segunda-feira, 24 de outubro de 2016

DELTACID

Tudo está na infância, é ela que nos salva e nos fode pelo resto da vida. Sobre a minha, duas coisas. Eu era cabeçudo e piolhento, praticamente um latifundiário da pediculose. Se não tomasse cuidado, pegaria morcegos, em vez de piolhos. A primeira percepção profunda da tristeza que tive está ligada aos piolhos. Estávamos indo a um passeio na escola e todos se divertiam no ônibus, ao passo que eu, continuava quieto no meu canto. Com medo que descobrissem o meu segredo, pensava: “De que adianta o sol, o passeio, a festa se tenho piolhos?” Quase um Poema do Beco, do Bandeira. Era a época da música do Nenhum de Nós, Astronauta de Mármore e adivinhem do que os meninos me chamavam? Desde pequeno, tudo que é ruim gruda em mim, do piolho ao vício. Hoje meus piolhos caminham do lado de dentro do crânio. A mãe tratava, passava pente fino, tudo quanto era remédio fedido, mas não tinha jeito, eu tinha sangue doce.
Mas o padre dizia, na Igreja, que era preciso ter fé e fé é esperança. E eu rezava: “Senhor, se for da tua vontade, acaba com estes piolhos.” Com as lêndeas tudo bem, até que eu gostava do nome, é uma palavra bonita e sempre fui louco pelas palavras; qualquer dia escrevo um soneto com este título: Lêndeas.
É preciso ter fé e fé é esperança. Não sei se por inspiração divina, nos anos seguintes, uns cientistas inventaram um produto chamado Deltacid e meus problemas foram resolvidos. Neste meio tempo, deixei o cabelo crescer, descobri o rock, O pequeno príncipe, O menino do dedo verde. Encorpei um pouco, o que melhorou a proporção entre o corpo e a cabeça. Agora, já era um adolescente, trabalhava numa padaria, tinha dinheiro para camisetas do Pink Floyd e Yes, usava calças apertadas, lia; às vezes, tomava um keep cooler na frente da escola. Em suma, tornei-me um diferentão.
De outra escola, veio uma menina linda, um par de anos mais velha que eu, Adriana. Todos a chamavam de Adriana-Modelo. E, de fato, ela poderia ser mesmo modelo. Tinha um cabelo que ía até a cintura. Como ela morava perto da minha casa e estudávamos no período noturno, fizemos amizade, ela tinha medo de vir sozinha e eu fazia companhia. Um dia, elogiei seu cabelo e ela me fez uma confissão:
- Sabe, nem sempre tive o cabelo assim. Na verdade, saí da outra escola porque os meninos pegavam demais no meu pé. Todo ano eu pegava piolho... E minha mãe cortava meu cabelo curtíssimo. Apelidaram-me de Joãozinho. - Moleques burros, poderiam chamá-la de Sinéad O´ Connor, porque era a cara.
- Eu também pegava piolho todo ano - confessei. - Ainda bem que inventaram o Deltacid.
Ela riu e na frente de sua casa, sem qualquer palavra, sem qualquer gesto artificial, mas numa conjunção de almas piolhentas e sofridas, dei meu primeiro beijo. O beijo mais natural do mundo, parâmetro da boca pelo resto da vida.

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