sexta-feira, 25 de novembro de 2016

GAY FRUSTRADO

Durante certo tempo, costumava conversar muito com o professor Jacques Françoise, aquele que usa cachecol tanto no inverno quanto no verão. Não o considero má pessoa. O problema com ele foi ter passado toda a vida na universidade, esta linha de produção de idiotas. Cedo terminou a graduação, daí foi direto para o mestrado, do mestrado para o doutorado e do doutorado para o pós-doc e, assim por diante. De modo que não teve opção: tornou-se um idiota. Tem bom coração até, mas é, irremediavelmente, idiota. O único pecado que podemos lhe atribuir é o fato de gostar do mundo acadêmico, o qual premia os idiotas e justifica a máxima de Cioran: “profundidade e erudição jamais andam juntas.”
            Quando não há outro professor por perto, Jacques Françoise, aquele que só filosofa depois que põe o cachecol, até que é uma pessoa bem gentil. Se há professores, passa para a outra mesa. Entende que deve haver uma hierarquia. Não diz explicitamente, pois poderia soar reacionário e isto é o que ele menos deseja, mas o pensamento, para ele, se dá em graus. Graduandos devem se sentar para pensar com graduandos; mestrandos com mestrandos; doutorandos com doutorandos e, assim, sucessivamente. De modo que, quando não há outro professor por perto, ele trata as pessoas com toda delicadeza, faz até piada; abre-se; conta até episódios de sua vida particular, uma beleza. Quando, entretanto, aparece outro professor, seus modos mudam instantaneamente, como se apertasse um botão em algum lugar... Ele ajeita o cachecol e, sem mais nem menos, torna-se rude, irônico, dá patadas, às vezes fica até agressivo com seus orientandos. Agora mudança mesmo se dá quando vem um professor, qualquer professor, de outro país, principalmente da França... Aí Jacques Françoise fica feito um menino de recados. Carrega até as malas do visitante.
            Num dia em que não havia nenhum outro professor, nacional ou estrangeiro, por perto, Jacques e eu nos sentamos para almoçar juntos. No fundo gostava de mim, morria de rir com meus trocadilhos mais bobos, com minhas piadinhas de português. Ele estava eufórico neste dia e falava do melhor período de sua vida: a primeira viagem à França. Ajeitou o cachecol, contou das pessoas que conheceu, das aulas com os figurões da filosofia. Esquecia a comida vegetariana no prato e falava... Falava... Falava... Feito um menino. De tanto falar. Acho que, sem perceber, entrou no terreno das confissões:
            - Sabe, foi lá em Paris, nesta primeira viagem, que pela primeira vez tentei ter relação com um homem. Todo mundo era gay. Ser homossexual era um ato político, carregava toda uma energia contra o patriarcado, o Estado, a Igreja. Era um ato de rebeldia, não deixávamos que as leis se inscrevessem em nossos corpos, sequer as leis da biologia.
            - É?
            - É.
            - Mas, Jacques, você disse que tentou. Que aconteceu? Não conseguiu?
            - Ó, mon cher, acho que nunca senti tanta dor na minha vida. Quando senti o início da penetração, dei um pulo de uns três metros de altura, bati a cabeça no teto, quebrei o lustre.
            - Mas você não tinha desejo? Não seguia o desejo?
            - Ah, querido, eu era muito jovem, não sabia muito bem o que desejava, mas não podia ver um rabo de saia. Adorava as mulheres e as francesas, então, são tão charmosas. Sempre fumando elegantemente nos cafés, com um jeitinho blasé.
            - E você não se envolveu com nenhuma menina no período?
            - Claro que não, você não entendeu, fazer sexo era fazer política.
            - Mas você não tinha o desejo e tudo. E como temos estudado nO Anti-Édipo... A questão do desejo... Não entendo.
            - Somos héteros porque o Estado, a tradição, a família nos faz héteros, condiciona nosso desejo. Na verdade, não é isso realmente o que desejamos.
            - Não?
            - Não.
            - Mas você não disse que tentou ter relações com homens e não conseguiu?
            - Pois é, não consegui.
            - E não disse que era doido por um rabo de saia?
            - Disse.
            - Então não entendo mais nada.
            - Não é para entender mesmo, você é muito jovem, está apenas na graduação, com o tempo, quando tiver lido mais Foucault, Deleuze, Guattari, talvez, talvez, compreenda alguma coisa...
            Terminamos a refeição. Caminhamos um pouco. Sentamos num banco. O professor queria fumar. Retirou o fumo do saquinho e fez um cigarro: tabaco orgânico, muito bom, sabe.
            Enquanto o professor Jacques Françoise fumava, ousei...
            - Professor, posso fazer uma pergunta?
            - Claro.
            - E o Senhor tentou mais alguma vez?
            - O quê?
            - Ter relações com homens?
            - Pufff, se tentei. Tenho tentado a vida toda, mas nunca consigo. Às vezes tento chupar, mas os caras reclamam, dizem que eu os arranho com os dentes, que não levo o menor jeito.
            - Continue tentando. A persistência é a alma do negócio...
            - Será que senti uma pontinha de ironia?
            - Que é isso, professor? De minha parte não, jamais.
            Terminou o cigarro.
            - Uma última pergunta, professor, posso?
            - Voilá, hoje você está impossível, parece um menino de oito anos. Vai, o que é?
            - E quanto às mulheres?
            - As mulheres são meu carma, filho, vira e mexe estou enrolado com alguma, não consigo me livrar; é como um vício, sabe, uma adicção, como o alcoolismo. Acho que vou fundar um grupo de ajuda mútua, nos moldes do A.A. doze passos, reuniões de duas horas, com depoimentos de dez minutos, para homens que não conseguem deixar de gostar de mulher.
            - É uma boa ideia, Jacques, uma boa ideia.
            E saímos caminhando rumo à universidade, essa usina do saber, essa Itaipu do conhecimento.
            

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