sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

O GÊNIO POÉTICO


Em minhas últimas crônicas, tenho tratado do gênio filosófico, especificamente encarnado na legendária figura de Jacques Françoise, aquele que pensa pelos cachecóis. Reconheço que Jacques não é tipo de fácil trato, o que é muito normal para quem teve aulas com Guattari, Deleuze, Derrida e é amigo pessoal de David Lapoujade, Peter Pál Pelbart e de toda a língua do P. Devo dizer, todavia, que, com o tempo, aprendi a lidar com ele e chegamos inclusive a nutrir mútua afeição até o desfecho desastroso; o qual não pretendo abordar nesta crônica. Jacques era fã do elogio. Para se dar bem com ele, bastava soprar-lhe o ego feito balão vermelho e nunca, jamais, sob hipótese alguma, contrariá-lo. Nosso grupo de estudos se reunia ao redor de uma mesa de madeira maciça, quadrada; pois, se Jacques Françoise afirmasse que a mesa era um jumento, eu dizia: - Tens razão, amado mestre, acabei de vê-la dar um coice ainda há pouco, por um triz não mo acertou justo nos culhões. 
Outra estratégia de notável utilidade era desaparecer quando, em um congresso, ele sentia que ficava por baixo em uma discussão. Saía do auditório de chibata em punho, doido para achar um orientando e descontar a raiva.
            Aprendi muito sobre cachecóis e vida alheia com Jacques Françoise; mas, hoje, não é dele que quero tratar. Salto, portanto, do gênio filosófico, para o gênio poético. Assim como o gênio filosófico, o gênio poético não é menos genioso. Sempre recebi em casa escritores de outros estados ou cidades de passagem por São Paulo. Fiz grandes amigos, como, por exemplo, o Anderson Fonseca que, recentemente, lançou o seu excelente Sr. Bergier e outras histórias. Vez por outra, entretanto, aparece por aqui um gênio genioso. Descreverei, se houver espaço, dois casos nesta croniqueta. Primeiro vos apresentarei Archiello Mariel, o folgado; em seguida, Cornélio Cunha, o deprimido.
            Conheci Archiello Mariel por intermédio de minha mulher, Márcia Barbieri, aquela que escreveu o best seller A puta. Mal fomos apresentados e ele logo me informou que morava no litoral e nos devia uma visita a qual pagaria imediatamente no próximo final de semana, pois não gostava de dever nada a ninguém. Sábado seguinte, de manhã, fui buscá-lo na rodoviária. Mal entrou no carro, Archiello Mariel afirmou que tomaria conta da minha carreira literária a qual, em breve, decolaria. Prêmios, eu só ganharia do José Saramago para lá. Para começar ele faria um documentário comigo. No sábado mesmo, pois pretendia ficar um único dia em São Paulo. Se tinha tanta influência assim por que é que andava naquela tremenda pindaíba? – Pensei de mim para comigo – a camisa sem botões, o sapato furado. - Por que não usava seu poder em benefício próprio? – Escrúpulos, meu caro, não ligo para tais coisas, sou um poeta, meus valores são mais elevados.
Ao chegarmos a casa, o almoço estava pronto. A Márcia pediu que ele se servisse.
            - Por favor, ponha para mim, sou um tanto quanto tímido, rá, rá, rá.
            A Márcia o serviu:
            - Assim está bom?
            - Mais um pouquinho
            Ela colocou mais um pouco de batata e carne.
            - Não, não, agora foi demais.
            Márcia tirou o que tinha colocado.
            - Agora sim. Escuta, vocês não têm um aperitivo aí não?
            Respondi que no momento não estava bebendo e não tinha uma garrafa sequer em casa.
         - Que pena! Pois eu não como sem um aperitivo. Daniel me acompanha até o bar mais próximo, meu caro? É coisa rápida.
            Tomou uma caipirinha. Na hora de pagar, pediu que eu acertasse, tinha esquecido a carteira em casa.
            - Um litro de vinho também não faz mal a ninguém. Pegue um litro do tinto. Em casa acertamos, querido poeta Guaccaluz.
            Voltamos.
            - Tem uma pimentinha por aí, querida Márcia.
            Eu mesmo peguei a pimenta e pus na mesa.
            Ele comeu, repetiu, foi ao banheiro, escovou os dentes e, sem cerimônia, se deitou na nossa cama. Dormiu o resto da tarde. Quando a noite chegou, resolveu sair.
            - Uma pena que não conheço essas bandas. Daniel, meu bom poeta, acaso você não me deixaria no metrô?
            Conduzi-o até o metrô Itaquera.
            De madrugada, acordei com o som no volume máximo. Lá estava o hóspede ouvindo James Brown como se não houvesse vizinhos. Abaixei o som.
            - Tá maluco, as crianças estão dormindo. Olha os vizinhos!
            - Não esquenta, Meritíssimo, amanhã faremos o seu documentário. Vai ficar uma beleza, tu vais ver – de repente, eu tinha me tornado Juiz, Meritíssimo. Em breve ele me chamaria de Vossa Excelência.
            Dia seguinte, acordou por volta das onze. Na mesa, tinha uns frios, pão de forma, café, leite. Chamou-me de canto.
            - Escuta não tens umas frutas, não? Estou meio de ressaca. Uma melancia cairia bem, quiçá um suquinho de laranja? Um mamãozinho papaia, hum?
            Fiz o suco de laranja.
            - Sabe – ele disse – o gênio poético sempre incomoda. Imagine se você recebesse em casa um Baudelaire, um Lord Byron? Espero não estar sendo um hóspede inconveniente...
            - Hum, hum...
       Durante a tarde, monopolizou o computador e os controles da televisão da sala, estava interessado em um documentário. Assistia à tevê e fazia postagens no facebook... Ria alto, tirou a camisa, coçava a barriga. Márcia, eu e as crianças ficamos assistindo no quarto. Parecia o conto A casa tomada, do Júlio Cortázar.
            - Amanhã é segunda, todos temos de trabalhar, se quiser te deixo no metrô antes de seguir para o trabalho – comentei depois do jantar.
            - Não, que é isso? Jamais! Não se preocupe comigo. Estou bem. Eu me basto. Não preciso de ninguém para me fazer companhia. Eu me basto. Ainda tenho algumas coisas para resolver e nós ainda não fizemos aquele seu documentário.
            - Esquece o documentário, velho, não estou interessado.
            - Não, mas eu estou. Prometi para você e palavra de homem não faz curva.
            Deste modo, entre aperitivos, vinhos tintos, suquinhos de laranja, não tem um bolinho de chocolate aí? Uma semana inteira se passou.
            Sexta-feira à tarde. Chamei a Márcia num canto e falei...
            - Escuta, o nosso gênio não vai embora tão cedo. Vamos visitar seu irmão amanhã. É o único modo de dispensá-lo.
            Comunicamos a novidade ao hóspede.
            - Tudo bem, sem problemas. Então eu volto outro dia para fazer o documentário. É bom que a gente não perde o contato. Vocês me dão uma carona até a rodoviária?
            Dia seguinte, deixamos Dante Aleghieri na rodoviária. Tive de emprestar vinte reais para ele completar a passagem.
            Até as crianças respiraram aliviadas, o João poderia voltar a jogar videogame sossegado, a Sofia assistiria a seus programas prediletos na televisão e o PC ficaria desocupado para todo mundo por um tempo.
            Só uns três dias depois foi que percebemos as coisas que tinham sumido CD´s do Miles Davis, livros do Heidegger, Eduardo Viveiros de Castro, Jung, Deleuze, o DVD O rito do Bergman, o Fifa soccer 2014, do João, um par de meias da Sofia.
            - Nunca mais quero ver esse cara – falei, peremptoriamente.
Mas não é que o malandro me encontrou meio alegre num evento, encheu meu copo mais algumas vezes com bebida alheia e foi parar lá em casa outra vez? E dessa vez, eu mesmo convidara o vampiro. Mas isso já é outro capítulo.
            Ficou faltando tratar do Cornélio Cunha, o deprimido. Fica para a próxima também. Será a primeira crônica de 2017.
            Quanto ao documentário? Estou esperando até hoje. Espero que o Archiello Mariel não leia esta crônica e resolva aparecer para realizá-lo.

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