quinta-feira, 13 de outubro de 2016

ODAIR JOSÉ E A FILOSOFIA

Segundo um bom dicionário, a palavra devir vem do latim devenire, que significa chegar. Em filosofia, grosso modo, trata-se de um conceito que aborda as mudanças pelas quais as coisas passam. O conceito foi criado por Heráclito que dizia que nada no mundo era permanente exceto a mudança e a transformação. Fragmento: “Não se pode entrar no mesmo rio duas vezes.” Nas antípodas de Heráclito está Parmênides que postulava que por trás das aparentes transformações, dos “devires” havia a pura perfeição em silêncio, a eternidade, a verdade suprema: o Ser.
Platão, assim como Sócrates, não se perguntavam o que era estar feliz, mas o que é a Felicidade? Haveria algo de transcendente, de imutável por traz da natureza, platonicamente, no mundo das Ideias. Toda natureza que, com o tempo se degrada, é engendrada pela Ideia perfeita e transcendente.
Boa parte da filosofia Ocidental versa sobre este assunto: o mutável e o imutável, Deus e a Natureza, o ôntico e o ontológico.
Como bem disse, nosso bom compositor baiano: “Se você tem uma boa ideia, faça uma canção / já está provado que só é possível filosofar em alemão.” E a contribuição tupiniquim sobre o assunto vem de uma das mais belas músicas do cancioneiro brega, a estupenda: “A noite mais linda do mundo (A Felicidade)”, cantada por Odair José.
Na canção, o moço goiano afirma “Felicidade / Não existe / O que existe na vida são momentos felizes.” Postulando, portanto, junto a filósofos tão diversos e distantes no tempo quanto Heráclito e Deleuze, que a única coisa imutável é a mudança, a única coisa que se repete é a diferença. Não há, pois, uma Felicidade eterna, Transcendental, mas apenas momentos felizes, cambiáveis, blocos de afetos, imersos no devir.
Não bastasse tamanho poder de síntese e lirismo, há ainda, na canção,  dois outros versos que se conectam à esfera ética do eterno retorno (não nos interessa discutir se do mesmo ou do diferente) nietzschiano, o qual aparece pela primeira vez num aforismo de A gaia ciência pela boca de um demônio hipotético, o qual pergunta, algo mais ou menos como: e se tua vida inteira retornasse eterna e eternamente, tu afirmarias cada segundo? O imperativo ético que se despende daí é “viva cada segundo como se fosse vive-lo eternamente.” Odair canta: “Vamos viver nesta noite / A vida inteira num segundo.”

Depois de muito tempo esquecido, Odair José vem sendo redescoberto. Hoje costumam compará-lo ao gênio canadense Neil Young. Na boa, não é para menos.

Nenhum comentário: