segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A tia, a casa, o tempo – reflexões sobre o romance A casa das marionetes

Quando lemos um autor original pela primeira vez; inconscientemente, vamos comparando sua voz à voz de leituras passadas; ouvindo os ecos que ressoam em nosso coração; tentando entendê-lo a partir do que já levamos na alma: isso parece José Lins do Rêgo, o grande coronel José Paulino, isso parece Federico Garcia Lorca, La casa de Bernarda Alba, Emerenciana, seria pois, Emerenciana Alba, aquilo se parece com Gabriel García Márquez, com Alejo Carpentier, com o realismo mágico e o real maravilhoso. Mas, e essa voz? Esse modo de narrar? Essa respiração encantatória? Essa música, a conexão entre a comida e a memória, isso é Proust! Só que não, não pode ser Proust, em Proust não cabem o caldo de mocotó, o bolo de fubá a cuxa de gergelim. Por fim, nos damos conta, entregamos os pontos; trata-se de um autor original. Como um girassol num cemitério, aponta para todos os lados, mas sua beleza e sua singularidade são únicas.
            Essa reflexões vieram-me à alma depois da leitura de A Casa das Marionetes, de Santana Filho, editado pela Reformatório (2015) e finalista do Prêmio São Paulo mais recente. A primeira coisa que nos damos conta, assim que lemos as primeiras linhas do livro, é de que estamos diante de um autor seguro, de alguém que sabe narrar, que não se afoba e nem precisa dar piruetas para conquistar o leitor, pois sabe que “apenas a ficção é real. Só pode existir realidade se existir organismo, e o organismo se expressa unicamente nos momentos de devaneio, nos sustos descuidados e na aceitação do mistério, quando se consegue ludibriar a razão, os vícios de pensar, a técnica e os ensinamentos viciados.” (p. 24)
            A meu ver, todo o romance parece ser a explanação desta afirmação que aparece ao final do primeiro capítulo. Numa prosa que não obedece aos manuais da boa escrita tão em voga nas oficinas de escrita literária - os quais afirmam a necessidade das sentenças curtas, da ordem direta – Santana Filho narra a decadência de um casarão: de residência de família poderosa, abastada, respeitada e unida, a bordel. Foi essa decadência do sistema patriarcal, atrelado ao espaço da casa que me fizeram lembrar os romances de José Lins do Rêgo, o coronel José Paulino. A casa, aliás, sem forração, com as vigas e os telhados à mostra nos parece uma metáfora do próprio teatro de marionetes que o bisavô costumava encenar e que cede o título ao romance. Ela, a casa, é uma espécie de palco de marionetes, no qual as personagens se movimentam, observadas pela voz do menino que lá passava as férias escolares. A casa viaja no tempo.
            No parágrafo anterior, abordamos o sistema patriarcal como um dos aspectos do enredo; na orelha do livro, todavia, a escritora Andréa del Fuego diz se tratar de uma família matriarcal. Podemos concordar ou não com ela. Se comparamos Emerenciana ao fraco avô Jacinto, o Cintinho, tendemos a ver que a força da personagem feminina excede em muito à da masculina, nos lembrando a fala final de Bernarda Alba na peça de Lorca “Aqui nada se passa!”.  Ao confrontar o jovem padre César, Dona Emerenciana anuncia, tal qual Bernarda Alba: “Padre César, não existe doente mental em minha família. Nunca existiu nem haverá de existir.” (p. 160) Por outro lado, há o bisavô, o homem que move os fios das marionetes  e que, quando ia ao porto da Capital buscar seus bonecos e charutos importados, “Ali permanecia por um tempo além do necessário para o que tinha ido fazer, enfurnado nos salões do cais do porto às voltas com marinheiros, aguardentes e prostitutas, evocando os mundos do outro lado do oceano. [...] Houve um ano em que, encantado com uma bailarina tailandesa, e alongando a temporada no cais, ele quase perde o batismo dos penitentes, a romaria dos homens na Sexta-Feira da Paixão” (p.21) Se mantivermos o foco no bisavô, notamos a tradição patriarcal, coronelista, ainda que em decadência.
            Sobre tudo o que afirmamos no parágrafo anterior, duas coisas precisam ser melhor explanadas: 1º a questão das tradições religiosas, das crenças ligadas à terra, do mágico neste lugar ser algo cotidiano. 2º A força das personagens criadas por Santana Filho.
            Para o escritor cubano Alejo Carpentier, o mágico, o absurdo, ou, se preferirem, o surreal, em nosso continente, é parte integrante do cotidiano e de nossa realidade. Em nós, diferentemente do que ocorre com os europeus,  consciente e subconsciente se fundem num só, num todo, não há uma fissura. Aqui a razão não prevalece sobre a fantasia, tudo é mágico e cotidiano. Fatos históricos e fenômenos naturais comprovam a magia e a maravilha de nosso continente; basta-nos observar as linhas de Nazca, ou a arquitetura maia, ou ainda o  Titicaca,  lago navegável mais alto do mundo e berço da civilização Inca. Todo bom romancista cria um mundo no qual acreditamos. Não se trata de verossimilhança, a ficção nada deve à realidade, mas de coerência interna. Santana Filho consegue isso; com poucas palavras nos transporta para um mundo mágico, no qual tia Dália (a seguir falaremos mais dela) cuida dos defuntos, assegura-se de que foram bem recebidos do outro lado e se alegra tanto com suas lagartixas a ponto de se converter numa delas. Além disso, quando ia comprar os mocotós junto ao narrador, muitas vezes tia Dália “escolhia o pedaço de toucinho a ser levado para dona Assíria dar de comer à ferida que lhe roía o seio, evitando que o mal se alastrasse à procura de alimento, consumindo os demais órgãos do corpo. A tia recomendara o uso do toucinho por dentro do sutiã em contato direto com a boca da ferida e em uso contínuo até a saciedade daquela fome.” (p. 34) Loucura? Não segundo Tia Dália, Dona Emerenciana; não aqui.
            Tia Dália é a grande personagem deste romance familiar, que trata da força da consanguinidade. Ela assume a força de uma sacerdotisa inocente, dissolvendo em tiras colocadas sobre a língua as notícias de jornal. É quem faz a ponte entre o mundo natural e o sobrenatural. É curandeira e sábia. Para ela, as enfermidades são um “jogo de luz e sombras, brincadeiras entre gato e rato, marionetes desarticuladas...” (p.34) Mas nem só de tia Dália, se faz um romance; são necessárias outras tias, como Inácia. Tia mais velha, viajada, liberal, conhecedora do mundo, outra estrela do casarão da Rua des étoiles. São necessárias Dona Emerenciana, vó Lama, o almofadinha Rodrigo e o devotado Bernardo, sobre os quais o narrador afirma com a naturalidade latino-índio-americana: “O tio almofadinha se chamava Rodrigo e era filho de minha avó com o seu filho mais velho, Bernardo, morto de cirrose hepática...” (p.101)
            Trocando em miúdos, Santana Filho, além de médico, como Céline, Moacyr Scliar e Guimarães Rosa é também um tremendo escritor e com esse A casa das marionetes nos traz algo de latino-americano: o real maravilhoso, que não é a magia separada da razão, mas uma razão mágica, ou uma magia racional e cotidiana. Tradição muito forte em nosso folclore e em toda a América Latina, mas que aqui, literariamente, não explodiu com a mesma força que nos países de língua espanhola. Talvez por isso eu tenha chegado ao término da leitura do livro e há alguns parágrafos acima no início desta resenha à conclusão de que se trata de um romance absolutamente original por aqui.
            O que diria a tia?


