quarta-feira, 30 de novembro de 2016

BERGMAN E O IDIOTA

Sou cinéfilo, vejo de tudo: de Chaplin a Michael Haneke, com um bom filminho de terror no meio para quebrar o gelo. Admiro os anjos de Win Wenders, as revoluções de Hitchcock: matar a mocinha com trinta minutos de filme, fazer todo um filme numa só tomada; revejo sempre Jules e Jim e Os incompreendidos; Goddard, o primeiro; e Buñuel, e Tarkóvsky, e Mallick, e Peckinpah, e Ford. Agora, o meu cineasta predileto é o sueco Ingmar Bergman, não só pelo modo como filma um rosto, mas por sua visão de mundo, sua descrição angustiante das relações humanas. Sou cinéfilo, já disse, vejo de tudo, mas não tenho qualquer critério, não ficho nem catalogo os filmes a que assisto. Às vezes, durante uma conversa, misturo trechos de filmes distintos, confundo-me; quando vejo, estou citando passagens da minha vida como se fosse um filme, um livro. Talvez nisso consista a criação, na absorção do caos em contraponto à organização do pesquisador. Tudo vai sendo absorvido e acaba por repousar no fundo do pântano. De repente, vê-se um cego mascando chicletes e uma pressão insuportável, que nos vem das entranhas, empurra um mundo novo à tona: é a epifania, ou a inspiração. Impossível ao artista não fazer arte neste momento. Deus que me livre dos operários da arte, daqueles que; faça chuva, faça sol; escrevem das 8:00 às 17:00. Estive em algumas firmas e posso garantir que essa é a disciplina da fábrica, a disciplina da arte é outra.
Mas estou me dispersando, quero falar de Bergman, mais precisamente de O Sétimo Selo, mais precisamente ainda de um aspecto do filme: o idiota. Em Bergman há a esperança, às vezes, mas ela está sempre com o idiota, com os simples e pequenos, com os artistas mambembes. Em sua autobiografia, A Lanterna mágica, Bergman descreve o início de seu amor pelo cinema. Na infância, quando cometia qualquer travessura, seu pai, um rígido Pastor calvinista, o trancava num armário escuro. Começava aí o medo que exala de todas as películas bergmanianas: medo da morte, da doença, da falta de amor, de fantasmas. O menino, com o tempo, ganhou uma lanterna e passou a levá-la consigo, às escondidas, para o armário e com ela acesa sobre o movimento das mãos projetava sombras na parede, o que o distraía e afastava o medo; geralmente pensava em espetáculos de circo, em palhaços, carrosséis, em coisas alegres que espantavam o terror. Começava aí o amor pelo cinema, a admiração pelo palhaço, o idiota, o artista mambembe. Desde Noites de circo à obra-prima O sétimo selo, a redenção, quando há redenção, encontra-se do lado do idiota.
Bergman não foi o primeiro a dar ao idiota o status do salvador, do portador da esperança. Já na Bíblia, o Cristo exorta-nos para que sejamos como crianças, para que ofereçamos a outra face, não guardemos ressentimento. E Dostoiévski criou o príncipe Mishkin, de O idiota, na tentativa de representar o ser humano perfeitamente belo e seu naufrágio nos escolhos da feiura humana. Há ainda o Bartleby, de Melville e o Jesus de O anticristo, de Nietzsche.
Segundo Peter Solterijk, o idiota é um anjo sem mensagem e “Mesmo sua entrada tem o caráter de uma aparição – não porque ele representasse neste mundo um clarão transcendente, mas porque, no centro de uma sociedade de fazedores de papéis e de estrategistas do ego, ele encarna uma inesperada ingenuidade e uma desarmadora benevolência. Quando ele fala, não é jamais com autoridade, mas unicamente com a força de sua franqueza.” N’O anticristo, que seria muito melhor nomeado se se chamasse anticristianismo, ou antipaulo, Nietzsche, entre uma farpa e outra, deixa escapar certa sedução pela falta de ressentimento do personagem Jesus. Ainda segundo Sloterdijk: “Sua moral é sua incapacidade de golpear de volta. Esse é o traço que deveria interessar Nietzsche na suposta idiotia de Jesus, porque ele encarna de maneira pueril, o ideal da vida elevada e sem ressentimento – não, é claro, do lado do Eu ativo, mas do acompanhante que encoraja e completa.” Deixemos de lado o caso de agir de acordo com a vontade de potência que caracteriza a moral do Senhor e é defendido por Nietzsche, não é o que nos interessa aqui.
            Voltemos ao Bergman, mais precisamente ao Sétimo Selo. No que se refere à idiotia, a obra pode ser vista como um paralelo sombrio do Dom Quixote de La Mancha, outro idiota, no sentido que estamos construindo neste artigo. Remetendo ao Dom, temos o cavaleiro e seu escudeiro como contrapontos da forma de encarar o mundo. Da mesma maneira que no livro de Cervantes, o pragmatismo crítico do escudeiro revela um conhecimento do mundo distante dos questionamentos e indagações do cavaleiro sobre a morte e o sagrado. Com uma visão ácida, porém justa, o escudeiro não procura respostas, já as possuí pela experiência de vida, portanto não tem medo de enfrentar a própria morte. Assim como Sancho, sabe transitar entre o mundo da taverna, das brigas, da peste, da morte e o mundo quase sublimado e filosófico em que está o cavaleiro.
            Em todos os seus filmes, mesmo os menores, espanta-nos a coragem com que Bergman enfrenta e faz autópsia dos nossos sentimentos mais sombrios. Desde as irmãs que se recusam a entrar no quarto da irmã enferma - tarefa executada por uma empregada que, depois da morte da moribunda, é despedida - ao pai escritor, que espera a total deterioração mental da filha para usar em sua arte.
            A maioria dos filmes do diretor sueco termina mal, tal qual um rito – outro Bergman tremendo - sem esperança. Não é o caso d’O Sétimo Selo. No filme, a humanidade inteira é redimida e salva da caçada da morte pela família de artistas mambembes. São os únicos que escapam. Na cena final: amanhece, os pássaros cantam, a carroça está parada junto ao mar com o pai, a mãe e o bebê. De repente, o pai para, olha o horizonte e diz: “Mia, eu os vejo, Mia – toca-se um tambor – Lá no céu tempestuoso. Todos eles, o ferreiro e Lisa, o cavaleiro, Raval, Jon e Skat e a severa morte os convoca para dançar. – aqui a influência sempre presente de Strindberg: A dança da morte – Quer que todos deem as mãos para formar uma longa fila. A Morte vai na frente com a foice e a ampulheta... Mas Skat vai atrás com sua lira. Eles vão dançando, se distanciando do sol... Em uma dança solene. Dançam rumo a escuridão e a chuva cai em seus rostos... Lavando as lágrimas salgadas da face.” Os pássaros cantam o pai permanece olhando embasbacado o horizonte, até que a mulher o restitui à realidade: “Você e suas fantasias.” O bebê balbucia alguma coisa. O homem pega as rédeas e conduz a carroça rumo ao futuro: pleno de esperança, mas sem esquecer os mortos que ficaram pelo caminho.
Agora que termino este texto, lembrei de duas coisas, o bobo de Rei Lear e o romance Pedro Páramo, de Juan Rulfo, mas eles ficam para uma próxima ocasião. Viremos a ampulheta. Até breve.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

