segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Empoderamento, ligerie masculina e esquerda à venda nas lojas de butique

Desde sempre é sabido que a linguagem não é neutra, ou ela é fonte de poder ou de resistência. Deleuze e Guattari, principalmente em seu livro sobre Kafka, falam do poder de uma literatura menor, que é o uso que uma minoria faz dentro de uma língua hegemônica, caso dos judeus no Ovo da Serpente kafkiano, dos negros nos E.U.A, ou nas periferias brasileiras. A língua é desterritorializada, arrastada para longe de seus dogmas gramaticais e semânticos. Assim, já a língua e a literatura são uma máquina de guerrilha contra o Poder instituído. Recentemente, tenho visto amigos substituírem os gêneros masculinos e femininos por @ ou X. Escrevem: amigxs (o que me parece algum plano diabólico da Xuxa que desde os anos 80 vem mandando mensagens subliminares do capiroto quando rodamos seus discos ao contrário), ou amig@s (o que me lembra coisa do Bill Gates, Zuckerberg, ou de algum desses magnatas manipuladores da internet, do mundo virtual). Pergunto então, se o uso da palavra é tão importante como meio de luta e fortalecimento, por que o uso do termo EMPODERAMENTO? O poder sempre esteve ligado a tudo o que é escroto e desigual, de Nero a Hitler, dos militares às subgerentes Dorianas? Será que o necessário é o poder ou a emancipação, a igualdade, a arte de recusar e resistir ao poder? Todas as traduções mais à esquerda de Niezstche  preferem o termo vontade de potência, pois potência é potência para agir, ao termo vontade de poder. O medo de amar é o medo de ser livre.
Assim como a linguagem é viva, nunca neutra, e o estilo é justamente o modo como alguém livremente faz uso da língua. Em moda, o estilo é o modo como a pessoa faz uso das roupas. Sempre tive certos conceitos prévios quanto ao mundo da moda, mas que se confirmam mais e mais como sólidos preconceitos contra o glamour que envolve até a semana da moda de Jacareí. A moda quer constituir o sujeito a partir da exterioridade, e boa parte das pessoas acaba por se constituir assim: pura aparência. Livro? O pequeno príncipe; que, a bem da verdade, é um baita livro; mas será que leram ao menos este mesmo? Falo tudo isso pra chegar ao Liniker, rapaz até talentoso que vi na TV outro dia, mas que precisa usar saltos finos de 15 centímetros, os quais acho uma agressão a qualquer pé – masculino ou feminino – para aparecer, tirar selfies com desconhecidos na rua? Os New York Dolls, Bowie, o próprio Caetano já não quebraram essas barreiras nos anos 70? Será que se ele tocasse de tênis, calça e camiseta seria um artista menor? Eu prezo o conforto. No caso da roupa, calça de agasalho, ou jeans, tênis, ou chinelo e camiseta. Sinto em tudo o golpe da cotovelada para aparecer na TV, na Net, e, de fato, só aparecem mesmo os pavões. É fácil andar vestido de mulher na Paulista, qual a novidade? Difícil é para o menino de 15 anos, negro, na favela, colocar uma minissaia entre pastores e traficantes. Hoje existem até falsos gays no meio artístico, tudo em prol de seus minutinhos de fama. E quando aquela menina foi estuprada por dezessete traficantes, apareceu um monte de marmanjo de batom com foto no perfil dizendo “fomos todos estuprados”. Porra nenhuma! E, ainda ontem, abri o facebook e estava lá a matéria sobre a lingerie masculina, cujo aumento de vendas foi absurdo de um ano para cá: um calcinho apertadinho e rendado custando quase R$ 80,00. (Que será que o Beckham anda fazendo da vida?). Fiquei imaginando meu tio, roceiro em Tatuí, 1,85, 120 quilos com uma daquelas. Por mim, o melhor seria viver feito índio, todo mundo nu, a não ser nos dias frios, mas cada um se veste como quer; por mim, foda-se. O caso é que em tudo se formam clubinhos. E hoje, se você não é do clubinho da chuquinha e salto alto, você é do clubinho do Bolsonaro-Alckmin-Dória e, Deus me livre, prefiro aderir ao clube da cuequinha de renda; o qual, a bem da verdade, outro dia até linchou virtualmente um menino porque escreveu um texto - ingênuo inclusive - sobre ficar observando as meninas chupando laranja no restaurante da USP. Chamaram-no pervertido. Achavam-se melhores que o menino, donos do Bem e do Belo. Em menos de 24 horas os policiais das redes sociais – gente inteligente, universitária  – prenderam, julgaram e bloquearam o rapaz. E são todos do clube do mesmo clube. Lutam todos por um mundo mais justo na Paulista.
E, pensando em esquerda, soube recentemente, de fonte fidedigna, que uma famosa filósofa, feminista, articulista da revista cult, fundadora de partido e tudo faz palestras para empresários. Só numa palestra para grã-finos amigos de um dos donos da Sadia - o bom verniz cultural - embolsou um cheque que vale mais que meu salário anual. Antigamente, um comunista matava o melhor amigo, morria sem borrar as calças por causa da Causa. Os princípios sempre à frente das personalidades. Eram idiotas, achavam que mudariam o mundo, mas eram idiotas honestos. “Isso foi no tempo do stalinismo e sabemos quanta gente o stalinismo matou!” Concordo, mas foi Stalin quem parou Hitler. Só um psicopata pode entender como pensa o outro e, além disso, havia o Ideal, havia uma crença. Hoje, todo ideal é um adorno ao EU. A causa, mesmo sendo coletiva é individual, é sempre o mesmo euzinho querendo tirar selfie com desconhecidos na Henrique Schaumman – pra não ficar sempre na Paulista. Nada de novo sob o sol - nem as perguntas aos entrevistados no Metrópolis - tudo é vaidade. Nossa esquerda é um produto do capitalismo, um fetiche à venda em lojas da Daslu e nem se dá conta disso.

Um comentário:

Roseli Pedroso disse...

Uau!! Belo, verdadeiro desabafo de quem já cansou ou nunca se conformou com os ditos "grupinhos". Cansa não é mesmo?