Reformatório, 2015. R$ 36,00

sábado, 29 de outubro de 2016

POEMA DE ANIVERSÁRIO

Juntando cacos remenda-se um vaso, não um homem
Um homem se refaz de sua solidão, de suas crenças,
Das forças que vai catando daqui e dali
No olhar de um cão, no sorriso de um bebê
Nas palavras de um velhote que ainda trama revolução
Juntando cacos remenda-se um vaso, não uma flor
Tudo o que é vivo precisa colar seus próprios pedaços
Reconstituir sem fissuras sua inteireza
Uma flor se refaz de sua seiva, de sua água, do amor a ela dedicado
Ó abre as janelas e vê lá fora a primavera
É ainda tempo de luta e festa
É ainda ano de atravessar encruzilhadas
Juntando homens remenda-se um país, não uma nação
Uma nação se refaz com esperança, justiça, braços brancos e negros
Tolerância e botequins
Sorrisos de meninos e homens
Uma nação se refaz com mulheres desdobráveis, feito Adélia
com homens cuidadadores, feito Cláudio e Fernando
com pássaros cujo canto é celebrado num mundo sem música.
Juntando cacos remenda-se um prato
Nunca o amor, este permanecerá para sempre faminto, pois tem ânsia de infinito

SE MEU NOME FOSSE NUVEM

Elas se tocam
Arrancam pedaços umas das outras
Incorporam-se umas às outras
Seguem juntas um trecho do percurso
(Mãos dadas sob as asas do avião)
Depois se separam
Seguem adiante
Sempre adiante


Elas tomam forma de pássaros
De dinossauros
De vermelho
Dos dedos das crianças
E quando se zangam
Despencam pra depois ouvir os pássaros cantar
A vida é redonda e amarela feito o sol.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

