domingo, 23 de agosto de 2015

Brant

O que parte, parte mudo
sem dinheiro no bolso
sem palavras de ordem
sem convicções
O que parte, parte só
lançando sementes no caminho
rasgando templos e pergaminhos
tecendo ausências nos retratos do futuro.
O que parte
parte em duas nossa vida
estraçalha silêncios no umbral
Enquanto sorve o último instante
O que parte; torna-se partida.
Que do mármore brote o sonho
Que o sonho resvale na pedra
E que a pedra fortaleça
o gênio e a ternura das novas gerações.
Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Outramente,

Você tinha um namorado gordo em alguma outra cidade do interior
& nós éramos jovens
Você tinha uma pasta com poemas
A alma colorida
& nós éramos jovens
Você me pagou dezesseis latas de brahma
Quando eu só bebia conti
& nós éramos jovens
Ainda há pouco éramos jovens
Parece que foi antes das três
Agora, depois de termos sorvido as nozes
& cuspido a casca de tantos anos
Procuro a pérola que ainda brilha
Em algum baú antigo
Sob a mágoa
Sob o tédio
Sob a carne podre
Sob o rancor
Não estamos velhos
Mas ela, a velhice, vem a galope no sentido contrário
As tetas murchas de fora
Tatuagens enrugadas
A resignação é uma lição que nos custa os cabelos
& a face lisa
O amor é mil & a cada dia veste uma face nova
Aproxima-se o tempo do companheirismo
Mas eu prefiro, ó como prefiro, os anos da fome
& do osso que me atravessava a pica rosada

domingo, 9 de agosto de 2015

As trincheiras de uma poeta


                Lendo Arame Farpado, de Lisa Alves, a primeira impressão que tive foi que a escrita de Lisa engendra uma literatura menor, no sentido em que Deleuze e Guattari constroem este conceito. O termo menor, no caso, não tem qualquer conotação depreciativa, mas, antes, conecta-se ao devir e todo devir é minoritário. Menor tampouco tem a ver com o status de determinado idioma. Uma literatura menor não é a de uma língua menor, mas antes a que uma minoria faz em uma língua maior, como no caso dos judeus de Praga, ou dos negros e dos povos hispânicos nos Estados Unidos. Estas minorias, de certo modo, violentam a língua, fazem dela um uso menor, levam o idioma para longe dos dogmas sintáticos, semânticos e prosódicos instituídos. A primeira característica de uma literatura menor é que nela a língua é afetada por um enorme índice de desterritorialização. Os poemas de Lisa, no livro, são agrupados em seis capítulos intitulados: Do eu, Dos territórios, Da dominação, Da vindicta, Das contradições e Da poesia. No segundo capítulo do livro intitulado “Dos territórios” encontramos poemas como Poésie da Mula, cuja última estrofe mistura a língua portuguesa abrasileirada, falada nas ruas, ao francês:
Se hoje sou assim tão “gente”
Tão longe, “nas bagaça do estrangeiro”,
Pagando de diplomatique
Heroína, Cocaína: nomes de poésie.

            A segunda característica de uma literatura menor é que nelas - ao contrário do que ocorre nas grandes literaturas, onde o individual tende a juntar-se com outros casos também individuais – tudo é coletivo. Nas grandes literaturas o problema geralmente é edipiano; ao passo que nas literaturas menores, o problema não é exclusivamente de um indivíduo, de uma família, de um sujeito separado do mundo, aqui o problema é sempre de um povo, de uma minoria. Não é que o escritor, ou melhor, ou eu-lírico,  não possua uma singularidade, o caso é que nas literaturas menores, o individual é exagerado, conecta-se com outras esferas, não existe isolado. Na literatura menor, em vez do individual têm-se sempre o coletivo. Ao abrir seu livro, Lisa trata justamente da questão do eu, mas este eu, assim como em Rimbaud, é um outro, ou melhor, é vários outros. Mario de Andrade diria aí: “sou trezentos, sou trezentos e cinquenta, mas um dia, afinal, toparei comigo mesmo.” É que o eu, para a poeta, não é um umbigo, mas um agenciamento:

ECOS

O Eu original foi desconectado
e tudo o que restou fomos Nós (esses Eus sem paradigmas),
no escuro de uma tabela periódica,
crédulos das ciências e dos teísmos,
cultivadores de rótulos, diplomas e de imóveis habitações.

                Segundo Deleuze e Guattari, um agenciamento é uma mistura, uma abertura à alteridade. Para os autores, o agenciamento é que é a unidade real mínima e não a palavra, a ideia ou o conceito, muito menos o significante. O enunciado, deste modo, é produto de um agenciamento e não de um sujeito, ou de um eu, e sempre põe em jogo dentro de nós e fora de nós populações inteiras, multiplicidades, devires, territórios e acontecimentos. Lisa escreve em Cartas para o Mundo:

Eu era todos: a menina do tabuleiro, o cientista e a sombra.
Nós todos éramos ultravidas – ninguém conhecia a direção
do outro  ou qual a cor predileta.

Eu ouvia seus zumbidos enquanto travavam suas missões.
Eu reconhecia seus pensamentos, seus sistemas digestivos e os seus tutanos.

Eu era todos: varão e fêmea, domínio e servilismo, guerra e silêncio.
Nós todos compúnhamos uma orquestra de músicas mestiças
e marchávamos em fios ou nos estreitos paredões.

Eu era todos: guarda-chuva, estepe e carrinho de mão.
 Éramos os substitutos,
 os do final da fila, os stand-by.  Sem mais.

Eu era todos: rins, tesoura e pedra.
Filtros, cortes e lapidações – editados pelos comerciais de um dia feliz.

Eu era todos: o carbono, o silício e a saliva
 fluída da boca
esfomeada ou gananciosa.

Eu era a fila para lugar nenhum e o orifício certeiro.
Eu era a banda larga.

            A poesia de Lisa é um modo de questionar nossa identidade. Que é ser brasileiro? Como se forma uma individualidade num país pobre e preconceituoso? Como podemos ser com o outro? Não com os donos do poder e do capital, mas com “os do final da fila”? Devir é sempre minoritário e optar pelo menor é uma opção política, não partidária, mas política. Isto nos leva à terceira característica de uma literatura menor.
A terceira característica da literatura menor é que nela, ao lado da esfera coletiva, tudo toma um valor político. Enquanto nas grandes literaturas abundam aqueles que têm intimidade com o idioma e, por isto mesmo, facilidade para escrever; nas literaturas menores, aquilo que se manifesta é sempre coletivo e político, mesmo porque em uma literatura menor as condições de uma enunciação individuada não são dadas. Tudo é então agenciamento. Em Arame Farpado, a esfera política atravessa cada poema, cada estrofe, cada verso, cada palavra, a começar pelo título: Arame Farpado! Não, meus amigos, isto já não é um livro de poemas, é uma declaração de guerra, de guerrilha, ao instituído, ao poder, aos poderosos... É a formação de barricadas, de trincheiras. Cá estamos, do outro lado, não protegidos, mas expostos a  versos cortantes como estes, do poema Renascença:

Quando as fronteiras da Terra forem abertas
e exterminarem essa falsa cultura made in,
confraternizaremos como uma irmandade terráquea.

A América que conheço não tem nenhum tio chamado Sam.
A América que cresci foi desertificada
por um sonho que não é meu,
que não é seu e nunca foi nosso.



            O livro de Lisa Alves já não se configura como aquilo que chamamos texto, ele é corpo. Parece feito de carne e sangue. Não baixa a cabeça, mas encara. Não fala a meio tom, mas grita. Como certa vez escreveu Ralph Waldo Emerson: “Se cortássemos essas palavras, elas sangrariam.” Leitura obrigatória, mas sugiro luvas grossas ao manusear o livro, para que os cortes nas mãos não precisem de pontos.

Arame Farpado. Lançamento Coletivo Púcaro. Vendas com a autora: lisaallves@gmail.com e www.facebook.com/lisaallves.