segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Nietzsche, Kerouac e as relações entre corpo e pensamento

Nietzsche, Platão: alma-corpo, alma ou corpo

“ – Críton, nós somos devedores de um galo a Asclépio. Pois bem, paga a minha dívida, não o esqueças.” (PLATÃO, 2002, p.107)
            No diálogo Fédon, de Platão, consta que as palavras acima foram as últimas proferidas por Sócrates antes de morrer. O sentido da frase é claro e concorda com todo o diálogo: Sócrates sente que sua alma, finalmente, está curada do mal que representa a união com o corpo. A gratidão de Sócrates é, pois, destinada ao deus que restabeleceu sua saúde: Asclépio.
Para Sócrates, a morte iminente não foi vista como algo a se temer; pelo contrário, segundo o filósofo, não existiria coisa mais absurda que o medo da morte por parte de um pensador, já que a todo instante o corpo leva o filósofo a enganar-se, conduzindo-o contra a maré da verdade. Segundo Sócrates, no diálogo, todos os nossos sentidos não são partes constitutivas da alma, mas do corpo e, como tal, também nos ludibriam, não nos deixam encontrar a verdade. Apenas o desprendimento do corpo poderia levar o filósofo ao verdadeiro conhecimento, uma vez que assim ele, filósofo, não mais estaria atrelado às paixões terrenas, não haveria mais fome, cansaço, sede ou desejo sexual. De acordo com essa visão, que começa com Platão, mas que perpassa todo o cristianismo e mesmo a visão positivista do século XVIII, e que, séculos mais tarde Gilles Deleuze chamará de imagem dogmática do pensamento, não há maior inimigo do filósofo que o corpo e seus sentidos. Nas palavras de Sócrates:

- E, agora, no que diz respeito propriamente à aquisição do conhecimento, o corpo, dize-me, é ou não um entrave, se nas nossas indagações pedirmos o seu concurso? Penso, por exemplo, nisto: os olhos e os ouvidos fornecem alguma verdade ao homem ou, então, como mesmo os poetas nos repetem continuamente, nós não ouvimos nada, não vemos nada exatamente? Portanto, se entre os sentidos do corpo, os olhos e os ouvidos são inexatos e incertos, não se poderia esperar coisa melhor dos outros, todos inferiores, penso àqueles.” (PLATÃO, 2002, p. 28)


            Sob tal perspectiva, o filósofo só pode, pois, alegrar-se com a vinda da morte. Uma vida dedicada ao exercício da contemplação filosófica verá a morte como aliada, uma vez que ela significaria a libertação da alma do cárcere do corpo.  Repete-se assim a afirmação: somos devedores de um galo a Asclépio!
            Contra a sentença derradeira de Sócrates, poderíamos opor uma outra, proferida por Zaratustra no capítulo Dos desprezadores do corpo, de Assim falou Zaratustra. Da mesma maneira que Platão coloca a sentença contra o corpo na boca de sua principal personagem conceitual: Sócrates; também Nietzsche coloca palavras que poderiam resumir sua filosofia, no que se refere à questão do corpo, na boca de sua principal personagem conceitual: Zaratustra. Diz o sábio persa:
            “Eu sou todo corpo e nada além disso; e alma é somente uma palavra para alguma coisa no corpo.” (NIETZSCHE, 2003, p.60)
            Para Nietzsche, não há divisão entre corpo e alma. Pensamos com o corpo, meio pelo qual estamos abertos ao mundo. A alma é a designação de alguma coisa no corpo. De maneira poética, Fernando Pessoa, por meio do heterônimo Alberto Caeiro, poderia assim descrever tal fórmula nietzschiana:

Sou um guardador de rebanhos,
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.


                O que Nietzsche nos propõe não é simplesmente pensar com o corpo. A ideia é mais radical. Para o filósofo alemão, é impossível pensar fora do corpo, é o corpo quem pensa. A alma é o nome de algo no corpo. Mas, afinal, o que é um corpo?
          Resposta: um corpo é uma relação de forças.
         Segundo Deleuze (1976), em se tratando da questão do corpo, Espinosa foi o primeiro a colocar a questão essencial, nos seguintes termos: “Ninguém, na verdade, até ao presente, determinou o que pode um corpo, isto é, a experiência não ensinou a ninguém, até ao presente, o que considerado apenas como corporal pelas leis da natureza, o corpo pode fazer e o que não pode fazer” (Ética, livro III, proposição II, escólio). Pelas leis da natureza, significa a recusa de pensar o corpo a partir de qualquer categoria ou noção transcendental e a necessidade de pensá-lo no jogo de suas relações, de seus encontros. Não tomar o corpo como uma substância isolada, atemporal, mas fazê-lo percorrer e ser percorrido pelas forças que entram em contato com ele compondo-o e decompondo-o. Se Espinosa foi o primeiro a colocar a questão, Nietzsche foi quem a incendiou, quem a encheu de paixão. Para o alemão, o caminho do excesso, sem lenço e sem documento, levaria fatalmente ao palácio da sabedoria.
       Gilles Deleuze, em seu Nietzsche e a filosofia, conclama-nos a tomar a consciência pelo que ela é: um sintoma. Sintoma de uma transformação mais profunda e da atividade de forças que não são de ordem espiritual. Deleuze, emprestando a voz de Nietzsche, coloca a pergunta: que é a consciência? Assim como Freud, Nietzsche pensava a consciência como a região do eu afetada pelo mundo exterior. No entanto, a consciência é menos definida em relação à exterioridade do que em relação à superioridade, em termos de valores. Tal diferença é essencial numa concepção geral do consciente e do inconsciente:

Em Nietzsche, a consciência é sempre consciência de um inferior em relação ao superior ao qual ele se subordina ou incorpora. A consciência nunca é consciência de si, mas consciência de um eu em relação ao si que não é consciente. Não é consciência do senhor, mas consciência do escravo em relação a um senhor que não tem de ser consciente. Habitualmente a consciência só aparece quando um todo quer subordinar-se a um todo superior... A consciência nasce em relação a um ser do qual nós podemos ser a função. Este é o servilismo da consciência, ela atesta apenas a formação de um corpo superior. (DELEUZE, 1976, p.21)


                A consciência, tanto para Deleuze, quanto para Nietzsche é relacionada com a moral do escravo, ao passo que a inconsciência é ligada à moral do senhor. É, pois, por isto que não podemos considerar Nietzsche um filósofo irracionalista. Ele não nega a razão, mas a coloca como uma força entre outras. Junto a Freud, Nietzsche e Deleuze também questionam o poder central da razão e afirmam a potência do inconsciente como instância criadora. Entretanto, enquanto para o pai da psicanálise o inconsciente é teatro, para Deleuze é usina, fábrica, vulcão. Voltemos à Nietzsche.
Munch
                À pergunta: o que é um corpo? Não podemos responder dizendo que o corpo é um campo de forças, um meio provedor disputado por uma multiplicidade de forças. O fato é que não há meio, nem campo de forças ou de batalha. Não existe quantidade de realidade. Toda realidade já é quantidade de força. O Cosmos nada mais é do que uma relação de tensão entre as forças. Toda força está em relação com outras, quer para obedecer, quer para comandar. O que define um corpo é a relação entre forças dominantes e dominadas. Quaisquer duas forças desiguais que entrem em relação já constituem um corpo. O corpo é um fenômeno múltiplo, composto por uma multiplicidade de forças irredutíveis, sua unidade é, assim, a de um fenômeno múltiplo. É, pois, por isto que não se pode pensar fora do corpo, o pensamento nasce a partir das relações entre as forças. Não há um além das forças, não existe uma instância que fique imóvel, observando as relações, doando o pensamento àquele que quer pensar e que tem boas intenções e um bom método. Em outras palavras, não existe transcendência. O pensamento é fruto do encontro de uma força com outra, de um corpo com outro.
            Voltemos ao Fédon, de Platão. Em meio às inúmeras críticas feitas ao corpo, a maior delas é que ele, o corpo, nos afasta da verdade, é um empecilho para que o filósofo alcance a verdade. Vejamos um exemplo:

Mas o pior de tudo é que quando o corpo nos permite, afinal, um pouco de tranquilidade, para nos voltarmos para um objeto qualquer de reflexão, as nossas indagações são novamente postas em desordem por este intruso, que nos atordoa, nos perturba e nos desconcerta, a ponto de nos deixar incapazes de distinguir a verdade. Ao contrário, já tivemos realmente a prova de que, se quisermos jamais saber de alguma coisa em sua pureza, teremos que nos separar do corpo e olhar com a alma em si mesma as coisas em si mesmas. (PLATÃO, 2002, p. 30)
               
            Nietzsche, criticará não somente o desprezo do corpo, ou a visão do corpo como um entrave para aquisição da verdade, também o conceito de verdade é alvo do martelo. No Fédon, Sócrates coloca o corpo como empecilho para chegar à verdade, mas Nietzsche constrói uma crítica contundente também ao conceito de verdade. Tal crítica tem como contrapartida a valorização do corpo e uma apologia da Arte, enquanto lugar no qual o que importa é o sentido e o valor em vez de a verdade.  
              O pensador alemão não enxerga a filosofia relacionada a conceitos como verdade ou moral. Em vez disso, aproxima a filosofia da arte. Mais importante que a verdade é a construção de sentido, e a arte se preocupa só com a construção de sentidos. Mais importante que a moral (e neste caso o que já vale por quase dois mil anos é a moral do escravo) é a beleza. Numa guinada estética, o gosto se torna mais importante que a inclinação à verdade. Vejamos de que maneira o corpo como potência criadora, já no século XX, surge na obra de um romancista norte-americano.

Kerouac e o corpo, ou o devir artista

            O romance On the road, principal obra do escritor Jack Kerouac, foi lançado em 1957 e em poucos meses se tornou um fenômeno de vendas, dando início a um novo segmento social, a cultura da juventude. Antes de 1957, ano de lançamento de On the Road, praticamente não havia cultura jovem. Ou se era adulto, ou se era criança e, mesmo a criança, era enxergada como um adulto pequeno. Depois de 1957–58, anos de James Dean, do primeiro disco de Elvis Presley e do livro de Kerouac, o mundo observou atônito a explosão do Rock n´ Roll, da contracultura, o surgimento de Bob Dylan, Beatles e Rolling Stones, a exibição em tela grande de Easy rider, enfim a formação de um novo segmento social. A literatura é um caso de relógio que adianta. Não é nossa intenção neste trabalho demonstrar de que maneira On the Road influenciou a formação da cultura jovem. Não afirmamos aqui que foi o livro de Kerouac sozinho que desencadeou todo o processo. Não. Mas, sem dúvida, muitos jovens no final dos anos 50 e 60 leram On the Road, como dissemos anteriormente, o livro se tornou um best seller.
Grosso modo, On the road conta a história de Sal Paradise e Dean Moriarty, dois amigos que procuram alguma coisa na estrada e não encontram. Não se sabe exatamente o que os dois procuram. Pode ser o pai de Dean, a face velada de Deus, como Kerouac costumava dizer em suas entrevistas, ou simplesmente o “AQUILO” que Dean repete o tempo inteiro. O fato é que não encontram. Não há transcendência na estrada. Cada aventura, cada festa, cada carona, cada viagem, só valem por aquilo que são. Velocidade é a palavra chave. A viagem é mais importante que o destino. O narrador está o tempo todo em movimento, nunca para para se entregar a uma reflexão imóvel, trata–se de uma escrita que penetra no leitor por meio dos afetos e não apenas pelo intelecto. Logo nas primeiras páginas, Sal Paradise, o narrador, anuncia:

Além disso, todos os meus amigos nova-iorquinos estavam numa viagem baixo-astral, naquele pesadelo negativista de combater o sistema, citando suas tediosas razões literárias, psicanalíticas ou políticas, enquanto Dean simplesmente mergulhava nessa mesma sociedade. Faminto de pão e amor; e ele estava pouco se lixando pra tudo isso, “desde que eu descole uma gata mansa e linda com aquele lugar delicioso entre as pernas, garoto” ou “contanto que eu arranje o que comer , meu filho, sacou? Estou com fome, morrendo de fome, vamos comer, agora, já!” – e lá íamos nós comer, no primeiro lugar que surgisse, como diz o Eclesiastes: “Eis sua porção sob o sol”. (KEROUAC, 2004, p. 27-28)

          Como podemos notar no fragmento, o herói do romance esbanja vivacidade, alegria, juventude. Enquanto os amigos nova-iorquinos do narrador estavam numa viagem baixo-astral, num pesadelo negativista de combater o sistema citando razões literárias, psicanalíticas ou políticas, Dean Moriarty simplesmente vivia, faminto, e a fome é uma função fisiológica, de pão e de amor. Querendo apenas conseguir uma garota mansa e linda com aquele lugar delicioso entre as pernas. Contra o pensamento dito “espiritual” Dean Moriarty opõe o sexo. Contra o pessimismo e o baixo-astral, a fome, fome de alimento e de vida. Também para Nietzsche a alegria tem algo de subversivo. Todas as revoluções triunfantes, principalmente em seus primórdios, são festivas.

