quinta-feira, 13 de outubro de 2016

livros

Livros são bons, dizem. A literatura faz você viver uma vida melhor e ficar mais inteligente, dizem. Todos têm direito à literatura, disse o Cândido, a se sensibilizar com ela, a ganhar e engendrar em si novos mundos, a
construir caminhos para si com essas passagens de vida. Tenho muitos livros, uma enxurrada de jovens autores, boa porcentagem desses livros é lixo publicado por vaidade, por vontade de ver o nome escrito numa capa com bela gravura, Ó... o glamour da noite de lançamento. Leio ou tento ler boa parte dos livros recentemente produzidos, mas isto me toma o tempo de ler, por exemplo, algumas coisas do Dostoiévski que ainda não li, o Knut Hamsun que pretendo conhecer mais. A literatura é um direito, assim como a arquitetura, a engenharia, a pintura, o futebol arte. O que não dá para aceitar é que qualquer um que admire pontes e viadutos vá construir um prédio e que ele vai ficar de pé da noite para o dia; não da pra aceitar que qualquer um que visitou um ou dois museus, viu algumas gravuras na internet terá o mesmo êxito em dizer o indizível daquele que buscou um modo de extrair da pintura uma comunicação ontológica como Cézanne, ou Vincent van Gogh. Como o capitão Achab, enlouqueceram na busca de sua baleia branca. Estes homens arriscaram tudo, doaram a vida para tentar expressar algo grande demais que viram no destino humano. Quem está disposto a pagar o preço? Nem todo mundo que joga uma pelada é Pelé. Além do talento, há a obsessão pela palavra justa, pelo modo de dizer uma passagem de vida, um caminho de pensamento que jamais foi trilhado antes. Fora a incompreensão, o chiste, o desterro, a autodestruição – penso no cônsul de Lowry: “Ah e que mundo era este capaz de esmagar tanto a verdade quanto os bêbados?” Outro dia, num sarau, um autor de cinco livros, disse-me que havia pouco tinha descoberto que romance era um gênero. Ele achava que todo romance era romântico. Então vamos com calma, companheiros, porque se o que você tiver a dizer for menos importante que o silêncio, não diga. Espere. Não quero que minha posição seja tomada como elitista, porque não é. Quando a literatura andava empolada demais, Hemingway e Céline invadiram o salão a cavalo, feito bárbaros. Penso que se a escrita não for tão importante quanto o prato de comida, como era para Carolina Maria de Jesus, então não escreva. Vá ao parque, curta uma balada que não seja necessariamente literária. Não tem a ver com uma estética da alta cultura, mas da arte como tábua de salvação, da literatura como respiração. O artista é alguém que viu na vida algo grande demais, o que pôs nele a marca da morte, é o grande assinalado de Cruz e Souza, é o que não pode trocar de destino. «Melville dizia: «Se dissermos dadas as necessidades da argumentação que ele é louco, então eu preferiria ser louco a sábio... gosto de todos os homens que mergulham. Qualquer peixe pode nadar perto da superfície, mas é preciso ser-se uma grande baleia para descer a cinco milhas e mais... Os mergulhadores do pensamento voltaram à superfície com os olhos injectados de sangue desde o princípio do mundo.» Reconhecemos com facilidade que há perigo nos exercícios físicos extremos, mas o pensamento é também um exercício extremo e rarefeito. A partir do momento em que pensamos, enfrentamos necessariamente uma linha onde se jogam a vida e a morte, a razão e a loucura, e esta linha arrasta-nos. Só podemos pensar nesta linha de feiticeira, faltando dizer que não estamos forçosamente condenados a perder, que não estamos forçosamente condenados à loucura e à morte.» Pensemos aí em Vincent no trigal, nas noites de Poe, nos jejuns kafkianos, na tenacidade de Faulkner, no desconforto da gravata borboleta do Rosa montada por temporadas e temporadas no lombo de um burro, dormindo no chão da caatinga, do sertão.

Nenhum comentário: