sexta-feira, 4 de novembro de 2016

O si-mesmo como outro, viagem, espelho, livro, mundo


Ela pulsa, algo dentro de nós reclama: há algo mais, tem de haver! A vida não pode se resumir a esses simulacros: símbolos e signos sem significado. A vida não pode ser só o edifício Richard Wagner, suas vizinhas fofoqueiras a contar as laranjas que levamos na sacola, a especular sobre o trabalho convencional que não temos. Em algum lugar neste planeta deve haver vida. Mas onde? Na Espanha, na Paris dos anos 20 e da geração perdida de americanos; mas não terminaram quase todos mal? Fitzgerald morrendo de delirium tremens, Zelda esquizofrênica e internada? Hemingway com um tiro de espingarda de matar elefantes na cabeça? “Claro que toda vida é um processo de demolição” – afirma Scott num dos ensaios mais impressionantes do Crack up. Vida, que vida? A companheira Virgínia que trabalha onze meses por ano no cubículo de um banco de frente para uma grua-dragão para poder gozar um mês de vida por ano? E Consuelo com seu vício em cocaína e seu namorado loser. E Luís manco tal qual personagem machadiana, seu tio moribundo. E nossa mesquinhez, nossa fragilidade, a vontade de fugir? Saudades de um Éden pré-natal: “Viajar é uma forma de sonhar. Também um modo de fugir. Um velho truque para ser outro. Ou na verdade para ser você mesmo.” (p.11)
Kerouac procurava, na estrada, a pérola, achava que, na estrada, em algum momento, a pérola lhe seria ofertada, o momento numinoso, vislumbre de infinito e paraíso, no qual perceberia que a eternidade é uma festa, que ressaca não existe na eternidade, só o gás da primeira cerveja. Também ele empreende sua primeira viagem sob o signo de uma ruptura, na ficção de On the road, um divórcio; mas, na vida real, o que o impeliu à primeira viagem de costa a costa foi a morte do pai. De certo modo, no romance Um dia toparei comigo mesmo (Foz, 2015), de Paula Fábrio é também uma morte que enceta na narradora a ânsia de viajar. No caso do romance de Paula Fábrio, trata-se da morte de um vizinho, Sr. Odair, que lembra à narradora, da morte dolorosa de seu próprio pai e de que o tempo foge. Quando um velhinho morre, um adulto tende a começar a ocupar seu lugar. Com a morte de seu Odair, a narradora percebe que está envelhecendo[1], deixa os rascunhos de sua dissertação de mestrado sobre a escrivaninha e foge com a companheira Virgínia para, talvez, na estrada, encontrar a vida verdadeira, longe dos simulacros baudrillardianos e quem sabe, entre trezentos e trezentos e cinquenta, topar-se consigo.
É um romance triste, esse Um dia toparei comigo mesmo. Trata da culpa que sentimos diante da morte de um ente querido, a culpa por sobreviver, por continuar procurando a pérola, enquanto o outro está no esquife. E é por isto que fugimos da morte, por isto que não queremos limpar a bunda do moribundo. Não temos condições, não é nojo das fezes o que sentimos, é nojo da morte, da nossa finitude, da nossa impotência, da sensação de que sempre poderíamos ter dito mais, feito mais, demonstrado mais o carinho que sentíamos pela pessoa que agora está morta: quem caga morre. O romance trata também da instabilidade das relações humanas. Por mais que amemos uma pessoa, por vezes, topamos com outras que nos fascinam, que revelam uma faceta nossa escondida, e nos perdemos, pois não há a possibilidade de alguém não sair machucado. Ferimos sempre quem mais amamos, talvez por estarem mais perto de nós. E a narradora se envolve com o gauche Luís, entre uma cerveja e outra. Poliamor? “Porque viver é sublime, quando não estamos pensando tanto.” (p.47)
Para a viagem empreendida em Um dia toparei comigo mesmo, parece não haver um roteiro prévio, um trajeto definido. O enredo parece ser construído no próprio momento da escrita, empreendendo idas e vindas no tempo e no espaço: a Itaquera italiana de Virgínia quando criança; o primeiro passeio de bicicleta da protagonista fora do quintal de casa – talvez a primeira indicação de que o si-mesmo está fora: no quintal a menina só pedalava em círculos. - O fato é que o enredo do livro trata de uma busca, busca não definida, talvez seja uma identidade, um eu, talvez a vida mesma – não é à toa que a narradora imagina estabelecer residência em todo lugar isolado porque passa – talvez seja a mesma pérola de Kerouac, mas o fato é que não encontra, não encontramos. A viagem é mais importante que o destino. Feito nuvens, as personagens deste romance se tocam se envolvem, misturam-se, arrancam pedaços umas das outras e seguem adiante.
Talvez a chave para a compreensão do romance esteja na afirmação da potência literária, enquanto potência criadora de mundos, talvez o si-mesmo enquanto outro se estabeleça no diálogo com os livros, com outros autores: de Hemingway a Julio Ramon Ribeyro; de Cervantes a Fitzgerald, o mundo se faz a partir da lente dos livros: já aí o pai morto se torna um soldadinho de chumbo, do mesmo modo que para o cavaleiro da triste figura[2], os moinhos de vento eram monstros gigantes. É interessante notar que, além de dialogar o tempo todo com suas leituras, a narradora afirma ter tido uma livraria: “Quem lê, sempre tão solitário. Encouraçado. Quando encontra outro lobo, encontra a si mesmo” (p.67)
Por outro lado há ainda uma questão intrigante, o amor como espelho para a formação do si-mesmo. Há no amor verdadeiro uma potência de nos fazer inteiros. Não é o caso de um amante completar o outro, como se os dois fossem carne da mesma carne; mas da possibilidade de habitar a solidão, de, com o outro, poder estar sozinho. Assim como não se pode ler a dois, portanto, sempre que está lendo, a protagonista está entregue a si e ao livro; para a amante, Virgínia, é inconcebível ir ao zoológico acompanhada. É neste momento de solidão, frente aos bichos enjaulados, assim como ela, que Virgínia bate de frente consigo, encara-se.
Enfim, foi uma alma que completa a esfera que sou quem escreveu este Um dia toparei comigo mesmo. Uma irmã em desamparo e, retomando as palavras da própria narradora: “Quem lê, sempre tão solitário. Encouraçado. Quando encontra outro lobo, encontra a si mesmo”. É bom quebrar, de vez em quando, a solidão.





[1] Virgínia, a companheira da narradora, afirma que só começaria a envelhecer quando o primeiro amigo morresse. O fato é que todos nós, num dado momento percebemos que dobramos o pico do penhasco.
[2] Acho o momento em que Sancho observa o rosto ferido do Dom e o chama de o Cavaleiro da Triste Figura um dos  mais belos de toda a literatura. Só comparado, talvez, ao momento em que Sônia e Raskolnikóv, uma puta e uma assassino rezam juntos o mais belo Pai Nosso.

3 comentários:

Roseli Pedroso disse...

Daniel fiquei fascinada com seu texto sobre esse livro. Quero ler também! Já vai pra minha lista de futuras leituras!

Solange disse...

Pra variar, genial amigo! Admiro te por isso tambem

Anônimo disse...

maravilha de resenha.fiquei com água na boca de vontade de ler o livro!!!
Manuela