sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

O GÊNIO POÉTICO


Em minhas últimas crônicas, tenho tratado do gênio filosófico, especificamente encarnado na legendária figura de Jacques Françoise, aquele que pensa pelos cachecóis. Reconheço que Jacques não é tipo de fácil trato, o que é muito normal para quem teve aulas com Guattari, Deleuze, Derrida e é amigo pessoal de David Lapoujade, Peter Pál Pelbart e de toda a língua do P. Devo dizer, todavia, que, com o tempo, aprendi a lidar com ele e chegamos inclusive a nutrir mútua afeição até o desfecho desastroso; o qual não pretendo abordar nesta crônica. Jacques era fã do elogio. Para se dar bem com ele, bastava soprar-lhe o ego feito balão vermelho e nunca, jamais, sob hipótese alguma, contrariá-lo. Nosso grupo de estudos se reunia ao redor de uma mesa de madeira maciça, quadrada; pois, se Jacques Françoise afirmasse que a mesa era um jumento, eu dizia: - Tens razão, amado mestre, acabei de vê-la dar um coice ainda há pouco, por um triz não mo acertou justo nos culhões. 
Outra estratégia de notável utilidade era desaparecer quando, em um congresso, ele sentia que ficava por baixo em uma discussão. Saía do auditório de chibata em punho, doido para achar um orientando e descontar a raiva.
            Aprendi muito sobre cachecóis e vida alheia com Jacques Françoise; mas, hoje, não é dele que quero tratar. Salto, portanto, do gênio filosófico, para o gênio poético. Assim como o gênio filosófico, o gênio poético não é menos genioso. Sempre recebi em casa escritores de outros estados ou cidades de passagem por São Paulo. Fiz grandes amigos, como, por exemplo, o Anderson Fonseca que, recentemente, lançou o seu excelente Sr. Bergier e outras histórias. Vez por outra, entretanto, aparece por aqui um gênio genioso. Descreverei, se houver espaço, dois casos nesta croniqueta. Primeiro vos apresentarei Archiello Mariel, o folgado; em seguida, Cornélio Cunha, o deprimido.
            Conheci Archiello Mariel por intermédio de minha mulher, Márcia Barbieri, aquela que escreveu o best seller A puta. Mal fomos apresentados e ele logo me informou que morava no litoral e nos devia uma visita a qual pagaria imediatamente no próximo final de semana, pois não gostava de dever nada a ninguém. Sábado seguinte, de manhã, fui buscá-lo na rodoviária. Mal entrou no carro, Archiello Mariel afirmou que tomaria conta da minha carreira literária a qual, em breve, decolaria. Prêmios, eu só ganharia do José Saramago para lá. Para começar ele faria um documentário comigo. No sábado mesmo, pois pretendia ficar um único dia em São Paulo. Se tinha tanta influência assim por que é que andava naquela tremenda pindaíba? – Pensei de mim para comigo – a camisa sem botões, o sapato furado. - Por que não usava seu poder em benefício próprio? – Escrúpulos, meu caro, não ligo para tais coisas, sou um poeta, meus valores são mais elevados.
Ao chegarmos a casa, o almoço estava pronto. A Márcia pediu que ele se servisse.
            - Por favor, ponha para mim, sou um tanto quanto tímido, rá, rá, rá.
            A Márcia o serviu:
            - Assim está bom?
            - Mais um pouquinho
            Ela colocou mais um pouco de batata e carne.
            - Não, não, agora foi demais.
            Márcia tirou o que tinha colocado.
            - Agora sim. Escuta, vocês não têm um aperitivo aí não?
            Respondi que no momento não estava bebendo e não tinha uma garrafa sequer em casa.
         - Que pena! Pois eu não como sem um aperitivo. Daniel me acompanha até o bar mais próximo, meu caro? É coisa rápida.
            Tomou uma caipirinha. Na hora de pagar, pediu que eu acertasse, tinha esquecido a carteira em casa.
            - Um litro de vinho também não faz mal a ninguém. Pegue um litro do tinto. Em casa acertamos, querido poeta Guaccaluz.
            Voltamos.
            - Tem uma pimentinha por aí, querida Márcia.
            Eu mesmo peguei a pimenta e pus na mesa.
            Ele comeu, repetiu, foi ao banheiro, escovou os dentes e, sem cerimônia, se deitou na nossa cama. Dormiu o resto da tarde. Quando a noite chegou, resolveu sair.
            - Uma pena que não conheço essas bandas. Daniel, meu bom poeta, acaso você não me deixaria no metrô?
            Conduzi-o até o metrô Itaquera.
            De madrugada, acordei com o som no volume máximo. Lá estava o hóspede ouvindo James Brown como se não houvesse vizinhos. Abaixei o som.
            - Tá maluco, as crianças estão dormindo. Olha os vizinhos!
            - Não esquenta, Meritíssimo, amanhã faremos o seu documentário. Vai ficar uma beleza, tu vais ver – de repente, eu tinha me tornado Juiz, Meritíssimo. Em breve ele me chamaria de Vossa Excelência.
            Dia seguinte, acordou por volta das onze. Na mesa, tinha uns frios, pão de forma, café, leite. Chamou-me de canto.
            - Escuta não tens umas frutas, não? Estou meio de ressaca. Uma melancia cairia bem, quiçá um suquinho de laranja? Um mamãozinho papaia, hum?
            Fiz o suco de laranja.
            - Sabe – ele disse – o gênio poético sempre incomoda. Imagine se você recebesse em casa um Baudelaire, um Lord Byron? Espero não estar sendo um hóspede inconveniente...
            - Hum, hum...
       Durante a tarde, monopolizou o computador e os controles da televisão da sala, estava interessado em um documentário. Assistia à tevê e fazia postagens no facebook... Ria alto, tirou a camisa, coçava a barriga. Márcia, eu e as crianças ficamos assistindo no quarto. Parecia o conto A casa tomada, do Júlio Cortázar.
            - Amanhã é segunda, todos temos de trabalhar, se quiser te deixo no metrô antes de seguir para o trabalho – comentei depois do jantar.
            - Não, que é isso? Jamais! Não se preocupe comigo. Estou bem. Eu me basto. Não preciso de ninguém para me fazer companhia. Eu me basto. Ainda tenho algumas coisas para resolver e nós ainda não fizemos aquele seu documentário.
            - Esquece o documentário, velho, não estou interessado.
            - Não, mas eu estou. Prometi para você e palavra de homem não faz curva.
            Deste modo, entre aperitivos, vinhos tintos, suquinhos de laranja, não tem um bolinho de chocolate aí? Uma semana inteira se passou.
            Sexta-feira à tarde. Chamei a Márcia num canto e falei...
            - Escuta, o nosso gênio não vai embora tão cedo. Vamos visitar seu irmão amanhã. É o único modo de dispensá-lo.
            Comunicamos a novidade ao hóspede.
            - Tudo bem, sem problemas. Então eu volto outro dia para fazer o documentário. É bom que a gente não perde o contato. Vocês me dão uma carona até a rodoviária?
            Dia seguinte, deixamos Dante Aleghieri na rodoviária. Tive de emprestar vinte reais para ele completar a passagem.
            Até as crianças respiraram aliviadas, o João poderia voltar a jogar videogame sossegado, a Sofia assistiria a seus programas prediletos na televisão e o PC ficaria desocupado para todo mundo por um tempo.
            Só uns três dias depois foi que percebemos as coisas que tinham sumido CD´s do Miles Davis, livros do Heidegger, Eduardo Viveiros de Castro, Jung, Deleuze, o DVD O rito do Bergman, o Fifa soccer 2014, do João, um par de meias da Sofia.
            - Nunca mais quero ver esse cara – falei, peremptoriamente.
Mas não é que o malandro me encontrou meio alegre num evento, encheu meu copo mais algumas vezes com bebida alheia e foi parar lá em casa outra vez? E dessa vez, eu mesmo convidara o vampiro. Mas isso já é outro capítulo.
            Ficou faltando tratar do Cornélio Cunha, o deprimido. Fica para a próxima também. Será a primeira crônica de 2017.
            Quanto ao documentário? Estou esperando até hoje. Espero que o Archiello Mariel não leia esta crônica e resolva aparecer para realizá-lo.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Ferida, fissura e escrita

“Há em tudo uma rachadura. É assim que a luz entra.” – Leonard Cohen

Fender, fissurar, trincar, rachar a esfera  para que tanto a luz quanto a placenta possam entrar. Destruir para que o novo encontre passagem. Chega de planos, Pokémons, cupcakes, prêmios aos adestrados, shopping mall, high tech, ambientes excessivamente higienizados, esterilizados, vidas de plástico, revoluções de fachada, café descafeínado, cerveja sem álcool, tabaco orgânico, frutas desidratadas. Alguém ainda fode neste mundo? Por uma vida que ouse acabar. Por uma arte que acolha a catástrofe. Trincar a esfera, quebrar o conforto, furar a bolha, atravessar o oco. Outros já traçaram topografia deste lugar: penso em Duras, Margueritte. Seguir até o fim e aceitar o risco da dispersão, da desindividuação, do esfacelamento. Mergulhar no buraco negro de Artaud, não no de Caroll. Seguir artistas que foram atravessados pela linha que dissolve o eu; não na morte, mas ainda em vida: Fitzgerald, Lowry, Duras, Blanchot, Deleuze. Celebrar a ferida e o riso, feito carta zero do tarô. Cantar a fenda e a fissura; o drible na morte que engendra o novo na arte. Escrever na vizinhança da morte, entortá-la feito zagueiro russo. Nada de cãezinhos dóceis, gorjeta para os confortáveis. Aqui, desembocam os fora-da-lei, os larápios, os pederastas, as putas, os ébrios; ainda que de água cristalina.
Este trabalho pretende, portanto, cartografar a fissura – ferida em linha reta – enquanto conceito, cujo surgimento ocorre em O livro por vir, de Maurice Blanchot.
Num dos ensaios presente neste livro, o qual trata da escrita de Artaud, Blanchot escreve que, em Artaud, o que é primeiro não é a plenitude do ser, mas a fenda e a fissura. A fissura seria um estado no qual o possível procederia do impossível; condição sine qua non do pensamento e da criação artística: porque, embora nos dias de hoje não pareça, a arte pensa. Investiguemos, pois, Artaud e a fissura que se inscrevia em sua pele por meio da pergunta: afinal, o que é pensar?

