tamanho natural todo feito de ouro. No sonho, Kan viu com riqueza de detalhes o lugar onde o tesouro estava enterrado. Já tinha passado por aquele lugar. Ficava a três ou quatro dias de viagem rumo ao sul. O pai, porque era cego, intuiu o sonho do filho. Ele, o pai, tinha ciência de tudo; sempre. O frio era uma corrente que ligava ao filho o pai.
                Chamou o filho do meio e a filha mais nova, sua menina preferida.
                - Soube que vocês vão em busca do tesouro.
                - Ainda não é certo.
                - O tesouro só pode ser encontrado na noite de sexta-feira da paixão. E só pode ser manuseado por alguém puro de coração. Se aquele que tocar o tesouro tiver um único pensamento egoísta, um único pensamento impuro neste momento sublime, será dissolvido imediatamente. O tesouro está desde sempre no mesmo lugar, mas só poderá ser encontrado na noite da agonia de nosso senhor. Nessa noite ele emitirá aquela mesma luz que você viu em seu sonho.
                - Mas, pai, foi só um sonho. Não sei se isso tem algum valor...
                - Lembre-se: aquele que quiser reter, perderá; mas quem partilhar terá tudo em dobro. É preciso ser maleável, meu filho, as árvores mais altas envergam-se, mas não se quebram com o vento. Se o mundo ao seu redor desmoronar, mantenha-se na vala.
                Em seguida o pai tirou suas vestes e entregou-as ao filho que, imediatamente, despiu-se e vestiu a túnica do pai e colocou na cabeça o chapéu do pai.

ONDE ESTÁ O TEU TESOURO AÍ ESTARÁ TAMBÉM TEU CORAÇÃO

Kan tinha a capacidade de amar em silêncio. Tinha medo de ferir tocando, porque conhecia em si o touro. Tui sabia o amor do irmão, mas era toda pureza, como um riacho raso de águas cristalinas, peixes coloridas no fundo e pedras arredondadas. Tui não sabia tramar, era toda generosidade. Ela morreria de sede para dar água a alguém que também estivesse sedento. Kan sabia a generosidade, mas era homem, também água, mas abismal e o abismo tanto podia engoli-lo, quanto engolir tudo ao seu redor. Tudo é um: Kan era Kan mais Tui, mais seus outros irmãos, mais seus pais, sua cidade e mais toda a raça humana. O significado da vida é o caminho e o tesouro, mas cada pessoa só tem uma trilha que leva ao seu tesouro. É fácil demais se perder pelo caminho, cometer suicídio, desencaminhar-se.
                A viagem que demoraria três dias, acabou demorando mais de uma semana. Seguiram o rio, mas choveu muito por aqueles dias e o rio encheu, arrastando tudo às suas margens. Um tronco levado pelas águas acertou Tui ao meio, quase a levou embora, quase partiu a menina em uma, mas o irmão, abismal, conseguiu segurá-la e salvou-a e cuidou dela com os medicamentos que a mata oferecia. Ficaram dois dias descansando na casa de uma velha, negra, que morava só no meio da mata. Por sorte, chegaram ao ponto exato onde Kan havia sonhado, o tesouro estaria bem ali e era a tarde da sexta-feira santa. Cavaram, mas nada havia. Um buraco é cheio de silêncio. Cavaram em outros lugares. O tesouro salvaria a fazenda, a vida e a família.  Era impossível, a terra era terra e só. Já cansados do esforço, o irmãos adormeceram abraçados e desiludidos. Tudo seria ruína e só ruína. Alguns encontram o tesouro que lhes é destinado e outros não. A vida é isso. Que é justiça universal? O que é Deus? Durante a noite, a visão de um moço muito branco acordou Tui. Ele vinha com mais dois outros homens; todos eles profetas. Ele apontou uma cova que os próprios irmãos já tinham cavado. A cova emitia luzes azuis e vermelhas em forma circular. Ela, Tui, olhou para o irmão e viu que no peito dele havia também um círculo vermelho e azul - carne e espírito - feito da mesma energia que provinha da cova onde o tesouro, o touro todo feito de ouro, descansava. Tui acordou o irmão. Sabia que seu coração era feito de um pedaço do tesouro e que só ele podia retirar o tesouro; um touro todo feito de ouro em tamanho natural pesa muitas toneladas.
                - Veja – ela disse e apontou a luz.
                Kan olhou para o próprio peito e viu que brilhava. Sentiu-se forte e confiante, mas não compreendeu que para assenhorar-se do tesouro, primeiro era preciso assenhorar-se de si mesmo. O grande tesouro não está fora, é só consequência.
                Kan começou a puxar o touro de ouro para fora do abismo, mas o touro em erupção fascinou-o - as igrejas medievais têm gárgulas guardando a entrada – e um pensamento atravessou o coração semi-puro do irmão do meio. Quem pode lutar contra um pensamento? Seriam necessários muitos anos de meditação e treinamento para que Kan pudesse evitar a erupção de um pensamento assim, mas ele não tinha mais que alguns segundos:
                - E se eu ficasse com o tesouro? – Sussurrou. - Tenho direito; afinal, foi eu quem o encontrou. O sonho foi todo meu e só meu – era o Mal, as gárgulas que impediam a entrada no paraíso.
                Neste exato momento, com as mãos ainda nos chifres do metal, Kan, o filho do meio, o menino da água e do abismo, tornou-se poeira. Tui entristeceu-se. Chorou, mas ainda com lágrimas nos olhos tentou puxar o tesouro do buraco. Para sua surpresa, o touro de ouro pesava menos que a mão de uma criança. Ela o carregou de volta à fazenda com uma facilidade que surpreenderia ao mais forte dos homens.
                Em casa, partiu o touro em touros menores, todos de ouro e o dividiu com os irmãos, com o pai, com a mãe, com todos os moradores do vilarejo que espalharam pelo mundo seus pequenos touros dourados. Kan, o irmão que errou, já não existia com limites definidos, mas se manifestava em cada gesto da irmã, que todas as pessoas daquele lugar diziam ser uma santa e ela, de fato, era uma santa... Uma santa que primeiro se chamou Tui, depois Joana, depois Geralda, depois Márcia, depois Maria, depois Tatiane. Depois, Oração, simplesmente, como um menino frente a Deus.




quinta-feira, 5 de outubro de 2017

SOBRE A CAIXA DE FERRAMENTAS

Ouvi dizer que certos monges no Himalaia atravessam semanas e semanas para construir a mais bela mandala de areia... Quando a mandala, enfim, fica pronta; eles, prontamente,  destroem-na. Não há homenagem maior à impermanência das coisas, ao fogo, ao rio, à atividade em si e não ao resultado: Heráclito anda por aí e o wu wei também. Logos é o Tao do ocidente. A lição que fica para o artista aqui é o desapego, o gosto por dar forma: o ovo é o caos do pássaro, sem vaidade e sem esperar resultado. A orquídea não floresce por causa do olho humano, embora o olho humano saiba guardar a beleza. Mas, por que é que escrevi isso tudo mesmo, hein? Ah, sim! Eu também escrevi um livrinho intitulado A delicadeza dos hipopótamos, no qual, basicamente, um filho volta à cidade onde nasceu para tomar o lugar do pai... Mesmo sem saber, mesmo contra a vontade, mesmo sem ter filhos; um dia, nós também nos tornamos o pai.
Meu pai sempre teve habilidade para trabalhos braçais... Trabalhava em metalúrgica, mas faz, desde sempre, trabalhos de pedreiro, eletricista, marceneiro, encanador; e, quanto maior o desafio, melhor. Já com mais de sessenta e cinco anos levantou, praticamente sozinho, um sobrado de sete cômodos nos fundos de casa. Quando alguém perguntava para que ele estava fazendo aquilo, naquela idade, quem iria morar lá, ele respondia sereno:
- Tenho netos, mas não sei. Meu trabalho é fazer...
Quando precisava fazer algum trabalho na minha própria casa, sempre chamava meu pai...  Nunca tive tempo ou vontade. Quando eu mesmo tinha de fazer o serviço, caminhava até a casa do velho e pegava a ferramenta necessária emprestada. Ele ficava puto. Um homem tem de ter suas ferramentas! Pois bem, aos poucos, fui tomando gosto em arrumar as coisas, em colocar tudo nos seus devidos lugares. A vida fica mais fácil com um pouco de organização e Deus não entra em casa suja. Então, dias atrás, fui até uma casa de materiais para construção e comprei uma furadeira, um martelo, a marreta, uma caixa de ferramentas completa, parcelada em três vezes no cartão. Gosto de escrever e, enfim, percebi que escrever e consertar as coisas quebradas que encontro pelo caminho são trabalhos semelhantes.

