segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A tia, a casa, o tempo – reflexões sobre o romance A casa das marionetes

Quando lemos um autor original pela primeira vez; inconscientemente, vamos comparando sua voz à voz de leituras passadas; ouvindo os ecos que ressoam em nosso coração; tentando entendê-lo a partir do que já levamos na alma: isso parece José Lins do Rêgo, o grande coronel José Paulino, isso parece Federico Garcia Lorca, La casa de Bernarda Alba, Emerenciana, seria pois, Emerenciana Alba, aquilo se parece com Gabriel García Márquez, com Alejo Carpentier, com o realismo mágico e o real maravilhoso. Mas, e essa voz? Esse modo de narrar? Essa respiração encantatória? Essa música, a conexão entre a comida e a memória, isso é Proust! Só que não, não pode ser Proust, em Proust não cabem o caldo de mocotó, o bolo de fubá a cuxa de gergelim. Por fim, nos damos conta, entregamos os pontos; trata-se de um autor original. Como um girassol num cemitério, aponta para todos os lados, mas sua beleza e sua singularidade são únicas.
            Essa reflexões vieram-me à alma depois da leitura de A Casa das Marionetes, de Santana Filho, editado pela Reformatório (2015) e finalista do Prêmio São Paulo mais recente. A primeira coisa que nos damos conta, assim que lemos as primeiras linhas do livro, é de que estamos diante de um autor seguro, de alguém que sabe narrar, que não se afoba e nem precisa dar piruetas para conquistar o leitor, pois sabe que “apenas a ficção é real. Só pode existir realidade se existir organismo, e o organismo se expressa unicamente nos momentos de devaneio, nos sustos descuidados e na aceitação do mistério, quando se consegue ludibriar a razão, os vícios de pensar, a técnica e os ensinamentos viciados.” (p. 24)
            A meu ver, todo o romance parece ser a explanação desta afirmação que aparece ao final do primeiro capítulo. Numa prosa que não obedece aos manuais da boa escrita tão em voga nas oficinas de escrita literária - os quais afirmam a necessidade das sentenças curtas, da ordem direta – Santana Filho narra a decadência de um casarão: de residência de família poderosa, abastada, respeitada e unida, a bordel. Foi essa decadência do sistema patriarcal, atrelado ao espaço da casa que me fizeram lembrar os romances de José Lins do Rêgo, o coronel José Paulino. A casa, aliás, sem forração, com as vigas e os telhados à mostra nos parece uma metáfora do próprio teatro de marionetes que o bisavô costumava encenar e que cede o título ao romance. Ela, a casa, é uma espécie de palco de marionetes, no qual as personagens se movimentam, observadas pela voz do menino que lá passava as férias escolares. A casa viaja no tempo.
            No parágrafo anterior, abordamos o sistema patriarcal como um dos aspectos do enredo; na orelha do livro, todavia, a escritora Andréa del Fuego diz se tratar de uma família matriarcal. Podemos concordar ou não com ela. Se comparamos Emerenciana ao fraco avô Jacinto, o Cintinho, tendemos a ver que a força da personagem feminina excede em muito à da masculina, nos lembrando a fala final de Bernarda Alba na peça de Lorca “Aqui nada se passa!”.  Ao confrontar o jovem padre César, Dona Emerenciana anuncia, tal qual Bernarda Alba: “Padre César, não existe doente mental em minha família. Nunca existiu nem haverá de existir.” (p. 160) Por outro lado, há o bisavô, o homem que move os fios das marionetes  e que, quando ia ao porto da Capital buscar seus bonecos e charutos importados, “Ali permanecia por um tempo além do necessário para o que tinha ido fazer, enfurnado nos salões do cais do porto às voltas com marinheiros, aguardentes e prostitutas, evocando os mundos do outro lado do oceano. [...] Houve um ano em que, encantado com uma bailarina tailandesa, e alongando a temporada no cais, ele quase perde o batismo dos penitentes, a romaria dos homens na Sexta-Feira da Paixão” (p.21) Se mantivermos o foco no bisavô, notamos a tradição patriarcal, coronelista, ainda que em decadência.
            Sobre tudo o que afirmamos no parágrafo anterior, duas coisas precisam ser melhor explanadas: 1º a questão das tradições religiosas, das crenças ligadas à terra, do mágico neste lugar ser algo cotidiano. 2º A força das personagens criadas por Santana Filho.
            Para o escritor cubano Alejo Carpentier, o mágico, o absurdo, ou, se preferirem, o surreal, em nosso continente, é parte integrante do cotidiano e de nossa realidade. Em nós, diferentemente do que ocorre com os europeus,  consciente e subconsciente se fundem num só, num todo, não há uma fissura. Aqui a razão não prevalece sobre a fantasia, tudo é mágico e cotidiano. Fatos históricos e fenômenos naturais comprovam a magia e a maravilha de nosso continente; basta-nos observar as linhas de Nazca, ou a arquitetura maia, ou ainda o  Titicaca,  lago navegável mais alto do mundo e berço da civilização Inca. Todo bom romancista cria um mundo no qual acreditamos. Não se trata de verossimilhança, a ficção nada deve à realidade, mas de coerência interna. Santana Filho consegue isso; com poucas palavras nos transporta para um mundo mágico, no qual tia Dália (a seguir falaremos mais dela) cuida dos defuntos, assegura-se de que foram bem recebidos do outro lado e se alegra tanto com suas lagartixas a ponto de se converter numa delas. Além disso, quando ia comprar os mocotós junto ao narrador, muitas vezes tia Dália “escolhia o pedaço de toucinho a ser levado para dona Assíria dar de comer à ferida que lhe roía o seio, evitando que o mal se alastrasse à procura de alimento, consumindo os demais órgãos do corpo. A tia recomendara o uso do toucinho por dentro do sutiã em contato direto com a boca da ferida e em uso contínuo até a saciedade daquela fome.” (p. 34) Loucura? Não segundo Tia Dália, Dona Emerenciana; não aqui.
            Tia Dália é a grande personagem deste romance familiar, que trata da força da consanguinidade. Ela assume a força de uma sacerdotisa inocente, dissolvendo em tiras colocadas sobre a língua as notícias de jornal. É quem faz a ponte entre o mundo natural e o sobrenatural. É curandeira e sábia. Para ela, as enfermidades são um “jogo de luz e sombras, brincadeiras entre gato e rato, marionetes desarticuladas...” (p.34) Mas nem só de tia Dália, se faz um romance; são necessárias outras tias, como Inácia. Tia mais velha, viajada, liberal, conhecedora do mundo, outra estrela do casarão da Rua des étoiles. São necessárias Dona Emerenciana, vó Lama, o almofadinha Rodrigo e o devotado Bernardo, sobre os quais o narrador afirma com a naturalidade latino-índio-americana: “O tio almofadinha se chamava Rodrigo e era filho de minha avó com o seu filho mais velho, Bernardo, morto de cirrose hepática...” (p.101)
            Trocando em miúdos, Santana Filho, além de médico, como Céline, Moacyr Scliar e Guimarães Rosa é também um tremendo escritor e com esse A casa das marionetes nos traz algo de latino-americano: o real maravilhoso, que não é a magia separada da razão, mas uma razão mágica, ou uma magia racional e cotidiana. Tradição muito forte em nosso folclore e em toda a América Latina, mas que aqui, literariamente, não explodiu com a mesma força que nos países de língua espanhola. Talvez por isso eu tenha chegado ao término da leitura do livro e há alguns parágrafos acima no início desta resenha à conclusão de que se trata de um romance absolutamente original por aqui.
            O que diria a tia?


Reformatório, 2015. R$ 36,00

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