domingo, 23 de agosto de 2015

Brant

O que parte, parte mudo
sem dinheiro no bolso
sem palavras de ordem
sem convicções
O que parte, parte só
lançando sementes no caminho
rasgando templos e pergaminhos
tecendo ausências nos retratos do futuro.
O que parte
parte em duas nossa vida
estraçalha silêncios no umbral
Enquanto sorve o último instante
O que parte; torna-se partida.
Que do mármore brote o sonho
Que o sonho resvale na pedra
E que a pedra fortaleça
o gênio e a ternura das novas gerações.
Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Outramente,

Você tinha um namorado gordo em alguma outra cidade do interior
& nós éramos jovens
Você tinha uma pasta com poemas
A alma colorida
& nós éramos jovens
Você me pagou dezesseis latas de brahma
Quando eu só bebia conti
& nós éramos jovens
Ainda há pouco éramos jovens
Parece que foi antes das três
Agora, depois de termos sorvido as nozes
& cuspido a casca de tantos anos
Procuro a pérola que ainda brilha
Em algum baú antigo
Sob a mágoa
Sob o tédio
Sob a carne podre
Sob o rancor
Não estamos velhos
Mas ela, a velhice, vem a galope no sentido contrário
As tetas murchas de fora
Tatuagens enrugadas
A resignação é uma lição que nos custa os cabelos
& a face lisa
O amor é mil & a cada dia veste uma face nova
Aproxima-se o tempo do companheirismo
Mas eu prefiro, ó como prefiro, os anos da fome
& do osso que me atravessava a pica rosada

domingo, 9 de agosto de 2015

As trincheiras de uma poeta


                Lendo Arame Farpado, de Lisa Alves, a primeira impressão que tive foi que a escrita de Lisa engendra uma literatura menor, no sentido em que Deleuze e Guattari constroem este conceito. O termo menor, no caso, não tem qualquer conotação depreciativa, mas, antes, conecta-se ao devir e todo devir é minoritário. Menor tampouco tem a ver com o status de determinado idioma. Uma literatura menor não é a de uma língua menor, mas antes a que uma minoria faz em uma língua maior, como no caso dos judeus de Praga, ou dos negros e dos povos hispânicos nos Estados Unidos. Estas minorias, de certo modo, violentam a língua, fazem dela um uso menor, levam o idioma para longe dos dogmas sintáticos, semânticos e prosódicos instituídos. A primeira característica de uma literatura menor é que nela a língua é afetada por um enorme índice de desterritorialização. Os poemas de Lisa, no livro, são agrupados em seis capítulos intitulados: Do eu, Dos territórios, Da dominação, Da vindicta, Das contradições e Da poesia. No segundo capítulo do livro intitulado “Dos territórios” encontramos poemas como Poésie da Mula, cuja última estrofe mistura a língua portuguesa abrasileirada, falada nas ruas, ao francês:
Se hoje sou assim tão “gente”
Tão longe, “nas bagaça do estrangeiro”,
Pagando de diplomatique
Heroína, Cocaína: nomes de poésie.

            A segunda característica de uma literatura menor é que nelas - ao contrário do que ocorre nas grandes literaturas, onde o individual tende a juntar-se com outros casos também individuais – tudo é coletivo. Nas grandes literaturas o problema geralmente é edipiano; ao passo que nas literaturas menores, o problema não é exclusivamente de um indivíduo, de uma família, de um sujeito separado do mundo, aqui o problema é sempre de um povo, de uma minoria. Não é que o escritor, ou melhor, ou eu-lírico,  não possua uma singularidade, o caso é que nas literaturas menores, o individual é exagerado, conecta-se com outras esferas, não existe isolado. Na literatura menor, em vez do individual têm-se sempre o coletivo. Ao abrir seu livro, Lisa trata justamente da questão do eu, mas este eu, assim como em Rimbaud, é um outro, ou melhor, é vários outros. Mario de Andrade diria aí: “sou trezentos, sou trezentos e cinquenta, mas um dia, afinal, toparei comigo mesmo.” É que o eu, para a poeta, não é um umbigo, mas um agenciamento:

ECOS

O Eu original foi desconectado
e tudo o que restou fomos Nós (esses Eus sem paradigmas),
no escuro de uma tabela periódica,
crédulos das ciências e dos teísmos,
cultivadores de rótulos, diplomas e de imóveis habitações.

                Segundo Deleuze e Guattari, um agenciamento é uma mistura, uma abertura à alteridade. Para os autores, o agenciamento é que é a unidade real mínima e não a palavra, a ideia ou o conceito, muito menos o significante. O enunciado, deste modo, é produto de um agenciamento e não de um sujeito, ou de um eu, e sempre põe em jogo dentro de nós e fora de nós populações inteiras, multiplicidades, devires, territórios e acontecimentos. Lisa escreve em Cartas para o Mundo:

Eu era todos: a menina do tabuleiro, o cientista e a sombra.
Nós todos éramos ultravidas – ninguém conhecia a direção
do outro  ou qual a cor predileta.

