quinta-feira, 5 de junho de 2014

A Resiliência dos Peixes

No princípio, Deus criou os céus e a terra.
A terra estava informe e vazia;
as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas.
Gênese, cap. 1, vers. 1-2

            Acordar. Arrumar a cama. Fazer café e esperar o dia passar, olhando os peixes no aquário. A solidão é um privilégio que custa caro. Abrir janelas. Juntar pedras no canto da sala. Tarefas que nada constroem. A vida dói e eu deixo ela doer, mãe. Como você, ela não é do tipo que passa a mão na cabeça. Antes de voltar a me deitar, observo a cama. Desde sempre, mantenho os olhos em espanto. A cama pede que o olho se deslumbre. Ela não quer o olho-indiferença, o olho-cotidiano, o olho-razoável, o olho-que-vê-a-cama-como-local-de-descanso e não de sonho. E eu... Eu, mãe, carrego pesadelos: olho-pesadelo. E eu... Eu, mãe, crio meus próprios fantasmas[1]. Enfim, o que quero dizer é que, hoje, você é em mim. Deito outra vez e te procuro. Para minha surpresa, percebo que aos poucos você está desaparecendo. Aos poucos, a barra do seu vestido se esfumaça. Aos poucos, seus olhos vão perdendo a expressão. Aos poucos, suas mãos vão perdendo o contorno, seus cabelos vão perdendo a cor, mais um grama de energia e eles se tornariam nova água viva no aquário. Levanto. Faço café e bebo. Abro o guarda-roupa e pego nossos álbuns de fotografia. Não quero te perder. Com a lupa, sondo seu rosto magro, seus olhos claros, sua expressão de orfandade. Procuro você por fora, nas fotos, porque sinto que por dentro você me deixa. Quer de vez partir. Nossos monólogos a dois se tornam cada vez mais raros. Chamo e você não vem. Pergunto e você não responde. Aceno e você finge que não vê. Eu estou aqui. Ó mãe, porque em vez de ternura e compreensão, o que tínhamos eram gritos e portas batendo? Por que, em vez de solidariedade, o que tínhamos era solidão? Em vez de amor, bofetadas, tapas ardentes, recriminações? Agora posso ver tudo, porque a alma vê a vida como um filme no cinema. Lá está você, deitada com um de seus amantes na cama, enquanto eu estou na sala, tentando me concentrar no Patolino, em meio aos seus gemidos. Lá está você, deitada na cama com outro de seus amantes, enquanto eu estou no chão, tentando engatinhar, mas recuando diante das palhas de aço no chão, limitado, da mesma maneira que os peixes no aquário. Você espalhou palha de aço ao redor de mim e me deixou conjurado, como demônio conjurado por fogo na idade média. Tudo isto pra você poder foder melhor, pra trepar em paz, para chegar ao orgasmo mais profundo. Vejo que minhas mãos sangram e eu choro, tenho apenas seis meses, porra! A cama é lugar de sonho, mãe, e nela você construiu, um por um, todos os meus pesadelos. Eu era jovem, também tive meus sonhos frustrados, também fiquei sozinha, aos dezesseis anos, com um bebê pra cuidar. Sei. Sexo, Drogas e Rock n´ Roll, não é? Essa sua vontade de cantar... Essa sua vontade de ser uma estrela do showbizz... Dou graças ao seu fracasso! Todo seu amor sempre foi direcionado à música, enquanto eu ficava pelos cantos, catando as migalhas, suportando o frio, o deserto e a solidão. Esperando a minha chance de te dar um beijo. Esperando infinitamente aquele beijo de boa noite; com medo do diabo embaixo da cama; com medo do demônio dentro do guarda-roupa; com medo de tudo e de todos. E quando eu me aproximava pra te beijar... Pra te acariciar... Era tapa na cara que eu recebia. Por quê? Por quê? Se o ser humano produz calor, amor não vai faltar, caramba. Você não percebia, mas, se eu deixasse, teu ciúme me sufocaria. Você não me deixaria ser se eu deixasse, Dan. Você me escravizaria. Como? Eu era só uma criança! Lembra do doutor Santana? Lembro. Então, numa das muitas vezes em que te levei pra consultar, ele foi taxativo comigo: - O menino sofre dos nervos, disse. Você vai ter de ser dura com ele. Qualquer deslize pode ser fatal. Nada de mimos. Se você ceder um milímetro sequer, perde a mão desse moleque. É só uma criança, mas já é possessivo, manipulador, inteligente, ciumento, arrogante... E dá-lhe tapa então... Uma criança, porra... Não posso acreditar que eu fosse, que eu sou, tudo isso... Mas é, do contrário, o que explicaria tantos relacionamentos fracassados? Não é culpa minha. Foram os tapas, a palha de aço, o peito que você sempre me negou. Fiquei imprestável para o amor. Um trapo dos afetos... Um tarado da ternura... Um vampiro... Claro, é fácil me culpar. Nem depois da morte nos entendemos. Como disse, é sua personalidade, você está sempre incriminando alguém, colocando a culpa nos outros. Eu tentei me aproximar. Tentei te beijar na sua primeira exposição individual... Quadros tão tristes! Mas você me esbofeteou e me colocou pra fora, como uma prostituta. Já era tarde demais. Nunca é demasiado tarde para o perdão. É muito cômodo para quem quer ser perdoado. Quem bate esquece, quem apanha não. E eu levo bem guardado, na latência da pele, na latência da face, cada tapa que levei. E eu levo bem guardado, nos bolsos e no armário, os imensos castigos que recebi, enquanto tudo o que você queria era trepar... Trepar... Trepar... Lembro bem do medo: a porta do quarto trancada por fora e os demônios soltos no quarto, gargalhando, dando piruetas, enfiando o dedo no meu cu, quando eu deitava de bruços e cobria com o  travesseiro a cabeça. Era tudo imaginação. Nunca houve demônios e eu estava sempre sozinha no quarto ao lado, pensando em você. Lemba o que o doutor Santana disse: Se você ceder um milímetro sequer, perde a mão desse moleque. Como ousa dizer isso, que era imaginação, se você nunca veio comigo? Se nunca quis saber do meu mundo? Se sempre se manteve em sua placa tectônica e me manteve afastado, sozinho, com frio, na minha? Agora que você é adulto, me diz: É fácil? É simples? E você? Por que nunca vai ver seus filhos, hein? Acaso quer passar adiante a maldição? Acaso quer passar adiante o mármore da família? Era menino ainda e já estava aleijado para o amor. Cedo desaprendi a sentir, no estrondo de cada tapa, no gemido de cada orgasmo teu. Todos os teus amantes me negaram a alcunha, sim a alcunha, de pai. Olho. Olhe comigo, porra! Corro a lupa sobre minhas fotografias. Lá estou eu aos dois anos, reconhece este olhar? Lá estou eu aos quatro, aos cinco, aos seis! A boca banguela, o cabelo tigelinha e a expressão grave, feito um velho! Assim como hoje, homem, carrego comigo o menino que fui pra poder pintar, pra olhar o mundo com olhos de espanto, olhos-de-primeira-vez, e captar a luz-que-sente, a cor-que-sente, o traço-que-sente; ainda menino, carregava o velho que virei a ser. Do ponto de vista da alma, a vida é um cinema. Há anos reviro os álbuns de fotografia. Inspeciono detalhadamente cada uma delas com a lupa e em nenhum lugar estou sorrindo. Eu também, em nenhuma foto, criança ou adulta, estou sorrindo. A gravidade é genética. O caralho! Os tapas é que produzem a gravidade. Eu devia ter partido de vez, não vale a pena voltar pra ouvir, como que num disco arranhado, as mesmas recriminações de sempre. Eu jamais te deixaria partir, agora que você é dentro de mim, quem manda sou eu. Talvez agora você esteja contente. Talvez agora seja possível atender suas demandas. Lembro de uma vez que você estava dormindo no sofá, era um dia frio, você tinha bebido vinho e sua respiração estava ofegante, o ar saía branco de dentro, tão gelada estava a temperatura do lado de fora de você... E eu fiquei espantado de você respirar e ser e de eu também respirar e ser... E encostei meu nariz no seu corpo e quis te sugar, quis te sorver, quis te respirar e respirar-me para dentro de mim, entretanto, eu sabia que, a partir do momento em que te respirasse e me respirasse, viveríamos dentro de mim, mas de um mim incorporal, atemporal, pura intensidade, velocidade da luz, num minuto dourado, eterno, sagrado, longe das rodas do devir. Toda criança é metafísica e cabeçuda, mãe, como certos filósofos. Quando ainda brincava, minha brincadeira favorita era vivo ou morto: vivo... Morto... Vivo... Vivo... Morto... Morto. Depois, deixei de te cheirar, te troquei pela cocaína, podes crer. Ela era mais fácil. Só exigia dinheiro. Será que eu sou mesmo possessivo? E você ainda tem dúvidas? Mãe? Que? Havia alguma possibilidade, por menor que fosse, de nós termos dado certo? Falhei com você, filho, e reconheço. Fiz muita merda, muita coisa feia na vida, mas nunca... Nunca deixei de te amar... Você podia ter dito, ter demonstrado... É sempre muito tarde quando nos damos conta. Mãe? Que? Posso pentear seus cabelos? Sempre fui louco por eles, sempre sonhei tocá-los e penteá-los e tocá-los e penteá-los, por horas e horas a fio. A escova é toda sua. Vê, no aquário, como a água viva se movimenta entre os outros peixes? Lenta, leve, fugidia, transparente... De todas as criaturas de Deus, a água viva é a mais maligna.




[1] Demônios são entidades externas, fluxos que passam, se detém por um tempo, e se vão. Fantasmas são internos. Corpo é possessão, campo de forças onde a vencedora mantém as outras sob domínio. Identidade é legião: sou todos os nomes da história. Também os peixes no aquário são a ponta, a extremidade de uma força que se anula no vidro, mas não parecem se importar. O olho do peixe é a imagem da resignação. Já as águas-vivas não têm olhos, são a efetivação de uma potência demoníaca, o escalpo transparente de bruxas ancestrais.

Um comentário:

Roseli Pedroso disse...

Daniel estou sem fôlego! Pela intensidade de seu texto, pelos sentimentos jorrados dele, pela beleza estética que deu a ele. Parabéns! Estou emocionada!