segunda-feira, 24 de outubro de 2016

BE WATER, MY FRIEND

Agora é oficial, sou doido “com todo direito a sê-lo”, como diria o Álvaro Campos. Encontraram aí quatro ou cinco cid´s nos quais me encaixar.
Desde menino, sempre achei que havia algo de errado comigo. Na escola, até que me virava bem. Eu decorava tudo e depois colava da minha própria cabeça a resposta; mas, pra dizer a verdade, não entendia coisa alguma. Em casa, novos e piores problemas. Minha mãe me mandava ao açougue e lá ia eu. No caminho, via um passarinho e eu imaginava que era um anãozinho e domava o passarinho, como se fosse um cavalo alado e lá íamos nós guerrear, conquistar reinos, enfrentar monstros feito um Conan de dez centímetros. Quando chegava em casa, trazia dez pães e um litro de leite C, de saquinho, daqueles da época do José Sarney. A mãe perguntava:
- E o frango?
- Que frango?
- O que te mandei comprar.
- Não era pão?
E dá-lhe no cocoruto um bom cascudo daqueles bem mineiros. Das duas uma, ou gênio, ou retardado; disse a professora Maria Helena.
Mas o que acabou comigo mesmo foi a entrevista do Bruce Lee. Be water, ele dizia. Be water, a água se ajusta a todas as situações e sempre chega ao seu destino. Levei o conselho a sério. Em todas as situações, até hoje, me lembro: be water. Depois li mais sobre Lao-Tsé, Chuang Tzu, o I-ching; mas não adiantava, o cerne da má compreensão já estava dentro de mim. Be water, adapte-se, como a água, chegue ao seu destino.
Então, quando estou tomando um café na padaria e o copeiro sapeca: 
- Bom mesmo é o major Olímpio, ou o Levi Fidelix, só um dos dois para resolver – concordo e ainda pergunto: - qual é mesmo o número aí do gato Félix?
E quando estou num papo cabeça e o sujeito manda:
- Gênio só Joyce. Ulisses, que primor!
Sei que o sujeito não folheou nem as primeiras vinte páginas do irlandês, mas concordo.
- Não tem igual. Dostoiévsky é uma besta se compararmos.
Existem forças no mundo operando sobre nós e cada uma delas quer nos levar para um lado. O diabo, é que, com esse papo de ser água, fui me deixando levar pra lá e pra cá. Diante de cada interlocutor, uma máscara diferente. Eu gostava mesmo era de sentar na praça e olhar os passarinhos que ainda restam em São Paulo. Mas, como diria Freud, olhar passarinho não enche barriga do eu, do isto, nem do supereu. Então, quando precisei ganhar a vida, tentei usar a técnica do be water.
- Daniel, você pode pegar os piores trabalhos para fazer em nosso lugar?
- Ó sim, claro, companheiros.
- Daniel, você pode ir ali tomar no cu?
- Com todo prazer.
Eu não sabia dizer não. Então dizia sim para todos: em casa, no trabalho, na escola. Dizer não virou um trabalho hercúleo. Só que, como diria outro gênio da psicanálise, a Senhora Melanie Klein, o eu é um balde, se você encher demais com água suja, ou limpa, uma hora ele transborda e espalha merda, digo água, pra todo lado. De tanto viver tentando evitar o conflito o tempo todo, quando o balde transborda, faço merda, brigo, ofendo, me arrependo, sinto vergonha, choro, vêm os pavores, síndrome do pânico, arrependimento; se toca o telefone, acho que é do inferno me mandando descer... E não durmo nunca, porque, para evitar o conflito, aceito coisas com as quais não concordo e, quando me expresso, faço do jeito errado, armo uma tremenda confusão. Se fosse mudo e analfabeto, teria escapado das piores confusões nas quais já me enfiei, mas eu queria evitar o primeiro diagnóstico da profª Maria Helena, retardado, e resolvi que seria gênio. Não deu muito certo também, mas vamos caminhando, seguindo nosso caminho, feito água... Do rio Tietê.

Nenhum comentário: