quarta-feira, 16 de julho de 2014

Erosão

Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos
Mateus, 10:16

            Ela nunca havia me dito uma única palavra, até o dia em que o encanamento da cozinha entupiu.
            - Começa como uma manchinha preta entre os azulaijos. A princípio, não dámos importância. Botamos um pouco mais d’alvejante. Esfregamos o pano com mais vontade. Adianta pouco, ó João. No dia seguinte, a mancha está lá d’novo, um pouco mais graúda. Então surge um buraco ao redor do ralo que se espalha pela cozinha, engole a casa, a Pátria, nosso coração, todo nosso povo. A vida continua, mas, agora, nos desprendemos dela. Há um abismo entre nossa alma e o mundo lá fora.
            - Dona Carmelita, o buraco pode parecer grande, mas não é nada demais. A água foi infiltrando aos poucos no concreto, umedeceu a terra, por cima parecia que tava tudo bem, mas debaixo do piso tava tudo oco. Um buraco enorme, reconheço, mas, numa tarde de trabalho, resolvo o problema. É só trocar as manilhas próximas da caixa de esgoto que podem estar rachadas, comprar um saco de cimento, um pouco de pedra e areia e construir uma caixinha nova. Dia seguinte, tá tudo seco.
            - Pois bem, conversa com o Andrade – ela disse e subiu para a parte de cima do prédio, onde ficavam tanto o escritório, quanto o quartinho no qual eu dormia.
            Eu saí de dentro do buraco, onde tinha entrado para avaliar o tamanho do estrago e fui procurar meu patrão. Era de manhã, o comércio estava fechado. Seu Andrade, marido de Dona Carmelita, um português da Ilha da Madeira, estava na parte da frente da pizzaria, conferindo o estoque e anotando os pedidos que precisavam ser feitos.
            - Como é João? Podes consertar?
            - Fácil, fácil, mas preciso comprar algum material.
            - Podes pegar no depósito, quando abrir, diga ao Lima que depois passo lá e acerto, ora pois!
            Comprei o material, consertei o encanamento e esta ficou sendo a primeira vez que Dona Carmelita me dirigiu a palavra. Dona Carmelita tinha uns quarenta e cinco anos, era loira, magra, os olhos azuis. Os bicos de seus peitos faltavam furar a blusa. Pareciam dois beija-flores enfurecidos, dois beija-flores endemoniados. Ela povoava todos os meus sonhos eróticos e minhas masturbações. Eu poderia plantar uma roseira no rabo dela, fazer um colar de contas com seus pentelhos amarelos, esculpir um Buda sorrindo de pernas cruzadas no bico dos seus seios, mas havia Seu Andrade e meu dono era a solidão.
A pizzaria ficava na Aclimação, numa travessa da Lins de Vasconcelos. Outro dia passei por lá. Incrível. Coincidências dessas que acontecem e indicam que dois raios podem sim cair no mesmo lugar. O rapaz entrou no meu táxi e deu o mesmo endereço do lugar onde eu tinha vivido e trabalhado havia mais de vinte anos. Quase abri mão da viagem, mas no final acabei aceitando. As contas chegam todo mês enfurecidas na caixinha do correio – nunca uma notícia boa – e não podemos nos dar ao luxo de preservar o coração. O prédio tinha sido reformado. Era completamente outro. Abrigava um escritório de advocacia. Havia agora carpete verde-escuro no chão e portas de vidro. Ali, eu poderia ter comido dona Carmelita, Bruna Lombardi da Aclimação, se soubesse que se tratava de um adeus, de uma despedida. Ela era toda ternura e delicadeza no trato com os outros, com qualquer um. Mal sabia que todos nós, hienas, lobos ou chacais, tínhamos ânsia era de devorá-la. Seu Andrade, talvez o mais faminto de todos nós, desconfiava e seu ciúme era fera a espreitar a mulher a cada passo, a cada riso. Evocar Andrade é preciso.
O português era baixo, menos de um metro e setenta. Atarracado, forte, meio calvo, geralmente irritadiço, Seu Andrade era um putanheiro. Em dia de pagamento, quando o movimento na pizzaria era maior, fechávamos o estabelecimento mais tarde e depois íamos todos juntos, patrões e funcionários, para a zona. Seu Andrade pagava. Era sem vergonha, logo ciumento.
Eu poderia ter comido minha patroa, se soubesse que se tratava de uma despedida, de um adeus. Um dia, eu estava no meu quartinho, na parte de cima da pizzaria. Era de manhã. Sempre sofri de insônia. Hoje, na minha profissão, isso até que é bom. Para corrida noturna, a taxa é sempre dobrada. Naquela época, eu me dava mal. Passava a noite acordado e, dia seguinte, trabalhava o dia inteiro com sono, meio mole, tendo vertigens, alucinações, vendo por toda parte imagens estranhas, demoníacas. Na manhã em que Dona Carmelita entrou no meu quartinho, eu tinha passado a noite toda acordado, pintando. Eu pintava cavalos incendiados correndo pela campina, esculpia, com o bisturi, bichos híbridos na massa da pizza, pássaros com cabeça de serpente, peixes com cabeça de hipopótamo, e depois colocava pra assar. Dormir era difícil. De dia eu trabalhava, mas, uma hora da manhã, quando a pizzaria fechava, os demônios saíam do porão. Lembranças de ofensas sofridas há muito tempo, na minha cidade do interior, lembranças de pessoas que eu tinha magoado e para quem eu nunca mais poderia pedir perdão, lembranças de amigos que tinham sumido assim, pra nunca mais e de Ana, a menina com quem eu tocava violão junto à fogueirinha de papel. Diabo, eu sempre senti a passagem do tempo com dor. O prédio onde funcionava a pizzaria, hoje é um escritório de advocacia. Onde foi parar o cheiro bom de azeite, orégano e queijo assando? Sempre vivi atormentado, entre a foice e o ponto de interrogação. É por isto que hoje dirijo a noite inteira. Mas, naquela manhã, eu estava suado, sem camisa, os cabelos molhados, pintando meus cavalos em chamas, quando Dona Carmelita entrou. Usava óculos escuros, havia uma ferida perto da boca, seus braços estavam roxos. Ela tinha um livro nas mãos. Olhou meus próprios poucos livros, acomodados nas caixas de madeira que eu havia pintado e feito de estante.
- Então, tu também gostas de ler, ó João?
Balancei a cabeça afirmativamente.
- E também pintas? - prosseguiu, observando meus cavalos pelas paredes.
Outra vez balancei a cabeça.
- Então és um artista!
Fiquei quieto. Sou um camarada cheio furor, certa vez abri a cabeça de um cara com um taco de sinuca no Bilhar do Papai, ali na Rua Aurora, só porque ele me secou numa bola, mas, quando querem saber de mim assim, fico sem saber o que fazer, quero sair correndo, pular pela janela mais próxima.
Ela me pegou pela mão e me levou até o escritório. Abriu o livro em cima da mesa e então disse:
- O título deste é Fanatismo, como muitos outros, foi escrito para o irmão. Ela era apaixonada pelo irmão – e então, Dona Carmelita leu:
Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

