terça-feira, 22 de novembro de 2016

SALTO MORTAL - NOBEL - SARTRE E A IDIOTIA

É um salto mortal pensar. Quem pensa, não aceita doutrinas injustificadas; não outorga seu coração ao que diz o pastor, o patrão, o professor, o estadista, o partido. E é por isto que dá o salto mortal. Politicamente, está sempre desagradando todos os lados ao mesmo tempo. É um rebelde e um libertário, mas corre o risco do frio e da solidão; pior, da incomunicabilidade. Age como se gritasse: "ama-me como sou ou afasta-te de mim! Não sou dos teus, também não sou dos outros. Lá onde vocês vêm dois, eu vejo vastidão." Ficou bonito; mas, por que é que eu disse tudo isso mesmo, hein? Ah, Lembrei! Outro dia, outorgaram o Nobel ao Bob Dylan. Fiquei quieto, Dylan é gênio, mas acho a querela estéril. Como já disse, a literatura não são os prêmios e o Nobel, que está tão longe, lá na Academia Sueca, não me interessa. Agora, é interessante notar como alguns discursos voltaram à pauta. Publicou-se aqui e ali o texto de recusa de Sartre ao prêmio como se fosse um ato de grande rebeldia. Não foi; pura hipocrisia. No momento em que escolheu o comunismo, Sartre abriu mão de pensar. Entregou à URSS stalinista sua mente e seus olhos e, segundo ele mesmo, este foi um dos motivos de não ter aceito o Nobel. Em determinado momento de seu artigo de renúncia, o filósofo estrábico afirma: "É lamentável que se tenha concedido o prêmio a Pasternak e não a Cholokhov e que a única obra soviética coroada seja uma editada no estrangeiro, proibida em seu país." Agora... a pergunta: por que Pasternak não foi publicado em seu país? Simplesmente porque caiu em desgraça com as autoridades soviéticas durante os anos 1930. Acusado de subjetivismo, conseguiu, no entanto, milagrosamente, não ser enviado a um Gulag, como o foi Mandëlstam, que num deles acabou morrendo.

Foi atribuído a Pasternak o Nobel de Literatura em 1958, mas ele não foi autorizado a recebê-lo por razões políticas.


Na Rússia, é mais conhecido como poeta do que romancista, em virtude de o livro Dr. Jivago não ter feito sucesso na antiga União Soviética por motivos políticos. O filósofo da liberdade, Sartre, colocou-a em segundo plano em determinados casos. Cegou-se. Em luta contra o monstro do imperialismo norte-americano, não percebeu que caía nas garras e apoiava outro monstro. Foi também este o motivo de seu rompimento com Camus. Onde se perseguem poetas como Mandëlstam, Akhmatóva, Tsvetaieva, nada de belo pode florescer, só panfletos e doutrinas. Em virtude de sua recusa em ver o horror e pensar, Sartre se tornou um idiota; ainda pior que um idiota comum, pois tinha o status e o respeito de um idiota-filosófico.


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