terça-feira, 10 de março de 2015

Palavras e encantamentos

Nabokov dizia que, enquanto os homens escrevem, as mulheres fazem encantamentos. Creio que a literatura feminina começou de fato na idade média, com as bruxas. Enquanto os homens partiam para combater nas cruzadas em nome de um Deus-Pai, as mulheres ficavam sozinhas, livres pela primeira vez, falando à mata, à água, à Terra, louvando o corpo, o leite e o ardil. Como era solitária, tal fala era livre, e como tudo o que é livre é perigoso o homem - e à época o maior poder instituído: a Igreja - repreendeu tal fala. Havia nela algo de sensual, telúrico, úmido, corporal. Ser livre é troço muito perigoso. Como observou Michelet no seu La socière, com a feiticeira a mulher tomou a palavra e, com a palavra, palavra-larva-estrume-fluxo-sangue-fezes, afirmou diante da chama e da morte a rebeldia. Mesmo o macho, quando é rebelde, devem mulher, porque o homem é o rosto dominante, o império, a força bruta, o Estado, ao passo que a mulher é o rosto faceiro, o acampamento no deserto, a malícia, os nômades que a formação de um Estado produz. Mesmo quando critica a mulher, Nietzsche devem mulher e é o mais feminino e rebelde dos filósofos. Que é a Carmem que o filósofo opõe às heroínas wagnerianas? Carmem é o corpo, o ardil, o sexo, enquanto as mulheres wagnerianas são criações masculinas, seres etéreos dispostos ao sacrifício... sempre em busca de redenção. De Virgínia Woolf a Clarice Lispector, das irmãs Brontë a Hilda Hilst, de Márcia Barbieri a Katherine Mansfield, de Margueritte Duras à louca Estamira, todas olham pelo mesmo olho e miram a mesma mira. Aqui, a palavra encontra o líquido, o útero, o sangue, a menstruação. Aqui, a lógica é partida ao meio, o significante enlouquece, desprende-se para sempre do significado ao qual o macho-adulto-branco-rico o colou. Aqui, a palavra é o próprio Fora, o murmúrio, o incessante. Que quer dizer A obscena senhora D senão aquilo mesmo que diz? A mulher fala o imparafraseável. Há algo nesta fala que busca o sagrado, mas por meio do sexo e não da oração, ou melhor, o corpo ganha status de oração e a oração do corpo tem um nome próprio: DANÇA. A escrita-mulher é uma espécie de dança e flerta com a morte, sem medo, como se o fim fosse um orgasmo. O grande orgasmo, este sim, infinito, que todos passamos a vida perseguindo.

Nenhum comentário: