quinta-feira, 29 de setembro de 2016

A dimensão do afeto

Sempre gostei de arte, nada mais natural, então, do que me voltar, durante meus anos de estudo, às disciplinas ligadas à questão estética. Triste dissabor. Falava-se de tudo, nestas aulas, menos de arte. Comida, a meu ver, tem de encher a barriga e aquelas aulas me pareciam pratos bem decorados, com fios de chocolate, mas não me matavam a fome. 
Discussão tão velha quanto aquela do ovo e da galinha era a questão da “alta cultura” vs a “cultura popular”; sem falar na cultura de massa. Tudo isso me parecia passar ao largo da dimensão afetiva, da força vulcânica com que a arte nos molda e nos muda. E dá-lhe filósofos alemães: Adorno, Horkheimer, Lukács, mas o que eu queria mesmo resgatar, quando escrevia, eram os afectos e perceptos que atravessavam meu corpo franzino quando meu pai preparava o lanche pra mim, antes de ir trabalhar, ouvindo Odair José. Que me importava a questão da cultura de massa? O que aquilo tinha a ver com o filósofo alemão que foi sofrer nos E.U.A? Eu queria, na escrita, era resgatar o episódio do Chaves em que o protagonista é acusado de ladrão e deixa a Vila. Levava meus poemas ao profº de teoria literária e ele me devolvia gráficos que terminavam numa linha descendente. A emoção, o afeto, eram considerados signos de mau gosto.
Hoje frequento os saraus espalhados pela periferia e os poemas já não pedem gráficos, mas continua a me afetar a questão da “alta cultura” vs a “cultura popular”. Questão antiga. Há, em boa parte dos poemas que ouço, uma ânsia de afirmar a identidade negra: estamos nas bordas. Nada mais natural depois de tantas barbáries, estupros, violência, abusos; mas, ainda me incomoda a falta de Sim, a ausência do afeto positivo. Para além da revolta e do ressentimento justificado será que nunca houve amor? Sabemos que não é possível comparar a escravidão à imigração europeia, a qual fazia parte de um projeto de branqueamento da população; no entanto, mesmo por trás de tais objetivos torpes, será que não ocorreu, num belo dia, num bonde, de um padeirinho português se apaixonar por uma balconista negra que ia para o trabalho? Ou será que, mais tarde, um funcionário da cervejaria Antarctica de olhos azuis e genealogia perdida (meu pai) não poderia se apaixonar por uma indiazinha empregada doméstica (minha mãe)?
Creio que não podemos esquecer o que fizeram de nós, mas também não podemos esquecer o que fizemos daquilo que fizeram de nós. Como seres humanos, não cabemos em teorias, ou medidas governamentais que não levam em consideração nosso corpo, nossa carne, nossa capacidade para o beijo. É no olhar do outro que nos tornamos inteiros.
Pouco me importam a eficiência germânica, inclusive no futebol, ou estadunidense, eu quero é participar da dança e louvar com tambores. Lampião, nossa imagem e semelhança “tenho certeza, ele também dançou um dia”.

Tudo está tão claro em nosso mundo

Tenho um amigo filósofo que sofre com o acontecer do mundo. O mistério o atravessa feito espada espartana, peixeira de baiano. Ele não descansa. Estuda, lê livros de três mil páginas de pensadores alemães, guarda o mar, escreve tese, conversa com um psicanalista... E se desespera.
                - E o outro? Deve haver algo mais! Isso pulsa, borbulha nas sombras, nos cantos, explode fe3ito larva sob a terra. Está ali, mas não se mostra. O maravilhoso se esconde. O tempo todo, o maravilhoso se esconde.
                Durante muito tempo, também pressenti o maravilhoso assim e tive forças para buscá-lo - agulha no palheiro, The catcher in the rye – não no transcendental, mas no colo de uma menina bonita, meio triste, meio misteriosa que costumava se cortar e que um dia, talvez por acidente, partiu de vez as veias dos pulsos.
                As coisas vão ficando para trás e, com o tempo, o mistério já não nos inquieta como antes. Perdemos o menino na correnteza, no vagão do trem, no ônibus que passou mais cedo. Multiplicam-se não os enigmas, mas as dívidas. Ainda cultivamos rosa em vaso de plástico e, vez por outra, um arco-íris nos surpreende. Entre a loucura de Van Gogh e a timidez de Drummond, ficamos com o funcionário público, ex-mágico da taberna Minhota. Guardamos o poema na gaveta da repartição. Desistimos aos poucos do conhaque, pois o conhaque nos faz Artaud e nós temos os filhos que Artaud não tinha. Sem perceber, perdemos o direito À loucura, à embriaguez, ao suicídio, à ferida. Que bom!
                Voltando da escola. Final de tarde. O filho sussurra no banco traseiro:
                - Gosto quando está assim de tardezinha e faz esse solzinho maneiro, pai.
                Então o maravilhoso esquecido nos salta outra vez aos olhos, sem máscaras, sem mistérios, sem subterfúgios. O sentido é esquecer de si para cuidar de alguém e compartilhar o poente em meio ao trânsito; em meio a atrocidades políticas e policiais.
                Entre dívidas e dúvidas, cresce o cheiro de café. Estamos chegando. Em casa, alguém também abandonou a metafísica para fazer o café como gostamos e falar um pouco da dureza diária: o maravilhoso é preto e escorre do coador. Também tem queijo e pão francês.
                Quanto ao meu amigo filósofo, embora mais calmo, continua procurando o que está diante dos olhos e ele não vê por medo de se comprometer, de enlouquecer, entregar-se, perder a liberdade, tornar-se responsável.
                Louça na pia, louça lavada; de mãos dadas, brincamos de roda na cozinha.

                Há muito não temo a minha morte, mas a do outro: tenho pesadelos. E se, às vezes ainda temo por mim é pela falta que posso fazer aos outros que brincam na ciranda. O círculo se parte sem um dos elos. Pela primeira vez na vida, meus olhos estão abertos.