sábado, 21 de março de 2015

Levanta-te e anda

Pegue-se um ser humano, corte-lhe a língua materna, o lugar onde vive, as pessoas que conheceu, as aventuras porque passou, o que sobra de sua identidade? Voltemos ao bebê. Este que um dia será homem ou mulher ainda não tem um “eu”, ainda não tem qualquer traço de uma identidade, mas, enquanto mama, a mãe sussurra uma cantiga. Aí começa o gosto. Esta cantiga, a própria criança voltará a murmurar nos momentos de solidão e medo. É o gosto quem conduz as escolhas. Mais do que aquilo que vem de fora e nos condiciona - o sexo, a condição financeira, a língua materna, o espaço que ocupamos -, é o gosto que constrói nossa identidade. Aquilo que fará parte da nossa alma, que constituirá nosso “eu”, apanhamos pelo caminho, seguindo a beleza, o prazer ou a tormenta - existe um fundo de prazer em toda dor e existe um fundo de dor em toda obra de arte - que nos proporciona. O “eu” vem de fora, mas encontramos aquilo que constituirá o mosaico do nosso Ser por meio de uma opção estética. Escolhemos uma música, uma namorada, uma professora para adorar, uma língua estrangeira para aprender; escolhemos amigos, lugares, filmes, fotos, livros, roupas, corte de cabelo, a cor do cabelo, alimentos: no fundo de tudo paira uma decisão estética. Sim à estética e não ao estetismo. Mas como ter um “eu” se de manhã sentimo-nos como um pedreiro entre pedreiros, e os calos surgem em nossas mãos, e a língua gagueja em nossa boca, e o músculo é a única forma de habitar o corpo? Como ter um “eu” se durante a tarde somos a menina inocente que sonha o amor e chora assistindo a sessão da tarde? Como ter um “eu” se de noite somos a dona de casa que prepara o jantar para o marido que se diverte com a amante e, mais tarde, o adolescente que se corta sozinho no quarto ouvindo Joy Division? E mais, como estar no mundo sem Ser, feito um parasita que cola nos outros, vestindo a máscara do vizinho para fingir que é algo, que existe? Só na escrita mesmo, na palavra, na Poesia. Profissão de fé. Quem escreve quer criar um mundo onde possa Ser porque não se sente em casa no mundo. Aquele que escreve quer viver na palavra, ainda enquanto é, mas também depois que se for. Feito Lázaro.

terça-feira, 10 de março de 2015

Palavras e encantamentos

Nabokov dizia que, enquanto os homens escrevem, as mulheres fazem encantamentos. Creio que a literatura feminina começou de fato na idade média, com as bruxas. Enquanto os homens partiam para combater nas cruzadas em nome de um Deus-Pai, as mulheres ficavam sozinhas, livres pela primeira vez, falando à mata, à água, à Terra, louvando o corpo, o leite e o ardil. Como era solitária, tal fala era livre, e como tudo o que é livre é perigoso o homem - e à época o maior poder instituído: a Igreja - repreendeu tal fala. Havia nela algo de sensual, telúrico, úmido, corporal. Ser livre é troço muito perigoso. Como observou Michelet no seu La socière, com a feiticeira a mulher tomou a palavra e, com a palavra, palavra-larva-estrume-fluxo-sangue-fezes, afirmou diante da chama e da morte a rebeldia. Mesmo o macho, quando é rebelde, devem mulher, porque o homem é o rosto dominante, o império, a força bruta, o Estado, ao passo que a mulher é o rosto faceiro, o acampamento no deserto, a malícia, os nômades que a formação de um Estado produz. Mesmo quando critica a mulher, Nietzsche devem mulher e é o mais feminino e rebelde dos filósofos. Que é a Carmem que o filósofo opõe às heroínas wagnerianas? Carmem é o corpo, o ardil, o sexo, enquanto as mulheres wagnerianas são criações masculinas, seres etéreos dispostos ao sacrifício... sempre em busca de redenção. De Virgínia Woolf a Clarice Lispector, das irmãs Brontë a Hilda Hilst, de Márcia Barbieri a Katherine Mansfield, de Margueritte Duras à louca Estamira, todas olham pelo mesmo olho e miram a mesma mira. Aqui, a palavra encontra o líquido, o útero, o sangue, a menstruação. Aqui, a lógica é partida ao meio, o significante enlouquece, desprende-se para sempre do significado ao qual o macho-adulto-branco-rico o colou. Aqui, a palavra é o próprio Fora, o murmúrio, o incessante. Que quer dizer A obscena senhora D senão aquilo mesmo que diz? A mulher fala o imparafraseável. Há algo nesta fala que busca o sagrado, mas por meio do sexo e não da oração, ou melhor, o corpo ganha status de oração e a oração do corpo tem um nome próprio: DANÇA. A escrita-mulher é uma espécie de dança e flerta com a morte, sem medo, como se o fim fosse um orgasmo. O grande orgasmo, este sim, infinito, que todos passamos a vida perseguindo.