Eu ouvia seus zumbidos enquanto travavam suas missões.
Eu reconhecia seus pensamentos, seus sistemas digestivos e os seus tutanos.

Eu era todos: varão e fêmea, domínio e servilismo, guerra e silêncio.
Nós todos compúnhamos uma orquestra de músicas mestiças
e marchávamos em fios ou nos estreitos paredões.

Eu era todos: guarda-chuva, estepe e carrinho de mão.
 Éramos os substitutos,
 os do final da fila, os stand-by.  Sem mais.

Eu era todos: rins, tesoura e pedra.
Filtros, cortes e lapidações – editados pelos comerciais de um dia feliz.

Eu era todos: o carbono, o silício e a saliva
 fluída da boca
esfomeada ou gananciosa.

Eu era a fila para lugar nenhum e o orifício certeiro.
Eu era a banda larga.

            A poesia de Lisa é um modo de questionar nossa identidade. Que é ser brasileiro? Como se forma uma individualidade num país pobre e preconceituoso? Como podemos ser com o outro? Não com os donos do poder e do capital, mas com “os do final da fila”? Devir é sempre minoritário e optar pelo menor é uma opção política, não partidária, mas política. Isto nos leva à terceira característica de uma literatura menor.
A terceira característica da literatura menor é que nela, ao lado da esfera coletiva, tudo toma um valor político. Enquanto nas grandes literaturas abundam aqueles que têm intimidade com o idioma e, por isto mesmo, facilidade para escrever; nas literaturas menores, aquilo que se manifesta é sempre coletivo e político, mesmo porque em uma literatura menor as condições de uma enunciação individuada não são dadas. Tudo é então agenciamento. Em Arame Farpado, a esfera política atravessa cada poema, cada estrofe, cada verso, cada palavra, a começar pelo título: Arame Farpado! Não, meus amigos, isto já não é um livro de poemas, é uma declaração de guerra, de guerrilha, ao instituído, ao poder, aos poderosos... É a formação de barricadas, de trincheiras. Cá estamos, do outro lado, não protegidos, mas expostos a  versos cortantes como estes, do poema Renascença:

Quando as fronteiras da Terra forem abertas
e exterminarem essa falsa cultura made in,
confraternizaremos como uma irmandade terráquea.

A América que conheço não tem nenhum tio chamado Sam.
A América que cresci foi desertificada
por um sonho que não é meu,
que não é seu e nunca foi nosso.



            O livro de Lisa Alves já não se configura como aquilo que chamamos texto, ele é corpo. Parece feito de carne e sangue. Não baixa a cabeça, mas encara. Não fala a meio tom, mas grita. Como certa vez escreveu Ralph Waldo Emerson: “Se cortássemos essas palavras, elas sangrariam.” Leitura obrigatória, mas sugiro luvas grossas ao manusear o livro, para que os cortes nas mãos não precisem de pontos.

Arame Farpado. Lançamento Coletivo Púcaro. Vendas com a autora: lisaallves@gmail.com e www.facebook.com/lisaallves.

sábado, 21 de março de 2015

Levanta-te e anda

Pegue-se um ser humano, corte-lhe a língua materna, o lugar onde vive, as pessoas que conheceu, as aventuras porque passou, o que sobra de sua identidade? Voltemos ao bebê. Este que um dia será homem ou mulher ainda não tem um “eu”, ainda não tem qualquer traço de uma identidade, mas, enquanto mama, a mãe sussurra uma cantiga. Aí começa o gosto. Esta cantiga, a própria criança voltará a murmurar nos momentos de solidão e medo. É o gosto quem conduz as escolhas. Mais do que aquilo que vem de fora e nos condiciona - o sexo, a condição financeira, a língua materna, o espaço que ocupamos -, é o gosto que constrói nossa identidade. Aquilo que fará parte da nossa alma, que constituirá nosso “eu”, apanhamos pelo caminho, seguindo a beleza, o prazer ou a tormenta - existe um fundo de prazer em toda dor e existe um fundo de dor em toda obra de arte - que nos proporciona. O “eu” vem de fora, mas encontramos aquilo que constituirá o mosaico do nosso Ser por meio de uma opção estética. Escolhemos uma música, uma namorada, uma professora para adorar, uma língua estrangeira para aprender; escolhemos amigos, lugares, filmes, fotos, livros, roupas, corte de cabelo, a cor do cabelo, alimentos: no fundo de tudo paira uma decisão estética. Sim à estética e não ao estetismo. Mas como ter um “eu” se de manhã sentimo-nos como um pedreiro entre pedreiros, e os calos surgem em nossas mãos, e a língua gagueja em nossa boca, e o músculo é a única forma de habitar o corpo? Como ter um “eu” se durante a tarde somos a menina inocente que sonha o amor e chora assistindo a sessão da tarde? Como ter um “eu” se de noite somos a dona de casa que prepara o jantar para o marido que se diverte com a amante e, mais tarde, o adolescente que se corta sozinho no quarto ouvindo Joy Division? E mais, como estar no mundo sem Ser, feito um parasita que cola nos outros, vestindo a máscara do vizinho para fingir que é algo, que existe? Só na escrita mesmo, na palavra, na Poesia. Profissão de fé. Quem escreve quer criar um mundo onde possa Ser porque não se sente em casa no mundo. Aquele que escreve quer viver na palavra, ainda enquanto é, mas também depois que se for. Feito Lázaro.

terça-feira, 10 de março de 2015

Palavras e encantamentos

Nabokov dizia que, enquanto os homens escrevem, as mulheres fazem encantamentos. Creio que a literatura feminina começou de fato na idade média, com as bruxas. Enquanto os homens partiam para combater nas cruzadas em nome de um Deus-Pai, as mulheres ficavam sozinhas, livres pela primeira vez, falando à mata, à água, à Terra, louvando o corpo, o leite e o ardil. Como era solitária, tal fala era livre, e como tudo o que é livre é perigoso o homem - e à época o maior poder instituído: a Igreja - repreendeu tal fala. Havia nela algo de sensual, telúrico, úmido, corporal. Ser livre é troço muito perigoso. Como observou Michelet no seu La socière, com a feiticeira a mulher tomou a palavra e, com a palavra, palavra-larva-estrume-fluxo-sangue-fezes, afirmou diante da chama e da morte a rebeldia. Mesmo o macho, quando é rebelde, devem mulher, porque o homem é o rosto dominante, o império, a força bruta, o Estado, ao passo que a mulher é o rosto faceiro, o acampamento no deserto, a malícia, os nômades que a formação de um Estado produz. Mesmo quando critica a mulher, Nietzsche devem mulher e é o mais feminino e rebelde dos filósofos. Que é a Carmem que o filósofo opõe às heroínas wagnerianas? Carmem é o corpo, o ardil, o sexo, enquanto as mulheres wagnerianas são criações masculinas, seres etéreos dispostos ao sacrifício... sempre em busca de redenção. De Virgínia Woolf a Clarice Lispector, das irmãs Brontë a Hilda Hilst, de Márcia Barbieri a Katherine Mansfield, de Margueritte Duras à louca Estamira, todas olham pelo mesmo olho e miram a mesma mira. Aqui, a palavra encontra o líquido, o útero, o sangue, a menstruação. Aqui, a lógica é partida ao meio, o significante enlouquece, desprende-se para sempre do significado ao qual o macho-adulto-branco-rico o colou. Aqui, a palavra é o próprio Fora, o murmúrio, o incessante. Que quer dizer A obscena senhora D senão aquilo mesmo que diz? A mulher fala o imparafraseável. Há algo nesta fala que busca o sagrado, mas por meio do sexo e não da oração, ou melhor, o corpo ganha status de oração e a oração do corpo tem um nome próprio: DANÇA. A escrita-mulher é uma espécie de dança e flerta com a morte, sem medo, como se o fim fosse um orgasmo. O grande orgasmo, este sim, infinito, que todos passamos a vida perseguindo.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Para Meister Eckhart

A gente acredita na carne
no corpo
na certidão de nascimento
mas, no fundo
a gente é só sensibilidade
um empréstimo do tempo
que corre ao encontro do Tempo
onde tudo se dissolve
a forma é um empréstimo do Eterno
há sempre um rio imóvel ao lado do rio que corre
& todos temos na alma
um pouco de Eterno
Quando mergulhamos mais fundo, mestre
agora sei
não há identidade
Imposto de renda
IPTU
só existe o abismo
Ab-Grund da alma
onde o rio que passa encontra o rio imóvel
onde o tempo que passa encontra o Tempo Eterno
é aí, neste lugar ao qual a solidão conduz
que encontraremos deus:
redivivo
mistério do imóvel naquilo que transcorre
tecelão do ser
faísca que nos faz infinitos.
Em cada riso
em cada lágrima
em cada ruga
mora um vestígio do Absoluto
& tudo será como deve ser

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

GOD

Arte é um conceito por meio do qual medimos nossas dores
I´ll say it again
Arte é um conceito por meio do qual medimos nossas flores
Eu não acredito em Estilo
Eu não acredito em bon goût
Eu não acredito na indústria do livro
Eu não acredito na livraria cultura do conjunto nacional
Eu não acredito em Galerias de Arte
Eu não acredito em vanguarda
(em Arte não há progresso)
Eu não acredito em teorias estéticas
Eu não acredito em Proust
Eu não acredito em Joyce
Eu não acredito em António Lobo Antunes
Eu não acredito em Valéry
Eu não acredito em Lukács
Eu não acredito em Theodor W. Adorno
Eu não acredito em Roland Barthes
Eu não acredito em Greenberg
Eu não acredito em Harold Bloom
Eu não acredito nos irmãos Campos
Eu não acredito em Scarlett Marton
Eu não acredito em Muller-Lauter
Eu não acredito no colóquio Heidegger, no colóquio Nietzsche
Eu só acredito no Mistério
Na Vida e no Mistério
O sonho acabou
O que mais posso dizer?
O sonho acabou
Ontem

sábado, 17 de janeiro de 2015

As mãos de meu pai

Para Pedro, Léo e Marcos, meus irmãos
- Não pegue o que não for seu. Se o dono não permitir, sequer ponha a mão. Também não dê de graça aos outros o que conseguir com o suor do seu rosto. Se por motivo de doença ou alguma deficiência física, um homem não puder trabalhar e precisar comer, divida seu pão. Trabalhe duro, filho, porque a vida é trabalho. Não faça a si mesmo ou aos outros perguntas que ninguém pode responder. É perda de tempo. Ao invés disso, sue a camisa. Agora vá! – disse meu pai quando me deixou em frente ao armazém no meu primeiro dia de trabalho. Fiquei um tempo parado no meio da poeira - um saco de papel com um sanduíche que ele mesmo havia feito na mão -, enquanto o pai partia com a caminhonete para o seu próprio trabalho. Abri o saco e observei meu almoço. Pão, ovo frito, queijo e tomate. Eu tinha catorze anos e, alguns meses antes, a mãe tinha partido, sem deixar sequer um bilhete, com um cara três ou quatro anos mais velho que eu. De modo que éramos só nós dois e nem eu, nem meu pai gostávamos de cozinhar. Daí o sanduíche. Eu tinha chegado mais de duas horas antes de o armazém abrir, precisava aproveitar a carona do pai. Ainda não havia viva alma lá. Comi o sanduíche ali mesmo. Não queria que os outros vissem meu alimento. Meu pai exaltava o trabalho. Estudara pouco. Com seis anos já estava na roça, nas colheitas de café no sul de Minas. Trabalhara a vida toda e ainda não tinha conseguido comprar uma casa. Vivíamos endividados. Ele trabalhava com verduras e legumes. Adubava a terra, plantava, cuidava, regava, colhia, mas não tinha muito lucro. Um ano chovia demais e a alface perdia. Outro ano chovia de menos e a rúcula mal brotava. Outro ano dava bicho no tomate. O caminhão quebrava; quase sempre, o caminhão quebrava. O pai trabalhava das cinco da manhã às oito da noite, sete dias por semana, trezentos e sessenta e cinco dias por ano e mesmo assim não conseguimos comprar uma televisão em cores para assistir à copa do mundo de 1986. Quando brigavam, minha mãe vivia jogando isso na cara dele. Acho que ela queria ser atriz de televisão, era bonita, mas não conseguia ser sequer personagem de uma cidadezinha pequena como aquela nossa ali.  E aí, um dia, ela foi embora.
- Há muito que fazer, meu filho, você estuda? disse Seo Zé, dono do armazém.
- Estudo. Estou na oitava série, mas é de noite. Não vai atrapalhar o serviço.
- Um pouco vai, porque o mercado fica aberto das sete da manhã, às oito da noite. A que horas você vai precisar sair?
- Entro na escola às sete. Tenho que sair pelo menos umas seis, seis e meia.
- Tudo bem, dá pra gente se virar, mas vai ser descontado do seu salário, entendeu?
Balancei a cabeça indicando que tinha entendido.
- O trabalho é simples. Você está vendo estas prateleiras? Nenhuma delas pode ficar vazia. Assim que você perceber que um produto está acabando, vá ao depósito, pegue mais e reponha. Eu fico pouco aqui no mercado. Estou sempre saindo para resolver problemas, comprar mercadorias, pagar as contas. As chaves do depósito ficam com minha mulher, Tina, é ela quem fica no caixa. Quando chegar um freguês, interrompa o que estiver fazendo, não interessa o quê, e atenda. Domingo fechamos às duas da tarde. Alguma dúvida?
- Não.
- Então não fique aí parado. Nunca fique parado, quando não tiver o que fazer, pegue uma vassoura. Agora, tire todos os produtos, limpe todas as prateleiras e depois ponha de volta.
Peguei um pano, balde, água, sabão e comecei a trabalhar.
Dona Tina já atendia no caixa. Era uma mulher de uns cinquenta anos, conhecida onde morávamos por já ter feito algumas plásticas. Na nossa cidade, naquela época, fazer plástica e encontrar extraterrestres eram sinônimos. O povo dizia que ela tinha amantes, Dona Tina. Não era bonita, mesmo com as plásticas, mas, a maioria dos homens não se importa muito com isso. Hoje, depois dos filmes de Lars Von Trier e tudo, acredito que se tratava de uma ninfomaníaca, não sei.
Eu tinha limpado umas duas prateleiras quando Charlie chegou, meia-hora atrasado. Cabelo com topete e um rabinho, aquele rabinho bem típico dos anos oitenta, camiseta preta com estampa da Legião Urbana e mangas cortadas, calça justa, botas de caubói.
- Atrasado de novo, Seo Charles! - gritou meu patrão – já sabe que vai ser descontado no seu salário.
- Sei, tudo bem. É que precisei ir atrás da minha vó outra vez! Ela sumiu de madrugada. O senhor sabe, a velhinha é demente e só tem a mim, não posso deixá-la por aí. Ela pode se perder de vez, adoecer, ser atropelada se for para a rodovia.
- Isso não é problema meu.
- I know, big boss, but é que essa é a primeira primavera em muito tempo, no entanto...
- Que?
- Esquece.
Então Charlie me viu agachado ali, limpando. Fingiu um susto. Pulou para trás.
- Vish, que diabo é isso?
Sorri.
- Esse vai ser seu ajudante, você não vive reclamando que tem muito trabalho.
- Mas, big boss, esse moleque não aguenta nem um fardo de arroz. Faz o muque ae magrelo.
Ele mesmo dobrou meu braço.
- Tá vendo, o coitado tá só o pó. Não vai dar conta.
O pai disse que ele dá.
- Se eu não aguentar carregar de uma vez, divido ao meio e faço duas viagens – falei.
- E é marrudo, o trem, vai vendo. Cabeçudo do carai. Então vamos ver se tu é bom mesmo. Completa o refrão... Contra todos e contra ninguém, o vento quase sempre, nunca tanto diz, estou só esperando... Vai, completa, carai...
- O que vai acontecer.
- Ae, moleque, tá aprovado. Seo Zé, pode contratar, eu garanto, o menino é bom.
Todo o tempo Charlie tinha um papel enorme, enrolado e enfiado no bolso de trás da calça, um pôster, todo amarrotado. Sem pedir permissão a ninguém, foi até o fundo do armazém, onde ficava a padaria, pegou durex, subiu numa escada e pregou o pôster na parede.
- Que porra é essa, quem foi que deixou o senhor colar isso aí, por acaso é dono do mercado agora?
- Fica frio, big boss, olha bem pra moça! Não é linda? Vai atrair cliente e espantar mal olhado. Faz mal nenhum. Dá um look.
O patrão sorriu. Não podia com Charlie. A moça era um anjo.
Eu continuava limpando minha prateleira, observando a cena, sorrindo.
- Sabe quem é, moleque?
- Já vi num...
- Que? Fala alto, parece que tá engolindo as palavras, fala pra fora, lagartixa...
- Já vi num filme, mas não sei o nome...
- Pois guarde o nome e faça uma oração diante da imagem todos os dias, antes de começar a trabalhar: Molly Ringwald.

***

Encaixei no trabalho como a peça certa de um quebra-cabeça encaixa na outra. Tudo o que eu mais queria era ser um orgulho para o meu pai. A tristeza dele não soltava uma reclamação, um lamento. Só o silêncio ouvia suas dores. Só a quietude escutava seus gemidos.  Às vezes, durante a noite, ele tentava tocar um pouco de viola, lá fora, no quintal. Gostava de Tião Carreiro e Pardinho. Eu chegava da escola depois das onze e o pegava dormindo com a viola no colo. O cinzeiro cheio de pontas. Um homem bom, sem sorte, maltratado sem piedade pelo mundo.
- Vamos deitar lá dentro, pai. Amanhã vamos ter um longo dia de trabalho.
Como meu pai havia aconselhado, eu evitava pensar. Suava a camisa e isso era tudo. Atendia no açougue, na padaria, recolocava as mercadorias, limpava tudo. Feito uma formiga eu insistia com pesos desproporcionais para o meu corpo e minha idade. Até no caixa eu atendia quando Dona Tina dava perdidos com seus amantes. De noite, pegava no sono na sala de aula. Final do mês, entregava todo o dinheiro na mão do meu pai e esperava para ver quanto ele me daria. Com o que pegava, comprava discos e camisetas de rock. Charlie era quem dava as dicas. Sempre falava de Judas Priest e Manowar, mas acho que ele gostava mesmo era de Tears for Fears e Fleetwood Mac e Elvis, claro, cantando umas baladas. No fundo era um sentimental, como quase todos os homens. Num domingo, depois do trabalho, fomos até a casa dele com uma dúzia de cervejas.
Era um quarto e cozinha, longe da cidade, no meio do mato. Vivia só, com a avó que sofria de Alzheimer, Charlie.
- Você me pagou uma cerveja agora já é um homem! - disse, engrossando a voz e me atirando uma latinha.
- Que é isso? Por que você está falando assim?
- É de um livro, O velho e o mar, Ernest Hemingway. Você precisa ler.
- Nunca li um livro.
- Pois precisa começar a ler, ou vai passar a vida toda trabalhando de ajudante geral em armazéns e mercados?
- Que há de errado com o trabalho? Eu gosto.
- Nada de errado, mas um moleque que nem você deveria estar carregando livros e não fardos de açúcar, feijão, arroz, café.
- E por que você não estudou então?
- Não tive opção, tenho de cuidar da minha vó, mas consegui pelo menos terminar o colegial. Um dia, você vai ver, vou para a universidade.
A avó dele ficava o tempo todo resmungando. Ele a tratava com carinho, mas, às vezes, perdia a paciência, aumentava o som, gritava com ela.
Charlie não tinha namorada. Ficava com algumas garotas, mas a vida já era complicada demais sem relacionamentos sérios.
- E a Dona Tina? – perguntei.
- Que é que tem?
- Nunca deu em cima de você?
- Uma porção de vezes, mas eu me faço de desentendido. Tô a pampa, acho que Seo Zé não merece. No fundo ele até que é gente boa.
- Acho que ela também não é má. Mas é toda perdida, como minha mãe. Acho que todas elas cresceram querendo ser estrelas de cinema e no final deu tudo errado. Casaram-se com homens simples. Foram viver em cidades pequenas onde nada acontece, não aguentaram a barra. Deve ser difícil ser mulher.
- Podes crer. É difícil pra todo mundo. Se não fosse este outro mundo que inventamos dentro da nossa cabeça, onde somos músicos de rock, jogadores de futebol, automobilistas, estrelas de cinema, ninguém aguentaria a barra. Meio mundo já teria dado um tiro na cabeça.
- Outro dia, Charlie, você tinha ido almoçar, eu estava colocando refrigerante na geladeira e aí a Dona Tina me chamou. Pediu para eu colocar os cigarros naquela parte alta do caixa, onde ela não alcança. Então, quando eu tava lá fazendo o serviço, ela pegou no meu pau.
- E o que você fez?
- Nada. Deixei.
- E ela.
- Tirou meu pau pra fora e bateu uma punheta pra mim.
- Mau. Não deixe isso acontecer. Você vai acabar se metendo em encrencas.
- Foi ruim. Agora, toda vez que ela grita: Damião!!! - Você sabe que eu me chamo Daniel, mas ela sempre me chama de Damião, outro dia me chamou até de Cosme, é doida – eu sinto um frio na barriga.
- Sai fora. O velho pode parecer manso, mas tem um trezoitão.
E aí eu tomei mais umas duas cervejas e fiquei completamente bêbado. Chorei. Falei que sentia falta da minha mãe. Que minha vida era uma merda. Que meu pai era o melhor homem do mundo, mas ninguém estava nem aí pra ele. E mesmo Deus, que é bom, o cobria de má sorte. Dormi e quando acordei de novo, estava em casa, já era meu pai me chamando pra trabalhar.
Trabalhei mal o dia todo, vomitando como um porco. Prometi a mim mesmo que nunca mais beberia. Todo mundo promete.

***

Uma merda nunca é só uma merda, ela é a soma de pequenas merdinhas, de coliformes fecais, que acabam numa fossa, numa tragédia. O avião não explodiria se, naquele dia, o mecânico não tivesse esquecido de verificar um parafuso do trem de pouso, se naquela manhã o piloto não tivesse brigado com a esposa, se a pista não estivesse molhada por causa da garoa, se um pouco de óleo não tivesse derramado do avião que pousou anteriormente, se o controlador de voo não estivesse com diarreia. Só a exata combinação dessas pequenas merdas é acarretam a catástrofe, a explosão: A MORTE. Se qualquer dos fatores anteriores fosse alterado, teria sido um pouso normal. Talvez com alguma dificuldade, mas nada além disso. Bastaria que o controlador de voo não tivesse comido uma feijoada em lata na noite anterior e duas centenas de vida teriam sido poupadas. Deus e o Diabo estão o tempo todo jogando xadrez e nós somos as peças.
A avó de meu amigo Charlie tinha morrido naquela manhã. Ele apareceu no mercado. Conversou com o patrão. Discutiu um pouco. Veio andando irritado para o meu lado, no fundo do armazém.
- Minha vó morreu.
- Sinto muito, cara.
- Encontraram o corpo no acostamento da rodovia. Pelo estrago, provavelmente foi um caminhão. Acho que eu sempre pressenti que aconteceria desse jeito. Não tenho dinheiro para fazer o enterro. Não queria que ela fosse enterrada como indigente. Seo Zé não quer me arranjar a grana.
- Também não tenho, Charlie, se tivesse, tava na mão.
- Eu sei,  moleque, não tô te pedindo. É só que tudo é tão uma merda sempre. Porra, velho! Vidinha do caralho e ainda nos pedem para sermos gratos. Vai vendo. Vou nessa aí, tentar uma correria.
- Falou. Boa sorte.
Peguei um pano e fui limpar as prateleiras para esquecer, para ver se o incômodo diminuía. Trabalhei sem parar toda a manhã. Deixei o mercado um brinco.
- Tá inspirado hoje hein Damião!
- É Daniel!
- Que Daniel, Damião? Do que você tá falando?
- Esquece.
E aí chegou um dos amantes dela. A única parte do mercado que permanecia uma bagunça era o caixa. Ela ficava lá, mesmo quando não havia clientes, folheando alguma revista da TV e não me deixava arrumar. Era por volta de uma da tarde. Nesse horário, o mercado sempre ficava vazio. As pessoas compram coisas para o café da manhã, depois para o almoço e aí ninguém mais aparece até a hora do jantar, se o sol estiver forte então, até as moscas evitam voar.
- Damião, será que você pode dar uma olhadinha no mercado pra mim? Fica aqui no caixa, se chegar alguém você atende. Eu preciso ir lá em cima. Só uns quinze minutinhos.
- Tudo bem – falei e eles subiram para o andar de cima, onde ficava o estoque dos produtos de limpeza.
Para não ficar sem fazer nada, comecei a limpar o caixa...
Se o controlador de voo não estivesse com dor de barriga...
Se o piloto não tivesse brigado com a esposa...
Se o mecânico tivesse sido mais atento...
Se não tivesse chovido...
Quando estava arrumando as caixas de cigarro embaixo do caixa, uma caixinha parecida com um caixa de charutos, ou uma caixa de dominó, caiu e, com a queda, abriu-se.
Havia maços e mais maços de dinheiro. Só notas de alto valor, enroladas, presas por borrachinhas.
“Não pegue o que não for seu. Se o dono não permitir, sequer ponha a mão.”
Deus e o Diabo estão o tempo todo jogando xadrex. Nós somos as peças.
Se a avó de Charlie não tivesse morrido...
Se Seo Zé não tivesse se recusado a arranjar o dinheiro...
Se o patrão não tivesse ido ao banco...
Se o amante de Dona Tina não tivesse aparecido...
Se não tivesse inventado de limpar o caixa...
Eu não teria me tornado um ladrão.
Juntei o dinheiro, guardei na caixa, fui lá fora e escondi nos fundos da lixeira.
Dona Tina desceu, percebeu nada não.
O patrão chegou, nada.
Pedi para dar uma saída. Queria ir ao funeral, ver como estava o Charlie.
- Justo hoje que estou sem o outro. Empregado é uma raça folgada mesmo. Vá, vá logo. Suma da minha frente.
- O Senhor devia era fechar o comércio em consideração.
- É o que?
- Nada não.
Disfarcei até a lixeira. Peguei a caixa. Escondi embaixo da camisa e fui atrás do meu amigo.
Disse ao Charlie que tinha mentido, que tinha umas economias, sempre guardara dinheiro. Estava arrependido, agora.  Eu tinha sido um sacana escondendo minha grana, quando ele precisava dela para enterrar a avó.
- Mas é muito.
- Faça um funeral bonito.
- Ainda assim é muito.
- Então pegue o resto é vá embora daqui. Vá para Belo Horizonte, ou para São Paulo. Entre numa universidade. O dinheiro vai dar pra você ir se virando, enquanto não arranja trabalho.
Ele hesitou.
- Pelo amor de Deus, homem, pegue o dinheiro. Enterre sua vó e vá. Suma! Aqui nós estamos enterrados, porra! Foi você mesmo quem disse. Se quiser, se um dia puder, me devolva o dinheiro.
Ele me olhou de um jeito estranho.
Acho que imaginou a verdade. Ainda assim pegou o dinheiro.
- Um dia vou retribuir.
- Esquenta não.