Artaud e a Fissura
                Em um dos ensaios da segunda parte, intitulada A questão literária, de O livro por vir, Maurice Blanchot aborda a obra de Antonin Artaud. Segundo Blanchot, Artaud, aos vinte e sete anos envia alguns poemas a uma revista. O diretor da revista recusa polidamente.  Diante da negativa, Artaud insiste, explica que sofre de tal abandono de pensamento que não pode negligenciar as formas, mesmo que insignificantes, conquistadas a partir desta inexistência central. Segue-se uma troca de cartas entre o jovem poeta e Jacques Rivière, o diretor da revista que, em vez de publicar os poemas, propõe a publicação das cartas. Artaud aceita e os poemas, a princípio impublicáveis, tornam-se publicáveis como testemunho, conectados às cartas que narram a experiência de sua confecção e de sua insuficiência: “Como se o que lhes faltava, seu defeito, se tornasse plenitude e acabamento pela expressão aberta do que falta [aos poemas] e pelo aprofundamento de sua necessidade. Mais do que pela própria obra, é certamente pela experiência da obra, pelo movimento que conduz a ela, que Jacques Rivière se interessa, e pelo rastro anônimo, obscuro, que ela representa inabilmente.” [1]
                Mais do que a obra acabada, o que importa aqui é o movimento que leva à obra, a experiência que a ela conduz. Como disse e fez Gombrowicz, a literatura está antes do lado do inacabado que da obra feita.
            Segundo Blanchot, durante a correspondência, Rivière busca tranquilizar o jovem poeta, afirmando que o futuro dará aos poemas de Artaud a coerência que lhes falta. Artaud, entretanto, não deseja ser tranquilizado e deseja muito menos que seus textos sejam coerentes. Ele está em contato com algo tão latente, violento, caótico e pulsante que não pode sequer imaginar sua atenuação. Não foi por acaso que escreveu mais tarde Van Gogh o suicidado pela sociedade. Não há como falsear certo equilíbrio, coesão ou coerência. Os poemas de Artaud estão diretamente ligados à erosão de seu pensamento, ao que ele chama de impossibilidade de pensar. É neste vazio de pensamento que o poema se diz. Aquele que escreve corre o risco de ser tragado, engolido pelo seu próprio desmoronamento. Não é o caso de um lance de dados, que se faz em ambiente higiênico e limpo, num cassino, entre homens de fraque, mas de uma roleta russa. Aquele que vive na iminência do poema corre sempre o risco de perder-se, tragado pela morte ou pela loucura. A palavra não é a corda pela qual se pode sair do abismo, mas os restos de embarcações, pequenas lascas e tábuas, às quais aquele que escreve se agarra ao transitar por isto que chamamos abismo, sem-fundo, buraco negro, e que também é o caos, a loucura e a morte. O pensamento pode a qualquer momento partir-se feito um copo. “É como se Artaud tivesse tocado inadvertidamente e por um erro patético, que provoca seus gritos, o ponto em que pensar já é sempre não poder ainda pensar.”[2] Trata-se de uma experiência limítrofe. Este nada no qual o pensamento se instala é justamente a fronteira entre a vida e a morte, entre o virtual e o atual, entre o sentido e o não-sentido, entre o silêncio e a palavra; é o lugar que separa os poemas repousando em estado de dicionário e a caneta deslizando no papel para rabiscar a palavra ainda vazia, mas já recolhendo o sentido enquanto o poema se faz. O exato momento em que aquele escreve toca a ponta da caneta e depois já não toca mais e novamente volta a tocar, criando pequenas fissuras no papel, até que dá o poema por terminado, porque a fonte da qual ele recolhe o poema está vazia e por ser vazia é, ao mesmo tempo, incessante. Ao olhar as palavras lançadas sobre a superfície branca, elas não são mais apenas palavras, estão cheias de algo indescritível que desloca aquele que lê para além de si e o conduz àquele mesmo nada, que ao mesmo tempo é fonte, ao qual o poeta fez visita. Por isto, Artaud não renega seus poemas mesmo mancos, porque eles são as indicações que conduzem aquele ponto no qual pensar, é sempre já não poder ainda pensar. E isso atravessa o corpo e causa buraco feito bala de grosso calibre.
            Para Artaud, a poesia é a palavra oriunda desta espécie de erosão ao mesmo tempo fugaz e essencial do pensamento. Aqui, já não há separação entre autor e eu-lírico – seja lá o que isto queira dizer -, vida e criação artística, poeta e homem.  A literatura não é um reflexo da vida, uma falsificação, mas a criação da verdade. A escrita é um fluxo que atravessa a vida e a vida é um fluxo que atravessa a escrita. Escrever é muito perigoso. Sem o risco e o risco é a própria fissura, nada de novo pode irromper no mundo. A escrita não é a expressão de um eu sólido, blindado, mas de uma subjetividade trincada, porosa, pela qual a morte, expressão maior da ausência de eu, encontra passagem. Então, no ápice desta experiência limite e limítrofe - posto que o poema é a fronteira móvel entre o ser e o caos, a vida e a morte, a lucidez e a insanidade - o que vem antes não é a saúde, mas o corte e a ferida. “O que é primeiro não é a plenitude do ser, é a fenda e a fissura, a erosão e o dilaceramento, a intermitência e a privação corrosiva. Ser é não ser, é esta falta do ser, falta viva que torna a vida desfalecente, inacessível e inexprimível, exceto pelo grito de uma feroz abstinência.”[3]
            A poesia de Artaud é este grito de uma feroz abstinência; o ruído que escapa pela fissura. Querer buscar no grito de uma subjetividade dilacerada coerência... Coesão... É pura incompreensão, é esperar que, com o tempo, um submarino levante voo. É colocar um escritor de verdade, numa oficina de escrita literária, na qual o professor de escrita criativa grifa em vermelho as palavras repetidas.

A Fissura se ramifica

            Em seu ensaio La pensée du dehors, le dehors de la pensée: Blanchot, Foucault, Deleuze, Peter Pál Pelbart chama Blanchot de cantora Josefina da filosofia francesa no pós-guerra. Do mesmo modo que a personagem kafkiana é objeto de admiração por parte do povo dos camundongos - os quais sentem precisar de sua voz para se reunir, mas não compreendem o que em tal voz é tão especial, nem ao menos se é especial, posto que o canto mais parece um gemido -  também Blanchot é objeto de admiração e parece servir de inspiração a diversos artistas e pensadores franceses da segunda metade do século XX. Podemos observar o abalo que a leitura sedutora de Blanchot sobre autores como Hölderlin, Sade, Lautréamont, Nietzsche e Artaud provoca em pensadores como Foucault, cujo livro A História da Loucura, nas últimas páginas, evoca exatamente o mesmo time de autores para ilustrar o pensamento do Fora e o espaço rarefeito no qual o sujeito está ausente e que caracteriza tanto o espaço literário, quanto o lugar indomável da loucura.
            E, se encontramos ressonâncias do pensamento blanchotiano em um teórico como Foucault, que dizer então do seguinte comentário da escritora Margueritte Duras, a respeito de a escrita ser este possível que brota do impossível, este processo pelo qual, por meio do vazio, da ausência de ser ou do desmoronamento, brota a palavra, o outro de todos os mundos?
“Escrever.
Não posso.
Ninguém pode.
É preciso dizer: não se pode e se escreve.[4]
            Da mesma forma que, para Artaud, o pensamento brota da impossibilidade de pensar, para Duras, a escrita se faz a partir da impossibilidade de escrever; do puro desespero de olhar a página e ter de enfrentar o caos; apagando, aos poucos, palavras de ordem, lugares-comuns, restos de clássicos...
            Blanchot: Josefina, a cantora do pensamento francês no pós-guerra, justamente o momento em que Gilles Deleuze está produzindo sua obra.
            Em Lógica do sentido, Deleuze retoma o tema da fissura em dois momentos. Primeiro, na vigésima segunda série Porcelana e Vulcão, na qual trata da fissura nos escritores Malcolm Lowry e, principalmente, Scott Fitzgerald; em seguida, no apêndice, onde aborda o tema da fissura na obra de Zola. Visitemos, em primeiro lugar, F. Scott Key Fitzgerald.

Porcelana fissurada, ou Fitzgerald e a fenda

            Na década de 1930 do século passado, a situação do escritor norte-americano F. Scott Key Fitzgerald era caótica. Sua esposa Zelda estava internada em uma instituição psiquiátrica em virtude de intensos e contínuos surtos esquizofrênicos. Fitzgerald, por seu turno, afundava em problemas financeiros e se entregava sem amarras ao alcoolismo. Uma década antes, o jovem Fitzgerald despontava como um escritor de primeiro escalão, porta-voz de uma geração; a pena de uma era de excessos: a era do jazz.
            É nesta situação de profundo desespero que Fitzgerald enfrenta os últimos anos de sua vida. E é também sob o signo de tal desespero que ele escreve seu melhor trabalho, o Crack-up, no qual está entalhada a célebre e trágica sentença que fascinou tanto a Deleuze quanto a Cioran: “É claro que toda vida é um processo de demolição.”[5] O que mais chamou a atenção de Deleuze foi a firmeza afirmativa impressa à frase por meio do vocábulo “claro”. A sentença de Fitzgerald não tem um tom melancólico, muito menos ressentido, antes opera uma constatação: “É claro que toda vida é um processo de demolição.” Há aqui um sim, sim trágico, nietzschiano, estoico que não se lamenta, não nega, mas caminha decidido para a demolição, amando seu destino. Segundo Deleuze: “Poucas frases ressoam tanto em nossa cabeça com este ruído de martelo. Poucos textos têm este caráter irremediável de obra-prima e de impor silêncio, de forçar uma aquiescência atemorizada, tanto como a curta novela de Fitzgerald. Toda a obra de Fitzgerald é o desenvolvimento único desta proposição e, sobretudo, de seu ”obviamente”.” [6]

            O obviamente e o É claro são o mesmo, mas a palavra passa por um processo de mutação durante as traduções. O of course, de Fitzgerald passa para bien entendu em francês, daí ao português como obviamente.
            Fitzgerald, é claro, sabe do que está falando. Ele sentiu na vida, no corpo, o acontecimento da fissura. Ele ouviu o ruído, o crack que o partiu feito porcelana. Curiosamente, é a partir deste desmoronamento que o autor mais importante da era do jazz produz sua obra mais importante. Por um lado, escreve o estudo autobiográfico intitulado Crack-up; por outro, redige aquela que alguns críticos consideram sua obra ficcional mais bem acabada: Suave é a noite.
            A partir da impossibilidade de escrever, o autor passa a escrever para além de suas possibilidades. O possível, por meio da fissura, brota do impossível. O par não é, pois, possível/impossível, mas virtual/atual. Volta a ressoar em nossos ouvidos, com uma insistência de martelo, as estacas de Margueritte Duras:
            Escrever.
            Não posso.
            Ninguém pode.
            É preciso dizer, não se pode e se escreve.
            Voltemos a Fitzgerald.
            O ano de 1935 talvez tenha sido o pior de toda a vida de Scott. O autor de O grande Gatsby se sentida solitário, doente, bebia demais, tinha despesas e dívidas imensas, era atormentado pela insônia e o pior: não conseguia mais escrever. Como afirmou em Crack-up, a cartola do mágico estava vazia.
            Segundo Sheilah Graham, amante de Fitzgerald nos últimos tempos, Arnold Gringrich, redator chefe da revista Esquire, para a qual Fitzgerald escrevia, contou a ela, certa vez, como os textos que compõem o Crack-up foram escritos.
“Arnold disse a ele, “Scott, eu preciso receber um manuscrito seu, pois nossos auditores estão no meu pé, querendo saber o motivo pelo qual eu o pago. Mesmo que você faça como Gertrude Stein, mesmo que você preencha uma dúzia de páginas dizendo ‘Eu não posso escrever, eu não posso escrever, eu não posso escrever’, por umas quinhentas vezes, pelo menos, eu poderei dizer que em tal data um manuscrito chegou de F. Scott Fitzgerald. Eu terei alguma coisa em meus arquivos para provar que você está trabalhando para nós. Caso contrário, terei de parar de enviar dinheiro a você.”
Scott prometeu que tentaria. “Tudo bem.” Ele disse. “Eu vou escrever alguma coisa. Eu posso escrever sobre o fato de não poder escrever.”  O resultado foram os esboços do Crack up e, mais tarde, a série “Tarde com um autor”, que Arnold publicou na Esquire como ficção.” [7]
                Como podemos observar, pressionado por seu editor, a quem havia muito tempo não enviava texto algum, Scott finalmente decide escrever sobre o fato de não poder escrever.
            Uma das características da fissura é que ela se instaura a partir de um vazio, de um desmoronamento, de um tal esgotamento que torna o pensamento impossível. No entanto, é este mesmo desmoronamento, este esgotamento físico e espiritual, que torna possível a escrita, aquela escrita que não é a expressão de um ego, mas da passagem por um lugar sombrio.