domingo, 1 de outubro de 2017

OUTUBRO

Ando pensando em Alberto Caeiro: “Há metafísica bastante em não pensar em nada.” - e em Martin Heidegger. O mundo em si é simples, se aceitarmos o mistério. É preciso não ter filosofia para compreender as coisas. Talvez por isso o Rosa tenha recorrido aos jagunços, às crianças, aos cangaceiros; eles é que são os sábios. A sabedoria é natural. Há quem tenha sabedoria, mas não conhecimento. Há quem tem conhecimento, mas não sabedoria. E há os raros que têm tanto conhecimento quanto sabedoria... Lao Tsé: “Conhecer reconhecendo a ignorância fundamental é saúde mental.” O problema é que já chegamos às coisas com as lentes sujas. Desde a infância, na escola, o humanismo deposita conceitos e mais conceitos em nós... E, quando chegamos às coisas recheados de conceitos, perdemos as coisas porque projetamos a nós mesmos em tudo o que vemos. Contaminamos tudo! Estamos tão mergulhados na complexidade, que, quando dizemos as coisas mais simples, como fez Heidegger, parecemos complexos. Quando perdemos a naturalidade, sofremos e, quando sofremos, tornamo-nos Midas, tudo o que tocamos – com o ouro da razão – destruímos. Olha o Rio Doce. Outro dia vi uma reportagem. Destruímos o rio; mas a natureza, aos poucos, se reconstrói. Basta deixar o Rio quietinho e, em alguns anos, o teremos vivo de novo. Mas este é nosso grande desafio: ficar quieto, deixar as coisas quietas... Temos a impressão de que temos de estar o tempo todo fazendo alguma coisa, é um modo de não lembrarmos nossa finitude, nosso nada... Mas, ao não nos aquietarmos, vamos violentando as coisas. E, depois, quando aparecemos com as soluções, as conquistas da tecnologia e das ciência$, esquecemos que boa parte delas são soluções para problemas que nós mesmos criamos – é um círculo vicioso – ainda que a aspirina seja uma tremenda invenção, como percebeu o João Cabral.

sábado, 30 de setembro de 2017

SERENIDADE

(para Nivaldo Ornelas)
Feito gatos
os pensamentos vêm se alojar no meu regaço.
Não me apego a eles.
Observo-os.
Acaricio a cabeça deles.
E, um após o outro,
deixo-os passar.
Eu não sou meus pensamentos,
Sou o sopro.

sábado, 23 de setembro de 2017

MEU DOCE SENHOR

Pergunta-se ao menino:
- O que é que você tem, Dan?
- Nada.
- O que é que você tá fazendo sozinho aí?
- Nada.
E qualquer um pode afirmar a ausência do Ser, mas quem postularia a ausência do nada?
É pelo silêncio que o som se revela; é pelo nada que sentimos o Ser e é suave, e é doce.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

O ÚTIL E O INÚTIL

O olho útil não vê a floresta, vê um reservatório de minérios. O olho útil não vê a montanha, vê reservatório de pedras; não vê a cachoeira, vê produção de eletricidade. Nada contra o olho útil; mas o olho inútil, o olho que guarda, salga a terra, abençoa os campos, sagra os bichos e as flores; é o lugar onde a Natureza, o Ser, Deus, o Tao manifesto, o nome que você quiser dar à Consciência, abre-se para se rejubilar das belezas que criou.
O olho inútil é o guardião do Mistério. Ele sabe que o transcendental não se encontra no Além, mas na sensualidade de menina, na calma do gato, na volúpia do bode, na força do leão.
Disse Chuang Tzu:
“Todo homem sabe como é útil ser útil
Ninguém parece saber
Como é útil ser inútil”.
Disse Manoel de Barros:
“O poeta é um inútil, tão inútil quanto um trapo”.
Disse Martin Heidegger:
“O homem não é o Senhor do Ente. O homem é o pastor do Ser”.
Adoecemos porque esquecemos a importância do inútil.
Sentado sobre a ponte, observo o rio lodoso, sujo, ferido, violentado, fraturado da minha cidade. Ele, assim como eu, corre ao contrário, em busca da própria Fonte. O homem é um regato cuja fonte se encontra velada. Ele, assim como eu, lava-se, limpa-se, em suas próprias águas. A diferença é que ele flui, às vezes lento, às vezes ágil; enquanto que eu permaneço sentado, coluna ereta, coração tranquilo, deixando a correnteza que me atravessa fazer seu trabalho.
Como é útil ser inútil!

sábado, 16 de setembro de 2017

Madre


Vejo o café caindo no bule e não consigo conter as lágrimas, mesmo assim continuo coando o café. É incrível a capacidade que as coisas têm de prosseguir. Do fundo do bule ouço o eco da sua voz grossa repetindo: Deixe disso menino, homem não chora. Agora choro sim, mas não choro alto. Choro baixo, por dentro, porque até esse café me parece impossível, absurdo, depois que ela se foi. Você dizia que eu não tinha responsabilidade, pai, agora tenho. Tenho responsabilidades até demais, mas minha filha vive longe, numa outra cidade, talvez você dissesse que isto também é culpa minha e talvez até seja mesmo. Mas não quero me explicar. Sinto asco desse eco da sua voz no bule. Sinto asco de tudo o que fomos e do fracasso, do abismo que existe entre você e eu. Não vou ficar aqui explicando nada, ou tentando te entender e me entender. Prefiro provar desse café amargo e sair pra rua, embora saiba que a rua também não vai resolver. Embora saiba que, na rua, as pessoas caminharão sem saber que ela morreu e já faz algum tempo. As pessoas continuarão caminhando indiferentes, voltando pra casa, indo ao bar, à padaria de pães frescos e perfumados, às farmácias que vendem a cura para quase tudo. Prefiro, e isto é uma certeza, sair pra rua. Ainda que chova, não me importa a chuva, porque é como se ela não me molhasse é como se essa dor imensa me protegesse dos pingos, como aqueles anjos dos quadros que têm na cabeça uma auréola dourada.
            Há tempos não faço a barba. Mas não pareço o leão, não aquele leão forte do circo que o senhor dominava sem fazer o menor esforço, pareço mais com um cachorro, um cachorro do qual o senhor nem deve se lembrar. Um cachorro sarnento, banguelo e vesgo que um dia apareceu pelo circo, não me lembro em que cidade estávamos, e ela, a nossa Carmen, o alimentou e cuidou dele, mas o senhor não permitiu que ele, o cachorro, seguisse viagem com a gente e quando desmontamos o acampamento e colocamos tudo nos caminhões e estávamos indo embora ele ficou parado, quieto, no meio do terreno, nos olhando como se entendesse tudo.
            O senhor pode até estar achando ridículo todo este sentimentalismo, afinal, como o senhor mesmo disse, ela nem era minha mãe, era apenas uma de suas mulheres, mas foi ela quem me criou e cuidou de mim e me fez enxergar umas coisas bonitas no mundo. É difícil pensar nisto tudo, ficar lembrando e relembrando, mas nem sei se uma coisa que nunca sai da cabeça da gente pode ser chamada de lembrança. Com certeza, você vai achar que estou exagerando, que estou pegando pesado no sentimentalismo. Toda bicha é exagerada.Você costumava dizer; mas, ao contrário do que você pensava, não sou veado. Sou homem, porra! E, apesar de tudo, tenho até orgulho de me parecer com você em algumas coisas. É verdade que não são muitas, na minha opinião, as coisas nas quais nos parecemos, mas para Carmen sim, eram muitas as semelhanças, ela vivia dizendo que eu me parecia cada dia mais com o senhor. Só queria saber por que você nunca mais voltou? Queria saber o que foi que fizemos de errado pai, pro senhor desaparecer assim? Depois que o senhor se foi, ela nunca mais tocou violão, nunca mais colocou um daqueles vestidos vermelhos ou fez uso de suas castanholas. Pra ela havia eu, que era parecido com o senhor, mas que não era o senhor e muitas vezes eu me deitei com ela pra tentar consolá-la, não como um amante, nem como um filho, nem como um marido. Não sei definir o que éramos um para outro, só sei que não havia sujeiras.
            Não tenho casa pai. Talvez nisto também tenha puxado o senhor. Vivo neste quarto até agradável, entretanto sei que amanhã, ou depois de amanhã, não estarei mais aqui. Não sei se estou procurando pelo senhor, sei que não paro quieto e que nós dois estamos juntos e sós neste mundo. De alguma forma, nós dois somos uma coisa só, apesar de separada. Foi difícil pra mim admitir isto, sei que pro senhor também será, mas é a verdade.
            O pior é que no final ela nem conseguia se levantar mais. Já não falava, estava velha, murcha, triste, mas os olhos dela... Ah! os olhos dela, gostaria que o senhor pudesse ter visto os olhos dela. E pra acabar de piorar tudo de vez a Mariana, essa minha ex-mulher, começou a implicar com ela, estranhava talvez o excesso de ternura que havia em mim por ela, Carmen. Ela nem é sua mãe.  Dizia, também, constantemente, Mariana. Não sei se ela desconfiava do que havia entre nós, mas o fato é que nos últimos tempos ela, Mariana, não suportava mais olhar pra Carmen e Carmen também não a suportava, isto percebia-se pelo olhar dela. O cúmulo, o ápice desta situação maluca foi numa tarde em que eu cheguei do trabalho e encontrei a Mariana esbofeteando feito um bicho doido o rosto da nossa Carmen. Num ímpeto cheio de fúria expulsei essa mulher de casa, com filha e tudo, pus ela pra correr a pontapés e coloquei Carmen na cama,  as lágrimas escorriam pelo rosto ainda moreno, e me deitei junto dela em silêncio, no silêncio mais profundo e luminoso que o mundo já fez.
            Abandonei o emprego, contratei um enfermeiro, comprei um carro pra levá-la ao hospital, cheguei até a me vestir de palhaço e animar festas como antigamente pra conseguir algum dinheiro visando o tratamento dela, mas nada adiantou. Um dia, de manhã, ela simplesmente não abriu os olhos.Como diriam em Minas Gerais, acordou morta.
            Enterrei-a só. Chorei só. Voltei pra casa onde eu morava, só. E continuo só, mas não é uma solidão pequena como essas de alguém que se tranca no quarto. É uma solidão imensa, profunda, solidão de quem está só num mundo inteiro vazio. Por isto escrevo pro senhor mesmo sem saber para onde enviar a carta, porque o senhor é a única pessoa no mundo inteiro que pode me fazer companhia nesta dor. O senhor é a única pessoa que pode habitar comigo esta dor certa, real, indescritivelmente verdadeira e eterna.
            Por enquanto vou caminhando à noite e volto pra casa quase sempre debaixo dessa garoa fina. Bebo o café que eu mesmo preparo e, quando sinto vontade, estendo crisântemos e rosas vermelhas na janela. 

