quinta-feira, 13 de outubro de 2016

O CORAÇÃO NÃO TEM RANKING


Susan Sontag certa vez escreveu que, se tivesse de escolher entre Dostoiévski e The Doors, certamente escolheria Dostoiévski, mas, pergunta irônica ainda no mesmo texto:
- Por que é que eu tenho de escolher?
É numa posição semelhante à da ensaísta norte-americana que me coloco hoje.
Venho falar de música, música popular brasileira. Não pretendo escrever um grande tratado; deixo, pois, o samba, o frevo, o reisado e o maracatu de lado. Deixo a música caipira e o congado. Pulo a Bossa Nova, momento em que, segundo Tom Zé, o Brasil deixou de ser a fazenda que exportava comida para a metrópole para exportar a mais nobre produção humana, a arte - mesmo no rock dos Doors, de quem Sontag era fã, a bateria é, em diversos momentos, bossanovística.
Chegamos então ao final dos anos sessenta e início dos setenta. Efervescência cultural. Jovem Guarda, marchas contra a guitarra elétrica. No mundo, explodem Beatles, Stones, Dylan. E aqui duas das coisas mais importantes da música acontecem em menos de cinco anos: o Tropicalismo e a música mineira de Milton Nascimento e do Clube da Esquina.
A meu ver, o que difere os dois movimentos é a tônica que se dá ora ao sentimento, ora ao pensamento. No tropicalismo, pesa mais o cérebro; no clube, o coração. O tropicalismo é fruto de um conceito estético articulado principalmente por Caetano Veloso. Poderíamos até chamá-lo de arte conceitual, uma vez que o conceito vem antes. Caetano, antena tão poderosa quanto Chico Science décadas depois, estava ligado em tudo o que acontecia no Brasil e no mundo. Assim, feito Sontag, perguntou: - Por que é que eu tenho que escolher entre o violão e a guitarra? Bora misturar tudo isso aí. Havia um conceito de Brasil, um conceito de música, um conceito estético, por trás do tropicalismo, que ao mesmo tempo embasava e dava rumos. O Brasil não é outra coisa senão um liquidificador e dá-lhe Oswald de Andrade, Carmem Miranda, os poetas concretos, Teatro Oficina, Bossa Nova, Roberto Carlos. Mas, como uma andorinha só não faz verão, eram precisos parceiros criativos. Chamemos então Gilberto Gil - o irmão, Tom Zé, o sertanejo-maluco-de-vanguarda, o rock do bom dOs Mutantes e uma pitada orquestral com os maestros Rogério Duprat e Júlio Medaglia. Não era algo totalmente novo, os modernistas de 22 já haviam apontado o caminho, mas era jovem. O resultado todos conhecemos. E os epígonos também, quer coisa mais erótica que a guitarra de Pepeu?
Em Minas não houve plano. A Terra reuniu a todos, a voz de Milton clama do fundo da Terra desde há cinco mil anos, antecede seu nascimento em milênios. Caso Deus cantasse, teria a voz de Bituca. E, se a tônica no tropicalismo era o cérebro, em Minas era o coração. Não havia um conceito prévio. Lô vai comprar leite pra mãe e encontra um moço negro tocando violão sozinho nas escadas. Tem dez anos, esquece o leite e fica ali perdido ouvindo o Bituca improvisar. Lô vai brincar na rua e encontra o Beto Guedes recém-chegado de Montes Claros sobre uma patinete maravilhosa. Tempos depois, os dois descobrem os Beatles. Enquanto isso, Milton ganha um festival depois de encontrar os letristas Fernando Brant – autor de Travessia – Márcio Borges, pouco depois Ronaldo Bastos. Invadiram o Rio. Os músicos cariocas se embasbacaram. As harmonias não eram lineares, subiam e desciam, como as montanhas de Minas, jogavam a alma do ouvinte pra cima e pra baixo. E vem Toninho Horta com uma pitada de jazz, vem Wagner Tiso – maestro, vem Novelli, vem Naná com suas panelas, Nivaldo Ornelas, Solange Borges com seu jeitinho de menina marruda querendo brincar no quarto dos homens, ALAÍDE COSTA. Milton, o coração do grupo, teve uma ideia: é só reunir todo mundo. Não havia plano, quem acordava mais cedo escolhia o instrumento, os retardatários ficavam com o instrumento que sobrava. Há uma ordem no caos, nós é que não a entendemos. O Clube da Esquina é um movimento fenomenológico. E saiu o primeiro Clube, um dos discos que moldou minha vida e que contém canções como Cravo e Canela, Clube da Esquina, Nuvem Cigana, Cais, Um Girassol da Cor do Seu Cabelo, TREM DE DOIDO. É um disco completo. E tem uma qualidade incrível: não enjoa, o que é raro em música. Sei que vou ouvir estas canções a vida toda. Talvez não como se fosse a primeira vez, mas pelo menos a segunda.

Se tivesse de escolher? Escolheria os dois. O coração não tem ranking.

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