Deleuze e a fissura

            Em Deleuze, a fissura se faz acontecimento. Isto quer dizer, em Lógica do Sentido, que ela, a fissura, tem dois polos: um ligado à superfície metafísica, outro ligado à profundidade dos corpos; um ligado ao virtual, outro ligado ao atual; um ligado ao tempo designado aion, outro ligado a chronos. Assim, a fissura tem sempre um duplo aspecto. Por um lado é silenciosa, sub-reptícia, sorrateira; faz seu trabalho na penumbra, tem a ver com a superfície e os incorporais. Por outro lado, a fissura é ruído, é o crack, tem a ver com o acidente, com o estado de coisas, com a profundidade dos corpos.
            É interessante notar que ocorre em Lógica do sentido uma inversão em relação a Diferença e repetição. Grosso modo, em Diferença e repetição, a profundidade está ligada ao virtual, enquanto que a superfície está ligada ao atual. Em Lógica do sentido, ocorre o contrário, a superfície conecta-se ao virtual, aos incorporais; enquanto que a profundidade conecta-se ao atual, aos corpos.
            No Crack-up, Fitzgerald também nos fala de dois tipos de golpes que nos quebram. Um de origem interna e outro de origem externa.
            Por um lado há “os golpes que realizam o lado dramático dessa obra de decomposição, os grandes golpes repentinos que surgem ou parecem surgir do exterior, aqueles dos quais nos lembramos e aos quais culpamos por tudo e que, em momentos de fraqueza, contamos a nossos amigos, não mostram seu efeito logo de cara.”[8] Por outro lado: “Há uma outra espécie de golpe que vem de dentro, que não sentimos até ser tarde demais para fazer qualquer coisa, até percebermos de alguma forma decisiva que, em alguns aspectos, nunca mais seremos os mesmos.” [9]
            Segundo Fitzgerald, há uma diferença de natureza entre os dois tipos de ruptura. A primeira espécie “parece acontecer rapidamente; a segunda acontece quase sem notarmos, mas é com certeza percebida de súbito.”[10]
            Fitzgerald parece distinguir dois tipos de fissura, Deleuze, entretanto, enxerga os dois processos como dois lados da mesma fissura. Nem interior, nem exterior, mas incorporal e corporal: “Quando Fitzgerald ou Lowry falam desta fissura metafísica incorporal, quando nela encontram, ao mesmo tempo, o lugar e o obstáculo de seu pensamento, a fonte e o estancamento de seu pensamento, o sentido e o não-sentido, é com todos os litros de álcool que eles beberam, que efetuaram a fissura no corpo. Quando Artaud fala da erosão do pensamento como de alguma coisa essencial e de acidental ao mesmo tempo, radical impotência e, entretanto, autopoder, já o faz partindo do fundo da esquizofrenia. Cada qual arriscava alguma coisa, foi o mais longe neste risco e tira daí um direito imprescritível.”[11]
            O artista é um ser disposto a arriscar tudo, o juízo, a saúde, a juventude, a vida. Deve ser por isso que nem todo mundo é artista, embora todos gostem da festa e da grana. Poucos estão dispostos a correr tamanho risco. No entanto, sem este risco não há arte, mas show de celebridade, revista de fofoca, prêmios literários, galerias de arte, a indústria do livro. É contra tudo isto, contra esta imitação de ferida e fissura que Artaud se volta por meio de se teatro da crueldade. Como afirmou Deleuze acertadamente; cada qual foi o mais longe no risco e acabou por tirar daí um direito imprescritível: o direito de dizer.
            No texto Zola e a fissura, Deleuze diz claramente que a fissura é a própria morte. E, assim, como bem descreveu Blanchot, a morte tem sempre um duplo aspecto. Por um lado, é a morte incorporal, aquela que nos acompanha desde o nascimento e à qual nunca chegamos, pois, uma vez que ela se atualiza, nós já não estamos. Por outro lado, é também a morte ligada aos corpos, é a bala de revólver, uma veia que estoura no cérebro, o escorregão na casca de banana – a cabeça no meio fio.
            Segundo Deleuze: “O que a fissura designa ou antes o que ela é, este vazio, é a morte, o instinto de morte. Os instintos podem muito bem falar, fazer barulho, agitar-se, não podem é recobrir este silêncio mais profundo, nem esconder aquilo de que saem e no qual entram de novo: o instinto de morte, que não é um instinto entre outros, mas a fissura em pessoa, em torno da qual todos os instintos formigam.” [12]
            Deleuze afirma indubitavelmente que a fissura é o próprio instinto de morte. Uma questão, que pode ser dividida em três partes, coloca-se a partir de tal afirmação: 1º) Por que a fissura é então necessária? Por que a saúde não é o bastante?  2º) Deleuze jamais fez apologia da morte pela morte, como então ter contato com a fissura sem, entretanto, falecer de fato? 3º) Seria possível manter a insistência da fissura incorporal evitando, ao mesmo tempo, encarná-la na profundidade do corpo?
            Quanto à primeira parte da questão: por que a fissura é necessária? Por que a saúde não basta? Deleuze responde que a fissura é necessária porque nós nunca pensamos a não ser por ela e sobre suas bordas e “tudo o que foi bom e grande na humanidade entra e sai por ela, em pessoas prontas a se destruir a si mesma e que é antes a morte do que a saúde que se nos propõem.”[13]        
Há uma conexão entre o risco, a fissura e a criação. Criação e conforto são palavras que se repelem. À fissura constitui o perigo de se espatifar, como Fitzgerald, ou de tornar-se completamente inerte, amorfo, feito o Nietzsche final. Deleuze afirma que a fissura é o próprio instinto de morte. Entretanto, em toda filosofia deleuziana não encontramos glorificação do niilismo, exaltação da morte pela morte. Se a fissura se resumisse a um caso de desmoronamento, não interessaria a Deleuze, como interessa a Cioran, um pensador mais desesperado. A fissura é interessante porque permite pensar como uma impossibilidade se torna possibilidade: Fitzgerald escreve o Crack-up sobre o fato de não poder mais escrever. Ela, a fissura é o meio pelo qual a aniquilação e o esgotamento se tornam criação. A fissura é assim uma exigência de transformação pela qual se tem de passar, ela não é só destruição, embora envolva o risco de morte, de loucura, de aniquilação total. Como Lowry escreve em À sombra do vulcão: “é espantoso, quando se pensa nisso, como o espírito humano parece florescer, na sombra do matadouro”. [14]
            Como então permitir que a criação, que algo de novo e bom, surja à sombra da morte? À sombra do matadouro? De que maneira podemos ter contato com a fissura sem nos destruirmos totalmente? De que modo podemos criar uma contra-efetuação à fissura? Como não nos aniquilarmos, mas driblarmos a morte e criarmos em nós mesmos uma nova potência? Como esta fissura, longe de significar simplesmente a morte, pode ser o início de outra coisa?
            A todas estas questões, Deleuze não responde de forma peremptória. O filósofo não dá conselhos, nem oferece caminhos únicos, mas sugere prudência. A boa e velha prudência de Espinosa. Além disso, deve haver um modo de chegar aos mesmos efeitos que as drogas ou o álcool podem proporcionar por caminhos naturais. Foi o que o beatle George Harrison, por exemplo, buscou na cultura oriental.
            Em Lógica do sentido, tal busca é relacionada a uma esperança e se coloca nos seguintes termos: “Não podemos renunciar à esperança de que os efeitos da droga ou do álcool (suas “revelações”) poderão ser revividos e recuperados por si mesmos na superfície do mundo, independentemente do uso das substâncias, se as técnicas de alienação social que o determinam são convertidas em meios de exploração revolucionários. Burroughs escreve sobre este ponto estranhas páginas que dão testemunho desta grande Saúde, nossa maneira de ser piedosos: “Imaginai que tudo o que se pode atingir por vias químicas é acessível por outros caminhos…” Metralhamento da superfície para transmutar o apunhalamento dos corpos, ó psicodelia.” [15]
            Buscar os efeitos sem o abuso das substâncias. Poder embriagar-se com um copo de água, com as cores do crepúsculo. Embriagar-se de vinho, virtude ou poesia, mas ir até o fundo, correr o risco, experimentar: encontrar a terceira margem de si mesmo.

            À guisa de conclusão

Se neste trabalho nos propusemos abordar a obra de escritores e teóricos que, de certo modo, correram o riso e o risco de sua escrita é porque percebemos que o espetáculo, que sempre fez parte de tudo o que se refere à arte, cada vez ganha mais relevância, deixando o texto, a topologia, a arte, o registro da passagem por um lugar perigoso, em segundo plano. Se escrevemos um livro e nos dão dinheiro por isto, é bom, todos temos de sobreviver. Ninguém aqui é pregador de igreja protestante. Agora, se escrevemos um livro para ganhar dinheiro, isto é nefasto. E, quando abrimos os jornais ou revistas para ler alguma resenha, o que vemos retratado é o pseudo-espetáculo de uma vida pseudo-perigosa: do escritor que supostamente fumava pedra, da autora que fazia programas, do rapaz que lavava pratos em Londres... E nada disso tem cheiro de sinceridade, nada disso tem cheiro de ferida: as palavras não sangram, é só  entretenimento. O que tentamos fazer foi resgatar vidas e escritas pulsantes. Gente que escreveu com uma sinceridade absurda[16] e que pagou um preço por irem até onde foram. Que pode escrever alguém que nem sequer chegou a viver? Que bebe café descafeínado? Que mal fode e fode mal: tem nojo do cu do outro. Que nunca indagou seu nome eterno? Que nunca correu risco algum? Palavras, apenas, palavras pequenas e a literatura está sempre muito além das palavras. Um brinde a Fitzgerald, Artaud, Lowry e Duras.


[1]BLANCHOT, 2005 , p.47-48
[2] BLANCHOT, 2005, p. 50
[3] BLANCHOT, 2005 , p.53
[4] DURAS, 1994 , p.47
[5] FITZGERALD, 2007, p. 72
[6] DELEUZE, 2011,  p.157
[7] GRAHAM; FRANK, 1959 , p.157
[8] FITZGERALD, 2007, p. 72
[9] Idem, Ibidem, p. 72
[10] Idem,  Ibidem,, p. 72
[11] DELEUZE, 2011, p. 160
[12] DELEUZE, 2011, p. 336
[13] Idem, Ibidem, p.164
[14] LOWRY, 2007, p.94
[15] DELEUZE, 2011, p. 164-165
[16] A sinceridade é a única forma de escrever que jamais sai de moda.