DELTACID

Tudo está na infância, é ela que nos salva e nos fode pelo resto da vida. Sobre a minha, duas coisas. Eu era cabeçudo e piolhento, praticamente um latifundiário da pediculose. Se não tomasse cuidado, pegaria morcegos, em vez de piolhos. A primeira percepção profunda da tristeza que tive está ligada aos piolhos. Estávamos indo a um passeio na escola e todos se divertiam no ônibus, ao passo que eu, continuava quieto no meu canto. Com medo que descobrissem o meu segredo, pensava: “De que adianta o sol, o passeio, a festa se tenho piolhos?” Quase um Poema do Beco, do Bandeira. Era a época da música do Nenhum de Nós, Astronauta de Mármore e adivinhem do que os meninos me chamavam? Desde pequeno, tudo que é ruim gruda em mim, do piolho ao vício. Hoje meus piolhos caminham do lado de dentro do crânio. A mãe tratava, passava pente fino, tudo quanto era remédio fedido, mas não tinha jeito, eu tinha sangue doce.
Mas o padre dizia, na Igreja, que era preciso ter fé e fé é esperança. E eu rezava: “Senhor, se for da tua vontade, acaba com estes piolhos.” Com as lêndeas tudo bem, até que eu gostava do nome, é uma palavra bonita e sempre fui louco pelas palavras; qualquer dia escrevo um soneto com este título: Lêndeas.
É preciso ter fé e fé é esperança. Não sei se por inspiração divina, nos anos seguintes, uns cientistas inventaram um produto chamado Deltacid e meus problemas foram resolvidos. Neste meio tempo, deixei o cabelo crescer, descobri o rock, O pequeno príncipe, O menino do dedo verde. Encorpei um pouco, o que melhorou a proporção entre o corpo e a cabeça. Agora, já era um adolescente, trabalhava numa padaria, tinha dinheiro para camisetas do Pink Floyd e Yes, usava calças apertadas, lia; às vezes, tomava um keep cooler na frente da escola. Em suma, tornei-me um diferentão.
De outra escola, veio uma menina linda, um par de anos mais velha que eu, Adriana. Todos a chamavam de Adriana-Modelo. E, de fato, ela poderia ser mesmo modelo. Tinha um cabelo que ía até a cintura. Como ela morava perto da minha casa e estudávamos no período noturno, fizemos amizade, ela tinha medo de vir sozinha e eu fazia companhia. Um dia, elogiei seu cabelo e ela me fez uma confissão:
- Sabe, nem sempre tive o cabelo assim. Na verdade, saí da outra escola porque os meninos pegavam demais no meu pé. Todo ano eu pegava piolho... E minha mãe cortava meu cabelo curtíssimo. Apelidaram-me de Joãozinho. - Moleques burros, poderiam chamá-la de Sinéad O´ Connor, porque era a cara.
- Eu também pegava piolho todo ano - confessei. - Ainda bem que inventaram o Deltacid.
Ela riu e na frente de sua casa, sem qualquer palavra, sem qualquer gesto artificial, mas numa conjunção de almas piolhentas e sofridas, dei meu primeiro beijo. O beijo mais natural do mundo, parâmetro da boca pelo resto da vida.

A GRANDE REVOLUÇÃO DA TRISTEZA

Há em A peste, de Camus, uma frase que me marcou de modo esplendoroso: “vergonhoso é ser feliz sozinho”. Hoje, talvez, a frase não faça muito sentido; pois, quanto mais feliz estamos e quanto pior o outro está, melhor. O facebook aqui é a fórmula 1 da felicidade. Fotos, festas, fatos, pratos, frases feitas. Cada um se torna um pouco celebridade. Cada um é estrela de sua própria revista Caras.
Mas, pergunta incômoda, e os tristes?
Hoje o vergonhoso é ser triste sozinho em meio a tanta gente bem-sucedida, eficiente, competente,divertida, empolgada, promovível. A felicidade alheia, de camisa pólo e dentes brancos, verdadeira ou falsa, acentua nossa própria infelicidade.
Num piscar de olhos, estamos no meio da jornada e não realizamos nada. O mundo visto pela janela parece sem sentido. Os filhos pedem uma força que nos foge, escapa entre os dedos. Simplesmente cansamos de levantar da cama para o oco e a repetição. Sísifo despenca do alto do morro e a rocha esmaga-lhe a cabeça. Entramos no ônibus sem dar sinal, esperamos o ponto final e a viagem nos parece longa demais; nada muda na paisagem.
Mas ainda tenho esperança, fé, na revolução, não numa revolução sangrenta qualquer, mas na Grande Revolução da Tristeza. Minha utopia é ver chegar o dia em que o mal-estar será tão grande que todos cruzaremos os braços. Estatisticamente, não está muito longe. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), no início dos anos 2000, a depressão atingia 6% da população, a projeção é de que até 2020, a depressão terá se tornado a segunda causa de morbidade no mundo industrializado, precedida apenas pelas doenças cardíacas.
Vinícius de Moraes... Espinosa... Deleuze... Estavam todos redondamente enganados, é pela morbidez que se atinge um devir revolucionário. A força do I would prefer not to, ou do I can´t.
Eu cá com meus botões penso em como serão as fotos do facebook daqui a quatro anos. Será que se parecerão com cenas de um filme de Robbie Zombie, ou será que todos continuaremos mentindo, fotografando pratos de lasanha?