CARNEIRO, CONSERVADOR E COPEIRO - NESSA ORDEM

Não há filósofos no Brasil, apesar da pose. O filósofo cria conceitos. Não conheço conceito criado por brasileiro. Tudo o que obraram Marilena Chauí, Oswaldo Giacoia ou Scarlett Marton vale menos que a obra de um cachorro vira-lata na calçada. Daí o nosso amor pelos especialistas. É o que temos: especialistas. Se houver, em qualquer universidade, uma palestra com Deus, pode ter certeza de que estará vazia. Se a palestra for com um especialista em Deus, vai ter gente pendurada no lustre.
Volto ao bom baiano: Se tiver uma boa ideia, faça uma canção; pois já está provado que só é possível filosofar em alemão. Recorro então ao Síndico, não exatamente numa canção, mas num diagnóstico certeiro sobre o Brasil. Disse Tim Maia, certa vez: “Esse país não pode dar certo; aqui cafetão tem ciúme, puta se apaixona, traficante é viciado e pobre é de direita.” Interessa-me, para esta crônica, a parte final da sentença: o pobre de direita.
Fiz toda esta introdução para chegar ao Carneiro. Não sei seu primeiro nome, mas todos os chamam de Carneiro e Carneiro apenas. Ele trabalha como copeiro na padaria onde tomo café todos os dias e onde, de vez em quando, almoço.  É um excelente profissional. Como é calvo, mantém a cabeça impecavelmente raspada, assim como a barba e ainda usa gorro para provar que com higiene não se brinca. Seu avental e seus panos de prato estão sempre brancos, de uma brancura de comercial de sabão em pó omo; o qual ele compra com dinheiro do próprio bolso quando o patrão, para economizar, compra sabão de marca mais barata. A qualquer hora do dia que você for à padaria, será muito bem atendido pelo Carneiro. Trabalha todos os dias das cinco da manhã às onze da noite, exceto aos domingos quando sai às seis para ir ao culto da Igreja que frequenta. Olhando assim parece o perfeito homem de bem, um exemplo. Mas Carneiro é humano e, como todo ser humano, tem defeitos. O copeiro gosta de política e de falar de política. Nunca foi às ruas, nem bateu panela, acha que isso é coisa de vagabundo. No dia 02 de outubro, entretanto, 1º turno das eleições municipais, fui almoçar na padaria. Ele chegou para me servir, tem seus clientes preferenciais e eu sou um deles.
- E aí, professor, já votou no João trabalhador?
- Cê é louco! E eu vou votar em gente que faz plástica - brinquei.
- Sem brincadeira professor, é o melhor candidato. Sempre existiu rico e pobre. O rico gera emprego, o pobre gera o quê? Quanto mais fortalecido o rico está, melhor para o pobre também, que tem onde trabalhar, ganhar seu dinheirinho. Veja essa turma toda do PT, além de serem um bando de ladrões, ficam dando dinheiro a torto e a direito pra quem não quer trabalhar, porque serviço sempre tem, nem que seja pra catar latinha. Agora o Senhor acha que com uma merreca garantida o cara vai querer pegar no pesado? Nada, passa o dia no boteco e no final do mês tem um qualquer na conta.
- Você está falando do bolsa família certo? As pessoas falam demais o dinheiro é muito pouco, não dá pra sobreviver.
- É, não dá, mas eles ganham bolsa daqui, leite dali, uniforme para as crianças irem pra escola e depois não colocam o uniforme nas crianças, fazem as camisetas de pano de chão, usam uma vez e depois jogam fora, nem lavam. Quem não sabe quanto custa as coisas, esbanja. E tem outros benefícios também, até pra preso. Não dá para entender. Só de uniforme da minha filha, esse ano, gastei quase quatrocentos reais. Graças ao bom Deus consigo pagar escola para ela não ter de se misturar com essa molecada aí da favela da água vermelha.
- É um processo longo, Carneiro, é preciso conscientizar o pessoal.
- E isso se conscientiza nada? O cara passa vinte anos morando na casa, faz gato, não paga água nem luz e não passa nem um cimento pra cobrir o tijolo, vai se conscientizar do quê?
- E o que você sugere então, Carneiro?
- Cortar a moleza. Tudo quanto é moleza. Quem trabalha come, quem não trabalha não come. O mundo sempre foi assim. Só essa turma aí que andou no governo que pensou em fazer diferente. Tirar de quem trabalha e dar a quem não trabalha. Nunca vi isso. Eu, por exemplo, não pude estudar, mas trabalho aqui dezoito horas por dia. É puxado, mas tenho meu carrinho 2005, minha casa está sempre pintadinha, a menina estuda em escola particular, e ainda consegui fazer um planinho de saúde mais ou menos. Vou dizer que tá ruim?
- É Carneiro, meu camarada, seu esforço é louvável; mas não seria melhor se houvesse hospitais e escolas de qualidade pra todo mundo? E, assim, você não tivesse de trabalhar tanto. A vida é curta demais, você não vive, só trabalha.
- Cabeça vazia é oficina do diabo. E tem mais, a saúde anda ruim mesmo, mas as escolas não. A turma ganha de tudo e não quer saber de nada. Vai pra escola pra fumar maconha e fazer bagunça, desrespeitar o professor, o Senhor sabe, ué? No meu tempo, tive de sair da escola porque não tinha dinheiro nem para os cadernos... Caderno o quê, nem para as canetas.
- Como falei antes, precisamos conscientizá-los e fazer da escola um lugar mais atrativo.
- Fazer da escola um lugar mais atrativo? Libera o funk, as drogas e a bebida, pra você ver se não lota, professor. O país está assim, porque ninguém faz o que devia. Quem deve governar, rouba; quem deve trabalhar, bebe pinga; e quem deve estudar passa o dia fumando maconha...
Continuaríamos conversando, mas era horário de almoço, e o patrão gritou do caixa.
- Como é ó Carneiro? O povo está a esperar, vais ficar daí batendo papo?
- Já vou patrão...
Carneiro piscou o olho pra mim e falou baixinho:
- 45.
Sorri. Quando se consegue colocar na cabeça de uma pessoa que ela deve trabalhar 18 horas por dia para ter direito ao básico, tudo está perdido. E essa mistura de Igreja e meritocracia tem conseguido isso. Enquanto esperava meu pedido chegar, comecei a cantarolar baixinho: “Eu vim aqui para lhe dizer... Eeeeeu vim aqui pra lhe dizer, que eles agora estão numa tranquila, numa relax, numa boa, lendo os livros da cultura racional: Guiné-bissau, Moçambique e Angola.” Só a cultura racional mesmo pra dar jeito. Aqui cafetão tem ciúme, puta se apaixona, traficante é viciado e pobre vota no João trabalhador

