sábado, 30 de janeiro de 2016

Entrevista com Lisa Alves: POETA.

1-) Arame Farpado é seu primeiro livro publicado; como se deu a confecção deste livro e, uma segunda parte deste primeira pergunta, como se deu seu início na escrita, como você começou a escrever?
R: Arame Farpado partiu de uma escolha de alguns poemas compostos ao longo de dez anos. A princípio, a ideia era conceber um livro com poemas que expressassem várias vozes – como se fosse um tabloide mundial. Recordo que o nome seria Legião e depois Almagene. Com o tempo percebi um vínculo de significação em vários poemas (um vínculo que não sabia denominar na época). A maioria dos poemas fazia referência às barreiras materiais e imateriais: sempre havia um sujeito preso, um sujeito tentando ultrapassar uma barreira. Enfim, foi a primeira vez que notei que havia uma obra, que havia um corpo e que havia uma criança para nascer e ela deveria se chamar Arame Farpado.
Em relação à segunda pergunta: comecei a escrever muito nova, aliás, comecei a ler com quatro anos e isso tornou minha experiência com a escrita muito precoce. Nem sabia o que era um escritor, achava que era normal ler e depois escrever. Nasci dentro de uma família muito simples – minha avó era benzedeira, meu avô um homem do campo e eles tinham uma mania de inventar muitas estórias no final do dia, só que não escreviam. E, se não me engano, o primeiro conto que escrevi foi sobre um fantasma que vivia na porteira da fazenda dos meus avós, o nome dele era Tonho e ele só deixava passar pela porteira quem cantasse uma música. Eu os ouvia contar sobre o Tonho e decidi inventar minha própria experiência com o fantasma.  Já a poesia eu comecei na adolescência – tinha vários cadernos com poemas, tencionava ter uma banda de rock, bem ao estilo punk/rock da Legião Urbana e Plebe Rude e tive a sorte de conhecer uma turma da União Estudantil da minha cidade que também se interessava por poesia e rock.  Minha poesia ainda caminhava com a intenção de ser musicada, mas, com o tempo isso foi mudando, quando comecei a escrever contos e percebi que as letras era o caminho para eu conseguir compreender minhas inquietações e fantasias.

2-) Seu livro não saiu necessariamente por uma editora, mas por um coletivo: o Coletivo Púcaro; como você enxerga a relação entre a arte de escrever e a indústria do livro?
R: Estou muito satisfeita de ter publicado pelo coletivo, tem sido uma experiência muito generosa, além do que eu esperava. Eu posso afirmar que investi 10% e lucrei mil. Sobre a pergunta: a relação que enxergo é que uma precisa da outra, mas parece que não há um acordo justo entre as partes. Só há um lado que ganha e nós sabemos qual. Eu nunca comprei um livro em branco e sei que sem a contribuição do escritor não há livro. Nossa classe merece mais.

3-) Vamos estabelecer um diálogo com outros escritores, Mário de Andrade disse “Sou trezentos, sou trezentos e cinquenta, mas um dia, afinal, toparei comigo mesmo”, Walt Whitman escreveu “Me contradigo? Tudo bem me contradigo, sou vasto por isso me contradigo”,  Rimbaud enxergava o eu como um outro. Você escreve, no poema Ecos: “O Eu original foi desconectado/ e tudo o que restou fomos Nós (esses Eus sem paradigmas),/ no escuro de uma tabela periódica” e em Cartas para o Mundo: “Eu era todos: a menina do tabuleiro, o cientista e a sombra.” Comente.
R: O Eu é um ser multifacetado. Talvez Mário de Andrade, Whitman e Rimbaud em algum momento da vida tenham se perguntado: “Quem sou eu?” e perceberam que a resposta ininterruptamente variava. Eu pelo menos nunca conheci uma pessoa com comportamento imutável. Acredito na metamorfose.

4-) Percebo no seu livro um forte tom político, não partidário, mas político; como entende as relações entre a arte e o mundo?
R: O mundo é minha fonte, por isso tão inevitável o tom político. Tem um poema do Drummond que me representa nesse sentido: “Sentimento do Mundo” no qual o poeta empresta ao leitor o que ele assiste. E é exatamente assim que me vejo como poeta: alguém que escreve sobre o que assiste. O final desse poema é incrível:
(...)
Humildemente vos peço
Que me perdoeis.
Quando os corpos passarem,
Eu ficarei sozinho
Desfiando a recordação
Do sineiro, da viúva e do microscopista
Que habitavam a barraca
E não foram encontrados
Ao amanhecer
Esse amanhecer
Mais noite que noite.