BE WATER, MY FRIEND

Agora é oficial, sou doido “com todo direito a sê-lo”, como diria o Álvaro Campos. Encontraram aí quatro ou cinco cid´s nos quais me encaixar.
Desde menino, sempre achei que havia algo de errado comigo. Na escola, até que me virava bem. Eu decorava tudo e depois colava da minha própria cabeça a resposta; mas, pra dizer a verdade, não entendia coisa alguma. Em casa, novos e piores problemas. Minha mãe me mandava ao açougue e lá ia eu. No caminho, via um passarinho e eu imaginava que era um anãozinho e domava o passarinho, como se fosse um cavalo alado e lá íamos nós guerrear, conquistar reinos, enfrentar monstros feito um Conan de dez centímetros. Quando chegava em casa, trazia dez pães e um litro de leite C, de saquinho, daqueles da época do José Sarney. A mãe perguntava:
- E o frango?
- Que frango?
- O que te mandei comprar.
- Não era pão?
E dá-lhe no cocoruto um bom cascudo daqueles bem mineiros. Das duas uma, ou gênio, ou retardado; disse a professora Maria Helena.
Mas o que acabou comigo mesmo foi a entrevista do Bruce Lee. Be water, ele dizia. Be water, a água se ajusta a todas as situações e sempre chega ao seu destino. Levei o conselho a sério. Em todas as situações, até hoje, me lembro: be water. Depois li mais sobre Lao-Tsé, Chuang Tzu, o I-ching; mas não adiantava, o cerne da má compreensão já estava dentro de mim. Be water, adapte-se, como a água, chegue ao seu destino.
Então, quando estou tomando um café na padaria e o copeiro sapeca: 
- Bom mesmo é o major Olímpio, ou o Levi Fidelix, só um dos dois para resolver – concordo e ainda pergunto: - qual é mesmo o número aí do gato Félix?
E quando estou num papo cabeça e o sujeito manda:
- Gênio só Joyce. Ulisses, que primor!
Sei que o sujeito não folheou nem as primeiras vinte páginas do irlandês, mas concordo.
- Não tem igual. Dostoiévsky é uma besta se compararmos.
Existem forças no mundo operando sobre nós e cada uma delas quer nos levar para um lado. O diabo, é que, com esse papo de ser água, fui me deixando levar pra lá e pra cá. Diante de cada interlocutor, uma máscara diferente. Eu gostava mesmo era de sentar na praça e olhar os passarinhos que ainda restam em São Paulo. Mas, como diria Freud, olhar passarinho não enche barriga do eu, do isto, nem do supereu. Então, quando precisei ganhar a vida, tentei usar a técnica do be water.
- Daniel, você pode pegar os piores trabalhos para fazer em nosso lugar?
- Ó sim, claro, companheiros.
- Daniel, você pode ir ali tomar no cu?
- Com todo prazer.
Eu não sabia dizer não. Então dizia sim para todos: em casa, no trabalho, na escola. Dizer não virou um trabalho hercúleo. Só que, como diria outro gênio da psicanálise, a Senhora Melanie Klein, o eu é um balde, se você encher demais com água suja, ou limpa, uma hora ele transborda e espalha merda, digo água, pra todo lado. De tanto viver tentando evitar o conflito o tempo todo, quando o balde transborda, faço merda, brigo, ofendo, me arrependo, sinto vergonha, choro, vêm os pavores, síndrome do pânico, arrependimento; se toca o telefone, acho que é do inferno me mandando descer... E não durmo nunca, porque, para evitar o conflito, aceito coisas com as quais não concordo e, quando me expresso, faço do jeito errado, armo uma tremenda confusão. Se fosse mudo e analfabeto, teria escapado das piores confusões nas quais já me enfiei, mas eu queria evitar o primeiro diagnóstico da profª Maria Helena, retardado, e resolvi que seria gênio. Não deu muito certo também, mas vamos caminhando, seguindo nosso caminho, feito água... Do rio Tietê.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

livros

Livros são bons, dizem. A literatura faz você viver uma vida melhor e ficar mais inteligente, dizem. Todos têm direito à literatura, disse o Cândido, a se sensibilizar com ela, a ganhar e engendrar em si novos mundos, a
construir caminhos para si com essas passagens de vida. Tenho muitos livros, uma enxurrada de jovens autores, boa porcentagem desses livros é lixo publicado por vaidade, por vontade de ver o nome escrito numa capa com bela gravura, Ó... o glamour da noite de lançamento. Leio ou tento ler boa parte dos livros recentemente produzidos, mas isto me toma o tempo de ler, por exemplo, algumas coisas do Dostoiévski que ainda não li, o Knut Hamsun que pretendo conhecer mais. A literatura é um direito, assim como a arquitetura, a engenharia, a pintura, o futebol arte. O que não dá para aceitar é que qualquer um que admire pontes e viadutos vá construir um prédio e que ele vai ficar de pé da noite para o dia; não da pra aceitar que qualquer um que visitou um ou dois museus, viu algumas gravuras na internet terá o mesmo êxito em dizer o indizível daquele que buscou um modo de extrair da pintura uma comunicação ontológica como Cézanne, ou Vincent van Gogh. Como o capitão Achab, enlouqueceram na busca de sua baleia branca. Estes homens arriscaram tudo, doaram a vida para tentar expressar algo grande demais que viram no destino humano. Quem está disposto a pagar o preço? Nem todo mundo que joga uma pelada é Pelé. Além do talento, há a obsessão pela palavra justa, pelo modo de dizer uma passagem de vida, um caminho de pensamento que jamais foi trilhado antes. Fora a incompreensão, o chiste, o desterro, a autodestruição – penso no cônsul de Lowry: “Ah e que mundo era este capaz de esmagar tanto a verdade quanto os bêbados?” Outro dia, num sarau, um autor de cinco livros, disse-me que havia pouco tinha descoberto que romance era um gênero. Ele achava que todo romance era romântico. Então vamos com calma, companheiros, porque se o que você tiver a dizer for menos importante que o silêncio, não diga. Espere. Não quero que minha posição seja tomada como elitista, porque não é. Quando a literatura andava empolada demais, Hemingway e Céline invadiram o salão a cavalo, feito bárbaros. Penso que se a escrita não for tão importante quanto o prato de comida, como era para Carolina Maria de Jesus, então não escreva. Vá ao parque, curta uma balada que não seja necessariamente literária. Não tem a ver com uma estética da alta cultura, mas da arte como tábua de salvação, da literatura como respiração. O artista é alguém que viu na vida algo grande demais, o que pôs nele a marca da morte, é o grande assinalado de Cruz e Souza, é o que não pode trocar de destino. «Melville dizia: «Se dissermos dadas as necessidades da argumentação que ele é louco, então eu preferiria ser louco a sábio... gosto de todos os homens que mergulham. Qualquer peixe pode nadar perto da superfície, mas é preciso ser-se uma grande baleia para descer a cinco milhas e mais... Os mergulhadores do pensamento voltaram à superfície com os olhos injectados de sangue desde o princípio do mundo.» Reconhecemos com facilidade que há perigo nos exercícios físicos extremos, mas o pensamento é também um exercício extremo e rarefeito. A partir do momento em que pensamos, enfrentamos necessariamente uma linha onde se jogam a vida e a morte, a razão e a loucura, e esta linha arrasta-nos. Só podemos pensar nesta linha de feiticeira, faltando dizer que não estamos forçosamente condenados a perder, que não estamos forçosamente condenados à loucura e à morte.» Pensemos aí em Vincent no trigal, nas noites de Poe, nos jejuns kafkianos, na tenacidade de Faulkner, no desconforto da gravata borboleta do Rosa montada por temporadas e temporadas no lombo de um burro, dormindo no chão da caatinga, do sertão.

