quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

CARNEIRO, CONSERVADOR E COPEIRO II – A MISSÃO

Outro dia escrevi aqui uma crônica sobre o Carneiro, o copeiro conservador da padaria que frequento. Devo confessar que eu mesmo, em algum nível, criticava o Carneiro, sua interminável ode ao trabalho, 18 horas por dia; mas, quando os amigos postaram comentários criticando também o Carneiro, algo me incomodou. Não sabia bem o quê. Refleti e cheguei à conclusão de que fiquei incomodado porque o Carneiro é um cara gente-fina, uma boa pessoa; sempre disposta a ajudar o próximo, na medida do possível. A SURPRESA: é possível ter ideias conservadoras e ser uma boa pessoa! Durante a ditadura militar, por vias diametralmente opostas, os militares acreditaram que sabiam o melhor caminho para o país e, aos que fossem contra tal caminho, a alternativa era a bala. Com o fim da ditadura, em algum nível, a esquerda pegou para si não a bandeira ideológica, mas a bandeira moral do militarismo; algo quase religioso. Quem é de esquerda é um ser humano melhor, mais altruísta, pensa mais no outro, no coletivo, põe o dinheiro em segundo plano e, todos sabemos, nem sempre é assim. Talvez a grande decepção de parcela da população com a esquerda que chegou ao poder é exatamente a decepção com o fato de que ela cometeu os mesmíssimos crimes que combatia: soou hipócrita. Mesmo com as melhorias conquistadas, não foi suficiente. Ainda pensando no Carneiro, outra ideia que me veio à mente, foi o seguinte: nós, da esquerda, temos pouco poder de convencimento. Somos bons de embate, debate e de briga, mas não conseguimos convencer o cidadão comum, o mais pobre, aquele que trabalha tanto que não tem tempo para pensar. Geralmente, nós o confundimos com o Hulk da Avenida Paulista, com o Alexandre Frota e partimos para o confronto, quando seria o momento de um diálogo desarmado.
                Sinto-me melhor agora que, de algum modo, situei o Carneiro em seu devido lugar, mas ainda tenho de citar um episódio no qual ele foi protagonista para demonstrar o quanto este cara tem de coração. Foi na época do meu divórcio, um dos divórcios mais complicados do planeta, que por fim pode ser resumido na fórmula: divorciaram-se e foram felizes para sempre; mas, antes disso muita água rolou debaixo da ponte; fica para outra oportunidade. Sempre tive dificuldade pra dormir e nessa época procurei um psiquiatra que me receitasse algum medicamento. Às vezes atravessava duas... Três noites sem dormir, mesmo fazendo exercício e trabalhando. Não tinha jeito. O médico receitou dois comprimidos de sertralina depois do almoço e um comprimido de diazepam 2 mg antes de dormir; severamente advertiu:
                - Não beba!
                Eu, entretanto, continuava deprimido, até dormia, mas muito mal, tinha pesadelos. Criou-se um abismo entre mim e o mundo, entre mim e os outros, entre mim e o futuro. Num repente, tinha perdido o compromisso com a vida.
                Então, numa noite entrei na padaria. Um amigo das antigas, que estudou comigo desde a pré-escola até o ensino médio estava lá tomando cerveja. Me chamou. Sentei junto. Tomei um guaraná, uma brahma sem álcool e, quando vi, estava na cerveja normal. O amigo foi embora e eu ainda pedi mais uma ou duas. Nem preciso dizer que deu merda. Eu sou o Rei - nem o príncipe, nem o conde - o Rei das Cagadas. Fiquei ruim, as pernas deixaram de obedecer. Um sono insuportável. Moro perto da padaria, na mesma rua. Paguei a conta e fui embora, mas não estava mesmo bem. O que fez meu amigo Carneiro, conservador e copeiro? Pediu permissão ao patrão e me levou até em casa.
                Fiquei uns dias sem aparecer, envergonhado.
                Tempos depois, num domingo, entrei na padaria para comprar um frango assado.
                - Olha aí a Bela Adormecida – brincou o Carneiro com o cara do caixa.
                - Fiz merda, pisei na bola, obrigado aí ter me acompanhado até em casa.
                - É perto, mas tem de atravessar a avenida, né professor, do jeito que tu tava, podia ter batido as botas.
                - Devo uma.
                - Pois não fique devendo, pague logo. Hoje tem culto na Igreja. O que é que tu vai fazer? Nada que eu sei, vai assistir o Faustão. Bora lá fazer uma visita.
                Querer ir eu não queria, mas aceitei.
                Às 18:30 em ponto Carneiro e família passaram em casa e fomos ao culto.
                Em frente à Igreja, todos estavam extremamente bem vestidos. As mulheres com suas melhores roupas, os homens de terno e gravata, barbas e cabelos bem feitos. Além de ser o lugar de sua religião, aquele era o lugar de sua diversão, de estabelecer vínculos, conversar, ver as pessoas. A outra opção era o boteco, e os que se enfurnavam no boteco, destruíam suas famílias, batiam em suas esposas. Carneiro mesmo se orgulhava de dizer que estava havia dezoito anos sem beber uma gota de álcool. A Igreja era saudável e a fé em Deus dava um sentido às suas vidas. Como a modernidade aboliu a verdade transcendente, Deus passou a valer como potência do falso. Existindo ou não, o fato é que torna a vida mais suportável, ordenada. E eu, com todas as minhas leituras, minha curiosidade, meus estudos, onde estava? Entregue ao caos, com um pé no abismo e outro na casca de banana. Por todo esse sentido conferido à vida - Deus se preocupa até mais com os menores - cobrava-se um dízimo, pois nada neste mundo, seja espiritual ou material, é de graça. Mas eu também não pagava o psiquiatra? E as pessoas não pagam psicanalistas?
                Quando o pastor começou a falar, percebi que o discurso do meu amigo Carneiro não era necessariamente dele, mas da Igreja. Assim como muita gente, quando fala, nada diz de próprio, mas tagarela o discurso do partido, da universidade, dos “formadores de opinião”. Lembrei da música do Paulinho Tapajós: Eu tantas vezes me sentei sozinho para jantar / Comprei milhões de pensamentos pra não ter de pensar. Eu estava irremediavelmente arruinado. Tinha perdido a capacidade de auto-ilusão. Provara da árvore do conhecimento. Não era uma escolha, para mim, eu já não podia optar pela Igreja. Tinha perdido o órgão da fé.
                Depois do culto, comemos alguma coisa na cantina da Igreja e o Carneiro me deixou em casa.
                Mesmo tendo tomado o remédio, não conseguia dormir. Imaginei um país dominado por Igrejas evangélicas. As mulheres, todas, queriam casar e ter filhos, três ou quatro, ao contrário das mulheres “seculares”. Basta uma projeção simples. A Igreja oferecia o que os seres mais humanos almejam: sentido. Dane-se a liberdade, ninguém quer ser livre, ela, a liberdade, só traz problemas e responsabilidade. Além disso, havia o sentimento de fazer parte, as vidas estáveis. A contrapartida? O machismo, a homofobia, o preconceito, o dízimo...
                Não tenho muitas certezas nessa vida, mas uma percebi no dia em que fui à Igreja com o meu amigo Carneiro, conservador e copeiro – nessa ordem: o poder político das Igrejas evangélicas está apenas começando e eles já têm uma bancada respeitável no congresso, governadores, prefeitos, canais de televisão e outras mídias e pessoas que têm a certeza de agir de acordo com o que Deus quer e Deus é a verdade contra a qual não há argumentos.

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