quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O Lado Escuro da Lua

Remember when you were young?
You shone like the sun
Roger Waters, em Shine on You Crazy Diamond

            Apartamento.
            13º andar.
            O rapaz levanta da cama, vai até a janela e, ainda nu, acende o cigarro. Sábado de aleluia. Lá fora, na rua, as crianças malham um Judas de retalhos. Depois de muitas pauladas, a cabeça do boneco, que está preso a um poste, despenca, mas continua conectada ao corpo por longa tira de algodão. Uma menina, a menor do grupo, não deve ter mais que seis anos, termina de arrancar a cabeça e sai correndo com ela embaixo do braço. O resto do grupo corre atrás, aos gritos, deixando para trás o corpo dilacerado do boneco, de onde os retalhos saltam como se fossem vermes, como se fossem tripas. “Uma pequena Herodias, uma pequena Salomé: mulher!” Ele pensa, antes de atirar a guimba na calçada.
            - Eu te amo – ela diz e, como que para corroborar as palavras, vira de bruços, distraída, deixando cair o lençol e colocando à mostra a bunda enorme.
            - Amor?
            - Sim, eu te amo.
            - Isso não existe. É uma invenção humana. E, como toda invenção humana, teve um começo e cedo ou tarde encontrará seu fim. Somos um macaco com defeito, um macaco que deu errado.
            - Então por que estamos aqui? Nós dois?
            - Como disse, somos um macaco que deu errado. Não dependemos do cio. Além disso, você tem a bunda e os peitos grandes. Deve ser uma boa parideira. A natureza em mim busca a natureza em você. Só que nós somos mais espertos que a natureza, enganamos ela, essa é a nossa vantagem. Fingimos ter um filho e depois não temos… Eu gozo fora… Você toma pílula… Fazemos as coisas por trás. Rimos da cara da natureza e, no entanto, depois, no final, é ela quem vence. Quem ri por último, ri melhor.
            - Mas eu te amo! Isso não tem nada que ver com macacos ou natureza. É o corpo no limite, onde ele vira outra coisa, uma brisa talvez.
            - Você só diz isso aí, você só acha que me ama, porque nós não podemos ficar juntos. Todo mundo passa a vida perseguindo alguma coisa que não tem. Viver é desejar. Quanto mais impossível melhor. Ah! Se tivéssemos tal coisa! – pensamos. Você diz que me quer, eu almejo a literatura, não, mais que isso, eu almejo a literatura e a fama literária. Tudo ilusão! A gente quer é romper nossa solidão, se espalhar por aí, enganar a morte. Se vivêssemos juntos, esse seu amor aí acabava em dois tempos. Dois tempos nada, tempo e meio. Tudo ilusão! Tudo invenção! Como disse, a gente quer é romper nossa solidão, dividir um pouco a dor, repartir o fardo. Ilusão, porra, nossa dor é só nossa! Por mais que os outros se solidarizem, ninguém pode dividir o câncer. Meu irmão está lá, morrendo, e nós estamos aqui. Eu: o irmão. Você: a esposa. A gente tenta amenizar a culpa dizendo que é amor. Mentira. Admite vai… Amar é dividir as contas meio a meio, o resto é papo furado. Não há amor que resista ao desemprego. A gente é tudo pilantra, mas, tudo bem, beleza, no final também morremos. Estou cansado, Vera, estou de saco cheio! Acabei de cuidar da carcaça de trinta mil estropiados naquele hospital… Câncer… Aids… Gripe… Viroses dos mais variados tipos… Sarampo… Disenteria… Anemia… Bulimia… Varizes… Diabetes… Glaucoma… Catarata… Sífilis… Gonorreia… Fraturas expostas… Abortos malfeitos… O horror, e você ainda me vem falar de amor? Não acredito na vida, como poderia acreditar no amor? O mundo me faz bocejar, Vera, me dá preguiça encarar esse barulho todo. Não vejo televisão, não leio jornais, não entro na internet. Não sei e nem quero saber de nada do que está acontecendo. Vivo numa contagem regressiva para o fim da vida. Sentado na estação, espero o trem para o abismo.
            - E eu?