LITLLE GREEN

Naquela noite você me contou que estava triste. Cantarolou uma canção antiga, dizendo que nós deveríamos pegar mais leve, ficar mais calmos, porque amanhã nós ainda estaríamos aqui, mas nossos sonhos poderiam não estar. Eu me fiz de durão. Joguei meu topete de lado. Não havia como não me tornar um astro de rock. Outros sonhavam ser jogadores de futebol, de basquete, atrizes, modelos, Idalino queria ser corredor de fórmula 1. Sua voz, lembro bem, tinha o timbre da Joni Mitchell, e você tinha até um ukulele. Onde foram parar todas aquelas meninas e meninos famosos? Aqueles gênios do sonho? Alguns estão por aí, limpando para-brisas com o cu cheio de bosta no farol. De você, soube que vivia, até há pouco, em um albergue em Divinolândia. Eu me tornei funcionário público, único motivo pelo qual ainda não fui parar embaixo da ponte. Você sabe como é bonita aquela lorota de educar as novas gerações e etc e tals. Todos têm vocação para fazer, dos outros, santos, até os ateus. É fácil ser ateu depois que você se sai da sala de aula e vai ganhar um pouco mais numa salinha arejada com umas plantinhas verdes e silenciosas.
            Fitzgerald escreveu o melhor início de texto do mundo, em seu Crack up: “É claro que toda vida é um processo de demolição.” Desmoronamento, demolição, chocamos nossas frustrações com as frustrações alheias. É, ferimos com requintes de crueldade aqueles que caminham ao nosso lado e são um pouco mais lerdinhos, ou mais bonzinhos. Na escola, dizem: “coitada, não domina a sala!” Em outras profissões deve haver algo semelhante. Vejo gente defendendo o fim da polícia militar. Deveriam defender é o fim da escola. Ninguém quer professor, quer um sargento que mantenha 38 alunos com o cu na cadeira durante seis horas.
            Mas nem é disso que quero falar, papo ruim. A gente acha que vai conquistar o mundo e não conquista, com os bolsos cheios de farelos, nem a simpatia dos pombos na praça. Feito toupeira cega, saímos empurrando a terra com o focinho, buscando uma fresta de luz. Quando achamos ter encontrado o túnel certo; quando nos sentimos fortes e estamos cuidando do corpo e da alimentação... Aí vem, do nada, uma avalanche e transforma tudo em merda.
            Hoje não estou para bons sentimentos, querida, você sabe, sempre tive problemas para levantar da cama. E acordei lúcido demais, meu mal desde a infância. Que vá pra puta que pariu, a utopia. O futuro é tenebroso. Crianças e adolescentes são só canalhas em fase de crescimento. Não me venham falar de moral – palavra fora de moda – ou de ética – palavra muito em voga. Conheço a ladainha, percebo há quilômetros um hipócrita. Meu filho diz hipótrico, acho mais contundente.
            É, temos de tentar ver o outro lado também. Parece que vai chover, companheiro. O tempo vai abrir. Tem feriado semana entrante. Nem tudo é tão ruim. Existem os gatos que se aproximam ronronando quando percebem que estamos tendo uns pensamentos sombrios; mas também existem os karnais que pensam estar desvendando algo da alma humana, os cortelas que contam as dobrinhas dos dedos. Quem não é charlatão é canalha declarado. E, então, o proto-padre fala dos moribundos, que deveríamos ser gratos...  Ó, a vida é um dom. A gente pode perdoar a deus por um bocado de coisas, menos por ter criado tantos idiotas. Toda a história do conhecimento humano não vale um gato vivo.
            Outro dia me levaram a um psicólogo. As pessoas estão sempre me levando a algum lugar Igreja, Centro Espírita; eu vou não tenho nada melhor pra fazer mesmo. Até que gosto deles, dos psicos, mas quando falei que eu parecia um retardado ou um ET porque sempre que tentava explicar os lugares pelos quais passei, as coisas que pensei, as emoções cheias de pus que avassalaram meu coração, ninguém me entendia. Ele, o psicólogo, imediatamente pegou um carimbo e tacou na minha testa: NARCISISTA. Nem por um segundo o cara pensou que eu estava tentando nomear minha vida e que todas as palavras estavam gastas demais, sujas demais. Talvez só eu pudesse mesmo entender as coisas que dizia. Às vezes pareço a mim mesmo tão claro. Quando Vincent, por exemplo, pinta seu quarto, ele não está querendo dizer quarto, mas Vincent, sua dor, sua incompreensão, sua falência. Não é uma metáfora é uma andança. E, ah, como seria bom se alguém algum dia chegasse com a chave secreta e abrisse todas as portas do labirinto. Então eu poderia ao menos ter um rosto, um riso, rugas, um nome: existir.
            Agora não quero mais saber. Acredito que o otimismo de uma pessoa é diretamente proporcional à sua BuRRicE.
            Decidi me tornar um ladrão. Minha dúzia de ovos agora terá treze ovos. O desodorante roll on cairá fácil no bolso do meu casaco. Não tenho qualquer compromisso ético com um mundo que sempre me julgou sem sequer me deixar nascer.
            Que aumentem a velocidade das vias públicas para 280 km\h! Que construam ciclovias na pista do aeroporto. Que se fodam! Que se matem! Não quero mais tomar parte em porra nenhuma. Só não me venham pedir para levantar uma palha. Meu lema é dormir sempre que possível e comer pastel de queijo. Não fosse a incompetência generalizada, a turma já teria dado cabo do mundo mesmo.
            Só levarei comigo o sonho da menina que queria ser Joni Mitchell. Não, melhor, levarei a lembrança do sonho daquela menina. Talvez ela ainda seja você, talvez ela também já tenha apodrecido. Não faz mais diferença

PROPRIAMENTE EU SOU DURANGO KID

kEROUAC acreditava que, na estrada, em algum momento, a pérola lhe seria ofertada. Penso em Clarice, Lygia, Katherine e na impossibilidade de escrever uma crônica quando já não há liberdade, bonde ou esperança; elementos essenciais ao gênero.
                Meus olhos perderam o encanto. Tudo é velho e gasto; mas, e a pérola? Onde está a pérola? Na cerveja que não bebo? Nas crianças dividindo a fruta? No silêncio que não encontro mais? No louco que busca uma ordem milimétrica para as suas garrafas, trapos e restos de aparelhos eletrônicos? Propriamente dizer:
                - Tem de haver algo mais – repito. – Avida não pode se resumir a amarrar cadarços.
                Enquanto empaco no trânsito, uma faceta do maravilhoso se joga do viaduto.
                Onde a pérola para o funcionário público?
                No primeiro pega no cachimbo – o transbordante a dez reais por dois minutos? Na sequência de acordes do Toninho Horta? Numa canção dos Beatles? O som exato, ser o que fui? Não, isto não nos traz a pérola, só a nostalgia por uma pérola que nunca tivemos, que não encontramos, por uma potência de nós mesmos que não nos deixamos realizar. Quando finda a canção, despencamos do paraíso: carros buzinam, o dia amanhece cinzento, novo jornal, trens cortam o que resta da noite, meninos se jogam do oitavo andar.
                Como ver os peixes e os comboios com os olhos de Adélia? Ensina-me, Adélia, a consagrar uma colher, um guardanapo, a ver o sagrado por todo lado. Tira dos meus olhos a fuligem.
                - Homem, tu desejas a pérola, mas se apresenta diante de Deus com a alma seca, de porre, o corpo sujo, amente cansada – diz Adélia e sua poesia me esmaga.
                Já não posso pegar a estrada de Kerouac.
                Os anos passaram a galope.
                Passo, de um minuto a outro, do sentimento oceânico à crise.
                Já não me importam, sequer o leite e o mel. Sou exigente quero me alimentar das pérolas.
                Abro, pois, a ostra, passo a língua afiada, mas não há brilho lá, só o gosto de sangue da carne machucada... E a ferida não nos torna brilhantes.

                Propriamente eu sou Durango Kid.

PRÊMIO SÃO PAULO

Assim como o Oscar não é o cinema, os prêmios não são a literatura. Entretanto, tanto em um caso como no outro, há uma estreita relação entre as partes. Apesar de todas as críticas magistralmente tecidas por Adorno sobre a relação entre arte e entretenimento, percebemos que a relação dialógica entre as partes permitiu aos americanos criarem uma das melhores escolas cinematográficas do mundo que produziu pérolas como Shane, Bring me the head of Alfredo Garcia ou The tree of life. Então existe a arte como investigação da condição e do destino humano – feita por artistas - e a arte como negócio – feita por executivos. Uma coisa não existe sem a outra. Só existe aquilo que se manifesta, que chega até as pessoas, que é visto, ouvido, lido. Um livro na gaveta só emociona a gaveta, bem como uma música tocada num quarto emociona apenas o autor. O mundo amaria A day in the life se jamais tivesse sido gravada? Então, por mais que não se queira ver a arte como produto, ela é sim um produto; cultural, vá lá, mas um produto. E como tudo o mais no capitalismo triunfante está aí para ser vendida; único modo de chegar às pessoas. Claro, boa parte dos artistas lida mal com esta esfera da produção artística. Há aqueles que se isolam, aqueles que pousam de rebeldes e passam as tardes no facebook dizendo que estão consumindo cocaína – como se alguém quisesse saber disso, como se isso tivesse importância, e como se isso fosse mote de algum orgulho - aqueles que verdadeiramente cheiram omitem o fato, estão dando seus tiros bem longe de casa, nas favelas, nos puteiros, nos becos. Eu mesmo não me dou muito bem com esta parte do negócio, sinto-me meio vendido, meio fake, como Pollock naqueles filmes que fez. Mas, como disse antes, só existe aquilo que se manifesta - Brian Epstein foi necessário aos Beatles quase tanto quanto John ou Paul - e isso é trabalho dos homens de negócio. Neste sentido, acho não só positivo como necessário todas as feiras de livros, saraus, baladas, festas, prêmios, o escambau, porque é isso que faz a roda girar, é isso que cria notícias nos jornais, na tv, nas redes sociais. É isso que faz aquela criação quase sempre solitária sobre uma comunidade de destino humano chegar aos demais humanos, ao professor, ao encanador, ao estudante, ao porteiro, ao frentista. Digo tudo isso porque ontem saiu o resultado do Prêmio Oceanos e vejo que meu chegado Marcelo Maluf ganhou em uma das categorias, sabia também que Santana Filho, outro amigo, chegou a finalista, ambos pela editora praticamente independente de Marcelo Nocelli. Anos atrás Chico Lopes levou um jabuti, Evandro Affonso Ferreira outro. Há pouco tempo Paula Fábrio ganhou o prêmio São Paulo pela Patuá e no ano passado Juliano Garcia Pessanha levou o APCA. Fico feliz por estas pessoas talentosas, de pequenas editoras, estarem ganhando estes prêmios. Mesmo porque quem hoje em dia está em condições de abrir mão de R$ 100.000,00? Eu não estou e tenho certeza de que nem mesmo aquele escritor rebelde de facebook que diz passar as tardes bebendo e cheirando também não está - já não se fazem aspiradores de pó como antigamente. O negócio é que como sinceramente pontuou Gore Vidal: “Há uma ponta de inveja em cada sucesso dos meus amigos.” Mas também há uma ponta de orgulho e de esperança; e, como disse lá no início, os prêmios não são a literatura ainda que gravitem em torno dela. Como assinala qualquer jogador de futebol quando é substituído, o negócio é continuar trabalhando. Um escritor escreve, escreve sempre, ainda que para apenas um leitor, ainda que apenas em diários, ainda que para si mesmo. A escrita é o vício mais difícil de largar. De cabeça, só me lembro do Raduan e do Rulfo, mas o segundo, quando perguntado o motivo do abandono dizia entre triste e irônico:

            - Es que se murió mi tio Celestino que me contaba las historias.

ODAIR JOSÉ E A FILOSOFIA

Segundo um bom dicionário, a palavra devir vem do latim devenire, que significa chegar. Em filosofia, grosso modo, trata-se de um conceito que aborda as mudanças pelas quais as coisas passam. O conceito foi criado por Heráclito que dizia que nada no mundo era permanente exceto a mudança e a transformação. Fragmento: “Não se pode entrar no mesmo rio duas vezes.” Nas antípodas de Heráclito está Parmênides que postulava que por trás das aparentes transformações, dos “devires” havia a pura perfeição em silêncio, a eternidade, a verdade suprema: o Ser.
Platão, assim como Sócrates, não se perguntavam o que era estar feliz, mas o que é a Felicidade? Haveria algo de transcendente, de imutável por traz da natureza, platonicamente, no mundo das Ideias. Toda natureza que, com o tempo se degrada, é engendrada pela Ideia perfeita e transcendente.
Boa parte da filosofia Ocidental versa sobre este assunto: o mutável e o imutável, Deus e a Natureza, o ôntico e o ontológico.
Como bem disse, nosso bom compositor baiano: “Se você tem uma boa ideia, faça uma canção / já está provado que só é possível filosofar em alemão.” E a contribuição tupiniquim sobre o assunto vem de uma das mais belas músicas do cancioneiro brega, a estupenda: “A noite mais linda do mundo (A Felicidade)”, cantada por Odair José.
Na canção, o moço goiano afirma “Felicidade / Não existe / O que existe na vida são momentos felizes.” Postulando, portanto, junto a filósofos tão diversos e distantes no tempo quanto Heráclito e Deleuze, que a única coisa imutável é a mudança, a única coisa que se repete é a diferença. Não há, pois, uma Felicidade eterna, Transcendental, mas apenas momentos felizes, cambiáveis, blocos de afetos, imersos no devir.
Não bastasse tamanho poder de síntese e lirismo, há ainda, na canção,  dois outros versos que se conectam à esfera ética do eterno retorno (não nos interessa discutir se do mesmo ou do diferente) nietzschiano, o qual aparece pela primeira vez num aforismo de A gaia ciência pela boca de um demônio hipotético, o qual pergunta, algo mais ou menos como: e se tua vida inteira retornasse eterna e eternamente, tu afirmarias cada segundo? O imperativo ético que se despende daí é “viva cada segundo como se fosse vive-lo eternamente.” Odair canta: “Vamos viver nesta noite / A vida inteira num segundo.”

Depois de muito tempo esquecido, Odair José vem sendo redescoberto. Hoje costumam compará-lo ao gênio canadense Neil Young. Na boa, não é para menos.

O CORAÇÃO NÃO TEM RANKING


Susan Sontag certa vez escreveu que, se tivesse de escolher entre Dostoiévski e The Doors, certamente escolheria Dostoiévski, mas, pergunta irônica ainda no mesmo texto:
- Por que é que eu tenho de escolher?
É numa posição semelhante à da ensaísta norte-americana que me coloco hoje.
Venho falar de música, música popular brasileira. Não pretendo escrever um grande tratado; deixo, pois, o samba, o frevo, o reisado e o maracatu de lado. Deixo a música caipira e o congado. Pulo a Bossa Nova, momento em que, segundo Tom Zé, o Brasil deixou de ser a fazenda que exportava comida para a metrópole para exportar a mais nobre produção humana, a arte - mesmo no rock dos Doors, de quem Sontag era fã, a bateria é, em diversos momentos, bossanovística.
Chegamos então ao final dos anos sessenta e início dos setenta. Efervescência cultural. Jovem Guarda, marchas contra a guitarra elétrica. No mundo, explodem Beatles, Stones, Dylan. E aqui duas das coisas mais importantes da música acontecem em menos de cinco anos: o Tropicalismo e a música mineira de Milton Nascimento e do Clube da Esquina.
A meu ver, o que difere os dois movimentos é a tônica que se dá ora ao sentimento, ora ao pensamento. No tropicalismo, pesa mais o cérebro; no clube, o coração. O tropicalismo é fruto de um conceito estético articulado principalmente por Caetano Veloso. Poderíamos até chamá-lo de arte conceitual, uma vez que o conceito vem antes. Caetano, antena tão poderosa quanto Chico Science décadas depois, estava ligado em tudo o que acontecia no Brasil e no mundo. Assim, feito Sontag, perguntou: - Por que é que eu tenho que escolher entre o violão e a guitarra? Bora misturar tudo isso aí. Havia um conceito de Brasil, um conceito de música, um conceito estético, por trás do tropicalismo, que ao mesmo tempo embasava e dava rumos. O Brasil não é outra coisa senão um liquidificador e dá-lhe Oswald de Andrade, Carmem Miranda, os poetas concretos, Teatro Oficina, Bossa Nova, Roberto Carlos. Mas, como uma andorinha só não faz verão, eram precisos parceiros criativos. Chamemos então Gilberto Gil - o irmão, Tom Zé, o sertanejo-maluco-de-vanguarda, o rock do bom dOs Mutantes e uma pitada orquestral com os maestros Rogério Duprat e Júlio Medaglia. Não era algo totalmente novo, os modernistas de 22 já haviam apontado o caminho, mas era jovem. O resultado todos conhecemos. E os epígonos também, quer coisa mais erótica que a guitarra de Pepeu?
Em Minas não houve plano. A Terra reuniu a todos, a voz de Milton clama do fundo da Terra desde há cinco mil anos, antecede seu nascimento em milênios. Caso Deus cantasse, teria a voz de Bituca. E, se a tônica no tropicalismo era o cérebro, em Minas era o coração. Não havia um conceito prévio. Lô vai comprar leite pra mãe e encontra um moço negro tocando violão sozinho nas escadas. Tem dez anos, esquece o leite e fica ali perdido ouvindo o Bituca improvisar. Lô vai brincar na rua e encontra o Beto Guedes recém-chegado de Montes Claros sobre uma patinete maravilhosa. Tempos depois, os dois descobrem os Beatles. Enquanto isso, Milton ganha um festival depois de encontrar os letristas Fernando Brant – autor de Travessia – Márcio Borges, pouco depois Ronaldo Bastos. Invadiram o Rio. Os músicos cariocas se embasbacaram. As harmonias não eram lineares, subiam e desciam, como as montanhas de Minas, jogavam a alma do ouvinte pra cima e pra baixo. E vem Toninho Horta com uma pitada de jazz, vem Wagner Tiso – maestro, vem Novelli, vem Naná com suas panelas, Nivaldo Ornelas, Solange Borges com seu jeitinho de menina marruda querendo brincar no quarto dos homens, ALAÍDE COSTA. Milton, o coração do grupo, teve uma ideia: é só reunir todo mundo. Não havia plano, quem acordava mais cedo escolhia o instrumento, os retardatários ficavam com o instrumento que sobrava. Há uma ordem no caos, nós é que não a entendemos. O Clube da Esquina é um movimento fenomenológico. E saiu o primeiro Clube, um dos discos que moldou minha vida e que contém canções como Cravo e Canela, Clube da Esquina, Nuvem Cigana, Cais, Um Girassol da Cor do Seu Cabelo, TREM DE DOIDO. É um disco completo. E tem uma qualidade incrível: não enjoa, o que é raro em música. Sei que vou ouvir estas canções a vida toda. Talvez não como se fosse a primeira vez, mas pelo menos a segunda.

Se tivesse de escolher? Escolheria os dois. O coração não tem ranking.