domingo, 4 de dezembro de 2016

BREVE TRATADO SOBRE CORNOLOGIA CONTEMPORÂNEA

Outro dia ouvi o Leandro Karnal, este novo papa do óbvio, dizer que nunca deveríamos começar um enunciado assim:
                - No meu tempo as coisas eram diferentes...
           Segundo o historiador, isso era coisa de velho. Pois bem; em primeiro lugar, qual é o problema com a velhice? A única alternativa é a morte prematura. Característico do nosso tempo, este preconceito quanto à velhice: o saber não está mais com os anciões, mas com a internet; por outro lado, você não vê velhinhos colocando fogo em índios nos pontos de ônibus. Ó sim, não sabiam que eram um índio, pensaram que fosse um mendigo.  Karnal é fruto de seu tempo e eu prefiro reflexões extemporâneas. É preciso encontrar as velocidades de cada idade, como bem disse Deleuze. Em segundo lugar, existem, sim, coisas que ficam restritas ao seu tempo: o espartilho, o chapéu, os sapatos de salto plataforma, ou as calças bag dos anos 90 e, no âmbito dos sentimentos a dor de corno.
                Desde a cultura mais erudita, até a mais popular, a dor de corno sempre foi combustível insubstituível para grandes obras. Otelo matou Desdêmona por causa da dor de corno; ou, pior ainda, por ser negro. Bentinho se tornou Dom Casmurro por causa da dor de corno. Na primeira peça de Nelson Rodrigues, A mulher sem pecado, Olegário se quebra contra o destino por conta da dor de corno. Todas essas obras têm em comum, além de se tratarem de criações ficcionais, o foco na dor de corno e não necessariamente no chifre, posto que, em nenhum dos casos, o adorno craniano foi confirmado. De todo modo, um livro calcado neste mote seria impossível nos dias de hoje (volto a isso depois)... Agora, feio mesmo ficou para o nosso querido Euclides da Cunha. O homem foi a serviço cobrir a guerra de Canudos para o jornal O Estado de São Paulo, voltou com Os sertões na cartola, praticamente inventou o sertão, o sertanejo, o nordeste, a luta, a terra, a mística, o bigode, uma parte imensa do Brasil. Para seu desprazer, entretanto, quando chegou em casa não era o maior intelectual do País, e sim o maior corno de São Paulo: a mulher estava grávida de um soldado, ou tenente, sei lá eu, do exército. Euclides, homem honrado, bigode pontudo, chamou o amante da mulher para um duelo. Dizem as más línguas que um amigo o advertiu:
                - Mas, Euclides, o homem é o maior atirador do pelotão, acerta pardal em pleno voo a cem metros de distância! Não seria o caso de resolver a pendenga numa partida de xadrez? Você teria muito mais chances.
                Euclides da Cunha ficou inflexível, não ouviu o conselho. Se Brás Cubas entrou para a eternidade como o primeiro defunto-autor, o pobre Euclides entrou para eternidade sem fim como autor, defunto e corno: o dono e inventor do chifre eterno. Já teve até série na Globo sobre sua galhada.
                Hoje em dia, como escreveriam meus alunos do curso de redação, o chifre já não é um problema, a dor de corno quase não existe. Por isso livros assim não podem mais ser escritos. Cafona é não ser corno. Já existem até lojas que vendem chifres postiços para festas e ocasiões especiais. Entre os grã-finos é moda levar galho, inventaram até um nome pomposo para o assunto: poliamor. Posso entender o porquê.  Outro dia fui visitar um amigo rico, nos jardins, e percebi que ali não há a menor possibilidade de o sujeito sentir dor de corno. As ruas são arborizadas, vazias, as casas extremamente fechadas, ninguém sabe da vida de ninguém. O camarada pode viver dez anos no mesmo lugar e não saber quem é o poliamoroso que vive ao lado. Não há botecos, tive de andar uns quatro quilômetros para achar uma lanchonete e uma lanchonete não é um boteco, muito mais impessoal e limpo.
                Na periferia, onde vivo, ainda cultivamos a dor de corno, mas não mais como antigamente. Agora os alto-falantes dos carros não cantam Deslizes, do Fagner, mas um funk ou sertanejo universitário qualquer. E os sertanejos, depois que se tornaram universitários, não querem mais saber de chifre. As letras em vez de doerem no coração dizem: chego na balada/dirigindo meu carrão/subo pela calçada e atropelo uns pobretão. Agora, o sertanejo é antes de tudo um universitário. Outra diferença é que, atualmente, o corno não é mais o último a saber, mas o primeiro. Já casa sabendo; sem problema algum. O inferno são os outros. Como em cada esquina há um boteco, tem sempre alguém para lembrar as infidelidades alheias. Vejamos o caso de Luís Gustavo e Verinha. Casaram-se jovens, ele tinha vinte e um, ela dezessete. A menina já estava grávida de três meses. E tinha fama de namoradeira entre xs fofoqueirxs do bairro. Logo que o menino nasceu, começaram os passeios e as visitas misteriosas.
                Um dizia ao Luís Gustavo:
          - Olha, não queria dizer, mas vi tua mulher lá na Praça do Forró com um vendedor da Marabraz.
                Outro dizia:
                - Vi tua mulher, em São Miguel, com um vendedor das Casas Bahia.
                - Não era da  Marabraz? – perguntava o Luís Gustavo, desconsolado.
                - Não, tenho certeza, era da Casas Bahia.
                Outro dia, no boteco, alguém informava.
               - Olha o entregador de gás da Ultragaz entrou aí na tua casa e ficou mais de uma hora pra trocar o botijão.
                Passava-se uma semana. E novo informante cochichava.
                - O cara da Liquigás ficou a tarde toda aí na sua casa.
                E o Luís Gustavo:
                - Não era da Ultragaz?
                - Não, rapaz, tava de uniforme verde. Tenho certeza, era Liquigás.
                Às vezes, quando passava na rua, vindo do trabalho, algum engraçadinho gritava:
                - Chifre foi feito pra boi, homem usa de enxerido!
                E Luís Gustavo sofria, mais com as informações que com os chifres. Era da natureza dela, ué, ele sabia desde o casamento. Ninguém pode ser corno em paz neste mundo. Às vezes os chifres inflamavam, juntava pus na junção com a cabeça. O rapaz tinha de tomar benzetacil, semanas e semanas de antibióticos. Havia, entretanto, épocas em que ele e os chifres se davam muito bem. Ele afiava as pontas de seus bichinhos, lixava, passava verniz. Alguns diziam que eram os chifres mais bem cuidados do bairro.
                Um dia, porém, algo aconteceu. Verinha trocou os shortinhos e minissaias por longos vestidos, deixou de se pintar, arranjou uma Bíblia preta de capa de couro. Os mais incrédulos diziam que ela estava tendo um caso com o pastor; qual o quê, o pastor era o homem mais sério do bairro e muito bem casado. Nunca ficava sozinho, sem testemunha, com mulher alguma... Tem muito malandro perdendo mulher pra Jesus na quebrada.
                E Verinha tornou-se de fato fiel, tanto a Jesus quanto a Luís Gustavo. Os chifres do rapaz foram diminuindo paulatinamente até que desapareceram por completo. No lugar ficaram apenas dois círculos onde não crescia cabelo. Luís Gustavo se desesperou... Não sabia mais o que fazer... Sentia falta de um membro, como o amputado sente falta da perna.
                Um dia chegou em casa e deu cinco tiros na mulher.
                Uma mulher que não era fiel sequer a propria natureza seria fiel a quê?
               A bala que sobrou no tambor do trinta e oito, ele virou para si e atirou no próprio coração, só que errou o lado. Atirou no lado direito e, todo mundo sabe, o coração fica do lado esquerdo.
                Lei do feminicídio nele, porque castigo pra corno é sempre pouco.

                Todo homem tem uma vocação, algo que o chama, que dá sentido à sua vida. Alguns são construtores, outros poetas, outros políticos, outros pintores de parede e há os que têm vocação pra corno. Se tirarem uma freira virgem, de setenta anos, do mosteiro, farão de tudo, infernizarão a vida da coitada, até ela lhes presenteie com um par de chifres.
                Convém não brincar com eles, são muito perigosos.

                

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