sábado, 19 de novembro de 2016

Cartas: Rilke, Sabato, Vincent

Procuro palavras que sejam pedras, armas; pois é duro o que tenho a dizer: não resta amor ao próximo quando o ódio a si mesmo ocupa por inteiro o coração. Reviro livros em busca de janelas. Lá fora impera o deserto e a vulgaridade. A futilidade é o maior escudo contra o nascimento. Pode-se muito bem chegar aos 90, 100 anos sem nunca ter nascido. Para nascer é preciso um mínimo de sensibilidade, de inteligência. E a maioria das pessoas opõe sua mais pungente energia contra o pensamento. Dão aulas, dirigem automóveis, viajam pra Itaquaquecetuba ou Paris e morrem de velhice sem jamais ter sentido o desespero e o júbilo de um único pensamento. Mesmo o que se sente é pensado - por outro, claro: o partido, a plataforma, o jornal, a TV, o formador de opinião, o teórico francês -  cheiro de formatação e ovo estragado.
Abro Cartas a um jovem poeta , como faço quase todos os dias em que não me sinto bem, e Rilke dispara a verdade transcendental: “o verão há de vir. Mas virá só para os pacientes, que aguardam num grande silêncio intrépido, como se diante deles estivesse a eternidade. Apreendo-o diariamente, no meio de dores a que sou agradecido: a paciência é tudo.” “A carne é um peso difícil de carregar. Mas é difícil o que nos incumbiram; quase tudo o que é grave é difícil: e tudo é grave.” “Amar também é bom, porque o amor é difícil.” Leio o livro, descanso o livro. Medito: sem dúvida se trata de um grande tratado sobre poesia/vida; mas, caralho,  trata-se de uma poesia de anjos, de serafins, de quem nunca foi escorraçado, de quem nunca teve de pedir dinheiro, humilhar-se um pouco para poder sobreviver: tudo ali e nobre, grave, transcendental.
E, então, me lembro de outras cartas. Aquela de Sabato a Un querido y remoto muchacho que, em outros tempos, eu costumava levar dobrada no bolso da calça, como um amigo que se quisesse ter por perto nos momentos sombrios; “Te desanimás porque no sé quién te dijo no sé qué. Pero ese amigo o conocido (¡qué palabra más falaz!) está demasiado cerca para juzgarte, se siente inclinado a pensar que porque comés como él es tu igual; o, ya que te niega, de alguna manera es superior a vos. Es una tentación comprensible...” “ Es entonces cuando además del talento o del genio necesitarás de otros atributos espirituales: el coraje para decir tu verdad, la tenacidad para seguir adelante, una curiosa mezcla de fe en lo que tenés que decir y de reiterado descreimiento en tus fuerzas, una combinación de modestia ante los gigantes y de arrogancia ante los imbéciles, una necesidad de afecto y una valentía para estar solo, para rehuir la tentación pero también el peligro de los grupitos, de las galerías de espejos. En esos instantes te ayudará el recuerdo de los que escribieron solos: en un barco, como Melville; en una selva como Hemingway; en un pueblito, como Faulkner.”  As palavras não necessitam paráfrases: o talento não basta, é preciso coragem para dizer tua verdade, tenacidade para seguir adiante. Fé e descrença. Modéstia ante gigantes e arrogância perante os imbecis. O perigo das panelinhas, que cozinham em fogo brando sua arte de dondocas. Sabias palavras.
Mas de todas as cartas que li, nenhuma me dói e me entende mais profundamente que uma carta de Vincent Van Gogh, ao irmão Théo em Março de 1880. Nesta data, Vincent era nada. Sequer tinha começado a pintar e acabara de ser afastado de suas funções como Pastor em uma Igreja para mineiros, na qual vivia em situação pior que seu rebanho. Para começar, aquele que viria a ser o maior de todos os pintores, agradece, não sem incômodo e vergonha,  os cinquenta francos enviados  pelo irmão mais jovem e diz que preferiu afastar-se de todos, da família inteira, porque sentia como se tivesse se tornado um fardo. “O que para os pássaros é a muda, a época em que trocam de plumagem, a adversidade ou o infortúnio, os tempos difíceis são para nós, seres humanos.” Não se trata de um espetáculo bonito e não é algo que se faça em público, a muda humana. Vincent prefere cordial compreensão e uma distância amena. Na sequência, Van Gogh aborda seu comportamento difícil, a impulsividade, as paixões. Afirma que age depressa demais, atabalhoado demais. Sempre que releio a carta, sinto como se estivesse falando de mim. Estou sempre pendurado entre a agressão e o remorso. Nunca consegui agir como adulto. E Vincent, que ainda não se decidira pela pintura, fala dos livros, de sua paixão por eles e da pintura e do quanto todas as artes têm em comum. Fala da impossibilidade de continuar na universidade. A partir de sua “melancolia ativa”, Van Gogh lê, lê de tudo, instrui-se. A pergunta crucial que Vincent se coloca neste momento é: “no que eu poderia ser bom?” Manoel de Barros diz em algum lugar que o poeta não serve pra nada, tirando-lhe a poesia é como um trapo velho. Também tenho essa sensação e também me pergunto em que diabos poderia eu ser útil? Nunca consegui fazer quase nada bem a não ser esta ânsia de “sofrer as atrocidades dos poentes.” Por último, faz a súplica que atormenta a alma do futuro rótulo de serviço de banco (Santander Van Gogh –VIP): “Ficaria muito contente se de alguma maneira você pudesse ver em mim mais que um vagabundo.” É essa ânsia por compreensão, por acolhimento, por colo que estraçalha o poeta, o artista. Veja bem, Vincent continua sua explanação: existem vagabundos e vagabundos. “Uns o são por preguiça e fraqueza de caráter.” Mas há outro tipo de vagabundo, no qual me encaixo ao lado de Van Gogh, que é “o vagabundo que é bom apesar de si, que intimamente é atormentado por um grande desejo de ação, que nada faz porque está impossibilitado de fazê-lo, porque está preso como que por alguma coisa, porque não tem o que lhe é necessário para ser produtivo, porque a fatalidade das circunstâncias o reduz a este ponto...” [em que pensar é sempre não poder ainda pensar - BLANCHOT]. “Um pássaro na gaiola durante a primavera sabe muito bem que existe algo em que pode ser bom, sente muito bem que há algo a fazer, mas não pode fazê-lo. O que será? Ele não se lembra muito bem. Tem então vagas lembranças e diz para si mesmo: “Os outros fazem seus ninhos, têm seus filhotes e criam a ninhada”, e então bate com a cabeça nas grades da gaiola. E a gaiola continua ali, e o pássaro fica louco de dor”. Nós, os pássaros da gaiola, nem sempre sabemos dizer o que nos encerra. “Mas ele tem tudo.” – dizem os outros pássaros e, no entanto, somos a própria derrelição, a ferida purulenta. E então já vem a ideia: uma única e impossível ideia: queríamos cantar o impossível, o canto angelical, celestial; queríamos, com o nosso canto, acariciar o coraçãozinho sofrido dos outros pássaros. Coltrane dizia que gostaria de tocar para um amigo doente e curá-lo apenas com sua música. É essa a espécie de vagabundo que Vincent era, que sou, que Kerouac era: vagabundos do Absoluto. Não apenas poetas, pintores, ou músicos; estes existem demais no mundo. Queríamos ser profetas num mundo sem destino. Então nos matam aos poucos, justamente pela impossibilidade de ser, de não sustentar a magia sagrada: Billie Holliday morreu com 44 anos; Anita viverá até os 100.
Aí de ti Esfera! Quando faltarem profetas, as pedras cantarão.
Hoje queria atirar pedras nos vitrais, mas só encontrei estas palavras nos bolsos pra atirar.