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

GAY FRUSTRADO

Durante certo tempo, costumava conversar muito com o professor Jacques Françoise, aquele que usa cachecol tanto no inverno quanto no verão. Não o considero má pessoa. O problema com ele foi ter passado toda a vida na universidade, esta linha de produção de idiotas. Cedo terminou a graduação, daí foi direto para o mestrado, do mestrado para o doutorado e do doutorado para o pós-doc e, assim por diante. De modo que não teve opção: tornou-se um idiota. Tem bom coração até, mas é, irremediavelmente, idiota. O único pecado que podemos lhe atribuir é o fato de gostar do mundo acadêmico, o qual premia os idiotas e justifica a máxima de Cioran: “profundidade e erudição jamais andam juntas.”
            Quando não há outro professor por perto, Jacques Françoise, aquele que só filosofa depois que põe o cachecol, até que é uma pessoa bem gentil. Se há professores, passa para a outra mesa. Entende que deve haver uma hierarquia. Não diz explicitamente, pois poderia soar reacionário e isto é o que ele menos deseja, mas o pensamento, para ele, se dá em graus. Graduandos devem se sentar para pensar com graduandos; mestrandos com mestrandos; doutorandos com doutorandos e, assim, sucessivamente. De modo que, quando não há outro professor por perto, ele trata as pessoas com toda delicadeza, faz até piada; abre-se; conta até episódios de sua vida particular, uma beleza. Quando, entretanto, aparece outro professor, seus modos mudam instantaneamente, como se apertasse um botão em algum lugar... Ele ajeita o cachecol e, sem mais nem menos, torna-se rude, irônico, dá patadas, às vezes fica até agressivo com seus orientandos. Agora mudança mesmo se dá quando vem um professor, qualquer professor, de outro país, principalmente da França... Aí Jacques Françoise fica feito um menino de recados. Carrega até as malas do visitante.
            Num dia em que não havia nenhum outro professor, nacional ou estrangeiro, por perto, Jacques e eu nos sentamos para almoçar juntos. No fundo gostava de mim, morria de rir com meus trocadilhos mais bobos, com minhas piadinhas de português. Ele estava eufórico neste dia e falava do melhor período de sua vida: a primeira viagem à França. Ajeitou o cachecol, contou das pessoas que conheceu, das aulas com os figurões da filosofia. Esquecia a comida vegetariana no prato e falava... Falava... Falava... Feito um menino. De tanto falar. Acho que, sem perceber, entrou no terreno das confissões:
            - Sabe, foi lá em Paris, nesta primeira viagem, que pela primeira vez tentei ter relação com um homem. Todo mundo era gay. Ser homossexual era um ato político, carregava toda uma energia contra o patriarcado, o Estado, a Igreja. Era um ato de rebeldia, não deixávamos que as leis se inscrevessem em nossos corpos, sequer as leis da biologia.
            - É?
            - É.
            - Mas, Jacques, você disse que tentou. Que aconteceu? Não conseguiu?
            - Ó, mon cher, acho que nunca senti tanta dor na minha vida. Quando senti o início da penetração, dei um pulo de uns três metros de altura, bati a cabeça no teto, quebrei o lustre.
            - Mas você não tinha desejo? Não seguia o desejo?
            - Ah, querido, eu era muito jovem, não sabia muito bem o que desejava, mas não podia ver um rabo de saia. Adorava as mulheres e as francesas, então, são tão charmosas. Sempre fumando elegantemente nos cafés, com um jeitinho blasé.
            - E você não se envolveu com nenhuma menina no período?
            - Claro que não, você não entendeu, fazer sexo era fazer política.
            - Mas você não tinha o desejo e tudo. E como temos estudado nO Anti-Édipo... A questão do desejo... Não entendo.
            - Somos héteros porque o Estado, a tradição, a família nos faz héteros, condiciona nosso desejo. Na verdade, não é isso realmente o que desejamos.
            - Não?
            - Não.
            - Mas você não disse que tentou ter relações com homens e não conseguiu?
            - Pois é, não consegui.
            - E não disse que era doido por um rabo de saia?
            - Disse.
            - Então não entendo mais nada.
            - Não é para entender mesmo, você é muito jovem, está apenas na graduação, com o tempo, quando tiver lido mais Foucault, Deleuze, Guattari, talvez, talvez, compreenda alguma coisa...
            Terminamos a refeição. Caminhamos um pouco. Sentamos num banco. O professor queria fumar. Retirou o fumo do saquinho e fez um cigarro: tabaco orgânico, muito bom, sabe.
            Enquanto o professor Jacques Françoise fumava, ousei...
            - Professor, posso fazer uma pergunta?
            - Claro.
            - E o Senhor tentou mais alguma vez?
            - O quê?
            - Ter relações com homens?
            - Pufff, se tentei. Tenho tentado a vida toda, mas nunca consigo. Às vezes tento chupar, mas os caras reclamam, dizem que eu os arranho com os dentes, que não levo o menor jeito.
            - Continue tentando. A persistência é a alma do negócio...
            - Será que senti uma pontinha de ironia?
            - Que é isso, professor? De minha parte não, jamais.
            Terminou o cigarro.
            - Uma última pergunta, professor, posso?
            - Voilá, hoje você está impossível, parece um menino de oito anos. Vai, o que é?
            - E quanto às mulheres?
            - As mulheres são meu carma, filho, vira e mexe estou enrolado com alguma, não consigo me livrar; é como um vício, sabe, uma adicção, como o alcoolismo. Acho que vou fundar um grupo de ajuda mútua, nos moldes do A.A. doze passos, reuniões de duas horas, com depoimentos de dez minutos, para homens que não conseguem deixar de gostar de mulher.
            - É uma boa ideia, Jacques, uma boa ideia.
            E saímos caminhando rumo à universidade, essa usina do saber, essa Itaipu do conhecimento.
            

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

A MINORIA É A GALINHA

Não sei se se lembram, mas já falei dele aqui, do professor Jacques Françoise, aquele que usa cachecol, em Guarulhos, tanto no verão quanto no inverno. O nome verdadeiro dele é João Francisco; mas, depois que conseguiu uma bolsa sanduíche nos anos 1980 e assistiu a algumas aulas de Foucault e Deleuze, mudou o nome para Jacques Françoise, além de aderir ao seu inseparável cachecol, aparato sem o qual não se pode sequer imaginar fazer filosofia.
Encontrei-o ainda ontem, num café em frente ao novo prédio da UNIFESP, no Pimentas, onde tinha ido buscar alguns documentos.
- Ficou bom o novo prédio, não acha, professor?
- Não sei, não sei, Daniel, há muitas observações ainda a serem feitas. Particularmente, preferiria que tivéssemos nos transferido de vez para um lugar mais acessível. Algum lugar na Vila Mariana, ou perto do Ibirapuera.
- Mas, professor, a intenção não era justamente descentralizar o ensino superior. Dar mais acesso a quem mora na periferia?
 - Sim, claro, mas aqui fica muito longe de casa, quase 40 quilômetros; e quando trazemos algum professor de fora, não há a menor possibilidade de trazê-lo neste muquifo. Imagine... Jean-Luc Nancy no Pimentas? Mais c'est la vie...
 - A realidade sempre é mais ou menos do que desejamos...
O professor é um homem que enxerga o mundo a partir da esquerda francesa da segunda metade do século XX; pelo menos é o que ele diz.
- E o doutorado? Trancou mesmo?
- Não professor, desisti.
- Você deveria ter ido à Paris, mudaria de opinião. Só de se sentar num daqueles cafés à beira do Sena, respirando o mesmo ar que Lacan, Guattari, Deleuze, Derrida, Foucault e que tantos outros respiraram, mudaria de ideia.
- Pois é, mas não deu. Tenho família.
- Esse foi seu erro. O filósofo deve ser alguém completamente liberto. Veja o exemplo da filosofia clássica e antiga. A única mulher de que me lembro é a insuportável Xantipa de Sócrates.
- Pois é, Jacques, mas a vida não é cartesiana.
- Boa frase, a vida não é cartesiana! – repetiu, esticando um fio imaginário com a ponta dos dedos, feito um maestro. - Vou usá-la em minhas aulas. Nessa você caprichou.
Sorrimos. Terminei meu café com leite. Pedi mais um chorinho de café puro ao copeiro.
- Mas e o senhor, quais as novidades? Tudo na mesma?
- Novidades... Bem agora tenho religião.
- Religião? Mas o Senhor sempre foi um materialista convicto. E o seu Deleuze, o senhor mesmo sabe, sempre foi contra os poderes instituídos, o Estado, a Igreja, por exemplo.
- E quem foi que falou em Igreja? Estou frequentando regularmente um centro de candomblé... Nada tem a ver com o cristianismo. Trata-se da religião das minorias, do povo oprimido africano. Faço até trabalhos.
- Ó sim, entendi – disse, virando meu restinho de café, antes de pedir a conta.
Só pra constar, desde que o conheço, o professor é vegano, ou vegan como ele prefere dizer, nem pão de queijo come. Já escreveu artigos contra as touradas e a vaquejada, mas agora sacrificava animais em nome dos Deuses Africanos.
Fiquei imaginando a situação da galinha, no momento do sacrifício, dizendo:
- Mas, professor, o Senhor não foi sempre a favor dos oprimidos? Das minorias? E aquele papo todo de agenciamento? Aqui sou eu a minoria. Fique do meu lado!
E o professor, sem argumentos, passa-lhe no pescoço o punhal, calando a voz da minoria e juntando-se à galeria de tiranos que, em tese, sempre combateu. Bebe, em seguida, o sangue. Numa encruzilhada, em noite de trabalho, a minoria é sempre a galinha.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

SALTO MORTAL - NOBEL - SARTRE E A IDIOTIA

É um salto mortal pensar. Quem pensa, não aceita doutrinas injustificadas; não outorga seu coração ao que diz o pastor, o patrão, o professor, o estadista, o partido. E é por isto que dá o salto mortal. Politicamente, está sempre desagradando todos os lados ao mesmo tempo. É um rebelde e um libertário, mas corre o risco do frio e da solidão; pior, da incomunicabilidade. Age como se gritasse: "ama-me como sou ou afasta-te de mim! Não sou dos teus, também não sou dos outros. Lá onde vocês vêm dois, eu vejo vastidão." Ficou bonito; mas, por que é que eu disse tudo isso mesmo, hein? Ah, Lembrei! Outro dia, outorgaram o Nobel ao Bob Dylan. Fiquei quieto, Dylan é gênio, mas acho a querela estéril. Como já disse, a literatura não são os prêmios e o Nobel, que está tão longe, lá na Academia Sueca, não me interessa. Agora, é interessante notar como alguns discursos voltaram à pauta. Publicou-se aqui e ali o texto de recusa de Sartre ao prêmio como se fosse um ato de grande rebeldia. Não foi; pura hipocrisia. No momento em que escolheu o comunismo, Sartre abriu mão de pensar. Entregou à URSS stalinista sua mente e seus olhos e, segundo ele mesmo, este foi um dos motivos de não ter aceito o Nobel. Em determinado momento de seu artigo de renúncia, o filósofo estrábico afirma: "É lamentável que se tenha concedido o prêmio a Pasternak e não a Cholokhov e que a única obra soviética coroada seja uma editada no estrangeiro, proibida em seu país." Agora... a pergunta: por que Pasternak não foi publicado em seu país? Simplesmente porque caiu em desgraça com as autoridades soviéticas durante os anos 1930. Acusado de subjetivismo, conseguiu, no entanto, milagrosamente, não ser enviado a um Gulag, como o foi Mandëlstam, que num deles acabou morrendo.

Foi atribuído a Pasternak o Nobel de Literatura em 1958, mas ele não foi autorizado a recebê-lo por razões políticas.


Na Rússia, é mais conhecido como poeta do que romancista, em virtude de o livro Dr. Jivago não ter feito sucesso na antiga União Soviética por motivos políticos. O filósofo da liberdade, Sartre, colocou-a em segundo plano em determinados casos. Cegou-se. Em luta contra o monstro do imperialismo norte-americano, não percebeu que caía nas garras e apoiava outro monstro. Foi também este o motivo de seu rompimento com Camus. Onde se perseguem poetas como Mandëlstam, Akhmatóva, Tsvetaieva, nada de belo pode florescer, só panfletos e doutrinas. Em virtude de sua recusa em ver o horror e pensar, Sartre se tornou um idiota; ainda pior que um idiota comum, pois tinha o status e o respeito de um idiota-filosófico.


segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Empoderamento, ligerie masculina e esquerda à venda nas lojas de butique