***

Não voltei para trabalhar na parte da tarde. Dia seguinte, disse ao meu pai que estava doente e não conseguiria ir ao trabalho. Fiquei na cama.
Era por volta das onze da manhã quando abriram a porta do quarto e entraram meu patrão e meu pai.
- Não disse que ele estava doente. O menino não mente. Meu filho não faria uma coisa dessas. Só ficou em casa porque está mal. Ele já faltou alguma outra vez?
- Não.
- Então?
- Daniel, você pode vir comigo e seu pai até a sala, por favor?
Levantei e caminhamos até a sala. Sentamos os três. Eu e meu pai em um dos sofás, o patrão no outro. De frente.
- Por que você não voltou para trabalhar ontem?
- Passei mal.
- Sei... Sabia que o Charles também não foi trabalhar hoje? Não há ninguém na casa dele.
- Não.
- O negócio é o seguinte, ontem despareceu mais de um milhão de cruzeiros do mercado. Foram roubados.
- Você sabe de alguma coisa, Dan? Se souber, conte.
- Durante todo o caminho até aqui, na sua casa, seu pai afirmou que você jamais participaria de algo assim. Minha pergunta é clara, direta: você pegou ou sabe quem pegou este dinheiro?
Fiquei quieto. Abri a boca para responder, mas não havia voz lá. Era como se eu tivesse de fato perdido a habilidade de falar. Tentei duas ou três vezes, nada.
- Vou repetir, você pegou ou sabe quem pegou aquele dinheiro?
Baixei os olhos. Meu pai morreria desta vez, de dor, de desgosto.
- Fui eu.
O pai levantou. Não estava nervoso. Parecia que algo tinha se quebrado dentro dele. As pálpebras tremiam, os olhos ficaram marejados de água.
- Devolva, agora!
- Não posso, pai.
- Como não pode?
- Já foi, mas posso trabalhar sem receber até pagar tudo, até devolver todo o dinheiro.
- Não quero mais você no meu negócio.
- Não posso acreditar, meu próprio filho, meu filho, um ladrão, ladrão. Roubando o suor de outro homem!
- O Senhor passe no mercado amanhã para acertarmos isso. Não vou à polícia.
- Faço questão de restituir todo o dinheiro. Cada centavo.
- Amanhã acertamos isso.
Seo Zé abriu a porta e partiu.
Eu fiquei sentado no sofá de cabeça baixa.
O pai sentou no sofá da frente e chorou, acho que pela primeira vez na vida. Com as mãos cruzadas sobre o colo. Eram mãos duras aquelas, se o destino houvesse escrito algo ali, o trabalho havia apagado muito tempo atrás, não havia mais uma única linha para uma cigana qualquer ler. Aquelas eram mãos calejadas, como solas de sapato, mãos duras, grandes, de pedra, mãos de trabalhador. Olhei minhas próprias mãos e eram mãos de ladrão.
Oblivion.

Molly Ringwald

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

O plástico tomou conta dos afetos
Desesperos, desilusões, desamores
Embalados a vácuo
Para serem vendidos feito café
Não em prateleira
Mas em timeline
Já não sabemos o que fazer como nosso coração
E mesmo a morte do filho é pretexto pra citar Lacan
Para mostrar que nosso luto é nota dez
Porque o formulamos de acordo com os princípios psi
A gente vive a vida feito aluno cu-de-ferro
E o professor aplaude
Em matéria de filho morto o meu é nota dez
Já a sua dor não passa de um 7,0
Deveria ter lido - “L’insu que sait de l’une bévue s’aile à mourre”
Mas quem traz a vassoura para juntar as cinzas?
Quem quebra os espelhos e constrói um colar de mil pontas coloridas para consolar o corte?
Não há um só ancião sábio para sussurrar: coragem, menina, é a roda da vida.
Todos os velhos foram trancafiados, feito criminosos.
A dor virou espetáculo,
Não o silêncio
O luto virou o espetáculo,
Não o silêncio
Tudo é só espetáculo
Mas o silêncio é a casa da assimilação
O silêncio é a casa do aprendizado
O silêncio é a casa do sobrenatural
Palavras que perderam o tutano
Já não desejamos a fruta, mas a casca
E que importa se a banana for um verme?
Não impressiona as genitálias feridas expostas para venda nos açougues
Mas que drogaria venderia medicamento para o desamor?
A gente compra um pouco de sono e dorme
Mas uma hora há que se acordar
O futuro chegou
E embora nossos carros não voem
E não existam chips instalados em nosso couro cabeludo
Já não somos humanos
Tecer ficou no passado
A agulha foi quebrada
Em seu lugar, implantou-se o pau de selfie
E nenhum deus poderá nos salvar
Quando todos os asilos tramavam a revolução
Foram delatados e deletados, mas não esquecidos
Uma vez que o massacre serviu para vender jornal
Canto para desaparecer
Para fisgar com o anzol da palavra prateada o peixe do silêncio