segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

La littérature et la vie, ou de la littérature est la vie


Os seres humanos, diferentemente dos demais animais, têm o dom da linguagem, dominam a fala e, em muitos casos, a escrita. Seria o caso, então de esperar, que se entendessem melhor. Não é o que acontece. Não houve um só dia sem guerra, assassinato, estupro, barbárie, selvageria neste planeta desde que o mundo é mundo. Seria também o caso de se esperar que os falantes de uma mesma língua se entendessem melhor que aqueles que falam diferentes idiomas. Também não é o caso. O caso é que a língua é um instrumento para o diálogo. E, para dialogar, é necessário, em algum momento, esvaziar o pote, tornar-se ouvido, esquecer o ego, acolher o outro. Há muito esquecemos a lição taoísta do silêncio e do vazio. Construímos casas, prédios, paredes, mas o que os faz funcionais são as portas e janelas pelas quais podemos entrar, junto à luz, à noite, ao outro, à natureza e ao Fora.
Nos meios virtuais então é que o desentendimento se faz maior ainda. Você diz A, o interlocutor entende B e completa com C, D e E; no mínimo por causa de um dos três motivos seguintes. 1 º) porque pretende demonstrar erudição. 2º) porque é burro mesmo. 3º) porque sua xícara está cheia e ele pretende apenas colonizar o outro. Há um provérbio chinês - não sei se se encontra no Tao te Ching, ou num dos livros de Chuang Tzu - que narra a visita de um erudito a um monge – acho que se trata do próprio Chuang -. O anfitrião oferece chá ao erudito, o qual aceita. O monge então enche a xícara do erudito até derramar e, mesmo depois, continua a despejar o chá. Vendo tal despautério, o erudito protesta:
- Não está vendo que a xícara já está cheia e o chá está derramando a um bom tempo?
Ao que o monge responde:
- Vós sois como está xícara, vindes me procurar, carregado de conceitos, para saber sobre o TAO. Para perceber o TAO é preciso primeiro compreender o vazio. Se queres sentir o TAO, esvazia primeiro tua xícara.
Escrevo tudo isto tendo em mente a literatura. Se na linguagem corriqueira já é difícil dizer caneca e o outro entender caneca, imaginem na literatura, onde caneca pode significar Guaccaluz, seu nome eterno, sua alma? Vou tentar aqui, portanto, ser o mais didático possível para evitar mal-entendidos, principalmente por parte dos eruditos. Não há vida sem literatura, assim como não há literatura sem vida. Literatura é vida, vida é literatura. Não creio em alter-ego, eu-lírico, narrador. Tudo isto é pouco importante diante da grandeza da literatura. Que é então a literatura? Resposta: uma travessia, uma passagem de vida, uma busca por si mesmo e pelo outro.   Quero com isso dizer que devemos todos nos vestir de noiva e sair por aí pedindo carona? Não. Revolucionar a vida é revolucionar a literatura e vice-versa, mas não se trata de viagens exteriores, não se trata de ruído, de fazer papel ridículo. É preciso aprender a viajar sem sair do lugar. Encontrar-se primeiro, depois esvaziar-se para a travessia do outro. Não é uma viagem do dentro, mas da porosidade. Fazer da carne um queijo suíço, por onde o outro, os arquétipos, encontrem passagem. E Flaubert? Le juste mot? E Balzac? E todos os objetivistas? Já posso ouvir as perguntas. Este lugar do qual trato dilui as fronteiras entre subjetivo e objetivo. O mais objetivo já é subjetivo, ou Flaubert não teria dito Emma Bovary c’est moi, e o contrário também é válido. Por mais intimista e confessional que seja uma literatura, ela descreve, em última análise como um corpo, uma consciência, sentem um tempo histórico determinado (o dasein de Heidegger). Por outro lado, a literatura mais objetiva parte da pena de um autor que provavelmente teve a infância negligenciada, amores não correspondidos, contas a pagar. Inverte-se o prisma, mas a equação é a mesma. A ordem dos fatores não altera o produto. É isto que nenhum curso de letras, ou oficina literária ensina. A lição é primeiro ser, individuar-se, correr a aventura de seu próprio mito para depois esvaziar-se e estabelecer uma zona de vizinhança com o outro, dividir o pão, trazer o mundo aos olhos do outro e enxergá-lo pelo olho alheio. É isto que Deleuze diz por meio do conceito de agenciamento, tão importante no modo como o autor francês enxerga a literatura. Kerouac precisou correr mundo, Clarice não saiu do lugar, mas ambos nos falam da viagem, que não é mais que a busca da placenta, do irmão escuro que nos fazia companhia na água, na indivisibilidade. Para aquele que cria, a arte é a tentativa de substituição desta falta primeira, que nos dilacera já no nascimento. Todo ser humano carrega o vazio de seu duplo nas costas. Tentativa inútil, obviamente. A literatura, ou qualquer arte, é a busca desta comunhão sem fendas. Não interessa se o autor pretende estabelecer um grande painel da sociedade em seu tempo, ou de sua alma em seu tempo. Quando Balzac diz Le père Goriot, diz Balzac; quando Vincent pinta seu cachimbo, diz Vincent; quando Magritte pinta um rocha, com um barraquinho em cima, flutuando sobre o mar, está criando um lugar para a mãe que encontrou morta na areia da praia –  ela, a mãe, havia cometido suicídio – quando tinha catorze anos; quando Clarice nos fala do encontro entre uma menina ruiva e um basset vermelho, está falando de tudo o que perdeu. O problema é confundir a verdade fictícia, com a busca da verdade filosófica e religiosa que perdurou até Nietzsche. É preciso estar disposto a substituir a busca da verdade[1] pela potência do falso. A literatura é uma invenção de verdade.  Toda autobiografia é fictícia.
Sei que estou pisando em solo flácido, areia movediça, beira de rio. Afinal são séculos e mais séculos nos quais se prega a verossimilhança. São décadas de foco narrativo, tempo, espaço, personagens, enredo. A questão fica muito mais fácil assim, a trilha já está palmilhada; a estrada, asfaltada. Provavelmente serei mal compreendido pelo menos em metade do que disse. Os púcaros estão demasiadamente cheios. Por mim tudo bem. Como disse Emerson: ser grande é ser mal compreendido. Não que eu seja grande. Tenho 1,80, mas arrisco entrar sozinho na floresta e nela me perder caso perda o fio-ariadne das palavras. O risco de não voltar é grande, e quando não voltamos, encontramos os hospícios de braços abertos e mãos cheias de psicotrópicos.
Ah! Esquecia-me, o concretismo é uma bosta!





[1] E nós sabemos por meio de Nietzsche quem é e o que almeja de fato aquele que almeja a verdade: tripudiar sobre a vida.

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