quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

IDIOTAS UNIDOS JAMAIS SERÃO VENCIDOS


Achei que não escreveria outra crônica este ano, mas os assuntos me abordam como bofetadas.  Cioran dizia que nunca escreveu uma linha em seu estado normal, escrevia sempre numa espécie de febre, de fúria. Só pra variar, também me identifico com essa definição do Vampiro de Rășinari. A palavra é meu trinta e oito; a forma de revidar as bofetadas que vou levando daqui e dali, no decorrer da vida. Hoje gostaria de falar de três assuntos diferentes num único texto. Não sei como costurar tudo, mas vou tentar. Vamos ver o que acontece no final. Três assuntos: um texto; une-os, entretanto, o tema comum, que não é a ascensão do idiota - desta Nelson Rodrigues já tratou exaustivamente em suas Confissões – mas seu poder cada vez maior de mobilização, de exercer seus direitos democráticos, de expor o diabo da sua opinião, seu preconceito, sua burrice.
Depois que Mark Zuckerberg inventou essa aberração que é o brasileiro politizado, ninguém mais teve um segundo de paz. Todo mundo tem uma opinião formada sobre tudo e faz questão de compartilhá-la com os demais. Discute-se de política a física quântica. E como nunca se escreveu tanto e tanta bobagem, para tudo há embasamento teórico.  Outro dia, li uma postagem numa rede social sentando a lenha no Ghandi. Dizia o usuário, que o líder pacifista indiano não valia o que comia. Como Ghandi não comia, quase morreu de jejum, não consegui entender o que o formador de opinião queria dizer. Também já vi muita gente descendo o pau no Cristo. Da mesma forma que confundem o Cristo com o cristianismo[1] e com alguns cristãos de hoje, confundem Ghandi com o hinduísmo; confundem desconstrução[2] - que, a bem da verdade já deu no saco -, com falha hermenêutica. E como o idiota é a raça menos solitária que existe; dois minutos depois, lá estava outro idiota chamando Ghandi de comunista:
- Ficou com os trens da Inglaterra. Era amigo do Fidel, queria transformar a Índia em uma Cuba.
Enquanto eu ainda digeria tamanha abobrinha. Lá veio uma radical.
- Um misógino, pedófilo, abusava de criancinhas.
Pelo que eu sabia o líder pacífico indiano pregava a abstinência tanto gastronômica quanto sexual, mas vai saber...  Não aguentei e intervi.
- De onde vocês tiraram tudo isso?
O idiota nº 1 postou cópia de uma página de livro. Pra essa gente, se está num livro, é verdade. Se passa na televisão, é verdade. Se algum idiota de renome falou, é verdade. Contestam o instituído, mas não contestam o contestador, ainda que ele, o contestador, pertença à família Marinho. Uma inversão dos diabos.
Uma moça entrou no bate-papo, desolada, desoladíssima. Achei que ia cometer suicídio sem sequer sair do facebook:
- Gente isso é verdade? Se for, é o fim do mundo! Como podemos continuar vivendo assim?
É o fim do mundo... O fim do mundo já passou e continuamos aqui.
***
Saio deste caso virtual para um caso real. Este ano, depois de quinze anos trabalhando 16 horas por dia, acumulando cargo na Prefeitura e no Estado para garantir o frango assado no domingo e o leite das gatas; dando aulas em classes com mais de quarenta alunos, com idades entre 11 e 21 anos, não aguentei; colei os platinados, pirei o cabeção. Fui a um psiquiatra e ele me passou um punhado de remédios, o mais fraquinho é o diazepam  2 mg. Tenho de admitir que o diazepam fez mais por minha espiritualidade que qualquer religião, seja ela do Oriente ou do Ocidente. Acordo encantado com o som dos passarinhos, dou bom dia aos vizinhos, ao sol, voltei a acreditar na humanidade. Acho que Ghandi tomava diazepam, não é possível. Se levo uma fechada no trânsito, sou o primeiro a pedir desculpas. Os pecados da carne já não me atormentam mais. Se tem, tem; se não tem, passe bem. Graças ao rivotril, consegui certa independência ante minha mulher, a Márcia Barbieri – aquela que escreveu o livro A puta. Enfim, encontrei a serenidade junto aos psicotrópicos e a uma licença de sessenta dias. O problema mora justamente nessa licença de sessenta dias, dos quais o perito do Estado concedeu 30.
Em Morangos Silvestres, do Bergman, o médico e professor Isak Borg diz à nora, enquanto viajam, que não respeita as doenças da alma.  Fosse só ele estava bom. A maioria dos idiotas também não respeita.
Ontem voltei à escola do Estado onde trabalho. Para alguns, parecia que eu tinha cometido crime hediondo. Ouvi de alguém na secretaria que eu tinha dado trabalho este ano. Para ela, o único trabalho que dei foi pedir que emitisse a guia para a perícia. A coordenadora disse que, se eu era doido, então por que é que não pegava uma licença nas férias? Respondi que eu era doido, mas não era burro, são coisas diferentes.
- Eu tenho 53 anos, trabalho há mais de trinta e nunca peguei uma licença, quase não falto - emendou.
- Trabalha mais trinta que tá pouco.
- Que?
- Nada não.
Pensei de mim para comigo que é por estas e outras que os caras vão elevar a idade da aposentadoria para setenta anos. De repente, de um instante para o outro, vários dos meus colegas de trabalho – não todos, é preciso dizer – tornaram-se Geraldos Alckmins mirins, Temeres Juniores (será que o plural está certo?), médicos, peritos, o diabo. Cheguei à conclusão de que para o idiota, quanto mais trabalho, melhor. Ele, o idiota, não pensa, não tem vida interior, não ouve música – salvo as mais estúpidas do rádio -, não admira pintura, não cria, não se espanta diante da beleza, do acontecer diário do mundo; para ele, tudo já está dado. Eu escrevo, se bem ou mal é outro papo, mas preciso de um tempinho para alguma atividade criadora.
Pensei dizer:
- Vocês têm mais é que trabalhar mesmo, pois é a única coisa que sabem fazer, e quando se aposentam, não duram seis meses e batem as botas. É bem feito – mas não disse nada, saí da sala, assinei uns papéis e, assim que pude, vazei.
Eu ia falar ainda de um terceiro caso, mas acabei esquecendo. Tomei café, dei uma volta, fui ao banheiro, mas o assunto sumiu completamente. De qualquer modo, um caso a mais é até pleonasmo, completamente desnecessário. Vocês devem ter os seus próprios para se lembrar e, talvez, contar. Boas festas! E até ano que vem, se eu não levar outra bofetada daqui até o dia 31.




[1] A maior traição ao Cristo crucificado é o próprio cristianismo instituído.
[2] Não existem fatos, só interpretações. A pergunta é: a quem interessa desconstruir um homem como Gandhi?

Um comentário:

Anônimo disse...

Que crônicas, Daniel. Estou lendo todas, e adorando. confesso que às vezes me sinto um pouco idiota no Facebook, eu, que quando me apontam verdades as devolvo direto para o lugar de onde vieram, acabo embasbacada com algumas. Aliás, Zuckeberger ficou rico porque compreendeu qual defeito atingia o homem em cheio: a vaidade. "Todos têm algo a dizer", o que repetiu para si e para o mundo, e agora, aguentemos nós a encrenca que nos legou. Abraços, Vera