quarta-feira, 14 de maio de 2014

Minas

Corpo e rosto em pedra
Sei o que me fere em você.
Beto Guedes e Márcio Borges

            Outra vez amanhece na fazenda. Entre a pílula e o pesadelo, consegui conciliar de maneira razoável o sono durante a noite. Rosa me traz o café da manhã na cama. Biscoito de polvilho, requeijão amarelinho, café, leite, pão de queijo, um pedaço de rapadura. Rosa deixa a bandeja sobre o criado mudo, mas não sai. Espera que eu diga alguma coisa. Desde que voltei, há uma semana, não nos falamos. Eu tenho muito que dizer. Sei que ela entenderia, mesmo que a palavra provoque feridas. Rosa ainda é humana, a fazenda não foi automatizada, ainda. Aqui bicho ainda é bicho, onça ainda é onça, gente ainda é gente, peixe ainda é peixe. Diferente de lá, do lugar para onde parti há doze anos com o intuito de estudar. Ela foi meu primeiro amor, Rosa, e eu acho que fui o único amor dela. Desde que voltei da cidade, há uma semana, ela sempre traz as refeições e espera que eu coma ou diga alguma coisa. Tenho comido pouco, falado menos e dormido menos ainda. Sempre que fecho os olhos, vejo a imagem de Marina sendo recolhida do mar, o corpo inchado, os olhos brancos, sem íris, sem pupilas, sem nada. Sempre que fecho os olhos, vejo o musgo verde-escuro agarrado à pele que se solta da carne inchada, as pernas presas às rédeas do cavalo, como se Marina fosse um verme que se desprendesse do interior do cavalo e o próprio cavalo, um cachalote, rei dos cetáceos, o grande Leviatã capturado das profundezas do mar, onde os peixes não têm olhos. Marina está morta. Entrou com o cavalo e tudo no mar, para morrer. Não pude impedir. Também não consegui até agora chorar. Parece que a visão de Marina morta sobre a areia quente, fez com que eu me distanciasse de tudo, até de mim mesmo. A superfície lisa dos meus sentimentos não deixa que as correntes mais profundas, caudalosas, violentas, negras se manifestem no rosto. O rosto é de plástico, uma máscara que esconde gritos e um desespero de quebrar os dentes, trincar os ossos.  É como se eu fosse dois, um que se desespera e outro que nada sente, a superfície continua lisa.
            - Não vai comer de novo?
            Encho uma xícara de café. Corto um pedaço de requeijão. Aos poucos, pequenas gotas de gordura se formam na peça recém-cortada. Tento mastigar. O gosto é bom, mas minha boca se enche demais de saliva. As gotas de gordura no queijo me fazem lembrar o corpo deformado de Marina, o cavalo cuja barriga rachada expelia pequenos animais marinhos. Largo o queijo. Bebo um pouco de café.
            - E seu irmão? – Pergunto, só assim, para disfarçar.
            - Nenzinho?
            - É.
            - Que é que tem?
            - Está trabalhando? Já tirou o leite hoje?
            - Não, hoje não. É sexta-feira santa, esqueceu? Ninguém tira leite na semana santa. Se alguém tiver a ousadia de ordenhar, não vai sair leite, vai sair sim o sangue de nosso Senhor.
            Rio das crendices de Rosa, da fé do povo. Sou um homem sem deuses. Fui para longe. Já faz tempo. Deixei Rosa e seu irmão, o Nem, na estação. Atravessei as Serras. Vi o mar. Estudei. Escrevi. Publiquei. Casei-me, ou melhor, juntei-me com Marina. Nunca mais voltei. Rosa ficou me esperando para casar. Nem ficou me esperando pra gente tocar viola outra vez pelos bares da cidade, tomando cana, comendo carne seca frita com mandioca. O pai ficou esperando que eu voltasse para administrar a fazenda. Todos aqui esperaram que um homem voltasse, mas o que desceu na estação foi um farrapo. Alguém rasgado, devastado pela morte e a loucura. E Marina, quando por fim conseguiram resgatá-la, parecia uma bexiga de tão inchada. Se tocássemos seu corpo com uma agulha, tenho certeza, aquilo que um dia fora Marina, explodiria... Como eu gostaria de chorar!
            - Tô indo no pé de embu. É tempo. Quero pegar um pouco, tá docim, pra fazer um suco no almoço. Tu vem comigo?
            Quero sair do quarto. Aos poucos, alguma coisa em mim se esforça com o intuito de levantar a cabeça para a luz.
            - Vamos – digo.
            - A mãe vai cozinhar um frango com pequi, do jeito que tu gosta, para o almoço. Vê se come, Dan, não vai fazê desfeita pra velha.
            - Vou tentar, Rosinha.
            Calço umas sandálias. Passo um pente no cabelo e saímos para o Sol. É preciso caminhar, enfrentar a poeira.
            - Como você está, Rosa?
            -Tô bem, como tu tá vendo.
            Eu olho para o chão. Chuto um caroço de manga.
            - Tá namorando?
            Ela me olha admirada. Surpresa com a pergunta. Sorri. Afunda as sandálias na poeira. Pequenas rugas se formam no canto dos olhos e no caminho que une o nariz à boca. Já não é uma menina. Agora Rosa já não é Rosinha, tem mais de trinta anos.
            - Tu te lembra do que disse? Antes de ir embora...
            Não respondo, caminho enfiando também meus pés na poeira. Há rancor na voz dela, mas não há ódio.
            - Tu disse que ia voltar, pra gente casar... Fiquei te esperando... Pode perguntar pra qualquer um, nem de casa eu saia, por mais de dez anos. Quer dizer, só saía pra ir pra igreja, pras festas da igreja, pras coisas da igreja, mas, mesmo assim, sempre ia com minha mãe... Fiquei te esperando, Dan.
            Ponho as mãos nos bolsos. Olho para o lado. Disfarço. Não respondo. Por mais que a gente tente, por mais que sejamos cuidadosos, delicados, bem intencionados e o diabo a quatro, é impossível passar pela vida sem ferir alguém, sem foder a vida de outro ser humano. No final, acabamos esfaqueando quem caminha ao nosso lado. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas – disse a raposa.
            - Eu tinha mesmo a intenção de voltar, Rosa, mas fui tragado pelo mar, pela cidade grande, era inexperiente. Pensei que você também tivesse me esquecido, que talvez já estivesse até casada. Além disso, Rosa, conheci o amor. Vi a alma machucada de outra pessoa e ela me enterneceu. Quando conheci Marina, percebi que estávamos dolorosamente conectados. Você sempre foi uma mulher prática, sempre soube cuidar de si. Marina, durante suas crises, mal conseguia levar o garfo à boca. Eu tinha de dar comida na boca dela. Ela despertou em mim o que ser homem tem de melhor. A minha masculinidade queria cuidar dela, queria protegê-la. Ela procurava um pai, e eu pude ser o pai dela. Ela procurava um amante e eu pude ser um amante para ela. Eu queria de todas as formas evitar que o mundo a ferisse, que ela sofresse, como todo pai quer evitar que a filha sofra, mas isto é impossível, ou não é? Ninguém passa pelo mundo sem sofrer, ninguém passa pela vida sem se despedaçar. Há momentos em que um homem quer ter o maior peito do mundo para proteger o que ama, Rosa, mas por mais que nos esforcemos, por mais que levantemos peso, pratiquemos halterofilismo, parece que nosso peito é sempre estreito demais diante do mundo. Nenhum homem é Deus. Todos somos indefesos.
            - Que coisa para se ouvir, depois de doze anos de espera. E quem pensou em mim? E quem pensou em me proteger ou esperou minha proteção?
            - Achei que, quando eu não voltasse, automaticamente, nosso compromisso estaria desfeito.
            - É, mas pensou errado. Você disse que conheceu o amor? E tudo que a gente viveu aqui? Antes de você ir estudar? Então não era nada? Esqueceu quando saíamos pra caçar? Quando corríamos pela estrada atrás de passarinho? Esqueceu quando íamos pescar, pegar umas tilápias... E você sempre pegava menos que eu, seu bobo?  Eu amei naqueles dias.
            - Desculpe, acho que falei demais. Não toco mais neste assunto.
            - Não é isso, pode falá. Fico feliz que você teja falando e falando comigo, mesmo que isso me fira. Essa Marina... Teu pai falou que ela não batia bem mesmo...
            - Não fale assim.
            - O que é que ela tinha, afinal de contas?
        -Não sei, os médicos nunca descobriram. Era sensível demais. Tinha sofrido muito na infância. Passou por coisas, ainda menina, pelas quais nenhum ser humano mereceria passar. Vivia em constante dor física e emocional. Às vezes, saíam pústulas em sua pele que coçavam e coçavam, ela ficava coberta de feridas, de chagas, passava dias sem conseguir dormir. Seus sentidos eram aguçados demais, qualquer ruído um pouco mais alto fazia com que ela tivesse dores de cabeça horríveis, seus olhos azuis ficavam esbugalhados, ela agarrava os cabelos com as duas mãos e sacudia o crânio, isso vivendo numa cidade grande como o Rio, percebe? Tinha de usar constantemente óculos escuros, porque a luz feria seus olhos. Às vezes perdia a visão, ficava completamente cega por semanas e semanas seguidas. Não usava roupas escuras, nem de tecido grosso, o próprio jeans deixava arranhões em suas pernas quando ela vestia uma calça. Parecia que o próprio corpo dela era uma alergia, mas quando ela estava bem... Ah! Quando ela estava bem... Quando o hotel Marina acendia, então brilhava por nós dois. Os demônios estiveram aqui por muito tempo e foi horrível enquanto eles ficaram, mas agora eles se foram, o passado já não dói, é tempo de pipa outra vez, dizia, e a gente caminhava pela areia da praia, passava o dia olhando o mar. Ela adorava o mar. E quando via um menino ou menina de rua, levava pra casa e dava comida, mas