quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

O plástico tomou conta dos afetos
Desesperos, desilusões, desamores
Embalados a vácuo
Para serem vendidos feito café
Não em prateleira
Mas em timeline
Já não sabemos o que fazer como nosso coração
E mesmo a morte do filho é pretexto pra citar Lacan
Para mostrar que nosso luto é nota dez
Porque o formulamos de acordo com os princípios psi
A gente vive a vida feito aluno cu-de-ferro
E o professor aplaude
Em matéria de filho morto o meu é nota dez
Já a sua dor não passa de um 7,0
Deveria ter lido - “L’insu que sait de l’une bévue s’aile à mourre”
Mas quem traz a vassoura para juntar as cinzas?
Quem quebra os espelhos e constrói um colar de mil pontas coloridas para consolar o corte?
Não há um só ancião sábio para sussurrar: coragem, menina, é a roda da vida.
Todos os velhos foram trancafiados, feito criminosos.
A dor virou espetáculo,
Não o silêncio
O luto virou o espetáculo,
Não o silêncio
Tudo é só espetáculo
Mas o silêncio é a casa da assimilação
O silêncio é a casa do aprendizado
O silêncio é a casa do sobrenatural
Palavras que perderam o tutano
Já não desejamos a fruta, mas a casca
E que importa se a banana for um verme?
Não impressiona as genitálias feridas expostas para venda nos açougues
Mas que drogaria venderia medicamento para o desamor?
A gente compra um pouco de sono e dorme
Mas uma hora há que se acordar
O futuro chegou
E embora nossos carros não voem
E não existam chips instalados em nosso couro cabeludo
Já não somos humanos
Tecer ficou no passado
A agulha foi quebrada
Em seu lugar, implantou-se o pau de selfie
E nenhum deus poderá nos salvar
Quando todos os asilos tramavam a revolução
Foram delatados e deletados, mas não esquecidos
Uma vez que o massacre serviu para vender jornal
Canto para desaparecer
Para fisgar com o anzol da palavra prateada o peixe do silêncio

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