Desde sempre é sabido que a linguagem não é neutra, ou ela é fonte de poder ou de resistência. Deleuze e Guattari, principalmente em seu livro sobre Kafka, falam do poder de uma literatura menor, que é o uso que uma minoria faz dentro de uma língua hegemônica, caso dos judeus no Ovo da Serpente kafkiano, dos negros nos E.U.A, ou nas periferias brasileiras. A língua é desterritorializada, arrastada para longe de seus dogmas gramaticais e semânticos. Assim, já a língua e a literatura são uma máquina de guerrilha contra o Poder instituído. Recentemente, tenho visto amigos substituírem os gêneros masculinos e femininos por @ ou X. Escrevem: amigxs (o que me parece algum plano diabólico da Xuxa que desde os anos 80 vem mandando mensagens subliminares do capiroto quando rodamos seus discos ao contrário), ou amig@s (o que me lembra coisa do Bill Gates, Zuckerberg, ou de algum desses magnatas manipuladores da internet, do mundo virtual). Pergunto então, se o uso da palavra é tão importante como meio de luta e fortalecimento, por que o uso do termo EMPODERAMENTO? O poder sempre esteve ligado a tudo o que é escroto e desigual, de Nero a Hitler, dos militares às subgerentes Dorianas? Será que o necessário é o poder ou a emancipação, a igualdade, a arte de recusar e resistir ao poder? Todas as traduções mais à esquerda de Niezstche  preferem o termo vontade de potência, pois potência é potência para agir, ao termo vontade de poder. O medo de amar é o medo de ser livre.
Assim como a linguagem é viva, nunca neutra, e o estilo é justamente o modo como alguém livremente faz uso da língua. Em moda, o estilo é o modo como a pessoa faz uso das roupas. Sempre tive certos conceitos prévios quanto ao mundo da moda, mas que se confirmam mais e mais como sólidos preconceitos contra o glamour que envolve até a semana da moda de Jacareí. A moda quer constituir o sujeito a partir da exterioridade, e boa parte das pessoas acaba por se constituir assim: pura aparência. Livro? O pequeno príncipe; que, a bem da verdade, é um baita livro; mas será que leram ao menos este mesmo? Falo tudo isso pra chegar ao Liniker, rapaz até talentoso que vi na TV outro dia, mas que precisa usar saltos finos de 15 centímetros, os quais acho uma agressão a qualquer pé – masculino ou feminino – para aparecer, tirar selfies com desconhecidos na rua? Os New York Dolls, Bowie, o próprio Caetano já não quebraram essas barreiras nos anos 70? Será que se ele tocasse de tênis, calça e camiseta seria um artista menor? Eu prezo o conforto. No caso da roupa, calça de agasalho, ou jeans, tênis, ou chinelo e camiseta. Sinto em tudo o golpe da cotovelada para aparecer na TV, na Net, e, de fato, só aparecem mesmo os pavões. É fácil andar vestido de mulher na Paulista, qual a novidade? Difícil é para o menino de 15 anos, negro, na favela, colocar uma minissaia entre pastores e traficantes. Hoje existem até falsos gays no meio artístico, tudo em prol de seus minutinhos de fama. E quando aquela menina foi estuprada por dezessete traficantes, apareceu um monte de marmanjo de batom com foto no perfil dizendo “fomos todos estuprados”. Porra nenhuma! E, ainda ontem, abri o facebook e estava lá a matéria sobre a lingerie masculina, cujo aumento de vendas foi absurdo de um ano para cá: um calcinho apertadinho e rendado custando quase R$ 80,00. (Que será que o Beckham anda fazendo da vida?). Fiquei imaginando meu tio, roceiro em Tatuí, 1,85, 120 quilos com uma daquelas. Por mim, o melhor seria viver feito índio, todo mundo nu, a não ser nos dias frios, mas cada um se veste como quer; por mim, foda-se. O caso é que em tudo se formam clubinhos. E hoje, se você não é do clubinho da chuquinha e salto alto, você é do clubinho do Bolsonaro-Alckmin-Dória e, Deus me livre, prefiro aderir ao clube da cuequinha de renda; o qual, a bem da verdade, outro dia até linchou virtualmente um menino porque escreveu um texto - ingênuo inclusive - sobre ficar observando as meninas chupando laranja no restaurante da USP. Chamaram-no pervertido. Achavam-se melhores que o menino, donos do Bem e do Belo. Em menos de 24 horas os policiais das redes sociais – gente inteligente, universitária  – prenderam, julgaram e bloquearam o rapaz. E são todos do clube do mesmo clube. Lutam todos por um mundo mais justo na Paulista.
E, pensando em esquerda, soube recentemente, de fonte fidedigna, que uma famosa filósofa, feminista, articulista da revista cult, fundadora de partido e tudo faz palestras para empresários. Só numa palestra para grã-finos amigos de um dos donos da Sadia - o bom verniz cultural - embolsou um cheque que vale mais que meu salário anual. Antigamente, um comunista matava o melhor amigo, morria sem borrar as calças por causa da Causa. Os princípios sempre à frente das personalidades. Eram idiotas, achavam que mudariam o mundo, mas eram idiotas honestos. “Isso foi no tempo do stalinismo e sabemos quanta gente o stalinismo matou!” Concordo, mas foi Stalin quem parou Hitler. Só um psicopata pode entender como pensa o outro e, além disso, havia o Ideal, havia uma crença. Hoje, todo ideal é um adorno ao EU. A causa, mesmo sendo coletiva é individual, é sempre o mesmo euzinho querendo tirar selfie com desconhecidos na Henrique Schaumman – pra não ficar sempre na Paulista. Nada de novo sob o sol - nem as perguntas aos entrevistados no Metrópolis - tudo é vaidade. Nossa esquerda é um produto do capitalismo, um fetiche à venda em lojas da Daslu e nem se dá conta disso.

sábado, 19 de novembro de 2016

Cartas: Rilke, Sabato, Vincent

Procuro palavras que sejam pedras, armas; pois é duro o que tenho a dizer: não resta amor ao próximo quando o ódio a si mesmo ocupa por inteiro o coração. Reviro livros em busca de janelas. Lá fora impera o deserto e a vulgaridade. A futilidade é o maior escudo contra o nascimento. Pode-se muito bem chegar aos 90, 100 anos sem nunca ter nascido. Para nascer é preciso um mínimo de sensibilidade, de inteligência. E a maioria das pessoas opõe sua mais pungente energia contra o pensamento. Dão aulas, dirigem automóveis, viajam pra Itaquaquecetuba ou Paris e morrem de velhice sem jamais ter sentido o desespero e o júbilo de um único pensamento. Mesmo o que se sente é pensado - por outro, claro: o partido, a plataforma, o jornal, a TV, o formador de opinião, o teórico francês -  cheiro de formatação e ovo estragado.
Abro Cartas a um jovem poeta , como faço quase todos os dias em que não me sinto bem, e Rilke dispara a verdade transcendental: “o verão há de vir. Mas virá só para os pacientes, que aguardam num grande silêncio intrépido, como se diante deles estivesse a eternidade. Apreendo-o diariamente, no meio de dores a que sou agradecido: a paciência é tudo.” “A carne é um peso difícil de carregar. Mas é difícil o que nos incumbiram; quase tudo o que é grave é difícil: e tudo é grave.” “Amar também é bom, porque o amor é difícil.” Leio o livro, descanso o livro. Medito: sem dúvida se trata de um grande tratado sobre poesia/vida; mas, caralho,  trata-se de uma poesia de anjos, de serafins, de quem nunca foi escorraçado, de quem nunca teve de pedir dinheiro, humilhar-se um pouco para poder sobreviver: tudo ali e nobre, grave, transcendental.
E, então, me lembro de outras cartas. Aquela de Sabato a Un querido y remoto muchacho que, em outros tempos, eu costumava levar dobrada no bolso da calça, como um amigo que se quisesse ter por perto nos momentos sombrios; “Te desanimás porque no sé quién te dijo no sé qué. Pero ese amigo o conocido (¡qué palabra más falaz!) está demasiado cerca para juzgarte, se siente inclinado a pensar que porque comés como él es tu igual; o, ya que te niega, de alguna manera es superior a vos. Es una tentación comprensible...” “ Es entonces cuando además del talento o del genio necesitarás de otros atributos espirituales: el coraje para decir tu verdad, la tenacidad para seguir adelante, una curiosa mezcla de fe en lo que tenés que decir y de reiterado descreimiento en tus fuerzas, una combinación de modestia ante los gigantes y de arrogancia ante los imbéciles, una necesidad de afecto y una valentía para estar solo, para rehuir la tentación pero también el peligro de los grupitos, de las galerías de espejos. En esos instantes te ayudará el recuerdo de los que escribieron solos: en un barco, como Melville; en una selva como Hemingway; en un pueblito, como Faulkner.”  As palavras não necessitam paráfrases: o talento não basta, é preciso coragem para dizer tua verdade, tenacidade para seguir adiante. Fé e descrença. Modéstia ante gigantes e arrogância perante os imbecis. O perigo das panelinhas, que cozinham em fogo brando sua arte de dondocas. Sabias palavras.
Mas de todas as cartas que li, nenhuma me dói e me entende mais profundamente que uma carta de Vincent Van Gogh, ao irmão Théo em Março de 1880. Nesta data, Vincent era nada. Sequer tinha começado a pintar e acabara de ser afastado de suas funções como Pastor em uma Igreja para mineiros, na qual vivia em situação pior que seu rebanho. Para começar, aquele que viria a ser o maior de todos os pintores, agradece, não sem incômodo e vergonha,  os cinquenta francos enviados  pelo irmão mais jovem e diz que preferiu afastar-se de todos, da família inteira, porque sentia como se tivesse se tornado um fardo. “O que para os pássaros é a muda, a época em que trocam de plumagem, a adversidade ou o infortúnio, os tempos difíceis são para nós, seres humanos.” Não se trata de um espetáculo bonito e não é algo que se faça em público, a muda humana. Vincent prefere cordial compreensão e uma distância amena. Na sequência, Van Gogh aborda seu comportamento difícil, a impulsividade, as paixões. Afirma que age depressa demais, atabalhoado demais. Sempre que releio a carta, sinto como se estivesse falando de mim. Estou sempre pendurado entre a agressão e o remorso. Nunca consegui agir como adulto. E Vincent, que ainda não se decidira pela pintura, fala dos livros, de sua paixão por eles e da pintura e do quanto todas as artes têm em comum. Fala da impossibilidade de continuar na universidade. A partir de sua “melancolia ativa”, Van Gogh lê, lê de tudo, instrui-se. A pergunta crucial que Vincent se coloca neste momento é: “no que eu poderia ser bom?” Manoel de Barros diz em algum lugar que o poeta não serve pra nada, tirando-lhe a poesia é como um trapo velho. Também tenho essa sensação e também me pergunto em que diabos poderia eu ser útil? Nunca consegui fazer quase nada bem a não ser esta ânsia de “sofrer as atrocidades dos poentes.” Por último, faz a súplica que atormenta a alma do futuro rótulo de serviço de banco (Santander Van Gogh –VIP): “Ficaria muito contente se de alguma maneira você pudesse ver em mim mais que um vagabundo.” É essa ânsia por compreensão, por acolhimento, por colo que estraçalha o poeta, o artista. Veja bem, Vincent continua sua explanação: existem vagabundos e vagabundos. “Uns o são por preguiça e fraqueza de caráter.” Mas há outro tipo de vagabundo, no qual me encaixo ao lado de Van Gogh, que é “o vagabundo que é bom apesar de si, que intimamente é atormentado por um grande desejo de ação, que nada faz porque está impossibilitado de fazê-lo, porque está preso como que por alguma coisa, porque não tem o que lhe é necessário para ser produtivo, porque a fatalidade das circunstâncias o reduz a este ponto...” [em que pensar é sempre não poder ainda pensar - BLANCHOT]. “Um pássaro na gaiola durante a primavera sabe muito bem que existe algo em que pode ser bom, sente muito bem que há algo a fazer, mas não pode fazê-lo. O que será? Ele não se lembra muito bem. Tem então vagas lembranças e diz para si mesmo: “Os outros fazem seus ninhos, têm seus filhotes e criam a ninhada”, e então bate com a cabeça nas grades da gaiola. E a gaiola continua ali, e o pássaro fica louco de dor”. Nós, os pássaros da gaiola, nem sempre sabemos dizer o que nos encerra. “Mas ele tem tudo.” – dizem os outros pássaros e, no entanto, somos a própria derrelição, a ferida purulenta. E então já vem a ideia: uma única e impossível ideia: queríamos cantar o impossível, o canto angelical, celestial; queríamos, com o nosso canto, acariciar o coraçãozinho sofrido dos outros pássaros. Coltrane dizia que gostaria de tocar para um amigo doente e curá-lo apenas com sua música. É essa a espécie de vagabundo que Vincent era, que sou, que Kerouac era: vagabundos do Absoluto. Não apenas poetas, pintores, ou músicos; estes existem demais no mundo. Queríamos ser profetas num mundo sem destino. Então nos matam aos poucos, justamente pela impossibilidade de ser, de não sustentar a magia sagrada: Billie Holliday morreu com 44 anos; Anita viverá até os 100.
Aí de ti Esfera! Quando faltarem profetas, as pedras cantarão.
Hoje queria atirar pedras nos vitrais, mas só encontrei estas palavras nos bolsos pra atirar.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

