quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Tudo está tão claro em nosso mundo

Tenho um amigo filósofo que sofre com o acontecer do mundo. O mistério o atravessa feito espada espartana, peixeira de baiano. Ele não descansa. Estuda, lê livros de três mil páginas de pensadores alemães, guarda o mar, escreve tese, conversa com um psicanalista... E se desespera.
                - E o outro? Deve haver algo mais! Isso pulsa, borbulha nas sombras, nos cantos, explode fe3ito larva sob a terra. Está ali, mas não se mostra. O maravilhoso se esconde. O tempo todo, o maravilhoso se esconde.
                Durante muito tempo, também pressenti o maravilhoso assim e tive forças para buscá-lo - agulha no palheiro, The catcher in the rye – não no transcendental, mas no colo de uma menina bonita, meio triste, meio misteriosa que costumava se cortar e que um dia, talvez por acidente, partiu de vez as veias dos pulsos.
                As coisas vão ficando para trás e, com o tempo, o mistério já não nos inquieta como antes. Perdemos o menino na correnteza, no vagão do trem, no ônibus que passou mais cedo. Multiplicam-se não os enigmas, mas as dívidas. Ainda cultivamos rosa em vaso de plástico e, vez por outra, um arco-íris nos surpreende. Entre a loucura de Van Gogh e a timidez de Drummond, ficamos com o funcionário público, ex-mágico da taberna Minhota. Guardamos o poema na gaveta da repartição. Desistimos aos poucos do conhaque, pois o conhaque nos faz Artaud e nós temos os filhos que Artaud não tinha. Sem perceber, perdemos o direito À loucura, à embriaguez, ao suicídio, à ferida. Que bom!
                Voltando da escola. Final de tarde. O filho sussurra no banco traseiro:
                - Gosto quando está assim de tardezinha e faz esse solzinho maneiro, pai.
                Então o maravilhoso esquecido nos salta outra vez aos olhos, sem máscaras, sem mistérios, sem subterfúgios. O sentido é esquecer de si para cuidar de alguém e compartilhar o poente em meio ao trânsito; em meio a atrocidades políticas e policiais.
                Entre dívidas e dúvidas, cresce o cheiro de café. Estamos chegando. Em casa, alguém também abandonou a metafísica para fazer o café como gostamos e falar um pouco da dureza diária: o maravilhoso é preto e escorre do coador. Também tem queijo e pão francês.
                Quanto ao meu amigo filósofo, embora mais calmo, continua procurando o que está diante dos olhos e ele não vê por medo de se comprometer, de enlouquecer, entregar-se, perder a liberdade, tornar-se responsável.
                Louça na pia, louça lavada; de mãos dadas, brincamos de roda na cozinha.

                Há muito não temo a minha morte, mas a do outro: tenho pesadelos. E se, às vezes ainda temo por mim é pela falta que posso fazer aos outros que brincam na ciranda. O círculo se parte sem um dos elos. Pela primeira vez na vida, meus olhos estão abertos.

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