terça-feira, 12 de setembro de 2017

HALLELUJAH

NO FUNDO, TODO DESEJO É DESEJO DE SER AMADO. Almejamos fama, poder, bens, porque imaginamos que, com isso, seremos mais amados. O desejo, entretanto, não é amor, mas ruína. E, mal realizamos um desejo, passada a euforia, notamos que o buraco continua lá. E, Deus, como dói! Há uma frase de Nijinski: “sou aquele que morre quando não é amado”. A fama é um modo de tentar encher o buraco com amor, uma ilusão de ser amado por todos. Por mais que tivesse a aprovação do mundo, faltava ao cantor Johnny Cash a aprovação e o reconhecimento do pai. O mesmo acontecia com a estupenda Etta James. Almejamos a fama, porque imaginamos que a admiração do mundo fará com que aquele amor fraturado pelo qual ansiamos: do pai, da mãe, dos irmãos mais velhos, virá de troco quando perceberem o que realizamos, o quanto o mundo nos admira, só que não. Almejamos o poder; porque, já que não temos amor, nos contentamos com o medo, ou ao menos o respeito alheio, só que não também. Almejamos dinheiro e bens; porque, já que não nos achamos dignos de amor, que ao menos admirem nosso carrão, nossas joias, nossa casa na praia; só que... Não!
Aquilo que deseja em nós, deseja sempre mais. O desejo quer desejar e lança sempre seus tentáculos para fora, para o que não se tem. Nunca haverá satisfação, porque a falta é nosso pecado original. A solução nunca está fora. O rei Davi tinha mais de mil mulheres, mas desejou a companheira de Urias, Betsebá, e essa foi tanto a ruína do rei quanto a do soldado.
A solução, então, é encontrar-se, lançar para dentro aquilo que se busca fora. Amor próprio, ou auto-amor. Precisamos ser pacientes conosco, como somos com nossos filhos. Precisamos nos amar como amamos os filhos, os quais não precisam nos conquistar ou impressionar, basta que sejam como são. Se vierem a fama, o dinheiro e o poder, ficaremos felizes por eles, os filhos, mas isso não é condição indispensável. Dos filhos, amamos até os defeitos. Jesus de Nazaré deixou um único mandamento que nos conclama a amar ao próximo como amamos a nós mesmos. Se não nos amamos, se não nos aceitamos e compreendemos como somos - iluminados e obscuros -, que tipo de sentimentos e exigências lançaremos na direção do outro?
Viver é simples, tem cheiro de café e som dos pássaros cantando lá fora.

domingo, 10 de setembro de 2017

NOSTALGHIA

Muitas vezes, não sei bem o porquê, as pessoas vêm falar comigo. O tio da van sempre parava para bater papo enquanto as crianças não saíam da escola. Eu ficava ali, cumprindo meu horário e ele esperando. Eu o admirava pela paciência, pelo modo como se dedicava aos pequenos. Nem sempre é fácil lidar com eles. Geralmente conversávamos sobre trivialidades: o prato-feito mais gostoso da vila, a melhor feira livre, o pastel mais gostoso... Pelo modo como era delicado, eu sabia que ele tinha uma pereba escondida em algum canto sob a roupa: um amor fracassado, ou um filho morto, ou uma filha que caiu na vida... Algum espinho tinha. E eu o admirava por isso. Certa manhã, pouco antes do meio dia, ele estava triste; mais triste que o normal. O contrato dos donos de vans com a prefeitura tinha sido revogado e ninguém mais trabalharia. Aquele era o penúltimo dia de trabalho.
- E aí – ele disse.
- É, está chegando ao final, não é mesmo?
- Pois é.
- A canalha política sempre apronta dessas. Como é que você vai fazer agora?
- Sabe, profe, daqui a uma semana completo sessenta e cinco anos... Já estou aposentado. Amanhã volto para minha terra. Quero terminar meus dias por lá, no lugar onde nasci, onde sonhei.
- Isso é bom.
Ele suspirou, sorriu meio sem graça. O sol brilhou de um jeito estranho nos olhos azuis, no cabelo branco. A luz era tanto mão quanto carícia.
- Volto pra morrer em casa. Toda a vida, vivi uma ilusão. Até semana passada ainda sonhava com um milagre... Vim do interior para me dedicar à música, para viver de música, sabia? Nunca deu certo. Trabalhei, casei, comprei casa, carro, sítio, criei os filhos... Cantei em casamentos, mas nunca aconteceu. Agora desisti... Não tenho mais porque ficar aqui.
Eu não soube o que dizer. Fiquei quieto. Não demorou muito, as crianças saíram. Ele pegou as pequenas no colo e ajeitou no banco do meio, os maiorzinhos espalhados entre os bancos de trás e o da frente. Acenou com a mão. Alguém gritando.
- Inté, profe!
- A gente se vê por aí, Seo Genaro.
Deu a partida e saiu devagar, olhando o prédio, os grafites no muro, a quadra: todo o concreto em silêncio.
Quando os velhos voltam para morrer no lugar onde brincaram na infância... Quando voltam com troféus e sonhos não realizados nas malas, eu me lembro da miséria e da comédia humana e de um filme do qual ninguém gosta e da palavra que lhe dá título: NOSTALGHIA.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

QUALQUER DIA, AMIGO, EU VOLTO A TE ENCONTRAR

Não fui um adolescente fácil; mas não era minha culpa, é que, de repente, eu via hipocrisia em tudo: a tia moralista tinha tido um caso na juventude; o parente conservador tinha abandonado a família. Jovem é bicho muito exigente! E aí, com vinte anos, fui morar em Assis. Perdi uma pessoa que achei que levaria para o resto da vida e fiz o que qualquer garoto saudável e rock n´roll faria: farra! Disse a boca sob o bigode: “quando o orgulho está em jogo, a memória cede”. Cedeu, mas demorou alguns litros de cerveja e alguma dor de cabeça pra um bocado de gente que gostava de mim.
Como estava longe de casa, quem mais cuidava de mim era meu amigo Francisco. Ele era um pouco mais velho, já tinha família, quatro filhos. Éramos da mesma sala. Fazíamos todos os trabalhos juntos. Ele sempre aconselhando. Fazia questão de me levar pra almoçar em casa, antes de começarmos as atividades. Percebia que eu andava comendo muita água e pouca comida. Lembro da pescaria no sítio dele... Voltei com a sacola cheia de peixes, mistura pra uma semana.
Terminamos a faculdade, começamos a lecionar, voltei pra São Paulo, interessei-me por filosofia. O Francisco sempre foi um tremendo professor; eu, nem tanto. E então, em março deste ano, meu amigo Francisco morreu; assim, do nada. Aos cinquenta e sete anos. Fiquei sabendo na manhã seguinte. Larguei tudo aqui, peguei o carro e corri pra Assis. Levei duas multas por excesso de velocidade e, nem assim, consegui chegar a tempo... Mas consegui dar um abraço na esposa e nos filhos dele.
Outro dia foi aniversário do Francisco. Ele completaria 58 anos. O facebook me lembrou. Passei o dia pensando no cara e ouvindo as canções de que ambos gostamos. No dia seguinte, tinha de ir pra Amparo, visitar minha sogra que está internada. No caminho, um caminhão imenso fechou meu carro. Viajou à minha frente por uns trinta quilômetros. Na traseira estava escrito: TCHESCO. Apelido que eu tinha colocado no meu amigo, ao qual também chamava de Paco, dependendo do grau de pinga. Afeto, laços e sincronicidade.
Acho que hoje tento dar aulas melhores. Minha maneira de dizer que o incorporei a mim, Tchesco. De dizer sua importância. De relembrar nossos sonhos de escrita e leitura.
Qualquer dia, Francisco Campos, a gente vai se encontrar.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

A LEITURA É INÚTIL,

A LEITURA É INÚTIL,
mas isso não é ruim. Qual é a utilidade de um beijo? De um sussurro? De segurar um filho nos braços? Qual é a utilidade de por os pés no mar? De ouvir uma canção? Não podemos transformar o ato de ler em um meio. A leitura é um fim em si mesmo. Não lemos, ou não deveríamos ler, para ter assunto, argumentos, para escrever curriculum vitae, ou vencer debates... Tudo isso pode vir com a leitura; mas a leitura é do âmbito do ser e tanto pode envolver o fracasso quanto a glória.
Filosofia é o nome de uma coruja velha, desdentada.
Trituramos a infância preparando as crianças para a batalha da vida.
Não podemos confundir um homem com uma chave de fenda... Uma mulher com um alicate. O ser humano não é uma ferramenta, um recurso. Claro, todos temos papéis sociais: “você acredita que é um doutor, padre ou policial e que está contribuindo com sua parte para o nosso belo quadro social”; entretanto, a máscara não é o rosto, o papel não é o ator, o falso self não pode usurpar o lugar do self verdadeiro. O gerente não é o dono do corpo, o corpo é.
No meu trabalho, tem um quadro com os benefícios da leitura. Eu olho, eu sorrio. A leitura é aventura e não há aventura maior que respirar. O útil constrói, mas é o inútil que dá sentido. Utilizamos apenas a exata extensão do solo que está sob nosso pés; mas já imaginaram o que aconteceria se todo o resto da terra, por ser inútil neste instante, desaparecesse?
Fado, sina, lei, tesouro.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

O GUARDIÃO DE ALMAS


“Vidas pequenas na esquina.”
“E o grão de tão pequeno ser tão grande o que a gente é. Ser esse destino de pessoa que sonhou.” Você pode chamá-lo de comerciante, uma vez que vendia livros. Você pode chamá-lo de monge, uma vez que acendia incensos e cuidava dos livros como se fossem a materialização das almas dos sábios ancestrais. Você pode chamá-lo de velho; quando eu o conheci, ele já tinha mais de setenta. Lembro que sempre havia um perfume no ar. Às vezes era incenso de flor de laranjeira, às vezes era o odor do cachimbo. Onde há fumaça, há fumaça. Para que especular? Coração tranquilo... O sebo era perto de casa, mas não muito. Dava uns vinte minutos a pé. Comecei a frequentá-lo com 14... 15 anos. Quando tinha algum dinheiro, comprava livros. Quando não tinha, trocava. Quando não podia comprar nem trocar, ele me emprestava. Foi assim que conheci Machado de Assis, Clarice Lispector, Sylvester Stallone e o clássico Hell´s Kitchen, Kerouac, Proust. O velho tinha sido bibliotecário e agora, depois da aposentadoria, abrira um sebo na periferia porque não conseguia ficar longe dos livros. Se tive algum mentor, devo dizer que foi ele, pois foi, dentre outras coisas importantes, quem primeiro me apresentou os beats. Eu sempre aparecia com uma camiseta de banda de rock. Então, um dia, ele me deu o On the road, na edição da brasiliense: “acho que você vai gostar desse.” Na mosca. De outra feita, falou-me do autor que influenciara os beats: Proust. “Todos esses volumes são um único livro?” “Sim, e que livro!” Comecei a ler No Caminho de Swann, mas não passei da página 84, ficava nervoso com o protagonista mimado querendo um beijo da mamãe, pulei logo para Sodoma e Gomorra😯! Até hoje não li Em busca do tempo perdido na íntegra, como também não li a Bíblia. Uma vez, cheguei lá e ele estava meditando... O incenso... O silêncio... Depois abriu os olhos: “Não basta ler os livros dos outros. Livros são olhares sobre o mundo, almas presas ao papel. É preciso também ler o livro que se é e o livro do mundo. Voltar às coisas mesmas.” 
Passou tempo. Fui pra Assis estudar. Quando voltei pra casa, fui ao Sebo. Ele não estava mais lá. Uma velhinha, esposa, tomava conta do lugar. “Ele morreu dormindo.” O incenso de laranjeira ainda queimava. Como o perfume do incenso, o guardião de almas agora se espalhava no ar e, ao mesmo tempo, se reunia às almas irmãs.
Ontem, entrei numa loja de produtos naturais pra comprar mel, ando meio gripado, e senti o cheiro de incenso de laranjeira. Automaticamente, todo um mundo se reconstruiu em mim... Mortos voltaram à vida, eu rejuvenesci, livros contemplavam silenciosos o adolescente... Odor de cachimbo e flor. O passado não foi, o passado é. Quando me movimento, o passado se movimenta comigo. Se sento, o passado também se senta e espera pra engendrar o futuro.

sábado, 26 de agosto de 2017

O BOXEADOR E A STRIPPER

As coisas querem ser escritas, assim como as plantas querem ser regadas e os gatos, acariciados. Elas, as coisas, inclinam as cabeças em nossa direção. Outro dia escrevi sobre uma canção popular; ontem, outra canção pediu: “E sobre mim, não vai escrever?”
Começou assim: eu tinha descoberto o primeiro conto publicado da Clarice Lispector: Triunfo, no qual  Luísa “desperta” depois de o marido ter partido. Parece-nos que ela amava mais, mas o conto termina com a sentença:  “Ele voltaria, porque ela era mais forte.” Fiquei pensando na força da delicadeza. O que parece frágil, é forte. O que parece forte, é frágil. Diz o Tao Te Ching, no poema 36: “Assim os submissos e fracos conquistarão os duros e fortes.” Todos os dias, leio trecho de um texto sagrado, de manhã, e, ontem, caiu de ser bem este. O mundo se observa naquele que escreve. E aí me lembrei da canção. Ela também vem da adolescência: o clipe na MTV, a melodia dolorosa e o final: so free her! Woman in chains, do Tears for Fears.

No vídeo, vemos o duro término de um romance entre um boxeador e uma stripper. Ele é muito mais musculoso, mas é ela quem é forte e é quem quer partir. Ele tenta, de todas as formas, represar a água selvagem, colocar margens na mutação, mas ela já está em outro lugar, triste também, porque todo final é triste. Como é um atleta, ele não enche a cara, mas pratica exercícios físicos até depois do limite. É no meio de uma corrida que ele perde o fôlego, chora e consegue enfim libertá-la: a expressão de dor, como se tivesse descoberto um tumor. Difícil é esperar até as coisas voltarem a fazer sentido outra vez. Até conseguir pensar no futuro. Quando levamos um pé na bunda, um abismo se cria entre nossa alma e as coisas lá fora; temos a impressão de que vamos nos dissolver no próprio abismo. Ao final, o boxeador conversa com uma pomba, ainda presa entre as mãos, e faz cara de idiota. Eu também já fiz exatamente aquela cara.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

UM ORGASMO EM FORMA DE CANÇÃO

Lembro que, nessa época, reformávamos a casa da frente e morávamos na edícula. Eu estava sentado no degrau da porta da cozinha, quando começou a canção. Entender o que era dito, não entendia; mas o meu cerne captava o jogo de vozes, de suspiros, de gemidos... Naquele tempo, tudo era sensação, comunhão mística: império dos sentidos. Hoje, passados muitos anos, diria que aquilo era um orgasmo em forma de canção.
A primeira vez que ouvi Je t'aime... moi non plus, com Serge Gainsborug e Jane Birkin foi assim... De algum modo, entrei também no jogo, a trois. Eu sei vocês não sabem do lixo ocidental... Andando de sobretudo, no frio de Paris, a Torre Eiffel e tudo o mais. E eu menino, aqui, também perdi o controle sobre mim, experimentei também uma experiência mística, uma pequena morte, essa ausência de eu que o momento do orgasmo nos proporciona. Por mais que o homem seja forte, duro; no momento do orgasmo, o eu se dissolve, desloca-se para os quadris, torna-se todo movimento. Os dionisíacos tinham razão: não há espaço para o sagrado para quem está cheio de si e, durante o orgasmo, quem é que não se esvazia? O gozo abre uma fissura, uma fenda na armadura.
Tempos depois, eu lia e queria ser um daqueles investigadores de pedra de Dashiell Hammett, quando vi o vídeo pela primeira vez, na casa de um amigo. Serge era a personificação dos homens de Hammett. Feio, duro, machucado de alguma forma pela vida. Alguém que sofre e não murmura, mas engole sua dor junto com doses generosas e muito tabaco. E Jane Birkin? Pura entrega, inocência que geme... Amando a ferida de seu homem. Um homem com uma dor é muito mais bonito... A Bela e a Fera... Eu vou e venho entre seus rins. Você vem e vai entre meus rins.
- Eu te amo.
- Eu não mais.
Ela, pura confiança; ele dor, medo de ficar vulnerável, insônia e olheiras. É mentira que não ama mais, mas tem medo de se tornar frágil. Diz que não precisa de ninguém, nem de nada, além de seus cigarros e seu álcool.
Os estetas diriam se tratar de uma canção brega. Mas do que é que os estetas sabem? Não é necessariamente uma canção, mas a tradução do sexo, do amor que se instala, em notas musicais. A dor e a ternura entrelaçadas. O homem das ruas e a menina angelical. E Paris como cenário. Que mais uma canção poderia almejar?

sábado, 19 de agosto de 2017

I-1

I, que já tinha sido de tudo, desde mosquito até leão, tinha desistido da forma quando desceu à cidade e encontrou Guaccaluz, o homem-aranha.
- Joguei com a vida, a aposta mais alta que se pode fazer. Não perdi, mas a vitória não me fez melhor. Vivo em bifurcações e qualquer caminho que escolho desemboca no desastre.
Guaccaluz arrastou-se para fora da sombra de I:
- Você é capaz de desistir de seus objetivos? É capaz de viver sem metas e ainda assim não se sentir orgulhoso ou num patamar que te dê direito de julgar aqueles que as têm?
I tornou-se um Emoji pensativo.
- Aquele que persegue, perde. A força que você mobiliza para alcançar um objetivo, gera uma contraforça na mesma proporção para afastar o objetivo de você. Perca-se! Seja espontâneo. Siga o caminho sem porquê, obedeça a naturalidade. Observe a aranha, ela fabrica a teia com toda a atenção, cuida de tudo sem pensar e lança os fios no exato espaço do vazio. De nada ela corre atrás; de nada reclama; faz apenas o seu trabalho e confia. Como que hipnotizada, a presa corre ao seu destino. Seja como a aranha, não corra atrás de amor, amizade ou pão; tampouco se orgulhe disso. Não é por orgulho que não se persegue, mas por gratidão e despojamento.
- Já fui aranha – disse I, lembrando de uma de suas últimas mutações.
- Mas esqueceu rápido a lição da teia: aquilo que lhe é destinado, vem até você. Faça seu trabalho e confia. E, lembre-se: “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades!” Ainda está disposto? Ou não almeja o trabalho como fim, mas como meio para a fama? Ao tratar seu trabalho, sua teia, apenas como meio, você enfraquece sua teia, enfraquece seu trabalho...
- É que Fulano faz o mesmo e...
- E nunca se compare com os outros. Se puder, nem sequer compare-se consigo. Esteja presente. Instale-se no agora.
Então o sol se quebrou em dez mil pedaços e a escuridão afugentou a luz. Durante doze gerações, sem qualquer vida ou geração, a forma recolheu-se ao vazio e o som, ao silêncio.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

E O PENSAMENTO POR JARDINEIRO

Eu, ao mesmo tempo jardim e jardineiro
Para além da pele, a pura ação de jardinar
Recolher as pragas, podar os galhos, limpar as ervas daninhas
Meu corpo floresce de alegria, 
Grato pelo sopro e a forma
É primavera dentro e fora de mim
Aprendi a rejuvenescer
Aqui um copo-de-leite, acolá um girassol
Mel brotando das genitálias
A vida e o corpo como jardim
E o pensamento por jardineiro.


ANTES O SILÊNCIO QUE A VERDADE

Todo mundo sabe que a verdade é melhor que a mentira; o que ninguém diz é que o silêncio é melhor que a verdade. Todo conflito, atrito, guerra, confusão que há no mundo é fruto da verdade, não do silêncio ou da mentira. Se têm a verdade, guardem-na para si. Não há verdade baseada num falso eu. E, nessa confusão de celulares, trânsito e tablets, quem é que sabe onde o eu verdadeiro, a criança em estado de gentileza foi parar? Brincar de viver é vagabundagem. Você afirma que fala a verdade, mas sua verdade é pura sociologia; não se trata necessariamente do verdadeiro, mas daquilo que fizeram você acreditar que era o verdadeiro. SUA verdade é uma verdade judaica, budista, muçulmana, ou cristã; católica ou protestante; norte-americana, europeia, africana, ou brasileira; gaúcha mineira ou paulista; branca ou negra; feminina ou masculina, de direita ou de esquerda... Sua opinião não é sua, foi incutida em você; então por que essa ânsia de divulgá-la e defendê-la? Tire essas cangalhas. Esqueça sua identidade, seu número de RG, suas crenças e credenciais. Esqueça o seu pensamento, o que você chama de pensamento, na maioria das vezes, não passa de barulho, ruído, culpa, preocupação. A grande lição de Bergson é o uso da intuição como método; mas quem pode ouvir a intuição em meio a tanta microfonia? A maioria das verdades que ouvimos das pessoas por aí, são verdades baseadas no ego, naquilo que Winnicott chamou de Falso Self, no eu de fora que nos esmaga; e, então, queremos descontar em cima de alguém o peso da verdade que foram empurrando, jogando, sobre os nossos ombros. Ombros que suportam o mundo; mas o mundo sem essas construções todas não pesa mais que a mão de uma criança. A gente só dá aquilo que tem e se sentimos o mal-estar, a herança que deixamos é mais mal-estar. Este eterno mal-estar na cultura que Freud foi bom em diagnosticar, mas não em curar: morreu abraçado ao monstro que combatia. Não há pessoa mais insuportável que aquela que afirma: “sou sincera, digo a verdade, não vou mudar, quem quiser que me aceite assim!” Que sinceridade é essa baseada num eu de mentirinha? Num eu formatado? Se o silêncio é mais importante que a verdade, a gentileza é mais importante que a sinceridade. Então, antes de gritar verdades em praça pública, esqueça. Esqueça sua opinião, o que você acha que é, esqueça seu trabalho, seu partido, sua religião... Esqueça todo esse ruído que não é pensamento, mas repetição sem diferença. Esqueça inclusive este texto; entregue-se aos sentidos, entre no mar, sinta o cheiro da comida, a brisa, a voz do amigo. Isto é ser, e só emerge quando você sente sem julgar. Julgou, fodeu. É o egão, o Falso Self, querendo dar as cartas, aquilo que, na maioria dos meus textos, chamo de Monstro. Ele é medroso, melindroso, orgulhoso, perigoso; leva à trilha do assassinato ou do suicídio. Lembre da lição de Amélie Poulain, que sentia prazer em ser, em enfiar a mão num fardo de feijão. Pura estética, do grego do grego aisthésis: percepção, sensação, sensibilidade. Quando a estética em arte se torna um construto da razão, cagando regras na correnteza, então não há esperança para a Arte. Arte é liberdade, mas isso já é outro assunto.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

TEMPO, TRAGÉDIA E O DIABO NA RUA NO MEIO DO REDEMOINHO

Para os gregos, havia três instâncias temporais: aion, cronos e kairós. Esta última seria uma medida de tempo próxima à duração, de Bergson. Por exemplo, o tempo que um torrão de açúcar dura pra derreter na xícara de café, ou o tempo da nossa infância, ou a duração de um caso amoroso. Aion seria o tempo longe dos relógios, o tempo amorfo, mole, virtual, vazio e luminoso que age em silêncio, preparando o acontecimento e o atual. Cronos seria o acontecimento, o fato em si, o tempo enquanto evento. Por exemplo; desde que nascemos, começamos a morrer, esta morte lenta feito um rio viscoso estaria ligada ao aion; o infarto, a bala perdida, o escorregão na casca de banana, a cabeça fatalmente no meio fio, seria cronos. Para usar outro exemplo, agora ligado à literatura, pensemos no título do livro de Malcolm Lowry: À sombra do vulcão. A larva correndo sub-reptícia, vagando sob as placas tectônicas é aion; a erupção, quando o tempo e a larva se aceleram, é cronos.
Basicamente, a tragédia grega; ou melhor, a tragédia em geral, é estruturada entre aion e cronos. Há um acontecimento inicial que desembocará no final, acontecimento, terrível. Em Édipo rei, segundo Aristóteles o mais bem acabado exemplo da tragédia grega, há a profecia inicial: cronos; a fuga de Corinto e as perambulações do “herói”: aion;  o encontro com Laio e a consequente morte do pai e daí por diante... Cronos. O mesmo se dá nas tragédias shakespearianas: Hamlet seria o melhor exemplo. Há o assassinato do pai, a aparição do fantasma e sua exigência: cronos; então Hamlet hesita, parte, viaja, estuda, parece que nada acontece e o protagonista nada faz de fato: aion; e aí ocorre a volta, a vingança: cronos outra vez. Nos acontecimentos finais de uma tragédia, o tempo acelera; vidas e laços são destruídos como se arrastados por um tsunami: “o tempo fora dos eixos” como diz o príncipe da Dinamarca. Cronos é furioso, o que você esperaria de um cabra que capou o pai a mando da mãe?
Escrevi os parágrafos anteriores apenas para afirmar que a estrutura temporal dO grande sertão é a mesma de uma tragédia. Há o assassinato  de Joca Ramiro, pai de Diadorim, a busca por vingança, o pacto de Riobaldo, o rapto da mulher do vilão; mas, quando a vingança parece próxima, o tempo para, estaciona, estagna. Diadorim chega mesmo a acusar Riobaldo de estar enrolando para cercar Hermógenes. E então, tudo se acelera outra vez, o confronto, Riobaldo na janela vendo Diadorim matar e morrer pela lâmina, o corpo morto de mulher... Nas falas do narrador, a caracterização do aion: “Tempo? Se as pessoas esbarrassem, para pensar – tem uma coisa!-: eu vejo é o tempo puro vindo de baixo, quieto, mole, como a enchente duma água. Tempo é a vida da morte: imperfeição.”
No exato instante em que escrevo e você me lê, aion está fazendo seu trabalho sem finalidade. Tecendo destinos, preparando fatos, imaginando a quebra de sorrisos e lenços para lágrimas; portanto, amigos, não se iludam “tudo agora mesmo pode estar por um segundo.” Édipo rei, tempo rei, ó tempo rei, ó tempo rei.”


terça-feira, 15 de agosto de 2017

SÓ NÃO QUERO E NÃO VOU FICAR MUDO PRA FALAR DE AMOR PRA VOCÊ

Domingo foi dia dos pais. Claro, a gente sabe do comércio, da publicidade, das crianças que não conheceram os pais... Eu, entretanto, escolhi ver o lado bom das coisas; não ignoro o lado ruim, se posso agir de algum modo, ajo; se não, aceito, não penso nisso: preocupação, indignação, pena, não resolvem problema algum. Então, no domingo, fui lá dar um abraço no meu velho e ver meus irmãos, nós três somos pais, e fiquei pensando nesse troço estranho que é a paternidade. Lembrei de quando a enfermeira me mostrou a Sofia do outro lado do vidro, grandona, nasceu com mais de quatro quilos. Lembrei do João, que vi nascer, estava ali ao lado quando ele chegou ao mundo e já chegou fazendo coco na mãe, na enfermeira, em todo mundo, porque funkeiro é zica do pântano mesmo.
E, depois do almoço, que tava bom demais da conta, lembrei daquele meu amigo, todo bruto, bravo, durão, que teve uma filha. Aí, um dia, nós íamos sair pra jogar sinuca e a menina, então com dois anos, não desgrudava dele e meu amigo me mostrou, orgulhoso até, que ela já sabia as cores todas e, quando fomos sair, a menina ficou dizendo manhosa: “Quero o papai! Quero o papai!” A mãe dela ajudou, tentou despistar; mas, eu e meu amigo, chegamos até o portão e então ele fez uma careta, respirou fundo e disse: “ Vai lá, velho, hoje não vou!” E voltou mais leve, sorrindo, pra ficar com a filha. O povo fica discutindo a respeito de quem é mais importante se o pai ou a mãe: nem tudo neste mundo é uma disputa, uma corrida...
E, de tarde, no domingo mesmo, li um pouco do livro do Sr. Salomão Borges, pai do Lô, Marcim, Telo, Nico, Marilton, Solange e mais uma porrada. O livro se chama Tobogã. Simples, como tudo o que é sábio. Na noite em que o sexto filho, o Lô, nasceu, foi uma confusão danada, bateram o carro, choveu pra caramba, um rolo... Salomão contando do esforço pra criar onze filhos... As coisas simples da vida são tão profundas! Nunca senti verdade assim lendo Heidegger, Deleuze, Foucault....
E o Lemmy, do Motörhead, que teve filho com uma groupie? Anos mais tarde, a moça apareceu com essa novidade, ele assumiu o menino e tocou a vida. Bravo, bruto e roqueiro. O menino se tornou músico. Viam-se pouco por causa da vida louca do pai. Num dia em que estavam juntos, o filho pegou um baixo, o pai o outro e, com umas dicas e o olhar atento do pai, os dois reataram laços ancestrais. No documentário sobre o Lemmy, o filho conta esse episódio emocionado e diz que está preocupado com a saúde do pai – tempos depois o vocal e baixo do Motörhead faleceria. Lemmy nunca se derreteu, não fez qualquer carinho, aqueles toques a respeito do instrumento eram sua forma de demonstrar amor. E o filho entendeu e sentiu-se amado.
Então, gente, não sei muito bem o que quero dizer. O tal dia dos pais já passou, se você não gosta do dia dos pais por causa do capitalismo, dê hoje um abraço no seu velho; se você está brigado com seu coroa, deixe o passado para trás; se seu pai morreu, lembre-se dele, do que gostava de fazer, da canção preferida, do time para o qual torcia; se você nunca conheceu seu pai, abrace seu tio, seu irmão mais velho, seu avô, sua mãe. Amanhã pode ser tarde para dizer o que sentimos.

SOBRE A NOVA E POLÊMICA CANÇÃO DO CHICO BUARQUE

Já não faço apologia da dor, mas da alquimia, da transformação. Não importa o quanto se sofre, mas o que se faz com o sofrimento, no que você o transforma. Você pode transformar seu sofrimento num soco no rosto de uma criança ou numa explosão de cores, como fez Miró. Ir ao fundo, isso sim, porque o meio-dia é o começo da tarde e a hora mais escura é pouco antes de amanhecer. O desespero guarda a explosão de alegria e vice-versa.Então, outro dia, li num livro de autoajuda que “ostra feliz não fabrica pérola”... E lembrei, imediatamente, do Tim.
Final dos anos sessenta, Sebastião Maia geme numa cela nos States; enquanto, por aqui, Roberto e Erasmo, seus ex-alunos de violão, divertem-se com a jovem guarda. Tim sai da cadeia e volta. Mil e um perrengues, as exigências da Arte; humilhação e um pouco mais. Sem ter onde morar, vai viver num sofá na casa do amigo Fábio que, nesse momento, vive o auge do sucesso. A cada noite, Fábio traz uma namorada nova para casa. Às vezes se diverte com duas ou três mulheres de uma vez. Certa noite, Tim ouve o amigo pedir a uma das meninas que com ele brincam no quarto.
- Vai lá, pô, quebra o galho do gordinho. Ele é um cara legal!
- Eu não, ele é muito gordo, muito feio.
- E daí?
- Tenho um pouco de nojo.
Ouvindo tudo, deitado no sofá, observando um calendário, no qual uma moça linda entra de biquíni no mar, Tim Maia atravessa a raiva e se torna alquimista: transforma, aos poucos, sua dor numa canção. É a resposta, não uma vingança, apenas uma resposta... Som que não provoca silêncio no quarto. “Ostra feliz não fabrica pérola”. Elas, as pessoas do quarto, não chegaram ao fundo, não podem entender uma canção como AZUL DA COR DO MAR:
Ah! Se o mundo inteiro me pudesse ouvir
Tenho muito pra contar, dizer que aprendi
E na vida a gente tem que entender
Que um nasce pra sofrer enquanto o outro ri
Mas quem sofre sempre tem que procurar
Pelo menos vir a achar razão para viver
Ver na vida algum motivo pra sonhar
Ter um sonho todo azul
Azul da cor do mar

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

AQUELE QUE CUIDA

Tenho um problema sério de saúde que é crônico, mas não é fatal. Basta que eu cuide. Então, nessas minhas buscas por coragem para encarar meu destino, comecei a estudar a cultura do Oriente. Já tinha tido algum contato por meio da literatura de Herman Hesse, Henri Miller e Jack Kerouac; autores que, de algum modo têm um pé do outro lado do mundo; mas, nos últimos tempos, mergulhei de cabeça nos escritos de Lao Tsé, Chuang Tzu e no Sutra da Flor de Lótus. Vocês sabiam que a flor de lótus nasce nos pântano, suas pétalas não se sujam, se você jogar lama nela a lama escorre, e que a semente pode demorar até três mil anos para germinar? Por ser uma semente extremamente dura, precisa de um contato externo, algum trauma que rompa a casca e a faça florescer? Parece o ser humano, nénão? Qualquer semelhança não é mera coincidência. A gente só desperta na base da pancada.
E aí, no sábado passado, estava caminhando no parque quando uma coisa estranha aconteceu: os pássaros começaram a cantar, senti a sombra na minha pele, o sol imponente por trás, a diferença entre as árvores, os diversos tons de cor, na grama cresciam uma miríade de florezinhas amarelas, roxas e as cigarras também cantaram. Senti um tremor, era como se tudo aquilo fosse um sinal pra mim. Gratidão sem limites se instalou no meu coração, elogiei a florzinha amarela na grama, pedi desculpas por não tê-la notado antes e eu deixei de estar preocupado, elogiei também as árvores que me ofereciam sua sombra: “Ei grandona, você também é bonitona!” Naquele momento eu não tinha nenhum problema, nenhuma preocupação: nada além da paz. Uma vez na vida, eu ERA apenas, curava-me pelo SER. Uns adolescentes que brincavam por perto gritaram: “A lá o tio tá doidão!” – “Que doidão o que, menino, estou cantando, não pode?”
Tudo estava tão claro, tão bem cuidado, tão penetrado pelo Amor oculto. A vida no planeta sarreava com o homem-preocupação. Eu não era o que sabia, não era o que tinha; era só um vazio cheio de gratidão e alegria.
Caminhei mais um pouco e encontrei um senhor, negro, velho, porém jovial, vestido com um quimono. Coisas do Brasil. Ele estava com uma sacolinha e apanhava o lixo jogado na natureza, tinha também uma ráshi, com o qual apanhava as guimbas de cigarro. Parei para conversar com a figura. Como estava aposentado, todos os dias fazia aquele trabalho, por gosto, por gratidão. Para ele, não importava que não tivesse sido ele a deixar o lixo e, por fim, me disse:
- Nós, que estamos um pouco menos confusos, temos de cuidar daqueles que estão mais perturbados.
Ele tinha dito nós! Mal sabia que eu era puro barulho, preocupação só. Ou percebeu que, de algum modo, eu estava mudando?

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

ALQUIMIA

Com o tempo, você transforma a dor por ter perdido uma pessoa em gratidão por tê-la conhecido.
Com o tempo, você troca a ferida purulenta por uma cicatriz em forma de roseira.
A juventude grita, berra e bufa, porque viver é um aprendizado
E a gente acaba ferindo quem mais ama por estar mais à mão.
Metade de mim era anjo; a outra metade, pornografia
Metade de mim era desenredo; a outra metade, magia
Como selar a cisão?
Com o tempo, você percebe que não precisa ser fiel ao que disse ontem porque a gente é correnteza.
Afirma hoje a certeza do hoje e amanhã a certeza do amanhã
Sê fiel ao agora.
Perdoa, Senhor, aqueles que não se entregaram à amizade ou ao amor por medo de ficar na palma da mão de alguém.
Senhor, perdoa aqueles que não rezaram porque nunca se desesperaram de fato,
não se entregaram; atravessaram mornos a vida e morreram de morte morna
Perdoa também aqueles que passaram pela vida sem olhar para o outro lado da janela,
Tirando fotografias do que não conhecia e não via
Quando ouço certa canção, choro de bondade
O mundo é um pulmão que muito se assemelha ao nosso
Aqueçamos a lareira, acionemos o fole, soltemos os cavalos
Serenidade é um dos nomes do vazio
Com o tempo você agradece os fracassos; os vencedores parecem tão fúteis
Com o tempo você aprende a transformar ferro e bronze em ouro
O puro ouro da vida

JARDIM DA FANTASIA

O Homem, que, nesta terra miserável / Mora, entre feras, sente inevitável / Necessidade de também ser fera? Não quero crer, minha amiga, já tomei este caminho e sei que é uma trilha para o abismo. Beber da raiva e do ressentimento é como tomar cianureto esperando que o outro morra. Creio antes em Aliocha, no príncipe Míchkin... Idiota? Não, puro por opção. Sem levantar estandartes, sem fazer barulho, que barulho nada resolve mesmo. Evitar agir de modo interesseiro. Concentrar-se sempre no que se faz, sem esperar recompensas aqui ou no além... E, diante da corrupção, manter a serenidade, a coragem de ser simples, de deixar a boca cantar um pouco daquilo de que o coração está cheio. Não ignorar a contaminação; mas combater o mal com um sorriso, não com mal semelhante. Míchkin, o príncipe, o herdeiro, o epiléptico, no romance de Dostoiévski, não aprova as ações de Nastácia Filíppovna, cortesã de beleza estonteante e provocadora; ele, o príncipe, entretanto, sustenta nela uma fé inabalável, que vai além das aparências e enxerga a chaga e a dor que Nastácia carrega no coração. Diante de tamanha compreensão, a dama perde o compasso, tropeça na festa, está acostumada a ser desejada, julgada, e não compreendida. Nela os outros viam a pura exterioridade, ao passo que o príncipe... Minha educação não depende da sua, Senhora, depende apenas de eu ser educado. Já tomei do veneno e quem teve úlcera fui eu. E, se não houver meio, se não couber mesmo no mundo; espero, feito Quixote, sair pela porta dos fundos. Não é que o Dom, o cavaleiro da triste figura, não enxergasse o real, é que preferia o delírio. E penso também naquele filme de Hollywood, Pecado Original, com Angelina Jolie e Antonio Banderas, naquela cena, sabe, em que a personagem de Angelina coloca veneno na bebida da personagem do Banderas e ele, mesmo sabendo que é veneno, sem titubear, mas sustentando o olho e o olhar, leva o copo à boca, porque ELA tinha colocado o veneno:
O ser herói, Marília, não consiste
Em queimar os Impérios: move a guerra,
Espalha o sangue humano,
E despovoa a terra
Também o mau tirano.
Consiste o ser herói em viver justo:
E tanto pode ser herói o pobre,
Como o maior Augusto. (TOMÁS ANTÔNIO GONZAGA)
O ser herói, Senhora, não consiste em almejar o poder e efetuar grandes façanhas, mas em sustentar o abraço e o sorriso em meio a um mundo que desmorona.
Quero ver você feliz.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

FORÇAS

Para Nietzsche, o cosmos é um jogo entre forças ativas e reativas. Esta é uma tradição que vem desde a Grécia antiga. Os gregos, de modo geral e não só os espartanos, eram um povo bélico. Nietzsche, em sua eterna pendenga com o cristianismo, valoriza as forças ativas; às quais, no âmbito humano, buscam afirmar seu valor e sua diferença: pensemos no herói Aquiles. No polo oposto, estão as forças reativas, cuja força consiste em seu poder de desintegrar as forças ativas e gerar, naqueles que são canais para tais forças, a má consciência. Para o filósofo alemão, este era o grande trunfo do cristianismo... E, contra a máxima: “bem aventurados os pobres porque deles é o reino dos céus.” Nietzsche escreve: “é preciso proteger os fortes dos fracos.”
Na China antiga, os sábios comiam arroz e também enxergavam o universo como um jogo entre duas forças: yang e yin, que não são necessariamente o masculino e o feminino, mas dois princípios opostos que, de algum modo, contêm um ao outro em si: dia e noite, claro e escuro, calor e frio, prótons e elétrons... À diferença de grande parte dos filósofos ocidentais, os quais enxergam o mundo e a natureza como uma guerra, vide Schopenhauer, os sábios chineses viam um princípio harmônico entre os dois peixinhos do diagrama do tai chi (taiji). O peixe claro tem o olho escuro e o peixinho escuro tem o olho claro. A meia noite guarda em si a luz do dia que virá e o meio dia já é o começo da tarde. A mescla entre o preto e branco dos peixes dá o cinza... E o cinza tem muito mais que cinquenta tons.
É preciso definir quem está certo e errado?
Adotando o próprio perspectivismo nietzschiano, creio que ambos acertam em cheio, ainda que isso seja paradoxal.
A filosofia é só um ramo da literatura fantástica.

A LIÇÃO DE DIADORIM

Ultimamente,
Tenho pensado mais nos livros que na vida, apesar de que o que sempre me interessou na literatura foram os fluxos de vida, com tudo o que têm de bom e de ruim: fé e fezes. Não me interesso por truques estéticos; embora reconheça que, por vezes, o que um autor tem a dizer extrapola os dogmas linguísticos. Heidegger apontava a necessidade de libertar a língua da gramática. Como diria Riobaldo, pão ou pães é questão de opiniães. 
Vinicius de Moraes disse que a vida é a arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida. Quando lembro dos versos do poetinha, lembro também do amor impossível entre Riobaldo e Diadorim... Tão impossível quanto o amor entre Cathy e Heathcliff... Tão impossível quanto o amor entre Romeu e Julieta.
O amor de Diadorim não é de salvação, nem de perdição, mas de doação. Todo o tempo, Maria Deodorina almeja a felicidade de Riobaldo, mesmo que seja junto a outra mulher; no caso, Otacília, a noiva... Isso sem contar os inúmeros envolvimentos de Riobaldo com prostitutas e ele, Reinaldo-Diadorim-Maria-Deodorina, ali, ao lado, zelando. O amor encarnado em Diadorim é puro despojamento, generosidade, alteridade, ou melhor, como conceituou Lévinas: sainteté... É um amor próximo, muito próximo, àquele evocado por São Francisco na parte final de sua oração:
"Ó mestre, fazei que eu procure mais consolar que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois é dando que se recebe,
é perdoando que se é perdoado,
e é morrendo que se vive
para a Vida Eterna."

sábado, 5 de agosto de 2017

KEROUAC, O ROSA E O TAO


Há um texto de Chuang Tzu no qual o mestre do Tao escreve que, quando um arqueiro atira flecha num torneio, seus olhos se turvam, ele perde a naturalidade, erra até quando acerta. O prêmio afeta o tiro. O tiro perfeito é aquele dado sem alvo sequer e, este, encontra sempre seu destino. Quando viajamos com um destino, uma meta, condicionamos a viagem à chegada, só estamos realizados quando chegamos; mas, quando viajamos sem destino, em qualquer lugar que estamos, chegamos. A viagem é sempre mais importante que o destino e se não houver destino então, a viagem se torna plena. A aranha tece sua teia e espera. É o tempo quem traz o alimento. O autista caminha, vai e volta, segue o fluxo subterrâneo da água. O gato se senta e, quando cansa de ficar sentado, levanta e sai, brinca, corre, senta outra vez, vislumbra Deus numa bolinha de papel. Dois livros que admiro tratam disso: a viagem sem destino. Como a vida, a viagem sem destino é travessia, não sabemos onde vai dar e, por não saber, nos centramos no caminho, na viagem, no presente, apreciamos a paisagem. O porto é sempre futuro e ansiedade, mas quando não há porto, instalamo-nos no agora e o mar se nos mostra inteiro. A baleia branca se levanta das profundezas e nos mostra sua cauda. Tanto o Rosa, quanto Kerouac descendem antes das aranhas que dos símios. Seus livros tecem teias. As viagens de Sal Paradise e Dean Moriarty, bem como as andanças de Riobaldo, o Urutu branco, e Diadorim são fios lançados sem destino nas mais variadas direções, seja cruzando os Estados Unidos de costa a costa, seja atravessando os Gerais das Minas. O homem se perde no tempo, instala-se sempre no futuro ou no passado, mas a vida só acontece no agora. O futuro é uma astronave que tentamos pilotar e não conseguimos e o passado é uma mochila de pedras. A distração é concentração, amigos. Quando agimos sem intenção, o wu wei, é que o outro nos mostra sua face e florescem o amor e a amizade. O nosso problema é que sempre desejamos algo em troca, sempre temos um alvo, um objetivo, uma meta: esperamos prêmio, fidelidade ou elogio e, quando nada disso vem, resmungamos, choramos, não queremos mais brincar. O sol brilha é agora.

COMPARADO CONTIGO, VOCÊ É TÃO BONITO!

Tua beleza vem de dentro
Floresce feito semente no fruto
E daí que te chamaram de gordo, inválido, veado, esquisito?
Comparado contigo, tão bonito!
Você é inteiro e sólido como uma maçã
E daí que te disseram que você tinha de ser
Assim ou assado
Branco ou preto
Gordo ou baixo
Alto ou magro?
E daí que disseram que você tinha de saber isso e aquilo e aquiloutro?
Os que veem a casca não percebem o girassol
Comparado contigo, você é tão bonito!
A árvore não late e o cão não verdeja
O limão não tem asas
E o pássaro não tempera salada
Sê inteiro a cada fôlego
Não beba do veneno que te entregam
A perfeição pulsa no interior da tua pele
Escondida num cantinho da tua carne tenra
Comparado, tão bonito!
Teus olhos brilham feito estrelas
Teu hálito tem o perfume do hálito de um filho
Tua perfeição é tão perfeita quanto a da rosa, do morango, da camomila, do girassol...
Se você não existisse, o mundo seria menos mundo
E a manhã menos manhã
Algo faltaria nos confins do universo.
Então, chore quando tiver de chorar
E aceite o branco do sorriso
Tudo está tão claro agora:
Comparado contigo, você é tão bonito!

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

SEMPRE-VIVA

Numa das cenas mais pungentes da história do cinema, Roy Batty, em Blade Runner, recita pouco antes de morrer:
- Eu vi coisas que vocês, pessoas, não imaginariam. Naves de ataque em chamas ao largo de Órion. Eu vi raios-c brilharem na escuridão próximos ao Portão de Tannhäuser. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. Tempo de morrer.
Sempre que vejo o mar, sentado quieto, em gratidão, lembro desse monólogo. Se um dia pudesse conversar com a personagem, diria que outros veriam coisas tão belas quanto e com os mesmos olhos de espanto. Cada ser humano encarna a humanidade inteira, é só a ponta do iceberg. Qualquer menina rebelde é um tanto Joana d’Arc, outro tanto Maria Madalena. Tudo flui, tudo corre, tudo vai. Construir uma prancha leve e surfar o tempo: em desapego, aceitando a impermanência das coisas. O amor termina no meio de um café com leite. A amizade se vai sem acenos. Pessoas queridas abrem a porta e se vão pra nunca mais. Nenhuma culpa de nada e de ninguém. As coisas têm um tempo para começar e para terminar: Duração, as coisas duram. Não há como dar nó no rio. O homem é um balde que se enche, durante a vida, de experiências. Quando morremos, o pote é despejado, não há modo de recolher a água espalhada; mas o balde permanece intacto, pronto para receber água nova. O vazio é o fio que liga o neto ao avô.
O mundo é tão bonito, mesmo com cicatrizes profundas que nos deixa e, quando chegar a hora, terei tanta pena de morrer. Barganharei com a Dama, assim que ela vier, ampulheta numa mão, a foice na outra:
- Mais uma primavera!

E, se ela disser que sim, trocarei meus olhos com os do recém-nascido para ver mais uma vez os ipês floridos, as rosas, as violetas, orquídeas, sempre-vivas na janela e a coragem da criança ao soltar o indicador do pai e ensaiar, sozinha, os primeiros passos. Estou mudando. A vida não é um fardo.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

O GUARDA-VIDAS

Quando Uriel nasceu, tanto o médico quanto as enfermeiras ficaram espantados de ver chegar ao mundo, após nove meses de gestação, um bebê completamente sem pele. Comunicaram, com pesar, à mãe, o fato inexplicável.
Durante a infância, Uriel viveu cercado de cuidados, não podia expôr-se ao sol, não frequentava a escola com as outras crianças; mesmo brisa mais forte o fazia sentir dor, qualquer toque o fazia sangrar; o mundo era mais que uma alergia, era uma queimadura de terceiro grau. Canção que não fosse Bach, Pachelbel, Chopin, Nick Drake ou Graham Nash afetavam seus órgãos internos. Quando ventava, a família fechava as janelas. Como Uriel não tivesse pele para contê-lo, seus pais tinham medo de que um vento mais forte, uma ventania qualquer, pudesse dissolvê-lo, pudesse levá-lo no ar feito montinho de poeira.
Assim, o menino sem pele atravessou a infância, a adolescência e chegou à vida adulta. Uma pereba inflamada, queimadura, uma ferida ambulante. Vai ser gauche é maldição para quem ao menos tem perna.
Certo dia, durante um feriado, a família resolveu ir à praia. Uriel fazia questão de ver o mar, mesmo que fosse sua última visão neste mundo. Os pais colocaram empecilhos, era perigoso. Ao que Uriel retrucou:
- Viver é muito perigoso. – Citação de livro, como o mundo lhe era hostil, desde os cinco anos, Uriel tinha ido viver nos livros.
Uma manhã, antes das seis, a família foi à praia. Tudo calmo, tranquilo: felicidade é sorriso em riba do sofrimento. Os pais tiveram até coragem para deixá-lo sozinho por um instante, sob o guarda-sol, enquanto caminharam de mãos dadas rumo ao mar. Era a primeira vez que namoravam desde que o filho viera ao mundo. Foi neste exato momento que Uriel teve de tomar decisão. Um menino que brincava na beira do mar foi levado pela maré. Sem-pele gritou. Não podiam ouvi-lo. E o mar a cada vez engolindo o menino com mais voracidade. Mais gritos: NADA. Então, Uriel deixou sua cadeira e mergulhou sem se preocupar com seu próprio destino. Salvou o menino. Sentiu dor, pois sal sobre uma ferida sempre arde, mas quando deu por si, viu que uma camada ainda fina de pele envolvia sua carne sofrida.
Ancorado neste pequeno conforto, Uriel aprendeu a nadar, fez cursos e tornou-se guarda-vidas. A cada pessoa que ajudava, sua pele se tornava mais grossa, mas nunca deixou que ela se tornasse um casco. Quando ficava muito excitado, por ter ajudado muita gente, arrancava, durante a noite, as crostas que se formavam com o excesso de pele...

E viveu a vida.