5-) Há algum assunto sobre o qual você gostaria de falar, mas que não foi perguntado? Fique à vontade.
Agradeço pelo espaço e pela entrevista. E deixo um poema do Arame Farpado aqui:


Eu bebia uma Irish Car Bomb
enquanto crianças eram pulverizadas por bombas israelenses.
O Mal distante é legítima ficção até o dia que
nos extraem de nós mesmos para sermos outros.
Meu vizinho é um corpo de carne e ossos
e se ele se incendeia eu penso em performance.

Adel Kedhri (Tunísia): performer
Jampa Yeshi (Índia): performer
Lâm Văn Tuc (Vietnã do Sul): performer
Prema Devi (Índia): performer

Contam que após o domínio do fogo
nossa espécie transubstanciou o cérebro
para algo hábil a criar bombas e rodas.

Adel Kedhri incendiou-se
Jampa Yeshi incendiou-se
Lâm Văn Tuc incendiou-se
Prema Devi incendiou-se

São Martinho articulava sobre o Homem ser fogo,
Buda propunha que o coração é a lareira
e Heráclito dizia: do fogo tudo flui.

Adel Kedhri é uma mensagem
Jampa Yeshi é uma mensagem
Lâm Văn Tuc é uma mensagem
Prema Devi é uma mensagem

Sonho com uma tempestade de fogo,
sonho com olhos volvendo em cinzas,
sonho com o cheiro amedrontador do Deus dos Mortos
colhendo infanticídios nos campos de girassóis da Ucrânia.

Adel Kedhri é um noticiário
Jampa Yeshi é um noticiário
Lâm Văn Tuc é um noticiário
Prema Devi é um noticiário

E eu saboreio uma Irish Car Bomb.
(E eu saboreio uma Irish Car Bomb | Arame Farpado (2015) )

MAIS INFORMAÇÕES:
Página no facebook: https://www.facebook.com/Arame-Farpado-1034332163257619/?fref=ts

Site: http://lisaallves.wix.com/lisaalves

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Entrevista com o escritor Gláuber Soares

O escritor Gláuber Soares fala um pouco sobre o seu processo criativo, sua vida, suas leituras, suas influências, conversa ainda sobre a origem do seu segundo livro e primeiro romance publicado Face Emplumada, a sua estreia na literatura foi com o livro de contos Remédio Forte, o qual foi traduzido e será lançado esse ano na Argentina...

Seu primeiro livro publicado foi a coletânea de contos Remédio Forte; entretanto, você já escrevia textos de maior fôlego antes de se dedicar à forma mais sintética que constitui o conto. Como se dá a passagem de uma forma literária à outra no seu processo de criação? Quando começa a escrever, você já tem certeza da extensão? Ou aos poucos o texto vai se constituindo como romance, novela ou conto?

No início, só pensava em textos mais longos. Já imaginava o começo, o meio, o fim. No ano de 2000, comecei a escrever o meu primeiro romance finalizado (não publicado). Em 2002, ele estava pronto -- no formato tradicional de livro daria umas 160 páginas. Somente após participar de uma oficina de criação literária, em 2010, comecei a escrever contos, meio que por obrigação. Praticando, acabei me apaixonando também pela forma dos contos. Suas nuances. Hoje, geralmente, eu penso: tal enredo daria um romance ou conto. Mas Face Emplumada desorganizou a minha lógica. Comecei escrevendo o que seria um conto. O texto foi ficando mais longo, pedindo mais personagens, enfim, percebi que ali a melhor forma seria uma novela ou romance.

Já que  mencionou a criação de personagens, devo dizer que achei muito interessante a galeria de personagens que atravessam Face Emplumada, desde o cabeleireiro queer Sandrinho até o Seu Galdino da fazenda Asa Azul. Considerando que a construção de um romance envolve cinco instâncias que se interpenetram (a saber, o tempo, o espaço, a linguagem, o enredo e as personagens. Há romances cuja força motriz está no tratamento do tempo, como À sombra do vulcão, de Malcolm Lowry; há romances cujo centro é a desterritorialização, o tratamento do espaço, como On the road, de Kerouac; Clarice Lispector desconstrói a linguagem, Luiz Brás recoloca o enredo em evidência e ao falar de Dom Casmurro, logo pensamos na personagem enigmática de Capitu...) Você diria que, enquanto criador, a sua maior potência está na criação das personagens ou em uma das outras quatro instâncias? Sei que tais categorias não surgem compartimentadas quando se escreve algo, mas quando você relê o trabalho, onde você acha que está a maior força da sua escrita?

