segunda-feira, 24 de outubro de 2016

A GRANDE REVOLUÇÃO DA TRISTEZA

Há em A peste, de Camus, uma frase que me marcou de modo esplendoroso: “vergonhoso é ser feliz sozinho”. Hoje, talvez, a frase não faça muito sentido; pois, quanto mais feliz estamos e quanto pior o outro está, melhor. O facebook aqui é a fórmula 1 da felicidade. Fotos, festas, fatos, pratos, frases feitas. Cada um se torna um pouco celebridade. Cada um é estrela de sua própria revista Caras.
Mas, pergunta incômoda, e os tristes?
Hoje o vergonhoso é ser triste sozinho em meio a tanta gente bem-sucedida, eficiente, competente,divertida, empolgada, promovível. A felicidade alheia, de camisa pólo e dentes brancos, verdadeira ou falsa, acentua nossa própria infelicidade.
Num piscar de olhos, estamos no meio da jornada e não realizamos nada. O mundo visto pela janela parece sem sentido. Os filhos pedem uma força que nos foge, escapa entre os dedos. Simplesmente cansamos de levantar da cama para o oco e a repetição. Sísifo despenca do alto do morro e a rocha esmaga-lhe a cabeça. Entramos no ônibus sem dar sinal, esperamos o ponto final e a viagem nos parece longa demais; nada muda na paisagem.
Mas ainda tenho esperança, fé, na revolução, não numa revolução sangrenta qualquer, mas na Grande Revolução da Tristeza. Minha utopia é ver chegar o dia em que o mal-estar será tão grande que todos cruzaremos os braços. Estatisticamente, não está muito longe. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), no início dos anos 2000, a depressão atingia 6% da população, a projeção é de que até 2020, a depressão terá se tornado a segunda causa de morbidade no mundo industrializado, precedida apenas pelas doenças cardíacas.
Vinícius de Moraes... Espinosa... Deleuze... Estavam todos redondamente enganados, é pela morbidez que se atinge um devir revolucionário. A força do I would prefer not to, ou do I can´t.
Eu cá com meus botões penso em como serão as fotos do facebook daqui a quatro anos. Será que se parecerão com cenas de um filme de Robbie Zombie, ou será que todos continuaremos mentindo, fotografando pratos de lasanha?

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