Tudo no mundo é frágil, tudo passa...
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
"Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!..."
- Não é lindo? Ela amava o próprio irmão. Mais que amor, sentia fanatismo. Bem que eu poderia amar alguém deste jeito.
Eu emudeci, acho que fiquei com a cara parecida com a do Jim Carey, no filme Debi & Loide, quando passa um ônibus cheio de líderes de torcida pedindo informação e ele e seu amigo Loide dão a informação e ficam pensando que, caso fossem caras de sorte, poderiam muito bem entrar no ônibus e guiar as moças até seu destino.
- Tu gostaste do poema?
- É a coisa mais linda que já ouvi. Como é o nome?
- Fanatismo, já te disse.
- Não, o nome de quem escreveu.
- Florbela Espanca.
- Até o nome é bonito, profundo.
Ela tirou os óculos escuros. Seus dois olhos estavam roxos. Eu sabia que Seu Andrade era ciumento, que às vezes dava uns catiripapos na mulher, mas, daquela vez,  ele tinha ultrapassado todos os limites. Ela encostou seu rosto no meu. Leu outro poema, mas não pude entender mais nada. Apertou meu mamilo e o pau incendiou na mesma hora, com chamas ainda maiores e mais vermelhas que aquelas que devoravam os cavalos que eu pintava. Foi aí que eu abri a porra da boca:
- Dona Carmelita, – disse – Seu Andrade pode subir a qualquer minuto por aquela escada ali – e apontei para a escada onde, depois do primeiro degrau, tudo era consumido pela escuridão. Dona Carmelita estancou. Colocou os óculos escuros outra vez. Fechou o livro e mergulhou na escuridão da escada sem dizer mais nada.
Depois daquele dia, ela nunca mais apareceu na pizzaria. Tempos depois, numa noite de orgia, Seu Andrade nos falou baixinho, chorando, que ele e a mulher haviam se separado. Ela tinha voltado para Portugal, para sempre, ele disse. E ainda repetiu duas ou três vezes: para sempre!
A pizzaria ainda funcionou por uns tempos, mas Seu Andrade começou a beber demais e, em menos de um ano, se desfez do estabelecimento. Eu persisti o quanto pude com os novos donos, sempre gostei de trabalhar, mas parecia que tínhamos profanado alguma coisa. Os clientes diminuíram, os ratos aumentaram, uma ratazana, inclusive, passou em cima do pé de um fiscal enquanto ele fazia a inspeção no recinto, gerando um multa de proporções astronômicas. As baratas proliferavam nos vãos entre as chapas de fórmica. Os novos donos reformaram o estabelecimento, mas de nada adiantou, as baratas não diminuíram, muito pelo contrário. Pouco antes de a pizzaria fechar as portas, prestei vestibular numa universidade estadual e passei. Voltei para o interior com o intuito de estudar, financiado por uma bolsa do governo. Tempos depois, já formado, consegui juntar dinheiro suficiente para comprar um táxi. Outro dia, um passageiro entrou no meu carro e me deu o endereço do lugar onde antes funcionava a pizzaria. Hoje lá funciona um escritório de advocacia com portas de vidro e carpete verde-escuro, mas tudo o que vi foi um buraco, um buraco enorme, uma cratera, que engolia mais da metade da Aclimação, mesmo o parque havia desaparecido, mesmo o cemitério israelita havia sido engolido com suas lápides e seus mortos. E dona Carmelita, se ainda estiver viva lá no seu Portugal, tem hoje mais de sessenta e cinco anos. E eu tenho em casa as obras completas de Florbela Espanca. Jamais pude olvidar o nome, toda manhã, quando chego do trabalho, antes de dormir, leio um poema.