quinta-feira, 13 de outubro de 2016

PROPRIAMENTE EU SOU DURANGO KID

kEROUAC acreditava que, na estrada, em algum momento, a pérola lhe seria ofertada. Penso em Clarice, Lygia, Katherine e na impossibilidade de escrever uma crônica quando já não há liberdade, bonde ou esperança; elementos essenciais ao gênero.
                Meus olhos perderam o encanto. Tudo é velho e gasto; mas, e a pérola? Onde está a pérola? Na cerveja que não bebo? Nas crianças dividindo a fruta? No silêncio que não encontro mais? No louco que busca uma ordem milimétrica para as suas garrafas, trapos e restos de aparelhos eletrônicos? Propriamente dizer:
                - Tem de haver algo mais – repito. – Avida não pode se resumir a amarrar cadarços.
                Enquanto empaco no trânsito, uma faceta do maravilhoso se joga do viaduto.
                Onde a pérola para o funcionário público?
                No primeiro pega no cachimbo – o transbordante a dez reais por dois minutos? Na sequência de acordes do Toninho Horta? Numa canção dos Beatles? O som exato, ser o que fui? Não, isto não nos traz a pérola, só a nostalgia por uma pérola que nunca tivemos, que não encontramos, por uma potência de nós mesmos que não nos deixamos realizar. Quando finda a canção, despencamos do paraíso: carros buzinam, o dia amanhece cinzento, novo jornal, trens cortam o que resta da noite, meninos se jogam do oitavo andar.
                Como ver os peixes e os comboios com os olhos de Adélia? Ensina-me, Adélia, a consagrar uma colher, um guardanapo, a ver o sagrado por todo lado. Tira dos meus olhos a fuligem.
                - Homem, tu desejas a pérola, mas se apresenta diante de Deus com a alma seca, de porre, o corpo sujo, amente cansada – diz Adélia e sua poesia me esmaga.
                Já não posso pegar a estrada de Kerouac.
                Os anos passaram a galope.
                Passo, de um minuto a outro, do sentimento oceânico à crise.
                Já não me importam, sequer o leite e o mel. Sou exigente quero me alimentar das pérolas.
                Abro, pois, a ostra, passo a língua afiada, mas não há brilho lá, só o gosto de sangue da carne machucada... E a ferida não nos torna brilhantes.

                Propriamente eu sou Durango Kid.

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