            - Não sei. Não sei de mim, nem de nada. A gente fode, engana a Deus e o mundo, mas, e aí? Se não tivesse você, eu me masturbaria e limparia a mão na roupa suja. Nada faz diferença, entende? Filosofia da indiferença, Deleuze esqueceu o prefixo. Vivo entre o tédio e a pornografia, a tristeza e a pornografia, o desespero e a pornografia.
            - Pobre Daniel! Tão lúcido! Meu amor não consegue mais acreditar nas histórias que conta aos outros e a si mesmo. Pensa que são só invenções, mas o fato de serem invenções não quer dizer que não existam.
            - Para dizer a verdade, acho que nem se eu fosse o maior escritor do mundo… Não, mais, nem que eu fosse o único escritor do mundo, ficaria menos triste, menos cético, menos entediado. Sofro de um mal incurável: sou um monstro. Neste não-lugar onde estou, tanto faz pedir uma pizza ou cometer um assassinato dos mais hediondos. Tudo me é indiferente. Não há ética, não há estética e nem moralidade. Se ao menos pudesse crer em Deus! Mas minha natureza me impede. Algo grita em mim no último instante: não acreditarás! E eu volto para o limbo. Se não creio em Deus, como crer na arte? Toda estética é um truque, uma invenção, quem diabos quer saber de estilística? Não existe magia, é tudo uma criação barata. Todos esses nomes bonitos… Shakespeare… Goethe… Proust… Tudo isso aí não quer dizer porra nenhuma! São mentiras contadas tantas vezes na nossa orelha, passadas de geração a geração ao longo dos séculos, que passamos a crer que fossem verdades. Uma tramoia imensa, cósmica, universal. Quando desmoronamos, os livros não servem para nada. Perdem completamente a validade. A história da literatura é a história de um fofoquinha entre comadres, entre veados. Talvez algum dia eu encontre uma maneira de desaparecer completamente, sem deixar sequer um nome para trás. Afinal o que é a fama tanto no céu quanto na Terra? Tudo ilusão, Vera. Não creio em Deus. Estamos quites, ele também não crê em mim.
            - Quando foi que você ficou assim, Dan? Eu não percebi. Acho que ninguém percebeu. Eu estava lá, no começo, quando você comemorou seus dezoito anos dando uma festa de arromba e pintando o rosto como se fosse um integrante do Kiss. Você falava a linguagem do entusiasmo.
            - Acho que nem eu percebi. A gente nunca sabe de onde vem o golpe que nos racha ao meio, que nos faz desmoronar por completo. Até a adolescência, acho que a gente ainda é meio bicho, temos menos alma, estamos mais próximos do macaco. O ser humano não é como os outros animais. Uma pena! O peixe está perfeitamente encaixado no rio, assim como o leão está perfeitamente encaixado na savana. O homem está na natureza, faz parte dela, mas em pleno desencaixe. A natureza lhe é hostil. Macaco avariado, ele, o homem, precisa criar seu mundo, mas, ao criar esse seu mundo, cada indivíduo bate de frente com o mundo do outro, dos outros. A cultura é um beco sem saída. Só um tirano se sentiria bem. Só um tirano não, porque um tirano ainda sofreria os limites da natureza. Poderia pegar um resfriado, uma gripe, uma virose, uma caganeira. Só um Deus, tirano-mor, se sentiria bem. Só os deuses são felizes e, ainda assim, não estão livres do tédio. Uma tarde de domingo convenceu Jeová a criar a humanidade. A gente já sabe a merda que deu. Eu pintei a cara e imitei Gene Simons quando fiz dezoito anos. A gente precisa contar umas lorotas pra continuar e o ouvido mais próximo é o da gente mesmo. Para que a vida se torne possível, o sonho é necessário, mas o sonho é rachado, diminuído, minimizado, pelo outro, pelo sonho do outro, pelo mundo, pela sociedade. E não me venha com esse papo de que o outro é o paraíso. Nascemos do tamanho do cosmos, mas, para cabermos na Terra, somos constantemente lapidados, e, cada ajuste, arranca uma farpa, uma lasca, um pedaço da gente. O espaço que nos pertence, aquilo que nos é destinado, é pequenos demais, pior ainda, por vezes, somos um encaixe quadrado e insistem em nos enfiar numa cavidade redonda. Resta a loucura, o refúgio no rivotril, naquele mundo só nosso que criamos pra brincar de multidão. A esquizofrenia é um bom abrigo. Ou o ser humano entra em si e perde o mundo, ou entra no mundo e perde a si mesmo. Jó-quem-pô!
