sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

SIMONE DE BEAUVOIR E AS FAXINEIRAS

... tudo isso sem contar o tremendo tapa que eu levei com a história do splish splash, mas esta história também é interessante.
Estávamos eu e João Francisco, aquele que mudou de nome depois da primeira viagem à França para Jacques Françoise, não aceita que lhe digam o nome sem se antepor o epíteto de Doutor e que usa cachecol tanto no inverno quanto no verão. Em suma, meu professor de filosofia, meu mestre, meu orientador, aquele cuja cabeça iluminava meus caminhos para que eu pudesse deixar de ser um verme rastejante dos pântanos férteis da ignorância. Íamos a um congresso de três dias, em Campinas, sobre o casal mais feio que já se formou sobre a face da terra: Jean Paul Sarte e Simone de Beauvoir. Antes, porém, precisávamos pegar uma professora no aeroporto de Guarulhos. Como conhecia melhor os caminhos da zona leste, eu dirigia.
- Daniel, mon cher, você vai ver a Elke, que maravilha! Escreveu recentemente o livro Como conversar com um machista. Estudou com Pierre Montebello, Sorbonne, absorva tudo, mantenha os ouvidos atentos, você tem muito que aprender. Ah! A Elke que saudade, que inteligência cortante, que cabeça maravilhosa!
A Elke não demorou muito a desembarcar. A primeira impressão que tive foi que ela era a própria Betty Boop, Jacques não estava mentindo: que cabeça maravilhosa! Chapéu ali, só por encomenda. Talvez eu esteja exagerando, talvez não fosse tão cabeçuda. Se ultrapassava uma caixa d’água de mil litros era coisa de centímetros.
Depois dos abraços, fui apresentado.
- Este é o Daniel, meu orientando. Esta é a Profª  Drª  Elke Veyne.
Ela ofereceu-me a ponta dos dedos, com nojo. Segurei as pontas dos dedos dela e entramos no carro. Antes de assumir meu posto atrás do volante, porém, dei uma cheiradinha nos dedos, eu podia estar fedendo e não ter percebido. Do jeito que ela segurou minha mão, parecia que estava suja de merda; mas não estava, perfume do mais nobre detergente ypê.
No caminho até Campinas, tudo normal.  Como quaisquer mortais, eles não faziam outra coisa além de falar mal dos próprios colegas. É que fulano tinha sido sacaneado por cicrano, o qual também tinha dormido com a mulher de beltrano e beltrano, por sua vez,  tinha enrabado fulano, que, pelo que entendi, só tomava no cu. Coitado de fulano! E eu ali absorvendo tudo para deixar de ser um verme rastejante dos pântanos férteis da ignorância. Como é empolgante o saber, a filosofia, a expansão de nossos horizontes, a experiência inigualável de pensar!
Pegamos um bom trânsito. Paramos para tomar café. Descafeínado, por favor – disseram os dois. Foi quando chegamos à universidade onde ocorreria o evento que pé do frango azedou. A Profª Drª Elke Veyne cismou que a sala não estava devidamente higienizada. Protestou.  Disse que só destilaria sua sabedoria depois que a sala estivesse devidamente limpa. Escreveu uma carta de próprio punho, duas páginas, à chefia da limpeza. O Profº Dr. Jacques Françoise, que era um dos organizadores do evento, quase teve um infarto, andava pra lá e pra cá, com o cachecol esvoaçante batendo na face de quem estivesse por perto. A sala estava de fato empoeirada e havia aqui e ali uma bolinha de papel, os cestos de lixo estavam pela metade. Nada comparado a uma sala de aula de escola pública.
Cinco minutos depois, apareceram duas meninas, vestidas com o inconfundível uniforme azul marinho. Digo meninas porque não deviam ter mais de vinte anos. Uma delas estava com uma barriga de uns sete, oito meses. Em menos de dez minutos deram uma geral na sala e saíram sob os olhares de reprimenda. Pobre é sempre invisível, quando é visto, é  pra levar uma esculachada.
Com os imprevistos, a fala da Profª Drª Elke Veyne, que abriria o congresso, acabou ficando para depois do almoço. O segundo palestrante começou a falar e o congresso seguiu adiante. Seriam três dias do mais puro blá blá blá: o ser, o nada, a opressão, etc... etc... etc... Eu já estava com o espírito preparado. Meditava feito um Buda: ommm, ommm, ommm...
Quando saímos para almoçar, vi as duas meninas chorando numa mesinha ao sol. Os outros não viram. Como disse anteriormente, pobre é invisível.  Os professores pegaram suas carteiras no carro e foram a pé almoçar num restaurante vegetariano. Preocupavam-se com as vacas e os porcos, mas fodiam a vida das faxineiras, era normal. Falei que ia comer no restaurante universitário mesmo, era mais barato.
- Ele ainda não se conscientizou – Disse Jacques Françoise à amiga.
- É um crime se alimentar de outros animais – ela emendou.
- Vou comer só a salada então.
Os dois foram para um lado e eu fui para o outro.
Sentei na mesinha com as faxineiras.
- Que aconteceu?
A grávida não parava de chorar.
A outra também estava triste, mas encontrou forças para responder.
- Levamos uma semana de suspensão. Sem pagamento.
A grávida sussurrou...
- Sem esse dinheiro não vou conseguir pagar a prestação do enxoval do bebê.
Se tivesse mais dinheiro, teria dado a ela naquele momento. Olhei a carteira. Exatamente setenta e oito reais. Doei, era tudo o que eu tinha. Não quis aceitar, a princípio, mas acabou pegando. Qualquer ajuda era válida naquele momento.
Fiquei indignado, brabo feito siri na lata. Como é que uma filha da puta daquelas, que talvez nunca tivesse arrumado a própria cama, que nunca tinha lavado uma louça, trocado um chuveiro, filha de fazendeiros do Rio Grande do Sul, fodia a vida das meninas daquele jeito e depois subiria num palco, na maior cara de pau, para falar de opressão?
Eu tinha de fazer alguma coisa, mas o quê? Deus às vezes se veste de acaso. No caminho de volta ao carro, encontrei um bloco de quinze, marcando, ali, no chão. Estavam reformando o refeitório. Peguei-o. Fui até o carro, abri a mala da Profª  Drª Elke Veyne. Ela tinha levado a bolsa, mas deixado a mala. Havia roupas e uns dois ou três livros. Apanhei o maior deles, O segundo sexo, de madame Simone de Beauvoir e coloquei o bloco no lugar. Fechei a mala. Não tranquei o carro. Em qualquer caso, este esquecimento seria minha prova de inocência. O carro aberto, Campinas anda cheia de delinquentes. Deixei o livro numa das mesas da biblioteca e fui almoçar.
À tarde, fiz questão de chegar atrasado à comunicação da Profª Drª  Elke Veyne. Mesmo assim pude ver o bloco de quinze no canto da mesa, junto a dois outros livros, enquanto a profe discursava:
- Provedora, vassala, acolhedora. Não importa como se apresenta, o lugar da mulher sempre foi definido pelo homem. Este configura a posição central na sociedade e...
E dá-lhe resenha, ainda faltavam dois dias e meio.
Sorri. A vingança é um prato que se come em qualquer temperatura: congelado ou queimando a língua.

Nenhum comentário: