segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Kerouac e as relações entre corpo e pensamento

            O romance On the road, principal obra do escritor Jack Kerouac, foi lançado em 1957 e em poucos meses se tornou um fenômeno de vendas, dando início a um novo segmento social, a cultura da juventude. Antes de 1957, ano de lançamento de On the Road, praticamente não havia cultura jovem. Ou se era adulto, ou se era criança e, mesmo a criança, era enxergada como um adulto pequeno. Depois de 1957–58, anos de James Dean, do primeiro disco de Elvis Presley e do livro de Kerouac, o mundo observou atônito a explosão do Rock n´ Roll, da contracultura, o surgimento de Bob Dylan, Beatles e Rolling Stones, a exibição em tela grande de Easy rider, enfim a formação de um novo segmento social. A literatura é um caso de relógio que adianta. Não é nossa intenção neste trabalho demonstrar de que maneira On the Road influenciou a formação da cultura jovem. Não afirmamos aqui que foi o livro de Kerouac sozinho que desencadeou todo o processo. Não. Mas, sem dúvida, muitos jovens no final dos anos 50 e 60 leram On the Road, como dissemos anteriormente, o livro se tornou um best seller.
Grosso modo, On the road conta a história de Sal Paradise e Dean Moriarty, dois amigos que procuram alguma coisa na estrada e não encontram. Não se sabe exatamente o que os dois procuram. Pode ser o pai de Dean, a face velada de Deus, como Kerouac costumava dizer em suas entrevistas, ou simplesmente o “AQUILO” que Dean repete o tempo inteiro. O fato é que não encontram. Não há transcendência na estrada. Cada aventura, cada festa, cada carona, cada viagem, só valem por aquilo que são. Velocidade é a palavra chave. A viagem é mais importante que o destino. O narrador está o tempo todo em movimento, nunca para para se entregar a uma reflexão imóvel, trata–se de uma escrita que penetra no leitor por meio dos afetos e não apenas pelo intelecto. Logo nas primeiras páginas, Sal Paradise, o narrador, anuncia:

Além disso, todos os meus amigos nova-iorquinos estavam numa viagem baixo-astral, naquele pesadelo negativista de combater o sistema, citando suas tediosas razões literárias, psicanalíticas ou políticas, enquanto Dean simplesmente mergulhava nessa mesma sociedade. Faminto de pão e amor; e ele estava pouco se lixando pra tudo isso, “desde que eu descole uma gata mansa e linda com aquele lugar delicioso entre as pernas, garoto” ou “contanto que eu arranje o que comer , meu filho, sacou? Estou com fome, morrendo de fome, vamos comer, agora, já!” – e lá íamos nós comer, no primeiro lugar que surgisse, como diz o Eclesiastes: “Eis sua porção sob o sol”. (KEROUAC, 2004, p. 27-28)

          Como podemos notar no fragmento, o herói do romance esbanja vivacidade, alegria, juventude. Enquanto os amigos nova-iorquinos do narrador estavam numa viagem baixo-astral, num pesadelo negativista de combater o sistema citando razões literárias, psicanalíticas ou políticas, Dean Moriarty simplesmente vivia, faminto, e a fome é uma função fisiológica, de pão e de amor. Querendo apenas conseguir uma garota mansa e linda com aquele lugar delicioso entre as pernas. Contra o pensamento dito “espiritual” Dean Moriarty opõe o sexo. Contra o pessimismo e o baixo-astral, a fome, fome de alimento e de vida. Também para Nietzsche a alegria tem algo de subversivo. Todas as revoluções triunfantes, principalmente em seus primórdios, são festivas.

            Outro ponto importante, que não podemos deixar à margem quando tratamos das relações entre o corpo e a literatura de Jack Kerouac, é o envolvimento do autor com a música, mais precisamente com o jazz. Embora em On the road, Kerouac ainda não se utilize de sua prosa espontânea - que consistia em estender a frase o máximo possível, improvisando como um músico de jazz -, é fato que o jazz influenciou muito durante a escrita do livro. Além disso, várias cenas ocorrem em boates, aonde as personagens iam para se perder ao som do ritmo de origem negra. Sobre o jazz e o corpo é preciso dizer mais algumas coisas. Segundo o professor Massimo Canevacci, na introdução ao livro A cultura da juventude de 1950-1970, do professor da ECA-USP Waldenyr Caldas, toda a revolução juvenil que viria a desaguar na contracultura nos anos 1960-1970 teve início nos anos 1950, quando os jovens se rebelaram contra a moral vigente e buscaram novas formas de amor, longe da estrutura patriarcal-familiar da sociedade da época. Tal rebelião tem como princípio primeiro a tomada do corpo por meio da música, de uma música que misturava nos Estados Unidos da América, país que neste momento emergia como a maior potência mundial, negros e brancos, homens e mulheres. A música era o jazz. De fato, “parece que a matriz da palavra jazz deriva de “ass”, significando os movimentos ondulatórios e rítmicos de base de coluna que aquela música favorecia e que eram anulados e controlados pela música culta”. (CALDAS, p.13) - E viva Jorge Ben também!
            De fato, parece que Kerouac faz uso do jazz para se voltar diretamente contra a moral vigente, transformando o corpo, a música, a sensualidade, numa potência revolucionária.
           
         

Bibliografia

CALDAS, Waldenyr. A cultura da juventude de 1950 a 1970.  São Paulo: Editora Musa, 2008.

KEROUAC, Jack. On the road. Trad. Eduardo Bueno. Porto Alegre: L&PM Editora, 2004a.

KEROUAC, Jack. On the road. London: Peguin Books, 2004b.


KEROUAC, Jack. On the road, o manuscrito original. Trad. Eduardo Bueno e Lúcia Brito. Porto Alegre: L&PM Editora, 2011.


WILLER, Claudio. Geração Beat. Porto Alegre: LP&M, 2009.






                

Um comentário:

Anônimo disse...

Saudações meu amigo,

Magnífico o texto, espero poder ter a oportunidade de acompanha-lo e lê-lo por muito tempo ainda nesta vida. É sempre um prazer viajar dentro das suas histórias e poder se sentir livre , flutuando nas suas palavras :D

Passando também para desejar um feliz natal e um ano novo cheio de prosperidades, saúde, novas ideias, novas histórias e novos enredos, porque será sempre um prazer estar contigo e acompanhá-lo de perto ou de longe, estarei sempre por aqui para prestigiá-lo.

Beijo e UM ano novo de muitas realizações e sonhos concretizados.