Bibliografia

ARTAUD, Antonin. Linguagem e vida. São Paulo: Perspectiva, 1995.
 ________. O teatro e seu duplo. São Paulo: Max Limonad, 1987.
_________. Os Tarahumaras. Lisboa: Relógio D’Água, 2000.
BERGSON, Henri. Matéria e memória. Trad. Paulo Neves. 2 a ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
BLANCHOT, Maurice. A conversa infinita.  Trad. João Moura Jr. São Paulo: Escuta, 2010.
________. O livro por vir. Trad. Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
________. O espaço literário. Trad. Álvaro Cabral.  Rio de Janeiro: Rocco, 2011.
________. De Kafka à Kafka.  Paris: Gallimard,  1981.

_______. Diferença e repetição. Trad. Luiz Orlandi e Roberto Machado. São Paulo: Graal, 1988.

_______. Cinema II: a imagem-tempo. Trad. Eloisa de Araújo Ribeiro. São Paulo: Brasiliense, 2013.

_______. Conversações. Trad. Peter Pál Pelbart. São Paulo: Editora 34, 1992.

________. Crítica e Clínica. Trad. Peter Pál Pelbart. São Paulo: Editora 34, 1997.

_______. Lógica do sentido. Trad. Luiz Roberto Salinas Forte. São Paulo: Perspectiva, 2011.
_______. Nietzsche e a filosofia, Trad. Ruth Joffily e Edmundo Fernandes Dias. Rio de Janeiro: Editora Rio, 1976.

DELEUZE, Gilles e PARNET, Claire. Diálogos. Trad. Eloísa Araújo Ribeiro. São Paulo: Escuta, 1998.
DELEUZE, Gilles e GUATARRI, Félix. Kafka: por uma literatura menor. Trad. Cíntia Vieira da Silva. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2014.
_______. Mil Platôs – volume 2. Trad. Ana Lúcia de Oliveira e Lúcia Cláudia Leão. São Paulo: Editora 34, 2011a.
_______. O anti-édipo: capitalismo e esquizofrenia. Trad. Luiz B.L. Orlandi. São Paulo: Editora 34, 2011.
_______. O que é filosofia? Trad. Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Muñoz. São Paulo: Editora 34, 2010.
DURAS, Marguerite. Escrever. Trad. Rubens Figueiredo. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
_______. Moderato Catabile. Rio de Janeiro: José Olympio, 1985.
_______. O amante. Trad. Aulide Soares Rodrigues. Rio de Janeiro: Rio Gráfica, 1986.
_______. O amante da China do Norte. Trad. Denise Rangé Barreto. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.
FITZGERALD, F.S. Afternoon of an Author. London: The Bodley Head, 1958.
_______. Tender is the night. London: Penguin, 1997.
_______. The Collected Short Stories of F. Scott Fitzgerald. London: Penguin, 1986.
_______. Crack-up. Trad. Rosaura Eichenberg. Porto Alegre: L&PM, 2007.
_______. The Great Gatsby. London: Penguin, 1994.
_______. O Grande Gatsby.  Trad. Breno Silveira. São Paulo: Abril Cultural, 1980.
FOUCAULT, M. História da loucura. Ed. Perspectiva – São Paulo, 1978.
_______. Ditos & escritos. Problematização do sujeito: psicologia, psiquiatria e psicanálise. Vol. I. Ed. Forense Universitária – Rio de Janeiro, 1999.
_______. Ditos & escritos. Arquelogia das ciências e história dos sistemas de pensamento. Vol. II. Ed. Forense Universitária – Rio de Janeiro, 2000.
_______. Microfísica do poder. 15a Ed. Graal – Rio de Janeiro, 2000.
_______. Vigiar e punir. Nascimento da Prisão. Trad. Raquel Ramalhete. 23a Ed. Vozes – Rio de Janeiro, 2000.
GRAHAM, Sheilah; FRANK, Gerald. Beloved Infidel, New  York: Bantam Books, 1959.
LINS, Daniel. Antonin Artaud: o artesão do Corpo sem Orgãos. Ed  Relume Damurá – Rio de Janeiro, 1999.
LOWRY, Malcolm. À sombra do vulcão. Trad. Leonardo Fróes. Porto Alegre. Rio de Janeiro, 2007.
MICOLETE, Hervé et GELAS, Bruno at al. Deleuze et les écrivains – littérature et philosophie. Nantes: Éditions Cécile Defaut, 2007.
PELBART, Peter P.Cartografias do Niilismo: Cartografias do esgotamento = Cartography of exhaustion nihilism inside out. N-1 Edições. São Paulo, 2013.
PELBART, Peter P. O tempo não-reconciliado. Imagens de tempo em Deleuze. São Paulo: Perspectiva, FAPESP, 1998.
WESTBROOK, Robert. Mentiras íntimas: F Scott Fitzgerald e Sheilah Graham. Trad. Gabriela Máximo. Rio de Janeiro: Record, 1997.


quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

IDIOTAS UNIDOS JAMAIS SERÃO VENCIDOS


Achei que não escreveria outra crônica este ano, mas os assuntos me abordam como bofetadas.  Cioran dizia que nunca escreveu uma linha em seu estado normal, escrevia sempre numa espécie de febre, de fúria. Só pra variar, também me identifico com essa definição do Vampiro de Rășinari. A palavra é meu trinta e oito; a forma de revidar as bofetadas que vou levando daqui e dali, no decorrer da vida. Hoje gostaria de falar de três assuntos diferentes num único texto. Não sei como costurar tudo, mas vou tentar. Vamos ver o que acontece no final. Três assuntos: um texto; une-os, entretanto, o tema comum, que não é a ascensão do idiota - desta Nelson Rodrigues já tratou exaustivamente em suas Confissões – mas seu poder cada vez maior de mobilização, de exercer seus direitos democráticos, de expor o diabo da sua opinião, seu preconceito, sua burrice.
Depois que Mark Zuckerberg inventou essa aberração que é o brasileiro politizado, ninguém mais teve um segundo de paz. Todo mundo tem uma opinião formada sobre tudo e faz questão de compartilhá-la com os demais. Discute-se de política a física quântica. E como nunca se escreveu tanto e tanta bobagem, para tudo há embasamento teórico.  Outro dia, li uma postagem numa rede social sentando a lenha no Ghandi. Dizia o usuário, que o líder pacifista indiano não valia o que comia. Como Ghandi não comia, quase morreu de jejum, não consegui entender o que o formador de opinião queria dizer. Também já vi muita gente descendo o pau no Cristo. Da mesma forma que confundem o Cristo com o cristianismo[1] e com alguns cristãos de hoje, confundem Ghandi com o hinduísmo; confundem desconstrução[2] - que, a bem da verdade já deu no saco -, com falha hermenêutica. E como o idiota é a raça menos solitária que existe; dois minutos depois, lá estava outro idiota chamando Ghandi de comunista:
- Ficou com os trens da Inglaterra. Era amigo do Fidel, queria transformar a Índia em uma Cuba.
Enquanto eu ainda digeria tamanha abobrinha. Lá veio uma radical.
- Um misógino, pedófilo, abusava de criancinhas.
Pelo que eu sabia o líder pacífico indiano pregava a abstinência tanto gastronômica quanto sexual, mas vai saber...  Não aguentei e intervi.
- De onde vocês tiraram tudo isso?
O idiota nº 1 postou cópia de uma página de livro. Pra essa gente, se está num livro, é verdade. Se passa na televisão, é verdade. Se algum idiota de renome falou, é verdade. Contestam o instituído, mas não contestam o contestador, ainda que ele, o contestador, pertença à família Marinho. Uma inversão dos diabos.
Uma moça entrou no bate-papo, desolada, desoladíssima. Achei que ia cometer suicídio sem sequer sair do facebook:
- Gente isso é verdade? Se for, é o fim do mundo! Como podemos continuar vivendo assim?
É o fim do mundo... O fim do mundo já passou e continuamos aqui.
***
Saio deste caso virtual para um caso real. Este ano, depois de quinze anos trabalhando 16 horas por dia, acumulando cargo na Prefeitura e no Estado para garantir o frango assado no domingo e o leite das gatas; dando aulas em classes com mais de quarenta alunos, com idades entre 11 e 21 anos, não aguentei; colei os platinados, pirei o cabeção. Fui a um psiquiatra e ele me passou um punhado de remédios, o mais fraquinho é o diazepam  2 mg. Tenho de admitir que o diazepam fez mais por minha espiritualidade que qualquer religião, seja ela do Oriente ou do Ocidente. Acordo encantado com o som dos passarinhos, dou bom dia aos vizinhos, ao sol, voltei a acreditar na humanidade. Acho que Ghandi tomava diazepam, não é possível. Se levo uma fechada no trânsito, sou o primeiro a pedir desculpas. Os pecados da carne já não me atormentam mais. Se tem, tem; se não tem, passe bem. Graças ao rivotril, consegui certa independência ante minha mulher, a Márcia Barbieri – aquela que escreveu o livro A puta. Enfim, encontrei a serenidade junto aos psicotrópicos e a uma licença de sessenta dias. O problema mora justamente nessa licença de sessenta dias, dos quais o perito do Estado concedeu 30.
Em Morangos Silvestres, do Bergman, o médico e professor Isak Borg diz à nora, enquanto viajam, que não respeita as doenças da alma.  Fosse só ele estava bom. A maioria dos idiotas também não respeita.
Ontem voltei à escola do Estado onde trabalho. Para alguns, parecia que eu tinha cometido crime hediondo. Ouvi de alguém na secretaria que eu tinha dado trabalho este ano. Para ela, o único trabalho que dei foi pedir que emitisse a guia para a perícia. A coordenadora disse que, se eu era doido, então por que é que não pegava uma licença nas férias? Respondi que eu era doido, mas não era burro, são coisas diferentes.
- Eu tenho 53 anos, trabalho há mais de trinta e nunca peguei uma licença, quase não falto - emendou.
- Trabalha mais trinta que tá pouco.
- Que?
- Nada não.
Pensei de mim para comigo que é por estas e outras que os caras vão elevar a idade da aposentadoria para setenta anos. De repente, de um instante para o outro, vários dos meus colegas de trabalho – não todos, é preciso dizer – tornaram-se Geraldos Alckmins mirins, Temeres Juniores (será que o plural está certo?), médicos, peritos, o diabo. Cheguei à conclusão de que para o idiota, quanto mais trabalho, melhor. Ele, o idiota, não pensa, não tem vida interior, não ouve música – salvo as mais estúpidas do rádio -, não admira pintura, não cria, não se espanta diante da beleza, do acontecer diário do mundo; para ele, tudo já está dado. Eu escrevo, se bem ou mal é outro papo, mas preciso de um tempinho para alguma atividade criadora.
Pensei dizer:
- Vocês têm mais é que trabalhar mesmo, pois é a única coisa que sabem fazer, e quando se aposentam, não duram seis meses e batem as botas. É bem feito – mas não disse nada, saí da sala, assinei uns papéis e, assim que pude, vazei.
Eu ia falar ainda de um terceiro caso, mas acabei esquecendo. Tomei café, dei uma volta, fui ao banheiro, mas o assunto sumiu completamente. De qualquer modo, um caso a mais é até pleonasmo, completamente desnecessário. Vocês devem ter os seus próprios para se lembrar e, talvez, contar. Boas festas! E até ano que vem, se eu não levar outra bofetada daqui até o dia 31.




[1] A maior traição ao Cristo crucificado é o próprio cristianismo instituído.
[2] Não existem fatos, só interpretações. A pergunta é: a quem interessa desconstruir um homem como Gandhi?