O si-mesmo como outro, viagem, espelho, livro, mundo


Ela pulsa, algo dentro de nós reclama: há algo mais, tem de haver! A vida não pode se resumir a esses simulacros: símbolos e signos sem significado. A vida não pode ser só o edifício Richard Wagner, suas vizinhas fofoqueiras a contar as laranjas que levamos na sacola, a especular sobre o trabalho convencional que não temos. Em algum lugar neste planeta deve haver vida. Mas onde? Na Espanha, na Paris dos anos 20 e da geração perdida de americanos; mas não terminaram quase todos mal? Fitzgerald morrendo de delirium tremens, Zelda esquizofrênica e internada? Hemingway com um tiro de espingarda de matar elefantes na cabeça? “Claro que toda vida é um processo de demolição” – afirma Scott num dos ensaios mais impressionantes do Crack up. Vida, que vida? A companheira Virgínia que trabalha onze meses por ano no cubículo de um banco de frente para uma grua-dragão para poder gozar um mês de vida por ano? E Consuelo com seu vício em cocaína e seu namorado loser. E Luís manco tal qual personagem machadiana, seu tio moribundo. E nossa mesquinhez, nossa fragilidade, a vontade de fugir? Saudades de um Éden pré-natal: “Viajar é uma forma de sonhar. Também um modo de fugir. Um velho truque para ser outro. Ou na verdade para ser você mesmo.” (p.11)
Kerouac procurava, na estrada, a pérola, achava que, na estrada, em algum momento, a pérola lhe seria ofertada, o momento numinoso, vislumbre de infinito e paraíso, no qual perceberia que a eternidade é uma festa, que ressaca não existe na eternidade, só o gás da primeira cerveja. Também ele empreende sua primeira viagem sob o signo de uma ruptura, na ficção de On the road, um divórcio; mas, na vida real, o que o impeliu à primeira viagem de costa a costa foi a morte do pai. De certo modo, no romance Um dia toparei comigo mesmo (Foz, 2015), de Paula Fábrio é também uma morte que enceta na narradora a ânsia de viajar. No caso do romance de Paula Fábrio, trata-se da morte de um vizinho, Sr. Odair, que lembra à narradora, da morte dolorosa de seu próprio pai e de que o tempo foge. Quando um velhinho morre, um adulto tende a começar a ocupar seu lugar. Com a morte de seu Odair, a narradora percebe que está envelhecendo[1], deixa os rascunhos de sua dissertação de mestrado sobre a escrivaninha e foge com a companheira Virgínia para, talvez, na estrada, encontrar a vida verdadeira, longe dos simulacros baudrillardianos e quem sabe, entre trezentos e trezentos e cinquenta, topar-se consigo.
É um romance triste, esse Um dia toparei comigo mesmo. Trata da culpa que sentimos diante da morte de um ente querido, a culpa por sobreviver, por continuar procurando a pérola, enquanto o outro está no esquife. E é por isto que fugimos da morte, por isto que não queremos limpar a bunda do moribundo. Não temos condições, não é nojo das fezes o que sentimos, é nojo da morte, da nossa finitude, da nossa impotência, da sensação de que sempre poderíamos ter dito mais, feito mais, demonstrado mais o carinho que sentíamos pela pessoa que agora está morta: quem caga morre. O romance trata também da instabilidade das relações humanas. Por mais que amemos uma pessoa, por vezes, topamos com outras que nos fascinam, que revelam uma faceta nossa escondida, e nos perdemos, pois não há a possibilidade de alguém não sair machucado. Ferimos sempre quem mais amamos, talvez por estarem mais perto de nós. E a narradora se envolve com o gauche Luís, entre uma cerveja e outra. Poliamor? “Porque viver é sublime, quando não estamos pensando tanto.” (p.47)
Para a viagem empreendida em Um dia toparei comigo mesmo, parece não haver um roteiro prévio, um trajeto definido. O enredo parece ser construído no próprio momento da escrita, empreendendo idas e vindas no tempo e no espaço: a Itaquera italiana de Virgínia quando criança; o primeiro passeio de bicicleta da protagonista fora do quintal de casa – talvez a primeira indicação de que o si-mesmo está fora: no quintal a menina só pedalava em círculos. - O fato é que o enredo do livro trata de uma busca, busca não definida, talvez seja uma identidade, um eu, talvez a vida mesma – não é à toa que a narradora imagina estabelecer residência em todo lugar isolado porque passa – talvez seja a mesma pérola de Kerouac, mas o fato é que não encontra, não encontramos. A viagem é mais importante que o destino. Feito nuvens, as personagens deste romance se tocam se envolvem, misturam-se, arrancam pedaços umas das outras e seguem adiante.
Talvez a chave para a compreensão do romance esteja na afirmação da potência literária, enquanto potência criadora de mundos, talvez o si-mesmo enquanto outro se estabeleça no diálogo com os livros, com outros autores: de Hemingway a Julio Ramon Ribeyro; de Cervantes a Fitzgerald, o mundo se faz a partir da lente dos livros: já aí o pai morto se torna um soldadinho de chumbo, do mesmo modo que para o cavaleiro da triste figura[2], os moinhos de vento eram monstros gigantes. É interessante notar que, além de dialogar o tempo todo com suas leituras, a narradora afirma ter tido uma livraria: “Quem lê, sempre tão solitário. Encouraçado. Quando encontra outro lobo, encontra a si mesmo” (p.67)
Por outro lado há ainda uma questão intrigante, o amor como espelho para a formação do si-mesmo. Há no amor verdadeiro uma potência de nos fazer inteiros. Não é o caso de um amante completar o outro, como se os dois fossem carne da mesma carne; mas da possibilidade de habitar a solidão, de, com o outro, poder estar sozinho. Assim como não se pode ler a dois, portanto, sempre que está lendo, a protagonista está entregue a si e ao livro; para a amante, Virgínia, é inconcebível ir ao zoológico acompanhada. É neste momento de solidão, frente aos bichos enjaulados, assim como ela, que Virgínia bate de frente consigo, encara-se.
Enfim, foi uma alma que completa a esfera que sou quem escreveu este Um dia toparei comigo mesmo. Uma irmã em desamparo e, retomando as palavras da própria narradora: “Quem lê, sempre tão solitário. Encouraçado. Quando encontra outro lobo, encontra a si mesmo”. É bom quebrar, de vez em quando, a solidão.





[1] Virgínia, a companheira da narradora, afirma que só começaria a envelhecer quando o primeiro amigo morresse. O fato é que todos nós, num dado momento percebemos que dobramos o pico do penhasco.
[2] Acho o momento em que Sancho observa o rosto ferido do Dom e o chama de o Cavaleiro da Triste Figura um dos  mais belos de toda a literatura. Só comparado, talvez, ao momento em que Sônia e Raskolnikóv, uma puta e uma assassino rezam juntos o mais belo Pai Nosso.