quarta-feira, 23 de novembro de 2016

A MINORIA É A GALINHA

Não sei se se lembram, mas já falei dele aqui, do professor Jacques Françoise, aquele que usa cachecol, em Guarulhos, tanto no verão quanto no inverno. O nome verdadeiro dele é João Francisco; mas, depois que conseguiu uma bolsa sanduíche nos anos 1980 e assistiu a algumas aulas de Foucault e Deleuze, mudou o nome para Jacques Françoise, além de aderir ao seu inseparável cachecol, aparato sem o qual não se pode sequer imaginar fazer filosofia.
Encontrei-o ainda ontem, num café em frente ao novo prédio da UNIFESP, no Pimentas, onde tinha ido buscar alguns documentos.
- Ficou bom o novo prédio, não acha, professor?
- Não sei, não sei, Daniel, há muitas observações ainda a serem feitas. Particularmente, preferiria que tivéssemos nos transferido de vez para um lugar mais acessível. Algum lugar na Vila Mariana, ou perto do Ibirapuera.
- Mas, professor, a intenção não era justamente descentralizar o ensino superior. Dar mais acesso a quem mora na periferia?
 - Sim, claro, mas aqui fica muito longe de casa, quase 40 quilômetros; e quando trazemos algum professor de fora, não há a menor possibilidade de trazê-lo neste muquifo. Imagine... Jean-Luc Nancy no Pimentas? Mais c'est la vie...
 - A realidade sempre é mais ou menos do que desejamos...
O professor é um homem que enxerga o mundo a partir da esquerda francesa da segunda metade do século XX; pelo menos é o que ele diz.
- E o doutorado? Trancou mesmo?
- Não professor, desisti.
- Você deveria ter ido à Paris, mudaria de opinião. Só de se sentar num daqueles cafés à beira do Sena, respirando o mesmo ar que Lacan, Guattari, Deleuze, Derrida, Foucault e que tantos outros respiraram, mudaria de ideia.
- Pois é, mas não deu. Tenho família.
- Esse foi seu erro. O filósofo deve ser alguém completamente liberto. Veja o exemplo da filosofia clássica e antiga. A única mulher de que me lembro é a insuportável Xantipa de Sócrates.
- Pois é, Jacques, mas a vida não é cartesiana.
- Boa frase, a vida não é cartesiana! – repetiu, esticando um fio imaginário com a ponta dos dedos, feito um maestro. - Vou usá-la em minhas aulas. Nessa você caprichou.
Sorrimos. Terminei meu café com leite. Pedi mais um chorinho de café puro ao copeiro.
- Mas e o senhor, quais as novidades? Tudo na mesma?
- Novidades... Bem agora tenho religião.
- Religião? Mas o Senhor sempre foi um materialista convicto. E o seu Deleuze, o senhor mesmo sabe, sempre foi contra os poderes instituídos, o Estado, a Igreja, por exemplo.
- E quem foi que falou em Igreja? Estou frequentando regularmente um centro de candomblé... Nada tem a ver com o cristianismo. Trata-se da religião das minorias, do povo oprimido africano. Faço até trabalhos.
- Ó sim, entendi – disse, virando meu restinho de café, antes de pedir a conta.
Só pra constar, desde que o conheço, o professor é vegano, ou vegan como ele prefere dizer, nem pão de queijo come. Já escreveu artigos contra as touradas e a vaquejada, mas agora sacrificava animais em nome dos Deuses Africanos.
Fiquei imaginando a situação da galinha, no momento do sacrifício, dizendo:
- Mas, professor, o Senhor não foi sempre a favor dos oprimidos? Das minorias? E aquele papo todo de agenciamento? Aqui sou eu a minoria. Fique do meu lado!
E o professor, sem argumentos, passa-lhe no pescoço o punhal, calando a voz da minoria e juntando-se à galeria de tiranos que, em tese, sempre combateu. Bebe, em seguida, o sangue. Numa encruzilhada, em noite de trabalho, a minoria é sempre a galinha.

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