eles nunca se acostumavam e voltavam pra rua. Isto a dilacerava. Uma vez, umas meninas que dormiam embaixo dos arcos da Lapa, limparam todo nosso apartamento antes de partirem. Mas nós não nos importamos. Ficamos deitados no chão, em silêncio, pensando na vida. Ela colocava a cabeça no meu braço e falávamos da infância, dos nossos sonhos e da música... Eu assobiava Pachelbel, ou Satie, até que Marina adormecia nos meus braços, frágil e feliz, como se eu tivesse por responsabilidade velar o sono de um anjo... De uma santa. Isso dá sentido à vida. Os homens não se preocupam com liberdade, ninguém quer ser livre, todos queremos mesmo é dar um sentido à vida. Todos queremos mesmo é nos sentirmos especiais, realizar algo que só nós poderíamos realizar, como eu sentia quando cuidava de Marina. Ela queria ter filhos, sabia? Disse que queria ter um filho meu. Tentamos de tudo quanto foi jeito, mas ela não podia ter bebê. Toda sua estrutura era mirrada. Ela não era daqui. Bastava um olhar para saber que não estava destinada a durar, que seu corpo frágil jamais suportaria o peso dos anos e das amarguras. Bastava um olhar para saber que sua alma era leve e que jamais se insinuaria por meio de rugas profundas, ou cabelos brancos, ou todos estes modos pelos quais a alma pesa e se mostra no corpo ao longo dos anos. O mundo não se importa com o cristal, Rosa.
            - Bem sei, Dan. Bem sei que o mundo não se importa com nada.
            Chegamos ao pé de embu. Em dois movimentos, Rosa já está trepada lá em cima. Fico embaixo, agarrando as frutas que ela joga e olhando a calcinha vermelha entre as coxas grossas, quase musculosas.
            No tronco do embuzeiro, nossos nomes estão marcados a canivete dentro de um coração. Também a madeira tem sua memória.
Rosa desce. Eu perco um pouco de tempo acariciando a cicatriz dos nossos nomes dentro do coração tatuado na árvore.
- A árvore não se esqueceu de nós – ela diz.
- Pois é.
Colocamos os embus dentro de uma sacola de plástico. Menos um com o qual volto brincando pelo caminho, jogando de uma mão para a outra.
- E como foi que vocês se conheceram? - Rosa me pergunta, antes de chegarmos.
- Foi num haras. Quase todos os dias eu ia andar a cavalo para espairecer um pouco. A universidade é um ambiente difícil. Há pavões por todos os lados, fumando, conversando, às vezes usando cachecol. Eu procurava alguém que conhecesse o secreto sinal e sem dizer palavra chegasse a mim e sussurrasse: eu tenho a chave. Eu procurava alguém que me dissesse a palavra capaz de me tirar do automatismo espiritual. Não havia ninguém. Todos os pavões eram ocos e passavam a vida inteira estudando a obra de outros porque eram vazios. Quando por fim os pavões olhavam para si mesmos, não tinham alma, eram apenas penas coloridas. Aprendemos alguma coisa quando aquilo que estudamos se incorpora ao que somos. Quando não há nada lá, o que pode ser incorporado? Os pavões tagarelavam na cantina e repetiam o mesmo oco o tempo todo, feito um mantra. De minha parte, eu preferia os cavalos. Foi lá que eu a vi a primeira vez. Não precisamos dizer coisa alguma. Ambos sabíamos o segredo.
Chegamos a casa. Sinto leve o meu corpo. A palavra exorciza, espanta os demônios, limpa, põe pra fora a água suja. Se todos os homens fossem mudos, já teríamos explodido o planeta.
Rosa vai para a cozinha. Entro no meu quarto, deito na cama e então, só então, choro a morte de Marina... Meses depois.
Sem bater, Rosa invade o quarto, tira o vestido deixando exposto o corpo musculoso de fêmea, de animal potente. Eu enfio o dedo no embu que ainda tenho nas mãos e ele libera todo seu líquido e seu perfume.
Embu machucado como cheira!
Rosa se deita ao meu lado.

            

3 comentários:

Roseli Pedroso disse...

Daniel, após terminar de ler seu texto ainda me encontro meio que anestesiada diante de tão bela imagem. Lindo, lindo, lindo texto e personagens! Parabéns! E o final foi show!
Abraço!

Braga e Poesia disse...

Daniel seus textos me faz lembar minhas buscas pelo meu passado, onde eu posso lhe copiar - Gente ainda é gente, bicho ainda é bicho, e no tronco do umbuzeiro tem indícios de minha existência, com nomes marcados, imprimindo a dor e a solidão uma possibilidade de fuga, dando ainda uma chance para a vida reinar de novo. O texto tem a força do mato que resiste, do cheiro do acordar na roça, mas trás o desespero de quem acha que perdeu tudo, mas não se deu por vencido e o desespero pode ser uma dor maior, ou o começo da luta pela redenção.

pianistaboxeador21 disse...

Valeu Braga. Valeu Roseli. É isso mesmo Braga um caminho para o mato o pé de embu, ou umbu. Um caminho para voltar e viver.