Rapaz, neste ponto não sei se tenho a melhor resposta. Não costumo consumir energia me autoanalisando. Nem tenho as ferramentas teóricas para isto. Mas, sem fugir de uma resposta, eu me preocupo mais com a linguagem e com o enredo, balancear essas duas instâncias. As performances, forças das personagens, a meu ver, vêm como consequências deste balanceamento.

Acho que a linguagem também é uma força da sua prosa: enxuta, desenvolta, variável; vai das gírias mais urbanas à musicalidade mais sertaneja. Penso, inclusive, ser um traço extremamente original da sua escrita esta mistura do provinciano e do cosmopolita, do urbano e do rural. Já na epígrafe, você une provérbio baiano e David Bowie. A trajetória de Gustavo vai do interior de São Paulo, à capital paulista e de lá à Quixadá. Na música, também muito presente no livro, nós vimos essa antropofagia, essa deglutição do pop pelo pelo sertanejo, tanto no tropicalismo, quanto no mangue beat. Diz aí, na literatura quais são suas influências na criação deste estilo híbrido? E nas outras artes? Quais são os artistas de esferas exteriores à literatura que influenciam sua escrita?

Na literatura, curto bastante o João Antônio, Luiz Bras, Marcelino Freire, Patativa do Assaré, Lygia Fagundes Telles, entre outros. Nas artes plásticas, Carybé, o mais baiano dos argentinos, sua vasta obra me desperta a atenção. A música sempre me influenciou. Das batidas às letras; de Luiz Gonzaga, Dorival Caymmi a Morrisey e Ramones. Lembro-me que ainda no meu primeiro romance citado, imaginava o projeto do livro com um CD encartado, ou seja, tinha a sua trilha sonora. Em Face Emplumada, Bowie foi um dos músicos que me inspirou, ajudou a dar o tom.

O que mudou e o que se manteve na sua escrita de Remédio Forte a Face Emplumada?

Remédio Forte foi uma coletânea de contos. Havia a preocupação social, passagem do tempo, a morte – temas que dão unidade ao livro. Algumas narrativas, como Próximo, Juntinhos, Rio Cachoeira, Isabela e o conto que dá nome ao livro já sinalizavam para este estilo mais impregnado que em  Face Emplumada. Acredito que não houve mudança, talvez tenha tido um amadurecimento, uma afirmação. 


Você publicou Face Emplumada por uma editora independente, como enxerga o mercado editorial brasileiro?

Para quem está preocupado com a arte, e não em ser uma celebridade, o comportamento do mercado não faz muita diferença. Levando em conta os números da população brasileira, o nosso mercado editorial, principalmente o literário, é incipiente. Somos um dos países da América Latina em que menos se lê. As grandes editoras ganham dinheiro vendendo livros didáticos para os governos. No gênero Literatura, meia dúzia delas formam uma elite que se mantém no topo com os best-sellers importados. Com alguma exceção, não estão preocupadas com a literatura brasileira, desejam o lucro fácil. Os prêmios literários ajudam a maquiar. Tentam, com o glamour, iludir, e até têm conseguido, como se a desprezada literatura nacional tivesse, de fato, importância. O que sobrou da mídia não percebe o engodo. Um outro vilão são as livrarias. Não investem no processo de publicação – tudo bem, este não é o papel delas, no entanto, as livrarias só querem levar vantagem. Muitas só aceitam livros em consignação e pra pagar à editora, quando pagam, pedem um prazo de 90 dias. É claro que os maiores grupos editoriais têm poder de negociação. O que não impediu a excelente Cosac Naify, há pouco, noticiar que vai fechar, dando como um dos motivos este longo prazo. Ainda assim, diante de tanta dificuldade, nem tudo está perdido. As pequenas editoras, com as suas pequenas tiragens, continuam fomentando a nada incipiente arte literária brasileira.

Há algo que você gostaria de dizer, mas não foi perguntado nesta entrevista? Fique à vontade.

Apenas dizer para os leitores ficarem atentos com a cena literária paulista. Você sabe, Daniel, temos uma geração de ótimos escritores. Poesia, romance, conto, há muita coisa boa sendo feita por aqui. O seu romance A Delicadeza dos Hipopótamos, por exemplo, é um livro sensacional. Enfim, prestigiem mais a literatura brasileira.