7 comentários:

Adriana Godoy disse...

Adorei. Quando li a carta de Van Gogh a primeira vez foi um abalo daqueles bons e com Rilke a mesma sensação. Seu texto primoroso. Beijo

Adriana Godoy disse...

Texto seu primoroso. Rilke e Van Gogh muito me impressionaram com suas cartas.E juntando tudo, algo pra se pensar e degustar.

pianistaboxeador21 disse...

Muito obrigado pelos comentários, Adriana Godoy. Estamos em sintonia. Beijão!!!

pianistaboxeador21 disse...

Muito obrigado pelos comentários, Adriana Godoy. Estamos em sintonia. Beijão!!!

Roseli Pedroso disse...

Daniel, sinta-se acompanhado de mais uma vagabunda. Suas palavras traduzem à perfeição o que costumo sentir muitas vezes. Esse deslocamento do mundo. Da vida. Ao término de seu texto, percebi que você não é um perdido. Pelo contrário, o excesso de sua certeza te desloca desse mundo tão massacrado pelo vulgar, pelo raso. Você, Van Gogh, Rilke e tantos outros corações inflamados de beleza e excesso de sensibilidade fazem toda a diferença nesse mundo contaminado que vivemos.E viva a inconformidade e a loucura que trazem ventos de renovação a essa podridão. Beijo e continue a não se conformar e a escrever. Seus leitores agradecem!

pianistaboxeador21 disse...

Roseli,muito obrigado pelo comentário generoso. Que bom dialogar com vc!!!
Beijão!!!

pianistaboxeador21 disse...

Roseli,muito obrigado pelo comentário generoso. Que bom dialogar com vc!!!
Beijão!!!