            - Então o que te falta é reconhecimento? O olho de um terceiro? Não pensei que você pudesse ser tão pequeno!
            - Meu Deus do céu! A gente tem de explicar tudo, tintim por tintim, é cansativo. A gente diz uma coisa e as pessoas entendem outra, não é à toa que gostam tanto de comédias. Se a pessoa ri demais, acho logo que ela é uma anta. Se for comédia, tem de ser o Quixote e só, que é pra gente não rir sem se sentir culpado. Como eu ia dizendo, se é que já não disse, não tem nada que ver com reconhecimento. Kurt Cobain está aí pra provar. Um vaso quebrado não volta a ficar inteiro sem deixar expostos os remendos. Quando a gente vai viver na indiferença, não há mais aquele algo que a gente queira, aquela coisa que nos faria voltar à vida. A gente procura um livro bom, mas não há mais livros bons. A gente procura uma música nova, mas não há mais músicas novas. A gente procura um novo vídeo pornô, o mais escatológico de todos, e ele nos dá sono, quando vamos para a cama porém, vêm os pernilongos e com eles a insônia. Boa noite, dona Vera, seja bem-vinda ao hotel desolação.
            - Se eu pudesse te ajudar… Te mostrar as flores! Elas existem, sabia? Do jeito que você está, não sei como ainda não cometeu suicídio.
            - Não há o que fazer. É o drama da nossa solidão. Danço eu, dança você, a dança da solidão. Tento manter a disciplina. Não falto aos meus plantões no hospital. Já é algo. Renato Russo escreveu que disciplina é liberdade. Não concordo plenamente, mas acho que sei do que ele está falando e ele também sabia. Quanto ao suicídio, quem dá garantias de que a morte seria um alívio? Imagine se, mesmo depois da morte, a gente continuasse a sentir e a pensar da mesma maneira, só que não pudesse dizer, não pudesse se comunicar com ninguém… Não pudesse se expressar… Inferno não é o fogo, o enxofre, ou o nada. Neste sentido, o nada seria o paraíso, a ausência de dor, a ausência de consciência… Voltar a fazer parte do fundo indiscernível, que é o tempo, a música, a esfera… Do pó ao pó, em silêncio… Mas e se??? E se na tua pele, Vera, ainda sentisses as lágrimas do João, teu filho caçula? E se teus ouvidos, mesmo lá, nas profundezas, ouvissem o som do rato que roe obstinado a madeira sem verniz do teu caixão? E se porventura tua alma vivesse no osso ou no cabelo que perdura e, durante anos e anos, fosses obrigada a ficar trancada com tu mesma? O peso da terra por cima, nos peitos… A escuridão… O silêncio… Teus gritos que voltam para dentro da boca e não encontram resposta humana… Não há irmão que te ofereça a nêspera para tua boca seca… Não há amante que te sorria depois do gozo… Não há sequer um cachorro que te lamba a mão, ou um gato que trance pelo meio das tuas pernas… Tudo o que há é a claustrofobia! O escuro! O peso! A incomunicabilidade!
            - Que pesadelo! A impossibilidade de viver e de morrer! Como é que você consegue caminhar ou fazer amor? Como é que você consegue ficar sóbrio? Como consegue ficar sóbrio por tanto tempo, mas, sem futuro? Sem esperanças?
            - Já disse, sou um monstro e a esperança, como escreveu Mário Quintana, é um urubu pintado de verde. Verdade. Você me pergunta como eu consigo fazer amor? Meu irmão, seu marido, com quem você é casada há mais de quinze anos e com quem eu convivo desde que nasci, está lá, naquele mesmo hospital onde dou meus plantões dia sim, dia não, morrendo com um tumor do tamanho de uma laranja da China na cabeça e nós estamos aqui… Fodendo como uns putos… Como é que você pode chamar isso de amor? Deus do céu, como somos sós! Ninguém pode repartir a dor, ninguém pode dividir o câncer, ninguém pode morrer pelo outro. Eu daria qualquer coisa para trocar de lugar com ele! Como os deuses são carrascos! Como o destino é irônico! Meu irmão que é a própria encarnação da caridade… Meu irmão, cujo sorriso é todo compromisso com o jardim e com a ternura, está morrendo sem sequer completar quatro décadas de vida… E eu… Eu, que estou pouco me lixando, que sou a indiferença tornada gente, estou aqui, com uma saúde de ferro. Limpo, sóbrio, ereto, fodendo a cunhada que me viu crescer. Como a gente é sujo! Como a gente é sórdido, fétido, pútrido, mesquinho, mau caráter mesmo, porra! Até quando temos as melhores intenções, planejamos uma coisa e fazemos outra, queremos tomar um caminho e tomamos outro. Mesmo quando temos as melhores intenções, metemos o pé na merda e espalhamos. Cagamos em tudo! Jogamos o excremento no ventilador! Queremos imitar o Cristo – ainda que falássemos a língua dos homens e dos anjos, sem amor, nada seríamos. Pobre Saulo! – e no meio do caminho, somos arrastados por forças poderosas. O cheiro de merda, o cheiro de sexo nos atrai e sucumbimos. Nossa fraqueza deixa de resistir. As forças das trevas nos vencem. Sentamos na calçada, cabeça baixa no meio fio, e choramos, choramos como crianças, como negros privados de tudo, até do canto! Ó escravidão de ferro! Ó egoísmo! Quando a coisa aperta mesmo, a gente volta os olhos é para o nosso próprio umbigo. Desgraça de bicho ferido! Desgraça de macaco defeituoso! Nós não apenas somos, mas percebemos que somos. E nunca… Nunca estamos acabados… Até a morte! Como algo presente, não podemos nos rodear ou ultrapassar a nós mesmos, mas estamos, em todos os pontos, abertos para um futuro incerto, sempre incerto. Estamos no presente, só que vivemos voltados para o futuro, para o além, projetando. Estamos entregues a nós mesmos, todas as luzes da casa apagadas, somos aquilo que nos tornamos. No final, a gente é responsável até pelo que não tem controle.
            Vera se levanta, enrola-se em uma toalha, como se agora tivesse vergonha de ficar nua diante das palavras do outro, e vai ao banheiro.
            Daniel liga o notebook e acessa um site pornográfico. Olha por alguns minutos. Fecha o aparelho sem desligar. Vai até a janela. Cospe na calçada. Acende outro cigarro. Vera volta do banheiro. Deita outra vez na cama e se cobre com o lençol.
            - Você é daqueles capazes de morrer por uma ideia... Eu faria qualquer coisa para ver você sorrindo outra vez.
            - Não é a mim que você tem de agradar.
            - Não temos culpa, Dan, somos inocentes. Você mesmo disse que a gente tem as melhores intenções, mas que somos comandados por forças maiores que nós, mais poderosas. O que aconteceu com a gente foi grande demais, colocou em você a marca da morte.
            - É o que todo canalha diz: sou inocente. Todo mundo tem seus hormônios, feromônios e o diabo a quatro, a gente sabe, mas sempre se pode resistir. É assim que se mede a grandeza de uma pessoa. O indivíduo bom é como... Como uma árvore que nasce e cresce no meio do rio, resistindo à correnteza e às enchentes.
            - Eu queria mesmo te fazer feliz. Tirar de você esse desprezo por si mesmo. A gente podia sair qualquer dia desses...
            - Porra, meu irmão está morrendo!
            - Não agora, depois.
            - Depois do que? Depois que ele morrer? Você consegue perceber o egoísmo e a crueldade do que disse?
            - Não quis dizer isso.
            - Mas foi o que disse.
            - Não é nada disso.
            - Além do mais, o que faríamos, Vera? Não podemos fugir de nós mesmo, daquilo que somos, da nossa situação. Para qualquer lugar que formos, levaremos nossa carcaça, e nossos nomes, e nossa culpa.
            - Não acredito em culpa. Tudo parece ser tão pesado pra você, no entanto, é você que coloca o peso, o chumbo. As coisas acontecem. Simples assim.
            - É bem feminino mesmo, isso que você está falando. Quando surge o talho, o corte, o peso, então o negócio é sair, ir ao shopping ou ao cinema... Comprar uma blusinha ou uma rasteirinha, não é? Odeio shoppings, odeio compras, odeio luzes, odeio gente, odeio o comércio, o capitalismo e o socialismo também, odeio essa gente de direita e os politizadinhos de facebook de esquerda. Gente politizada é um pé no saco, militância nunca mudou porra nenhuma. Não gosto de parques, performances, profetas, polícia, política ou padres. Sou um bicho encurralado. Uma toupeira sob a terra asfaltada, buscando inutilmente saída pra luz. Bicho cabeçudo em constante aporia. Estou doente, Vera. Você não sabe, mas corre riscos. Devia ir embora cuidar do meu irmão.
            - Isso passa, talvez você esteja exagerando. As coisas que você escreve são tão ternas, tão belas. Não creio que você veja a vida assim tão negra o tempo todo. E não, quando os problemas surgem, não saio correndo para comprar blusa ou sapato.
            - A gente escreve sobre o que não tem, Vera, para criar um mundo que não existe, onde possamos ser. É aquele papo do sonho. Por isso escrevo sobre a ternura, tentando apanhá-la. Era noite lá onde fui e de lá, do fundo da noite, voltei cego, o rosto ardendo, os tímpanos dilacerados. A vida é imensa... Essa coisa... A gente não pode abraçá-la com palavras, ela é líquida e se transforma, muda, escorre pelos vãos, escapa pelas frestas... Nossas mãos são mirradas... Frágeis demais. Quando buscamos agarrar o plasma assim, corremos o risco de perder a cabeça. A gente oscila, vai de um pólo a outro enquanto a Terra tenta dar uma volta sobre seu próprio eixo... Menos de vinte e quatro horas... Só que aí, Vera, o contrário da angústia não é a alegria, a plenitude. A vida se constrói no tédio e se destrói no êxtase. O gozo... A embriaguez... A morfina e a cocaína parecem nos dar a vida em carne viva, mas o caminho da plenitude é curto, depois de poucos passos, o que nos espera é o mármore, a cruz, a noite, a claustrofobia. O tédio, o vazio, pelo contrário, alimentam a vida. Quanto mais buscamos a fruta, mais damos de cara com a noite. Quando acreditamos ter a vida nas mãos, temos, na verdade, a morte: um litro de vodca, um pico de morfina, pedras, carreiras grossas de cocaína. É no tédio que entendemos de fato o movimento. O que é primeiro não é o ser, mas a fissura, o não-ser. O ser é que é a ilusão. Antes, um nada-eterno. Depois, um nada-eterno. No meio, o brilho fraco que chamamos de vida. O tédio é o apelo do que é maior, o apelo da noite em nós. Omar Khayyan sem sequer seu vinho. Construímos máscaras e com elas vamos ao baile de máscaras. Você sabe, eu tenho até um jaleco branco e um estetoscópio. Entretanto, durante a noite, quando diante do espelho retiramos as máscaras, o que encontramos não é o rosto, mas o oco, o vazio, o nada. Isto que somos é feito de morte. Isto que somos é feito de vazio, de nada. Aliás, vida e morte só se opõem na linguagem, que é feita de pares de opostos. Para além de toda palavra, há muito de morte na vida e muito de vida na morte. Para além de toda palavra, o vazio movente. Meu corpo, sentado aqui nesta poltrona, é um rio. Sou uma imagem com alguma constância. Tenho a barba sempre por fazer, mãos manchadas de nicotina, dedos longos e unhas roídas, mas, mesmo quando não tiro o pijama, tudo dentro dessa imagem se move, o plasma nunca para, a placenta escorre pra todo lado. Não é o relógio de pulso, mas a veia que mede o tempo. A noite é vasta e o dia é mínimo: só o exato instante em que amanhece.
            - Mas você se contradiz o tempo todo! Uma hora diz que quer, outra hora diz que não quer... Agora fala de vida, mas toda sua inclinação é  anti-vida, é morte!
            - Me contradigo? Tudo bem, me contradigo, sou vasto, por isso me contradigo.
            - Quem foi que disse isso?
            - Não sei, algum escritor importante.
            - Você pensa demais. Não se preocupe em entender. Viver ultrapassa todo entendimento.
            - Quem foi que disse isso?
            - Não sei, alguma escritora importante.
            Ele vai ao banheiro. Demora. Acende um cigarro lá dentro. Puxa a descarga. Sai.
            - Vem deitar aqui, Dan. Vamos aproveitar esse restinho de tempo, esse finalzinho de tarde. Chega de discussões.
            - Você me ama, não é, Vera? Pelo menos é o que diz... O que me repete a todo momento nos ouvidos.
            - Você sabe que sim. A palavra mente, mas o sexo não, o corpo diz sempre a verdade.
            - Há controvérsias. Vejamos... Quem ama confia, não é, Vera? É o que dizem. Sem confiança não há amor.
            - Há controvérsias.
            - Aqui é sim ou não.
            - Nesse caso, sim.
            - Você já brincou daquela brincadeira em que a pessoa deixa o corpo cair para a outra pessoa que está atrás segurar? É preciso ter confiança.
            - Já, brinquei quando era criança, mas faz tempo.
            - Topa brincar comigo? Agora como adulto? Topa deixar seu corpo cair relaxado em minhas mãos?
            - Topo.
            - Então deite de bruços e feche os olhos.
            Ela obedece. Passa a língua pelos lábios imaginando delícias. Ele é criativo.
            O médico vai até sua maleta que está no chão, encostada à poltrona na qual, ainda a pouco, ele mesmo estivera sentado. Apanha uma seringa e uma agulha. Encaixa uma na outra. Pega duas ampolas. Aspira o líquido de uma e insere na outra. Chacoalha um pouco. Aspira outra vez. Caminha até a cama. Senta Aplica a injeção na parte de baixo da coluna dela. Levanta. Vai até a cozinha. Pega uma taça e enche com um líquido vermelho. Volta ao quarto e entrega a bebida.
            - O que é que você está fazendo, afinal?
            - Nada demais. Tenha paciência. Aguarde e você vai ver.
            Poucos minutos depois, ela tenta dizer alguma coisa, mas sua fala são só alguns sussurros incompreensíveis. A língua enrola. Ela apaga. O médico traz a maleta para perto da cama. Pega agulha e linha e, uma por uma, começa a costurar todas as cavidades naturais da mulher. Primeiro costura as pálpebras, depois os lábio, então a vagina. Por último, dá alguns pontos no ânus. Não quer que uma única cavidade feita pela mão de Deus fique aberta. Enquanto executa seu trabalho, o frio trabalho do diabo, o médico sussurra blasfêmias, palavrões e heresias nos mais diversos idiomas, do aramaico ao francês, do português ao grego antigo, passando pelo latim clássico. Queria habitar suas próprias cavidades. Queria sua própria demiurgia, imanente, despida de espírito. E demoníaca. Pegou o bisturi e em movimentos leves, mas firmes e contínuos, abriu um orifício na barriga da moça. A tela do notebook exibia imagens pornográficas... Zoofilia... Selvageria... Pedofilia. O médico baixou as calças. Tocou o próprio membro até que ficasse completamente ereto e penetrou a cavidade que ele mesmo havia feito. Estava excitado, os cabelos molhados de suor. Suor que também escorria pelas costas, peito e barriga, onde se juntava ao sangue da moça e formava um plasma só, uma gosma. Vermelha. Nem por um segundo deixou de repetir suas blasfêmias: um mantra. Abriu nova cavidade no seio direito da mulher, penetrou-a também. A terceira incisão atingiu as nádegas da moça. Sem gozar e sem parar, Daniel foi abrindo buracos por todo o corpo e penetrando-os. Ao todo foram treze. O último atravessava o corpo da mulher do umbigo às costas. Foi aí que ele gozou, soltando um grito gutural, algo como o rugido de um leão, ou o urro de um tiranossauro.
            Assim que terminou, foi até a cozinha. Bebeu um pouco de água. Voltou. Sentou à janela. Fumou calmamente um cigarro. Então levantou, tomou distância e, ainda completamente nu, saltou pela janela que todo o tempo permanecera aberta.
            Alguns transeuntes se juntaram para ver o corpo estendido na calçada, no meio da noite. Quatro quarteirões abaixo, apenas duas das crianças continuavam a malhar o Judas de pano.

3 comentários:

Roseli Pedroso disse...

Uau!!!!!!!!! Uau!!!!!!! Arrasou Daniel! Que texto magnífico! Queria ter escrito! rsrs

Braga e Poesia disse...

ao ler parecia que eu via um filme.interessante. muito interessante

Adriana Godoy disse...

mais um conto que apaixona, que intriga, instiga, que mexe com a gente. muito bom, Daniel Lopes. beijo