            Outro ponto importante, que não podemos deixar à margem quando tratamos das relações entre o corpo e a literatura de Jack Kerouac, é o envolvimento do autor com a música, mais precisamente com o jazz. Embora em On the road, Kerouac ainda não se utilize de sua prosa espontânea - que consistia em estender a frase o máximo possível, improvisando como um músico de jazz -, é fato que o jazz influenciou muito durante a escrita do livro. Além disso, várias cenas ocorrem em boates, aonde as personagens iam para se perder ao som do ritmo de origem negra. Sobre o jazz e o corpo é preciso dizer mais algumas coisas. Segundo o professor Massimo Canevacci, na introdução ao livro A cultura da juventude de 1950-1970, do professor da ECA-USP Waldenyr Caldas, toda a revolução juvenil que viria a desaguar na contracultura nos anos 1960-1970 teve início nos anos 1950, quando os jovens se rebelaram contra a moral vigente e buscaram novas formas de amor, longe da estrutura patriarcal-familiar da sociedade da época. Tal rebelião tem como princípio primeiro a tomada do corpo por meio da música, de uma música que misturava nos Estados Unidos da América, país que neste momento emergia como a maior potência mundial, negros e brancos, homens e mulheres. A música era o jazz. De fato, “parece que a matriz da palavra jazz deriva de “ass”, significando os movimentos ondulatórios e rítmicos de base de coluna que aquela música favorecia e que eram anulados e controlados pela música culta”. (CALDAS, p.13) - E viva Jorge Ben também!
            De fato, parece que Kerouac faz uso do jazz para se voltar diretamente contra a moral vigente, transformando o corpo, a música, a sensualidade, numa potência revolucionária.
           
            Considerações finais

                Vimos que para a imagem dogmática, usando um termo deleuziano, o corpo é um empecilho. Para Nietzsche, o corpo é o único modo pelo qual é possível pensar. Não há maneira de se pensar fora do corpo. A crítica da verdade tem como contrapartida uma apologia da arte. A arte é criação, não se importa com o Bem ou a verdade. O foco na Arte nos levou até Jack Kerouac, um autor que reivindicou o corpo como potência revolucionária e viu em sua aproximação com o jazz e com os músicos negros um meio de questionar a moral vigente. Acreditamos que Kerouac estava certo, desde Charlie Parker, passando por Elvis Presley, o punk, e, mesmo Kurt Cobain, a música tem andado de mãos dadas com a criação dos novos valores, principalmente, valores juvenis.


Bibliografia

CALDAS, Waldenyr. A cultura da juventude de 1950 a 1970.  São Paulo: Editora Musa, 2008.

DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição. Trad. Luiz Orlandi e Roberto Machado. São Paulo: Graal, 1988.

DELEUZE, Gilles. Nietzsche e a filosofia, Trad. Ruth Joffily e Edmundo Fernandes Dias. Rio de Janeiro: Editora Rio, 1976.

________________. Crítica e Clínica. Trad. Peter Pál Pelbart. São Paulo: Editora 34, 1997.

_______________. Conversações. Trad. Peter Pál Pelbart. São Paulo: Editora 34, 1992.
DELEUZE, Gilles e PARNET, Claire. Diálogos. Trad. Eloísa Araújo Ribeiro. São Paulo: Escuta, 1998.

DELEUZE, Gilles e GUATARRI, Félix. Kafka: por uma literatura menor. Cíntia Vieira da Silva: Editora Autêntica, 2014.

_______________. O que é filosofia? Trad. Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Muñoz. São Paulo: Editora 34, 2010.

KEROUAC, Jack. On the road. Trad. Eduardo Bueno. Porto Alegre: L&PM Editora, 2004a.

KEROUAC, Jack. On the road. London: Peguin Books, 2004b.


KEROUAC, Jack. On the road, o manuscrito original. Trad. Eduardo Bueno e Lúcia Brito. Porto Alegre: L&PM Editora, 2011.

NIETZSCHE, Friedrich W. Assim falou Zaratustra. Trad. Mário Silva. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2003.

NIETZSCHE, Friedrich W. O Caso Wagner. Trad. Antonio Carlos Braga e Ciro Mioranza. São Paulo. Editora Escala, 2007.


NIETZSCHE, Friedrich W. Crepúsculo dos ídolos. Trad. Jaqueline Valpassos. São Paulo: Golden Books, 2009.

PLATÃO. Fédon. Trad. Miguel Ruas. São Paulo. Editora Martin Claret, 2002.

WILLER, Claudio. Geração Beat. Porto Alegre: LP&M, 2009.






                

Um comentário:

Anônimo disse...

Saudações meu amigo,

Magnífico o texto, espero poder ter a oportunidade de acompanha-lo e lê-lo por muito tempo ainda nesta vida. É sempre um prazer viajar dentro das suas histórias e poder se sentir livre , flutuando nas suas palavras :D

Passando também para desejar um feliz natal e um ano novo cheio de prosperidades, saúde, novas ideias, novas histórias e novos enredos, porque será sempre um prazer estar contigo e acompanhá-lo de perto ou de longe, estarei sempre por aqui para prestigiá-lo.

Beijo e UM ano novo de muitas realizações e sonhos concretizados.